Folhas Soltas, não é necessariamente uma homenagem à literatura de cordel, termo utilizado em Portugal do século XVII, para identificar essa forma de comunicação popular em manuscrito. Na verdade procurávamos um título para a matéria a seguir, sobre duas personalidades do mundo artístico de Pernambuco: Lirinha e Chico Science.
Dois artistas que representam duas culturas dentro do nosso Estado, Lirinha de origem sertaneja, Arcoverde, sertão do Ipanema, e Science, do Recife. Mas, como “todo açude é irmão do outro”, estamos abrindo essa página com esse título, para homenagear a diversidade cultural de Pernambuco que se funde na hora precisa. Folhas Soltas, portanto, são “lâminas” que cortam o vento e praticam o bailado.
junho de 2008
presença de Pernambuco no composto que forma a personalidade, cultural, heterogênea, da Nação brasileira se mantém. Desde quando o nosso Estado fora considerado referência nacional, junto à cidade de São Paulo, ambos trocavam figurinhas, sob a proteção de suas Faculdades de Direito. O Largo de São Francisco na Capital dos Bandeirantes foi palco de manifestações de intelectuais que tinham, por Recife, um respeito diferenciado, justo que nossa cidade também tinha os seus intelectuais, que fizeram a história da nossa Faculdade de Direito.
uitos anos se passaram de lá pra cá, de modo que Pernambuco continua em destaque em vários campos da atividade humana, desde Madame Satã até Lula na Presidência da República. Isso já foi dito, e é preciso que se diga mais, mais ainda por aqueles que se especializaram no assunto. Sobressaem-se os que imprimem suas marcas tanto nas Academias como na “tora”, mas que passam para as subseqüentes gerações.
í é onde mora o perigo. Principalmente aquelas personalidades que se incrustam no poder, se bem que por méritos, ou são levadas a se incrustarem, mesmo depois de suas aposentadorias. Mas que exercem como prêmio cargos políticos de gratidão, sobrepujando a capacidade de alguém que poderia contribuir com a sociedade, com novas idéias. Essas personalidades se apegam ao poder. Daí, a imposição de regras. Nomeiam discípulos, dificultando mais ainda a possibilidade de mudanças. “É difícil furar o cerco”, conforme declarou o poeta João Cabral, embora que dentro de um contexto poético. Todavia, vale como exemplo, em uma de suas visitas ao Recife, ao ser entrevistado pela revista PIRATA, editada através da chamada “Geração 65” de Poetas Pernambucanos.
ois é, “a história se repete” virgula. Tão somente enquanto prevalecer a ausência de uma nova ordem “arbitrária”. Aquelas coisas que acontecem fora de princípios de conceitos, e até de lei. “Desanoitece e amanhã tudo mudou”. Pernambuco, apesar de nossa herança carrancuda, tem um sério caso de amor à rebeldia. Graças a isso, se sobrepõe aos conceitos determinantes, principalmente, quando o assunto oscila entre a música e a poesia. Algo subjetivo, mas com potencial suficiente para mudar o mundo. Basta que para isso, surja um movimento que celebre e promova o povo, a massa,
que traga em seu bojo o manjar oportuno, necessário para revigorar a vontade de viver, de tocar a vida pra frente. Somente os artistas e os poetas dispõem dessa conduta capaz de mover e dar sentido as coisas para melhor. Vejamos um exemplo caseiro: o que aconteceu com o surgimento da NAÇÃO ZUMBI. Com o aporte de o à parte (desculpe o trocadilho) de Sua Excelência: Chico Science.
jovem foi chamado à responsabilidade, a olhar-se pra si próprio. Contudo, sem submetê-lo a cobranças, argüições, a conceitos fechados, autofágicos. Sem necessariamente ter de cortar a própria carne. Apenas e, simplesmente, despertando-o para as manifestações do seu habitat, de suas raízes culturais. Para dar um reajuste nas suas antenas. “As Antenas da Raça”. Respeitando-lhe a inquietação, a linguagem natural de quem transita físico e psicologicamente pela vida. Eles, os jovens, transitam e nós, mais velhos, já somos transitórios.
s ingredientes iniciais da Nação Zumbi levara a termo a cultura urbana, “Da Lama ao Caos”, típica do habitante metropolitano, da cultura do caranguejo, além da reverência, ao mestre Sociólogo, cientista, escritor Pernambucano: Josué de Castro.
