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agosto de 2008

RROCHA  EGRADA...

ó para justificar o título, é que a festa para a garotada era grande quando chegava um circo, principalmente, pobre as vezes a céu aberto, numa cidade do interior. O palhaço, “perna de pau”, saía pelas vias da cidade, acompanhado por uma “reca” de meninos, para divulgar o espetáculo noturno. Era o “Clube do Bolinha”, não havia meninas. Saía aquele “vara pau” na frente, com megafone na mão anunciando as atrações da noite, onde a maior delas era, depois do palhaço, a “rumbeira”, para chamar a atenção das famílias. A gurizada, cada um mais esperto que o outro, todos com os braços “carimbados”, que se constituía em passa-porte para a entrada no circo, era a recompensa de um trabalho lúdico. – Ô raia o sol suspende a lua”, dizia o palhaço. – “Olhe o palhaço no meio da rua”. Respondia a meninada. E aí, o melhor: “Arrocha negrada”, dizia o palhaço. – Uuuuuuuuuuu! Gritavam em uníssono todos os participantes improvisados e coadjuvantes do espetáculo ambulante. Descalço, de calção e camisa, ou nu da cintura pra cima, a meninada ia compondo sonhos inesquecíveis para o futuro. À noite, já no circo, outra festa. Os meninos devidamente marcados na cana do braço, orgulhosamente, exibiam para o porteiro que os deixavam entrar sem problemas. Aqueles que não tinham “carimbos”, atravessavam o arame farpado, levantavam a lona e entravam no interior do circo por baixo do poleiro. E olhe que ainda sobrava o “lance” das mulheres que por economia, ou falta de dinheiro, sentadas em uma tábua desconfortável, mostravam as coxas desprotegidas, e a calçinha de pano com muitos botões. Portanto, o título é em homenagem a todas as crianças que passaram por momentos sem o mínimo retorno. Até agora ainda não foi possível saber, e nem atribuir, a quem compete a responsabilidade de estudar a fundo as travessuras safadas dos meninos. Daqueles que foram criados brincando de garrafão, castanha de encosto, peia quente, barra bandeira, biriana, um caça todos. Êpa! Cuidáááaaado! Academia, opa! Academia era com as meninas. A iniciação sexual de sua majestade, o menino, varia com a cultura, classe social da região, embora que outras coisas são comuns a todos. O filho do rico se virava com as empregadas domésticas. O filho do pobre quebrava o “cabresto” com animais, justo que os animais são alvos e presas fáceis para a gurizada. No geral as primas também exerciam essa função para ficar tudo em casa.

alinha por exemplo, já está incluída no folclore como “quente”, e só recebia os clientes bem novinhos se não morreria. No outro dia, haja a mãe, a desconfiar que o bicho teria mordido a “penosa” que amanhecera morta, ou no mínimo, uma violenta crise de gogo havia tirado a sua vida. Mas, musa mesmo de verdade, o símbolo da molecada e de nível nacional é a jega. A sua passividade, simplicidade, mansidão e... não estou nem aí, arrancava a preferência dos “Meninos do Brasil”.

m Sertânia, Moxotó pernambucano, havia uma jumentinha, por nome de Karolina, pertencente a seu Dão, um cidadão pacato de baixa estatura que residia no terreno do campo de futebol: América Esporte Clube. Aliás, clube de elite da cidade, lá pelos idos de 50. Pois bem, Karolina, amarrada debaixo da cerca de avelós (planta originária da África, cultivada no Nordeste), contemplava a garotada, e aninhava corações. A “molecada” discutia o assunto, perguntava quem teria comido “Karolina”. À noite, fazia-se fila para o cortejo da “musa sertaneja”.

  história se complica aparentemente ao evocarmos um fato verídico, no dizer de, Ercinho, meu sobrinho e recente, apesar de hoje os tempos serem outros, com toda parafernália da mídia, INTERNET, sexo virtual. Mas, em Arcoverde, Sertão do Ipanema e aí, nem Freud nem Piagte, nem Roberto Freire, digo, o Psicanalista, seriam capazes de explicar tal fenômeno. Ao dar uma volta no quintal de casa, um longo terreno, em torno das 18:00h, bem na hora do “Ângelus”, o pai se deparou com o filho acariciando a jumentinha da casa. Sabe o filme ‘Tudo Que Você Queria Saber Sobre Sexo’, de Woody Allen, onde um Psiquiatra se apaixona por uma ovelhinha? Semelhante caso. O pai deu o “flagra”no filho, e foi aquele bafafá. Depois de mil discursos a mãe, espalhafatosa, “queimando num só pistão”, deu o ultimato: “Fuláááaaano”, para o esposo, “amanhã, bem cedinho, você vai vender essa porra dessa jega”. “Esse infeliz (de dedo em riste para o filho), em vez de arranjar uma mulher, vê a nora que ele me arruma”. “Você (pro marido) vai me dá fim a essa amaldiçoada por qualquer preço, custe o que custar”.

ito e feito. O pai, com a consciência de quem já fora menino do sertão, laçou a jumentinha e, pacientemente, foi à procura de negócio na feira. “Quer vender por quê? Perguntou um possível comprador.“Essa jega tá dando muito trabalho, a mulher é quem luta com ela, vai procurar comida, juntar cambão de milho. Tudo isso, porque o meu menino não ajuda, não chega nem perto dessa jega (já o defende, contra qualquer tipo de especulação). A mulher sofre como o Diabo”. Enfim, o pai conseguiu passar a jumentinha pra frente por um preço simbólico e de uma vez para sempre. Voltou pra casa ofegante. “Pronto, se for por isso, tá resolvido o problema e eu não quero mais ladainha aqui dentro dessa casa”. Tudo parecia nos conformes quando um fato estranho começou a surgir. O menino ficou triste, bateu-lhe um fastio, começou a emagrecer, não queria mais estudar, não prestava mais atenção às conversas nem à novela das oito. Fitava o vazio. O pai baixou a cabeça e disse pro seus botões: “Vai começar tudo de novo”. A mãe quebrou a resistência, pisou maneiro: “Meu filho, o que é que está acontecendo com você? Vá almoçar, você está amarelo”. Nada por resposta. Um mês de “roedeira”.

nfelizmente, só existe uma saída viável, pensou a mãe com seus botões. “Fuláááano, pro marido, vá procurar saber que fim levou essa jega, por Nossa Senhora, se não o menino morre”. O pai percorreu a feira toda, até reencontrar a jumentinha na feira de troca-troca. A mesma já havia sido negociada por vários malandros, envolvendo gravador recondicionado, celular “tijolo”, passa disco, jante de bicicleta, o “azulzinho” do Paraguai e eté, pomada “Japonesa”. O pai comprou-a novamente, deu-lhe um refrescante banho, colocou-lhe um cabresto novo danado. Voltou para casa e falou para a mulher. “Pronto, daqui pra frente, não moverei mais uma palha pra essa triste. Você é quem vai quebrar o milho seco, debulhar e carregar o cambão nas costas!”.

 

esio.rafael@uol.com.br
 

 

  

ÉSIO RAFAEL é poeta, professor e pesquisador da cultura polular

 

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