MEUS FILHOS SÃO PASSARINHOS
QUE VIVEM DOS MEUS GORJEIOS
EU PARA ENCHER OS SEUS PAPOS
CATO GRÃOS EM CHÃOS ALHEIOS
E SÓ BOTO UM GRÃO NO MEU
QUANDO VEJO OS DELES CHEIOS.
Louro do Pajeú
unca mais escrevi sobre Louro, mas, a saudade me impulsiona mais uma vez para celebrar a memória do mestre. Não faz menos de três décadas que escrevo sobre esses cavalheiros, “gênios da raça”: Zé Marcolino, Jó Patriota, Zé de Cazuza, Pedro Amorim, Manoel Filó, Luís Marinho, Chico de Dedês e tantos outros. Figuras essas que me levaram a ter uma visão mais aproximada do homem cultural nordestino, na sua simplicidade, na formação de caráter e como não poderia deixar de ser, nas suas relações com o meio ambiente. Daí, a tonalidade de uma cultura que se alterna na medida de suas diferenças regionais.
ourival Batista, - o Louro do Pajeú, ou ainda o - Rei dos Trocadilhos, veio de uma família de mais de cem poetas, segundo registro em livro, desde Nicandro Nunes da Costa, um dos pioneiros dos poetas populares da região do Teixeira, Cariri Paraibano. Lourival fora da maior importância na difusão do verso, e do poder da palavra improvisada, junto a Dimas e Otacílio, seus irmãos de sangue, e do repente. Dimas foi Professor de faculdade, no Ceará, diretor de colégio, formado em Filosofia. Otacílio também era graduado. Lourival não tinha formatura, mas praticava o exercício da leitura além de ser o cantador mais profícuo dos manos.

justamente sobre esse genial poeta que vamos desfiar uma conversa pra lá de animada, necessária para aqueles que não o conheceram, e para matar um pouco da saudade das pessoas que com ele conviveram, ou que tiveram a graça de participar da amizade e intimidade do mestre “Babá”, com extensão para a família como é o nosso caso. Suas histórias estão na boca do povo.
igura inesquecível no verso e na prosa, de andar “malamanhado”, contemplativo, mas de “bote armado” sempre. Os bolsos cheios de bolachas, no seu caminhar matinal palas ruas de São José, a “Velha Grécia”.
Os botões da camisa, hospedados na casa errada, ainda por cima, o bolso sujo de graxa de um possível guisado, a bengala pendurada no braço, o cigarro no canto da boca, todos de “comarcas” diferentes. Assim foram constituídos os ingredientes corpóreos de um poeta do povo.
scutá-lo era consumir o produto da lavra do povo do seu habitat. Por isso, escrevo tomado por uma saudade medonha do mestre, e de dona Helena Marinho, esposa e guardiã da cidade, por onde corre o “rio feiticeiro”.
amos celebrar o mestre? Comecemos então por uma cantoria entre ele e Jó Patriota, seu concunhado, casado com Das Neves, irmã de Helena, ambas filhas do famoso cantador Antônio Marinho. O assunto da peleja era jogo de baralho, quando Jó terminou um verso tal qual um jogador de futebol que deixa o companheiro na cara do gol. Só que nesse exato momento, o Louro faz um gol de “placa”. Mostrando toda a sua competência, velocidade de raciocínio ao trocar as palavras, mudá-las de posição para chamar a rima. Vejamos:
BARALHO TEM 4 ASES
QUATRO 2 E 4 TRÊS
QUATRO 4 E 4 OITO
QUATRO 5 E 4 SEIS
QUATRO 9 E 4 SETE
QUATRO 10 4 VALETE
QUATRO DAMAS 4 REIS
gora vem o melhor: Louro gostava de um carteado, tanto que por vezes varava as noites da São José, hora
em que - Severina Branca, prostituta, já dormia o “sono dos justos” na jogatina, até o sol dá as caras. Enquanto que, Maria Bebinha, pingunça, ainda perturbava nas altas madrugas. Teve uma noite que ele levou azar até não querer mais. O poeta só perdia, não tinha jeito. Reclamava, e perdia. Até que surgiu uma “luz no fim do túnel”. Ele puxou do centro da mesa, um jogo não muito bom, mas, a depender do que ele tirasse da mesa, poderia enfim ganhar pelo menos uma. Mas ele continuou a reclamar. Até que um “peru”, encostado do seu lado, falou assim: - Ô Louro deixa de tanta choradeira, se você tirar uma carta boa, poderá vencer a partida. – Lembre-se do ditado: TODA ROUPA VESTE UM NÚ. Sabe o que Louro respondeu?
MENOS GRAVATA E COLETE
PORQUE NÃO COBRE O CACETE
NEM A REGADA DO CÚ
gora, o Louro satírico. Ele marcou um “baião de viola” (cantoria de pé-de-parede) com um cantador por nome de Heleno, para ser realizado na cidade de - Boi Véi, hoje, Ouro Velho/PB. Acontece que no dia marcado, por questão de dificuldade de transporte, Louro chegou à cidade, depois das 22h, com o público já descrente de sua presença. Tudo bem. A peleja teve início, sendo que o companheiro de Louro, preocupado com o fato dele ter se atrasado, por conseqüência disso, não teria se alimentado, entrando logo no local do embate. Dentro do verso, Heleno perguntou se Louro estava com fome, se ele teria feito um lanche. Helena, era a mulher de Louro, só para lembrar ao caro leitor. Veja de que forma Louro respondeu:
EU SAÍ DE SÃO JOSÉ
SOFRENDO DE FAZER DÓ
DEIXEI HELENA COM “A”
ACHEI HELENO COM “O”
PRA QUEM TÁ NECESSITADO
TUDO É UMA COISA SÓ.
antando com um parceiro chamado Juvenal, Louro já não suportava mais tantos versos ruins. Até que resolveu a parada:
OS VERSOS DE JUVENAL
É COMO MILHO COZIDO
ESTANDO INSOSSO NÃO PRESTA
COM MUITO SAL É PERDIDO
MAS PRA QUEM ESTÁ COM FOME
QUANDO DÁ FÉ TEM COMIDO
uerem mais rapidez no gatilho? Um fã na calçada do outro lado da rua:
- TUDO BOM LOURIVÁ?