aí... a morte antecipada? Que fatalidade! O nosso Chico, sim, o Pernambucano. Dançou, dançou. “Marcou, marcou”. O poeta perdeu o jogo. Sabe o filme de Bergman, “O Sétimo Selo”, do jogo de xadrez com a morte? Missão cumprida. Nome na história marca registrada, continuação da rebeldia, do nada imposto. “E agora José? Zé Mané”, Cadê Roger, cadê Roger, cadê Roger?
racias a la Vida. Eis que surge surpreendentemente, em passos de mágica, mais uma vez, sem a benção da “corte”. Aquilo que não havia de ser esperado tão de repente: CORDEL DO FOGO ENCANTADO. Era a peça que faltava para o fenômeno da confluência dos rios: pajeú e moxotó. Em suas águas, e na proa, os comandantes da banda, conduzindo em suas bagagens os ingredientes da poética musical sertaneja, do verso de improviso, do poder da palavra, do “estamos aqui”, da cultura dos Índios Xucurus, do coco batido, pisado do sertão. Da desmistificação daquele sertão exótico que não mais existe, onde o sertanejo trocou o seu cavalo pela moto; a foice, pelo fuzil AR-15; a cultura de sub existência pela plantação da maconha, ou do roçado pela periferia urbana. Daí, o encontro apoteótico com os irmãos: Capibaribe e Beberibe, para uma farra no mar, Afrociberdelia.

ordeldo Fogo Encantado”, onde o nomejá insinua a magia etérea do fogo. O grupo poético musical, que teve origem em Arcoverde, cidade interiorana, região do Ipanema, sertão pernambucano. È hoje, o mais cortejado do País, em termos de público, e fora de mídia. Apoiado pelo seu
vocalista, poeta, Sua Excelência: LIRINHA. Um cidadão frágil, quase etéreo, de estatura mediana. José Paes de Lira Filho, seu nome de batismo, vem de uma família ligada à poesia sertaneja, ao verso de gado e de improviso, dos cantadores de viola. Desde os 12 anos de idade que Lirinha declama versos em Congressos de Cantadores, metrifica e improvisa. Sua força magnética e carismática inebria qualquer platéia. O grupo já vasculhou praticamente todo o Brasil, recebeu vários prêmios de peso, além de duas incursões pelo exterior. Não é só isso. A banda impõe respeito por onde passa. Participou do filme Deus é Brasileiro, de Cacá Diegues, tem a admiração de nomes como Naná Vasconcelos, Lenine, dois ilustres artistas pernambucanos, e do mundo. Hoje, o vocalista assina a direção musical de um texto de teatro de José Celso Martinez, um diretor da maior importância, tanto no Brasil quanto no exterior.
costumados a incendiar platéias, esses garotos do Ipanema gozam da simpatia de diferentes gerações: dos filhos que adoram uma “tempestade” Shakespeareana, dos pais que navegam na poesia contemplativa do poeta popular (?) “Cancão”, de São José do Egito, Pajeú pernambucano e, dos intelectuais que fazem beicinhos com a banda, mas comungam com a poesia de João Cabral, saída da boca desse “Maluco Beleza”. Todos os participantes da banda são “feras”, a percussão é primorosa, diferente de tudo, e ao mesmo tempo parecida com todos, além de fiel às origens. As letras das canções, do primeiro e do segundo cds, são poéticas quando preciso, e de protestos quando necessárias, mas sem que seja abalado o nível de consciência acima da média desses bravos sertanejos. É uma situação atípica, vê-se um grupo de jovens artistas, sabedores da medida exata de seus afazeres e compromisso com a história. No momento em que, melancolicamente, nos deparamos com jovens de classe média com a tampa da mala de seus carros levantadas a escutar uma música imbecil, agressiva, em alto som, desafiando a tranqüilidade e o lazer do incauto cidadão que não pediu para ouvir. Além de não poder falar, porque assim sendo, está ameaçada a sua escassa liberdade.
onfesso que não conheço nenhuma banda musical jovem no Brasil que desenvolva um tipo de trabalho dessa natureza, levando a platéia a declamar poesia, num País de pouca leitura. O Rio Grande do Sul é um Estado conhecido como preconceituoso, por parte de uma parcela da população, que prega a segregação política do Estado, contra principalmente os nordestinos. Pois bem, lá existe fã clube do “Cordel”, sendo que o detalhe fica por conta de quando o grupo vai por lá se apresentar, Lirinha declama o poema: Ai Se Sesse, de autoria do poeta popular, Paraibano, Zé da Luz. A platéia declama com ele, em uníssono.

erdeiros do fim do mundo, queimaaaai vossa históooooria, tão mal contaaada”.
esio.rafael@uol.com.br