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outubro de 2008

É   DE   AZUZA
UM CORPO DE CÉLULA E VERSO

Ao poeta Alberto da Cunha Melo

 

ão há necessidade de outra referência. É só chegar à cidade da Prata, situada no Cariri paraibano, região marcada por talentos de expressão e conotação de peso, como foram os casos de “Pinto”, o maior cantador de todos os tempos, nascido em Monteiro; Zé Marcolino, poeta, compositor, da cidade de Sumé, tendo deixado quinze músicas gravadas em parceria com Luís Gonzaga, além de ter feito escola na região. Ouro Velho é outra cidade onde as suas dimensões geográficas são bastante limitadas para suportar o peso de seus próprios talentos, onde alguns já se foram: Chico de Dedes, Delvita, Severino de Lídia, Cabo João, Zé Miúdo, Erasmo Rodrigues. Sem contar com incursões periódicas de uma das mais respeitadas figuras folclóricas da época, Major Sinval, da Farmácia Francesa de Caruaru, por ter laços familiares na cidade. Portanto, ao chegar à Prata qualquer cidadão informará onde se localiza o Sítio São Francisco. É lá onde reside Sua Excelência José Nunes Filho, 79 - Zé de Cazuza.
                                                   foto: acervo do blog
                                                     No pé da parede

s números não são oficiais, mas não há notícias de que exista outra pessoa com mais versos poéticos na cabeça do que Cazuza. Conhecido como: O gravador humano, apelido adquirido por justa causa, no tempo em que era privilégio de poucos possuírem um aparelho tecnológico capaz de gravar voz e som de uma só vez. O pesquisador Francisco Coutinho durante o processo de escolha de material para o seu livro VIOLAS E REPENTES, hoje clássico, publicado na década de 50, em Recife, ficou surpreso e emocionado ao contar com Zé de Cazuza, um suporte valiosíssimo para que fosse devidamente viabilizada a publicação do livro. Mas, a emoção do escritor não impediu as frustrações de testemunhas que cobraram, e ainda cobram uma justa co-autoria no livro, uma vez que uma vasta percentagem do escrito saiu da cabeça de Cazuza.

s desafios de viola, as cantorias de pé-de-parede, levadas a termo sob a luz de candeeiro em sítios, fazendolas e pequenas cidades sertanejas, eram absorvidas quase que totalmente por Zé, configurando-se no que poderíamos chamar de fenômeno ou uma particularidade extremamente atípica. Graças a ele, ainda hoje, apesar da distância das décadas, e das transformações sociais, circulam versos imortais que dignificam nomes históricos como: Antônio Marinho, Pinto do Monteiro, Manoel Serrador, Fabião das Queimadas, Zé Duda do Zumbi, e os cegos Aderaldo (imortalizado por Glauber Rocha, em termos de mídia) e Cezário de Pontes.

ários cantadores nordestinos, e os chamados apologistas, ouvintes de cantoria, mantém em si uma obsessão quase sacra em torno da poesia de Augusto dos Anjos. Isso se justifica por um problema mais de sintonia, de identificação, de cumplicidade, do que por uma visão acadêmica do fato. Adiantamos que hoje, vários cantadores são graduados e pós-graduados como é o caso do violeiro Sebastião Dias, Letras, do Rio Grande do Norte, radicado em Afogados da Ingazeira, Pajeú Pernambucano. Como foi o caso de José Luis, jovem do Rio Grande do Norte, que abandonou a cantoria para ser Advogado.  Temos aqui em Recife, outro talento jovem, o Piauiense, Edmilson Ferreira que faz curso superior e, estuda línguas, e tantos outros. Os motivos sociais, o meio ambiente, a situação historicamente adversa do povo nordestino, levam os poetas populares intuitivamente à procura de um medicamento genérico, lenitivo para as suas dores. Daí a preferência pelos versos Camoneanos, onde estudos recentes o colocam na órbita barroca, ponto de referência de um Brasil colonial trabalhado pelas mãos dos Jesuítas. Considerando que um traço mais antecedente e forte, além dos motivos, dentre os cantadores, deságua na escola parnasiana. Esses poetas cultivam uma obsessão que é justamente o culto à forma fixa dos sonetos, a métrica dos versos Alexandrinos, 12 sílabas poéticas e, decassílabos perfeitos. Essa identificação não é gratuita, embora que dentro de suas variações. Cruz e Souza, um quase solitário simbolista, Fagundes Varela e Cassimiro de Abreu, ultras românticos que gozam da estima dos poetas populares. A aridez do clima nordestino, a seca histórica, a vegetação, as condições sociais, levam o homem poeta e escritor nativos, a desmaterializar essas substâncias, para transformá-las em expressões metafóricas ou denúncias literárias, sem nenhum prejuízo para a poesia, ou para a literatura propriamente dita. Os cantadores da escola lírica do repente (Jó Patriota, Elísio Félix, Domingos Fonseca), colocavam açúcar no doce, e davam um sabor nada amargo ao jiló. Ao passo que, nada fora mais árida do que a literatura de Graciliano Ramos, no entanto, um dos maiores escritores que essa terra viu nascer. Nordestino.      

