| INVENTÁRIO
ARQUITETADO NA INFÂNCIA
Em que rua do passado busco a infância?
O menino que sou como componho?
a aguda voz de vento, o amolado gesto de sonho
e eu um resto de ardente desesperança
Entre a cinza e a sombra só suponho
a leitura do caminhar sem contradança
os passos de Carlitos e a lágrima que no rosto exponho
efígie arquitetada no mormaço da lembrança
Que logo alucinado se dissolve em momentos
tão breves que um secreto e tímido calendário
reduz-me de súbito em esquecimento
Enfim, ardidos, nos dissolvemos nós. As rugas
são tudo o que visível resta: inventário
e herança coletivos. Ponto. O resto é fuga
O SERMÃO DA COLINA
Trago palavras de nuvens no céu da fome
rebanho de sílabas sopra sede no peito
e quase em mistério digo afoito teu nome
a escalar teu corpo em pleno segredo
Raro fogo abrasa em mim tua íris
entre as garras da brasa no sermão da colina
arisco como lobos sopro paisagens que vires
com o andar de luz à ronda da solidão alpina
Passas na garupa do vento, peregrina do ar
armando jardins na alameda do destino
com as horas da comunhão a cavalgar
onde o rosário no cio da retina a inventar-se
Celebro raízes no soluço cego do desatino
a domar a lenda do amor em mim carbonizado
CENTELHAS NO ROSTO DA TARDE
O tempo planta brasa no sereno
e deixa ferir centelhas no abraço
a canção escreve estrelas no vento
e faz o amor inflamado sem cansaço
Abro em mim o álbum da vida inteira
e nele, aninhado nas fotos enternecidas, teu rosto
carne de uma revelação à luz primeira
desenhando mistérios na linhagem, ao sol posto
onde a imagem sonda a magia carnal
quando pássaros vagam inquietos no cerrado da memória
espalhamos nos ares coroa de bem-te-vis, elos cristais
Abrindo as mãos à epopéia de
acácias e corais
o amor em nós se derrama na várzea da história
esculpindo flor, sol, terra, chuva no rosto dos canaviais |