- TUDO REGULAU
eclamando da sua própria sorte, Louro fez esse trocadilho imortal:
É MUITO TRISTE SER POBRE
PARA MIM UM MAL PERENE
TROCANDO O “P” PELO “N”
É MUITO ALEGRE SER NOBRE
SENDO COM “C” FICA COBRE
COBRE FIGURADO É OURO
BOTANDO UM ”T” FICA TOURO
COMO A CARNE VENDO A PELE
O “T” SEM O TRAÇO É “L”
TERMINO SÓ SENDO LOURO
assunto da cantoria era “fome”. Louro enfrentava um contemporâneo. Daí, surgiu esta soma:
Louro: JÁ QUE ESTÁS FALANDO EM FOME
EU EM 15 FUI NASCIDO
O parceiro: NO ANO DE 16
FUI TAMBÉM APARECIDO
Louro: MAS 15 COM 16
JUNTANDO OS DOIS DESTA VEZ
O 31 TÁ BATIDO.
aimundo Asfora, poeta e político paraibano, não era tão somente um apreciador da cantoria, mas um grande motista, amigo dos violeiros. Certa vez, ao se deparar com Louro em um “Café” em Campina Grande, deu-lhe um mote, que supostamente seria difícil, caso não tivesse sido dado para um poeta chamado, Lourival:
Mote: NÃO TIVE AMORES SONHEI-OS
MAS POSSUÍ-LOS NÃO PUDE.
resposta de Lourival foi tão inteligente que ele não falou em amor, e sim, em paixão:
SENTI DAS PAIXÕES ABALOS
E DESESPEROS MEDONHOS
SONHOS, SONHOS E MAIS SONHOS
SEM PODER REALIZÁ-LOS
NA FRONTE SENTI OS HALOS
DAS AURAS DA JUVENTUDE
MAS NUNCA TIVE A VIRTUDE
DE DORMIR ENTRE DOIS SEIOS
“NÃO TIVE AMORES SONHEI-OS
MAS POSSUÍ-LOS NÃO PUDE”
onta-se que dona Helena ao saber do improviso do marido, teria dito: - Ô homem mentiroso. Para darmos uma pausa nos versos memoráveis deste poeta, nada melhor do que citarmos uma glosa que hoje é um clássico em torno do verso de improviso. Foi um mote dado também por Raimundo Asfora. Aliás, um meio mote, porém sem sentido aparente. A grande artista plástica, Tereza Costa Rego, fez uma litografia ilustrando o texto:
Mote: A PARTE QUE ILUMINOU
ENTRE O GOSTO E O DESGOSTO
O QUADRO É BEM DIFERENTE
SER MOÇO É SER SOL NASCENTE
SER VELHO É SER UM SOL POSTO
PELAS RUGAS DO MEU ROSTO
O QUE FUI HOJE NÃO SOU
ONTEM ESTIVE HOJE NÃO ESTOU
QUE O SOL AO NASCER FULGURA
MAS AO SE POR DEIXA ESCURA
“A PARTE QUE ILUMINOU”
om, agora vamos às histórias. O casal Zeto e Bia Marinho, filha de Lourival, se conheceram em uma viagem de ônibus daqui pra São Paulo. Não era ônibus de linha, e sim de excursão. Os dois artistas terminaram por se juntar. Foram residir em São José, consequentemente a terra de Bia. Zeto, um artista de roupas extravagantes, cabelo “rabo de cavalo”, violão nas costas. Até que um belo dia, Louro caminhava lentamente com a sua famosa bengala, quando um conhecido seu, o chamou para um recanto afastado, digamos assim, um canto de parede. Colocou a sua boca quase dentro do ouvido do poeta e cochichou: - Louro, Deus me defenda, Ave Maria! Mas, o boato que corre por aqui, é que esse seu genro, marido de Bia, fuma uma maconha que vê até ouro.
amos ver a resposta do mestre? – É, todo homem tem um defeito, o seu mesmo, é o de ser fuxiqueiro.
rgulhosamente eu me senti o próprio quando fui ser o guia de Louro em uma das suas investidas no Recife. Levei-o para o Pátio de São Pedro, local onde ele conhecera mais do que eu. Sim, mas eu estava tomando conta dele nesse dia. Na boca da noite. Na mesa, alguns poetas, dentre eles, Edgar Power, poeta de primeira qualidade, mais idoso do que Louro, na época. Louro resolveu ir até o banheiro do bar “Bangüê”, pertencente ao Vavá, que também e infelizmente já “foi”. O mestre demorou a voltar, de modo que me inspirou cuidado. No momento em que eu já ia me dirigindo para ver onde ele estaria. De repente ele reaparece na saída do bar. – Louro, eu já estava preocupado com a sua ausência. Ele inflou as bochechas, subiu as sobrancelhas, olhou irônico, e respondeu: - Eu fui no banheiro, me atrapalhei um pouco para entrar no lugar certo, até que vi dois nomes: Sinhá e Sinhô. – Foi quando eu resolvi ir “no Sinhô”. - “Aí dento” Louro, respondi morrendo de rir...

Jó, Ésio e Louro
qualquer hora, aqui mesmo poderemos voltar com outros poetas.
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