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Francisco Sales Arêda
seu crânio é uma pedra de safira

por Maria Alice Amorim*

Aquela figura imponente, recostada num muro, sobre o alto de uma calçada, chapéu de massa, portando um cajado à moda dos sábios, não imaginava que era ele o motivo daquela visita inesperada, no meio da tarde de um sábado, véspera de eleição presidencial, em outubro de 2002. Após percorrer a feira de Caruaru, especulando o endereço entre raizeiros e poetas que o conheciam, foi a dica dos filhos do falecido cordelista Olegário Fernandes (1932-2002) que facilitou o reencontro. Parecia um profeta, abstraído das vaidades terrenas, recém-chegado do recolhimento de um deserto, 86 anos bem experimentados em cantoria de viola, cordel, venda de casca de pau, lambe-lambe e, sobretudo, na total intimidade com as musas, desfiando quadra, sextilha, septilha, décimas.

"Ele é tão grande quanto os maiores, tenho uma admiração enorme pela obra dele." É o imortal Ariano Suassuna quem avalia, comparando o poeta aos clássicos Leandro Gomes de Barros e João Martins de Athayde, e fazendo questão de frisar que a única diferença é que Francisco Sales Arêda é um clássico o qual teve a sorte de conhecer. "Tenho especial admiração e predileção pelo folheto O homem da vaca e o poder da fortuna, em que me baseei para escrever A farsa da boa preguiça." Aliás, esse cordel, com Os três irmãos caçadores e o macaco da montanha e o livro de época A pranteada morte de Getúlio Vargas estão, conforme declarou Arêda, entre os que mais saíam, quando andava pelas feiras, cantando e vendendo os próprios trabalhos. "Filho de pais pobres, submetido ao grau diminutivo pela vida afora", segundo ele mesmo, Sales iniciou na poesia aos 15 anos, escrevendo Moço bêbado forçado / por ordens de Satanás / transformou-se um insolente / sem ter o que fazer mais / espancou sua irmãzinha / e assassinou os seus pais.

Chico Sales é a forma carinhosa com que os amigos e poetas o tratam. Dila, José Severino Cristóvão, Manuel Quirino, Olegário Fernandes, J. Borges tiveram o privilégio de conviver com o "crânio de safira", durante algum momento na vida do artista popular que credita ao sobrenome exótico ascendência paterna francesa. Nas andanças pelos estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco, Dimas e Lourival Batista, Zé Vicente da Paraíba, Pinto do Monteiro, José Soares do Nascimento foram companheiros no baião de viola de quem passou 14 anos cantando desafio, apenas três meses na escola ("unicamente", disse o poeta) e sempre demonstrou, nos versos escritos ou cantados, o domínio completo da métrica, rima e metáfora. Além da extraordinária capacidade de fabulação, da riqueza vocabular, do esmero na construção da narrativa, da rima e metro impecáveis, a construção poética, em Arêda, suplanta o apuro formal e temático. Portanto, não é tarefa difícil compará-lo aos grandes nomes da literatura de cordel.

 

Mas eu creio em Deus Pai e Poderoso

que criou o Céu e a nossa terra

também criou em Jesus aonde encerra

o poder de um astro glorioso

um só filho do espírito venturoso

Divino Cordeiro e inocente

que padeceu pelos homens cruelmente

foi perseguido, preso e arrastado

para com seu sangue imaculado

nos livrar das ciladas da serpente.

O ciclo do maravilhoso, das histórias de encantamento perpassa significativa parcela dos folhetos produzidos pelo poeta — que também demonstra um gosto pelo humor refinado, aforismos e metapoesia. A garça branca do bosque e o gênio malassombrado, Os três irmãos caçadores e o macaco da montanha, O romance de João Besta com a gia da lagoa são apenas alguns títulos das histórias maravilhosas que criou, reunindo personagens fantásticos, reinos misteriosos, príncipe e lagoa encantados, ilha de diamantes, bosque malassombrado. A personagens da raça de anti-heróis, como João Grilo, dedicou As aventuras do amarelo João Cinzeiro Papa-Onça e As presepadas de Pedro Malazarte. Escreveu, também, uns títulos dedicados a profecia, Frei Damião, política e peleja fictícia. É no folheto A grande discussão de Francisco Sales com João José que encontramos os versos do título dsete artigo, numa auto-definição colocada na boca do adversário (Francisco Sales seu crânio / é uma pedra de safira / em repente ou na glosa / poeta nenhum o tira / mas eu vou ver se em duelo / seu couro também estira). Pelas contas de Arêda, para quem "poesia é como um sonho e não é nem toda hora que a gente tem ela", as musas foram muito generosas: calcula ter publicado cerca de 380 histórias de cordel. Isso, sem considerar os 14 anos de cantoria, de 1940 a 1954!

“Garganta roufenha”, que era como definia a própria voz, Chico Sales desistiu logo de cantar para entregar-se de vez às artimanhas da palavra escrita. Ainda adolescente viu uma cantoria, pela primeira vez, entre Manoel Ferreirinha e João Elias Machadinho. Chegou a cantar com Dimas e Lourival Batista, Zé Vicente da Paraíba, Pinto do Monteiro, José Soares do Nascimento. Para Arêda, os três grandes poetas de cordel foram “Leandro Gomes de Barros, a chave principal; José Camelo de Melo Resende; José Pacheco, que escrevia pouco, mas fazia tudo engraçado”. Nunca desenhou a capa dos folhetos, mas cortava a madeira das xilogravuras. Andava pelas feiras, vendendo a conga ou o pagamento, em folhetos, que o editor reservava ao autor. Cantava os versos, chamando a atenção dos fregueses, apesar do timbre “roufenho”, pois considerava parte da profissão a performance do “cantar folheto”. Nos últimos anos de vida, era figura forte no ramo de raizeiros da feira de Caruaru, respeitado sobretudo pela criação artística.

O que está aqui escrito é alguma coisa do que lembrou Francisco Sales Arêda, a partir das tantas recordações que afloraram também noutra conversa, outubro do ano seguinte (2003), quando ressaltava o poeta, novamente, o desejo de ver publicação de inéditos e reedições do que foi construindo em décadas: “isso [a invenção poética] é como uma planta; quanto mais cultivada, mais vai melhorando”. Nascido em Campina Grande, Paraíba, no dia 25 de outubro de 1916 (1915, segundo o batistério), não conseguiu ver completarem-se os 90 anos, pois morreu no dia 20 de dezembro de 2005, em Caruaru, na casa da filha Célia, enfermeira, com quem viveu os derradeiros momentos. Rememorando – mas não à merecida altura – os louros conquistados pela língua da poesia.


Olegário Fernandes e Francisco Sales na Feira de Caruaru (1995)

 

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*Maria Alice Amorim é jornalista, pesquisadora e fotógrafa.

Fotos: Maria Alice Amorim

 

 

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