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novembro de 2009

UAS  CHAVES  NUM  SÓ  MOTE

               

egundo “Aurélio”, mote é palavra. Art. Poética. Conceito ordinariamente expresso num dístico, ou numa quadra para ser glosado. Na linguagem da poesia popular, mote é um tema, um assunto metrificado, que tanto pode ser utilizado por uma dupla de violeiros, como individualmente por um glosador, sem o uso da viola. Eles constroem seus versos em cima do mote vindo da platéia, e mais especificamente do ouvinte de cantoria que o envia para os poetas, obedecendo às regras relacionadas à métrica e o contexto poético. Os ouvintes de cantoria não são necessariamente poetas no fabrico do verso, todavia são poetas de coração. Existem motes que já chegam às mãos dos cantadores como fonte inspiradora, um verdadeiro poema: FIZ DA VIDA UM ETERNO CARNAVAL / TERMINEI PIERRÔ DA SOLIDÃO.

m 1984, foi realizado em Arcoverde-PE, o Primeiro Festival de Viola daquela cidade. A realização coube à Faculdade de Formação de Professores, que tinha como diretor, o Professor José Rabelo, apoiado por Manoel Filó, e Raimundo Patriota, filho de Lourival Batista, à época, Promotor de Justiça do Município. A competição aconteceu no Auditório da Faculdade, no horário da noite, como de costume.

o decorrer do Festival, os promoventes organizaram uma roda de glosa, no clube Democrático localizado no centro da cidade. Dentre outros, Lourival Batista, que estava completando 70 primaveras; Diniz Vitorino, o – Augusto dos Anjos da viola; Jó Patriota, José Rabelo, João Paraibano, Sebastião Dias, Daudete Bandeira, Pedro Amorim. Uma verdadeira constelação, reunida em uma só mesa. Além dos participantes, um convidado muito especial: Patativa do Assaré.

s motes iam rodando, e a emoção mais ainda, quando de repente, Diniz Vitorino disse: - O mote é esse: COVEIRO SEM ESPERANÇA / NÃO SEPULTE O MEU PASSADO. Aí, “o cancão piou”. Na mesa, lado a lado, ombro a ombro, o Louro do Pajeú e Patativa do Assaré. Chegou a vez do “Patativa”. Ninguém havia visto até então, duas chaves, no mesmo mote. Vejamos a primeira, do Patativa:

EU VIVO NO CATIVEIRO
PERDI A MINHA QUERIDA
O AMOR DA MINHA VIDA
O MEU AMOR VERDADEIRO
Ó MEU AMIGO COVEIRO
ÉS TÃO FORTE E DESGRAÇADO
ESSE CAIXÃO ENFEITADO
FOI MEU SONHO MINHA BONANÇA
 “COVEIRO SEM ESPERANÇA
NÃO SEPULTE O MEU PASSADO”

ora ou não, a chave? Mas, em respeito a Louro, Capitão do time, ninguém teve coragem de “emborcar a viola”. Deixaram o verso mais pra diante, até porque o “velho”, era o aniversariante da turma. Vejam o que esse homem improvisou logo no início do verso:

VELHO COVEIRO OBSCURO
DA MORTE ÉS UM BENEMÉRITO
SETENTA ANOS DE PRETÉRITO
E QUASE NADA DE FUTURO
EU VIVO PAGANDO JURO
E UM TANTO IMPRESSIONADO
HOJE ABATIDO E CANSADO...

esse momento, o genial poeta, esquece o mote, e com aquela voz inconfundível, perguntou: como é o mote? Todos da mesa responderam em uníssono, como quem havia saído de um ensaio geral de teatro: Coveiro sem esperança / Não sepulte o meu passado. Aí, Louro fechou:

DEIXE O VELHO SER CRIANÇA
COVEIRO SEM ESPERANÇA
NÃO SEPULTE O MEU PASSADO.

om, Patativa deu “meia chave”, deu a chave, ou aconteceu um fato atípico na roda de glosa, duas chaves? O leitor tem o direito de desempatar essa história. Respondam...

esio.rafael@uol.com.br

Confira também este mote na seção corda virtual

 

  

ÉSIO RAFAEL é poeta, professor e pesquisador da cultura popular

 

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