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Flor Pedrosa
(1951 Bodocó/Pernambuco)

 

 


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Conto

No meu conto,
Não havia fadas
Não havia príncipes
Não havia sapatinhos
Não havia charrete

No meu conto,
Havia sonhos
Havia amor
Havia saudades

Sem fadas ,
Não vi o príncipe
Não fui ao baile
Não fui princesa
Não perdi o sapatinho
Fui apenas gata borralheira.

 

CANTO VII

A dor é Erva-daninha
Que chegou sem avisar
E fica morando
Debaixo dos meus lençóis

A dor chora e rir
Da minha situação
Que fico daqui e ali
Dentro da escuridão

A dor aperta minha mão
E fica a me olhar
Que sem nenhuma palavra

 

CANTO IV(in memória)

Paulo morreu
As letras choraram
Os verbos gritaram: - ele vive!
Os pronomes responderam: - em mim, em ti, em nós

Freire morreu
Os adjetivos afirmaram:
-Melhor, fantástico, maior
Os advérbios disseram:
- sempre..sempre Freire
nunca...nunca...coelho

Os substantivos diziam:
- é Paulo, é Freire, é Pernambuco
É vida, é leitura, é coração, é educação.

 

A ASSIS DOS ASSIS

Os teus azuis estão sumindo
Misturou-se com o azul do céu
Foi naquela madrugada, lenta e fria

Era junho, por isso doeu tanto
Hoje a saudade reflete no espelho
E a tua imagem na fogueira

Nos olhos de São João,
Estão os teus
Na fogueia o teu calor

Na noite de São Pedro,
Vi as tuas mãos trazendo gravetos
Para acender a fogueira
Ouvi teus gritos
Chega Senhora, vem ver o fogo

As dores desapareceram
No desenrolar do verso,
A noite se compadecia
Da tua alma a chorar

O vento chegou dizendo
Que não há mais fogueira
Só há canto dos pássaros
Com saudade de ti

O céu está vibrando
Com a tua chegada
Mas a terra está chorando
Com saudades de o teu caminhar.

 

Canto VIII

No barulho das bombas,
O verso tremeu de medo
Saiu correndo e entrou no meu texto

 

Canto XVII

Eu tenho um anjo
Que não é torto
Tenho Maria
Que não é das Dores

Tenho a força
Que não é de he-man
Tenho marcas
Que não são de Serena

Tenho dores
Que não são de Camões
Tenho amor
Que não é fogo
Que não arde
Que não queima

 

 

Eu queria ser
Eu queria ser Bandeira e fazer um poema
Queria ser Drummond e encontrar a pedra
Queria ser Cecília e ser poeta.

Sou Bandeira sem poemas
Sou Drummond sem caminho e sem a pedra
Sou Cecília que se perdeu no espelho.

 

 

Fonte:
Poemas enviados pelo autor do livro inédito Cantares

 

INTERPOÉTICA © 2005 Cida Pedrosa & Sennor Ramos