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julho de 2008

  antoria istórica:

              ROMANO NÃO ERA BRANCO 
              E NEM INÁCIO ERA NEGRO

s fatos históricos que derivam para o domínio público se dissipam, condensam-se, viram lendas e se distorcem. Sejam eles remotos ou atuais, tudo a depender da capacidade, credibilidade e poder de comunicação de seus interlocutores. No caso da comunicação oral, tomando os violeiros do Nordeste como referência, é praticamente impossível publicar-se a obra completa de um cantador, posto que, superaria qualquer Dicionário da Língua Portuguesa, dado ao volume de palavras ejetadas de suas bocas, igualmente a uma cachoeira de versos.

utra realidade complicada que vem se arrastando desde finais do Século XIX se encerra no que diz respeito à originalidade dos versos captados tanto pelos ouvintes de cantoria, quanto pelos aparatos científicos, como gravador e vídeo. É que apesar da fidelidade do aparelho na hora do repasse, ou seja, quando uma pessoa passa para a outra, fica igual aquela brincadeira do cochicho no ouvido.

odavia, o melhor está por vir. Poderíamos chamar de fenômeno, um detalhe muito importante para a história da poética-musical nordestina. Apesar da alteração do verso original, nunca se ferem os princípios básicos da expressão poética e nem a qualidade imagética criada pelo poeta-repentista. Quando um ouvinte de cantoria esquece uma estrofe ou linha, como é chamada entre os cantadores, ele automaticamente cria outra, mas, sem fugir da métrica, rima ou expressão do autor. E o que mais impressiona é que, ao alterar o verso, as características estritamente pessoais do repentista são conservadas em sua essência, seja ele da escola romântica, lírica ou surreal do repente. Claro que isso tem um preço. É um exercício de longas datas e de total conhecimento não só do autor, mas dos caminhos da cantoria de viola.

grande e histórica peleja entre Inácio da Catingueira e Romano da Mãe d'Água, ocorrida em 1870, Patos/PB, foi amplamente divulgada não só por especialistas no assunto, mas por intelectuais das estirpes de Orígenes Lessa - FUNDAÇÃO CASA DE RUI BARBOSA - Rio de Janeiro/1982; Padre Otaviano, escritor, pesquisador, pertencente à ACADEMIA PARAIBANA DE LETRAS, reputado como o mais fiel pesquisador da famosa dupla de repentistas e da contenda. Essa cantoria ainda não se encerrou, como ainda não se encerraram as especulações sobre a origem genética da dupla, como veremos mais adiante. O mesmo acontece com relação ao desaparecimento de pessoas famosas. Por exemplo: as mortes dos presidentes Juscelino e Castello Branco, bem como a morte de PC Farias, ainda hoje são questionadas. Quem colocou areia de "dique" no motor do Avião em que viajava Marcos Freire? Hemingway atirou na tábua do queixo ou alguém apertou o gatilho? Jimmy Hendrix se consumiu via droga ou foi "consumido" pela máfia? São especulações que provavelmente não teremos respostas exatas, mesmo com todo o aparato dos apetrechos modernos.

 propalada peleja teria acontecido em um mercado na cidade de Patos/PB, com a duração de oito dias, segundo informações tidas como fiéis, de personalidades como Leonardo Mota, o Leota, e Francisco Coutinho. Mas, há quem diga que a cantoria realmente teria acontecido na casa de um coronel, com a duração de apenas um dia. De fato havia na época, uma preocupação dos estudiosos no sentido de preservar a cantoria para que no futuro as coisas não se distorcessem. Daí, a necessidade de uma pesquisa de campo. Foi o que fizeram. Os pesquisadores exerceram longas viagens à cata de informações dignas de confiança. Nada melhor do que ouvir nomes como Ugulino Nunes da Costa, José Porfírio, Silvino Pirauá Lima (autor da sextilha), Manoel Carneiro e Germano da Lagoa, celebrado em uma música de Alceu Valença. Esse grupo de poetas populares, amigos e discípulos da dupla, são os responsáveis definitivamente pela imortalização de ambos, até então maiores nomes do repente nordestino. Os pesquisados nasceram e viveram em localidades próximas das origens de Inácio e de Romano.

