Escrevendo sobre meu pai, Dimas
disse:
Meu irmão quantas vezes
eu cogito
Que não és como nós, de carne e osso
Foi por certo algum Deus, um anjo, um mito
Que te fez esplêndido colosso.
Não pode o tempo deformar-te
o esboço
A cada dia fica mais bonito,
A cabeça tão firme no pescoço
E as palavras tão livres no infinito.
Meu desejo é te ver
na plenitude
Das belezas da vida, encantadoras
Porque sei que a vaidade não te ilude.
Tens na fronte, do céu,
as luzes louras
E o prodígio da eterna juventude
Tão criança na vida, o quanto foras.
Um ano está fazendo que
LOURO foi chamado daqui. Tentei escrever alguma coisa para homenagear
o homem, o poeta, o cantador, o trocadilhista. Nada do que escrevi me
agradou porque eu estava mostrando as facetas de LOURO que todos vocês
conhecem. Resolvi mostrar um aspecto dele, que só oito pessoas
conheceram. Eu, Branco, Laro, Val, Zá, Nana, Bate e Bia.
Já nascemos ouvindo o toque
da viola de Papai e passamos a vida inteira fazendo parte dos versos,
misturados aos trocadilhos que soube fazer. Papai alimentou nossa vida
com o gosto de nossa gente, com o baião depois da janta cantado
e acompanhado de um jeito bem ritmado na mesa onde se jantou.
Sim, nós tínhamos
o costume de ficar na mesa depois do jantar, conversando, cantando,
recitando, participando de dissertações orais que Mamãe
começava e onde todos tinham que criar sua parte na história,
ou ouvindo Papai contar as proesas dos valentões do Teixeira,
dos cabras das Umburanas e tudo isto tinha pra nós o valor das
grandes epopéias.
Papai sempre nos incultiu valores
como amor, fé, caridade, compreensão, coragem. Dava pouco
mérito ao que era material. Sempre disse que o verdadeiro estava
no espírito, que só valia o que se podia guardar na cabeça
ou no coração. Papai foi uma pessoa altamente espiritual.
Foi aquele homem que o grande escritor JORGE LUIZ BORGES quis ser. Só
que o escritor descobriu as belezas e o sentido da vida, aos 85 anos,
quando já estava morrendo e Papai sempre soube viver intensamente.
Acho mesmo que ele fez todas as viagens, contemplou todos os amanheceres,
subiu todas as montanhas e nadou todos os rios.
Um sentimento comum dos filhos
em relação aos pais é o medo. Este, ele nunca nos
fez sentir. Nossa confiança era tão grande nele que nunca
nos lembramos que um filho pode ter medo do Pai.
Na nossa casa Papai era a emoção
e Mamãe a razão. Não sei se por amor, por acomodação
ou simplesmente por não querer se indispor conosco, ele sempre
deixou para Mamãe a difícil tarefa de nos repreender,
de admoestar, quando necessário. Quantas vezes Laro e Val depois
de fazerem algumas estripulias ficavam horas na esquina de seu Lon à
espera de Papai para entrarem em casa com ele porque sabiam que ele
os defenderia e que escapariam da disciplina que seria aplicada por
Mamãe.
Quando adolescente, enquanto colegas
de minha idade tremendo a voz, ensaiavam dezenas de vezes a maneira
de chegarem ao pai e pedirem para irem a alguma festa, o nosso tomava
a iniciativa e nos dizia: a festa vai ser animada, se arrumem e vão.
Nunca nos privou, nunca nos chantageou,
nunca nos proibiu.
Afável, carinhoso, meigo,
nunca esqueceu de nos presentear. Nós ganhávamos versos
quando nascíamos, em cada aniversário, na primeira comunhão,
em cada conclusão, em cada formatura. Todo acontecimento era
uma inspiração, uma razão pra cantar.
Papai cantou todos os motivos,
e eu acho que é esta minha razão de sentir tanta vontade
de cantar todas as vezes que sua ausência se faz presente em minha
vida. Parece que quero me compensar da falta do canto dele.
Lembro-me bem pequena (e como
acaricio esta lembrança), das inúmeras vezes que ao me
encontrar brincando, deitada no chão, tirava a sandália
que nunca se deu trabalho de abotoar e com o dedo grande do seu pé
babeco, me fazia cócegas até me ver desfalecer de rir.
Devido a sua profissão,
Papai viajava muito, mas cada volta sua, era uma festa pra gente. Quantas
vezes brincando na calçada, à tarde, de repente víamos
a figura de Gonga, seu carregador de confiança, aparecer na saída
do beco de Zefa Gia, com uma maleta na cabeça e uma viola na
mão. Era Papai que vinha chegando. O primeiro que via começava
a gritar: Papai chegou! E corríamos todos para encontrá-lo
na boca do beco que no nosso afã de abraçá-lo parecia
ter quilômetros de comprimento.