om, mas, não há quem faça uma estimativa aproximada de quantos versos, narrativas, e histórias de cantadores existem na cabeça de Zé de Cazuza. Sabe-se que ele é capaz de passar dias declamando sem parar e sem repetir um só verso. Mas, existe outro fator mais impressionante ainda. Aí é quando Zé se distingue, faz a diferença e o contra ponto. Ele cita passagens inteiras de livros épicos e de poetas que fizeram a história da humanidade, fora do seu contexto e de diferentes origens: Boudelaire, Camões, Bocage, olha quem, Mallarmé, Zé Régio, Fernando Pessoa. Talvez Zé de Cazuza venha a ser um dos raros poetas populares que declama Drummond e Manoel Bandeira, justo que, alguns poetas populares não têm lá suas sintonias com os modernistas. Já um vaso chinês...  

logiado por Câmara Cascudo quando da sua visita à residência do mestre em Natal- RN, depois de enfrentar uma fila razoável, Cazuza se desculpou:- Mestre, minhas desculpas por ter roubado o seu precioso tempo. – Que nada Zé, tempo eu perdi recebendo um Ministro da França.

esengonçado, braços longos, estatura mediana, “tipo João Teimoso”, malcriado, resposta e proposta na lata:

- Zé, gosta de Alceu Valença?

- Eu gosto é de priquito. Alceu Valença tem priquito?

vocalista Lirinha da banda Cordel do Fogo Encantado tem admiração e estima por Zé de Cazuza. Ambos se conhecem por laços poéticos e familiares. O vocalista, ao passar três dias na Prata em companhia de Zé de Cazuza e outros poetas, demonstrou sinais de cansaço ao insinuar sua volta à Arcoverde, cidade onde nasceu. Cazuza não desejava se apartar do parceiro:

- Lirinha rapaz! Vamos pro São Francisco? (fazenda do mestre).

- Não Zé, eu vou partir, não agüento mais esta roupa.

- Lirinha, a tua idade é um paletó engomado, você é um imberbe, eu é que sou um sexagenário. Se eu tivesse a tua idade, tava era ganhando dinheiro com essa rola.

pesar da idade, Zé bebe cerveja o dia todo. Às 5:00h já está de pé na fazenda São Francisco, e como não poderia ser de outra forma, implicando com o jovem “morador” (funcionário do sítio). Do oitão para o curral:

- E essa poltra aí “neguim”?

- É seu Zé, ela ta ruim.

- Ruim que nada, a ruindade é tua, a ruindade é tua neguim.

omento em que o jovem rapaz se irrita, do outro lado da estrada: - O senhor é que não faz nada, já se levanta implicando... - Te vira num priquito “neguim” pra vê se eu não faço alguma coisa.

rosa à parte, Zé de Cazuza é o único filho de Cazuza Nunes, poeta bastante respeitado, contemporâneo de Joaquim Vitorino, Josué da Cruz, Lino Pedra Azul. Ele deixou a sua marca na região e transmitiu para o filho o gen dominante do verso improvisado. Na sextilha a seguir, Cazuza, o pai, exemplifica e condensa em versos, os traços culturais, o poder de síntese a narrativa histórica e social, através do seu talento poético:

Cavalo castanho comprido
Do espinhaço pintado
Cauda fina, crina pouca
O vazio de veado
Encontrando um desse compre
E açoite que é bom de gado

azuza, o filho, segue as pegadas do pai nesse belo improviso social paisagístico:

O pobre do retirante
Viaja sem rumo certo
Quando está fatigado
Acha um juazeiro perto
Parecendo um guarda-chuva
Que Deus armou no deserto.

é de Cazuza tem vários filhos sendo Marcondes e Luis Homero artistas dirigentes da banda VATES E VIOLA de grande aceitação no Recife, onde residem. 

om um livro na praça, POETAS ENCANTADORES, lançado em Recife, Espaço Pasárgada, Tarcísio Pereira, uma raridade que custa 50 paus! E ele diz que não quer vender...

esio.rafael@uol.com.br

 

  

ÉSIO RAFAEL é poeta, professor e pesquisador da cultura popular

 

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