stava pronto o material que seria refinado pelas mãos do Padre Manoel Otaviano. Rodrigues de Carvalho, autor do livro Cancioneiro do Norte, Fortaleza, 1903, chegou a se chocar com a notícia repassada por um amigo seu, onde o mesmo garantia que essa peleja jamais existira de fato. Rodrigues não levou muito a sério a notícia e foi colher mais informações através do Paraibano Romeu Mariz, um nome até então abalizado na região. Leonardo Mota, poeta escritor, funcionário público, nascido em Pedra Branca, Ceará, maio de 1891, morreu em 1948 deixando uma obra considerável, sendo Violeiros do Norte, 1926, a mais famosa, publicada pela Editora Monteiro Lobato, São Paulo. Francisco Coutinho, autor do hoje clássico: Violas e Repentes, Recife, 1953. Tanto Leonardo quanto Coutinho, escreveram sobre a cantoria levada a termo acompanhada de pandeiro, como assim eram realizados os desafios.

vai-e-vem de informações fez com que outros elementos fossem incorporados na história contada pelos admiradores de Romano e por aqueles que engrossavam o cordão de fãs de Inácio. Silvino Pirauá deixou cópia de "Cantadores e Poetas Populares", calhada nas mãos de Chagas Batista que cuidou de transcrever e publicar em 1929. Pirauá, discípulo de Romano chamou a responsabilidade para si, atribuindo a Romano do Teixeira a vitória da peleja. O escritor teria propositadamente escolhido aqueles versos que dariam a vitória ao poeta da "Mãe d´Água":

- Meu Deus que tem esse negro
Que no canto se maltrata
Agora Romano velho
Canta um ano e não se mata
Quanto mais canta mais sabe
E nó que dá ninguém desata

rancisco Coutinho fora mais criterioso em torno do assunto, ao realizar pesquisa entre os anos de 1941 a 1943, e, para que a importante peleja não tomasse rumo diferente, confrontou todas as versões captadas por ele, nos locais onde os poetas viveram, deixando o leitor à vontade para que eles pudessem tirar as suas próprias conclusões.

 

ROMANO ERA BRANCO MESMO?

udo é possível no planeta azul. Mais difícil era o mapeamento do genoma. Elefante ser parente do sapo, quem diria? Romano, que durante a cantoria evocou tanto a origem negra de Inácio, chamando-o de "negro cativo". Mas, ele não tinha lá sua pele tão branca, seu cabelo era "ruim", Inácio sabia de tudo, mas, guardou a "carta na manga da camisa", para o momento exato do bote. O momento veio à tona depois que Romano tentou decidir a parada:

- Negro cante com mais jeito
Vê a tua qualidade
Eu sou branco tu és vulto
Perante a sociedade
Eu vir cantar contigo
Baixo de dignidade

ra tudo que Inácio espreitava:

- Esta sua frase agora
Me deixou admirado
Para o Senhô ser branco
Seu couro é muito queimado
Sua cor imita a minha
Seu cabelo é abastado

om os brios avariados, porém imponente, Romano ameaçou abandonar a peleja:

- Com negro não canto mais
Perante a sociedade
Estou dando cabimento
E ele está com liberdade
Por isso vou me calar
Mesmo por minha vontade

aquele momento Inácio recarrega "soca-soca", troca de espoleta, e... detona:

- O Senhô me chama de negro
Pensando que me acabrunha
O Senhô de homem branco
Só tem os dentes e as unhas
Sua pele é muito queimada
E seu cabelo é testemunha

omano não podia mais correr. Os ouvintes, às gargalhadas, não o deixavam. Romano pega pesado, todavia, batendo na mesma tecla:

- Inácio eu estou ciente
Que tu és um negro ativo
Mas não estou satisfeito
Devo te ser positivo
Me abate em cantar
Com um negro que é cativo

 pá de Terra transbordou. Era só fechar a cova, assim Inácio o fez:

- Na verdade seu Romano
Eu sou negro confiado
Eu negro e o Senhô branco
Da cor de café torrado
Seu Avô veio ao Brasil
Para ser negociado

  história pende para o lado de Inácio como vencedor do desafio ao som dos pandeiros. Deve-se ressaltar que Romano Caluête gozava do maior prestígio e estima de todos, e não fora gratuito o posto que lhe deram de Mestre dos Violeiros. Romano não foi rico como se insinuou. Ele possuía um pedacinho de terra, assim mesmo, deixada por herança. Aliás, Romano era senhor de um só escravo, e o seu avô era negro. Tinha um bom conhecimento de história e geografia, além de falar um razoável português.

 

INÁCIO ERA NEGRO MESMO?

rancisco Coutinho deu uma vasculhada na vida dos dois poetas. Como Funcionário do Ministério da Fazenda, ele percorreu todo o Estado da Paraíba. Visitou o Saco da Mãe d’Água, município Paraibano do Teixeira onde nasceu Romano da Mãe d’Água, Romano do Teixeira ou ainda Romano Caluête, em 1840. O poeta chegou a falecer em 1891, diagnosticado como morte súbita (de repente).

a pauta, outra visita a propriedade Marrecas, onde nascera Inácio da Catingueira, situada no município paraibano de Piancó. Francisco procurou entrar na intimidade dos habitantes de Marrecas, especulando a vida de Inácio. Descobriu que o escravo de Manoel Luís morrera de pneumonia em 1881, aos 36 anos de idade, em conseqüência de trabalho duro no campo (queimando broca). Catingueira se localiza entre as cidades de Patos e Piancó.

 

PATERNIDADE E COR

iz-se que Inácio tinha mais quatro irmãos e era filho de uma negra africana chamada pelo nome de Catarina. Nada mais natural, caso não fosse outras informações dando conta de que um branco da localidade teria tido um caso com Catarina que apesar das fofocas só rolarem em terreiros da Casa Grande, ela levou o "segredo" à sepultura. Vejamos o que disse o Padre Otaviano: "O nosso repentista não era negro propriamente, e sim mestiço de cor escura, mas de pele fina, cabelos corridos, conservando um cavanhaque preto como o cabelo e um bigodinho acamado".

lém destas características, Inácio chamava a atenção pela sua desenvoltura. Simpático e sedutor, estatura regular, delgados olhos pretos. João do Curtume, contemporâneo de Inácio, de cor negra, deu o seu depoimento: "O negro era uma tentação de faceiro".

 

HISTÓRIAS MAL CONTADAS

livro "Cancioneiros do Norte", de autoria de Rodrigues de Carvalho, no capítulo onde ele desfia a peleja entre Romano e Inácio, foi veementemente contestado por Chagas Batista, onde o mesmo alega que a autoria do texto pertence a Ugulino Nunes da Costa, sendo desta forma, uma fraude do autor. E, para temperar e confundir mais ainda a polêmica, o não menos famoso e respeitado cordelista Leandro Gomes de Barros teria usado do mesmo expediente ao publicar outra versão falsa em 1910. A versão, segundo Chagas, pertence ao violeiro Sebastião Cândido dos Santos, mais conhecido como Azulão.

 história se repete". Já no Século XX, existe um folheto de autoria do cantador Severino Milanês, Vitória de Santo Antão/PE, narrando a história de toda a cantoria acontecida entre ele e Pinto do Monteiro. Esse desafio termina empatado. Pois bem, todos os pesquisadores, estudiosos, ouvintes de cantoria, além de livros, afirmam categoricamente, e por unanimidade, que Pinto foi e continua sendo o maior poeta-repentista do Brasil de todos os tempos. O detalhe fica por conta de que essa cantoria jamais existiu. Fora tudo criado por Milanês.

esio.rafael@uol.com.br
 

 

  

ÉSIO RAFAEL é poeta, professor e pesquisador da cultura polular

 

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