E há pouco mesmo! Quantas
vezes ele chegou no Banco, tirando do bolso da calça, enrolado
num papel de embrulho, um pedaço de preá torrado no barraco
de Jaime, porque sabia que eu gostava. E eu diante de olhares de colegas,
talvez até enojados, comia ali, na hora que recebia pra ele ver
que eu tinha gostado da lembrança e porque aprendi com ele mesmo
que quando se gosta de algo ou de alguém, devemos demonstrar
este gostar, este amor e a satisfação que causa.
Achou Dimas, que o tempo não
teve o poder de deformar o físico nem o espírito de LOURO.
Eu vou além do tempo. Eu cogito, eu penso, eu digo, nem a morte
conseguiu, porque ela com toda ausência que impõe, com
toda saudade que gera, não conseguirá com amor, compreensão,
alegria, força, coragem. Sentimentos que geram vida e que compõem
o acervo da nossa herança.
Temos muito que agradecer a natureza,
que além de nos ter dado um Pai desse quilate, nos deu a oportunidade
de conviver tanto com ele!
Nós tivemos um Pai maravilhoso!
Foi isto que eu quis mostrar pra vocês.
PAI! Você não tem
parelha.
*Texto
escrito em 05/12/93, pela poeta Maria Helena um ano
após a morte de seu pai, Lourival Batista
Do
gosto para o desgosto
O quadro é bem diferente,
Ser moço é ser sol nascente,
Ser velho é ser um sol-posto,
Pelas rugas do meu rosto
O que eu fui, hoje não sou,
Ontem estive, hoje não estou,
Que o sol ao nascer fulgura,
Mas ao se por deixa escura
A parte que iluminou.
Lourival
Batista
LOURIVAL
BATISTA PATRIOTA, O LOURO DO PAJEÚ E A ÁRVORE DA POESIA*
Por Meca
Moreno
...
No dia 05 de abril do ano de 1887,
no sítio Angico Torto, município de São José
do Egito, banhado pelo rio Pajeú, Pernambuco, nascia o Rei dos
Cantadores ou a Águia do Sertão, codinomes de Antonio
Marinho do Nascimento, o primeiro da dinastia dos “Faraós
do repente”, pertencente ao “Reino dos Cantadores de São
José do Egito”, segundo estudos genealógicos do
pesquisador, poeta, apologista e professor José Rabelo, apresentado
em belíssima obra poética. Em 13 de novembro de 1891,
no sítio Jatobá, Itapetim, São José do Egito,
veio ao mundo Antonio Pereira de Moraes, O Poeta da Saudade. Já
no final do século XIX, nascia em Monteiro, no Cariri paraibano,
Severino Lourenço da Silva Pinto, mais conhecido como Pinto do
Monteiro, A Cascavel do Sertão. Aos 12 dias do mês de maio
do ano de 1912, em São José do Egito, era apresentado
à luz o poeta João Batista de Siqueira, o conhecido Cancão.
Em 30 de junho de 1920, outro grande nome da poesia apresentava-se ao
mundo no sítio Cacimba Nova. Era o segundo gigante da dinastia
dos “Faraós do Repente”, com o nome de Rogaciano
Leite, em Itapetim, de São José do Egito. Também
em Itapetim, no dia 01 de janeiro de 1929, no sítio Cacimbas,
nascia Job Patriota de Lima, o Jó Patriota. No dia 13 de outubro
do ano de 1930, foi a vez da cidade de Afogados da Ingazeira agradecer
ao céu, por ter o privilégio de haver nascido ali, na
fazenda Taboado, povoado de Jabitacá, o grande vate Manoel Filomeno
de Menezes, mais conhecido como poeta Manoel Filó. E mais e mais.
Todos da mesma região, destacando-se São José do
Egito. Todos frutos da árvore maior da poesia que brotou no sertão
nordestino a partir da inspiração divina.
No final do ano de 1914, respirava-se
uma certa expectativa. Os acontecimentos tendiam parecer dentro da normalidade,
mas algo diferente estava por acontecer. Os anjos do natal daquele ano
pareciam mais sorridentes. A expectativa só aumentava. Chegou
o novo ano da graça de Nosso senhor Jesus Cristo. 1915, veio
trazendo novas e boas venturas para os pastores de cabras e para os
demais habitantes, mas ao invés das coisas voltarem ao normal,
algo pairava no ar, prenunciando a bênção que aconteceria
a qualquer momento. Passava-se o sexto dia do mês de janeiro,
Dia de Reis, quando em Umburanas, que depois tornou-se Itapetim, à
época, distrito de São José do Egito, deu-se o
grande acontecimento.
O céu transformou-se num
grande arco-íris de um lado ao outro do horizonte, por sobre
as coisas sem vida e sobre os seres viventes. Casas, cercas, mourões,
objetos, homens, plantas, animais e tudo que mais havia. Os cabritos
do sertão inteiro resolveram berrar e pular, imitando o milho
da pipoca na panela da família dos Batista Patriota. O gado alegremente
mugia. Numa cena rara de se ver, o sol e a lua apareceram no céu
para ninguém perder a festa. Ao mesmo tempo era noite e era dia.
As criaturas mais diversas moviam-se como quem anunciava: vai ser agora!
Vaga-lumes agitavam-se acendendo e apagando suas “lanternas”,
enquanto os jumentos, animais sagrados, ininterruptamente repetiam todo
o abecedário: Aaahh!, Ehhhh! Iiihh, Ooohhhh! Uuuhh! Ypsilone!
Ypsilone! Ypsilone!...
As plantas pareciam mais viçosas,
chuva de pétalas de todas as cores. Os peixes, reluzentes e saltitantes
cruzavam o Rio Pajeú e seus afluentes numa velocidade nunca vista.
Os vaqueiros, movidos por uma força maior e incontrolável,
cantavam um aboio em uníssono por todos os recantos do sertão,
formando um grande coro regido do céu, por um anjo visível
apenas por eles, que intuitivamente faziam vênias na direção
da casa dos Batista Patriota, sobre a qual flutuava o anjo-regente,
em louvação ao acontecimento. Ouviam-se acordes de violas
mágicas que vibravam plangentes, harmonizando-se à melodia
angelical. Repentistas improvisavam em agradecimento a Jesus, referindo-se
ao fenômeno.
De repente tudo parou. Silêncio
total, quando ouviu-se um choro de criança que acabara de chegar
e ser presenteada à luz. Mágico apresentado à magia
envolvente daquele recanto de mundo, no sertão de Pernambuco.
Um choro forte, grave, másculo. O que eu chamo aqui de choro,
na verdade era um solfejo em DO, RE, MI, FA SOL, LA, SI. Todas as notas,
em todos os tons, em várias escalas. Magia divina. Naquele momento,
foi apresentado ao mundo aquele que veio para completar a dinastia dos
“Faraós do Repente”, do “Reino dos Cantadores
de São José do Egito”, do professor José
Rabelo, que inspirou o poeta, compositor e artista plástico Karoba
Nunes a projetar o memorial, em homenagem aos “Faraós do
Repente” para ser edificado à entrada da terra natal dos
três.
Assim, veio a nós um dos
maiores poetas que já andou sobre a face da terra: LOURIVAL BATISTA
PATRIOTA, O Louro do Pajeú, O Rei do Trocadilho, referência
da sua geração e das gerações vindouras.
Um homem grande como o sertão. E por ser tão grande, simples
e humilde. Menino que gostava de brincar com palavras. Improvisador
de uma rapidez de raciocínio estupenda. Comparável a poucos,
em todas as épocas. Seu pai, Raimundo Patriota, mais conhecido
como Raimundão e sua mãe Severina Patriota, que teve veemente
influência sobre a veia poético-repentista de Louro, e
dos outros filhos, ainda presenteariam ao mundo, mais dois gigantes
da poesia, irmãos de Lourival, para formarem A Tríade
Batista, com louro no cabeçalho: Lourival, Otacílio e
Dimas Batista.
...
Em 1930, ainda com 15 anos, enfrentou
o seu primeiro desafio como cantador. No ano de 1932, não fosse
pela intervenção de sua mãe, que o retirou das
colunas do pelotão ao não autorizar, teria ido, aos 17
anos, lutar na revolução constitucionalista, em São
Paulo. Em 1933, enfrentou uma empreitada de 97 dias andando do Recife
até Itapetim, em São José do Egito, distante 422
km do Recife. Antes, porém, cruzou a Paraíba e esteve
no Rio Grande do Norte, para depois seguir ao seu torrão natal.
Como cantador, fez um caminho ao contrário dos que chegam à
capital. Começou a cantar no Recife e depois partiu para o interior,
quando o mais comum é inverter-se o fluxo. A partir de então,
não parou mais. Levou poesia aos 4 cantos do mundo. Participou
de muitas cantorias, ganhou muitos festivais, muitos prêmios,
muitos amigos e o respeito de todos.
Em resposta
a Canhotinho, companheiro de cantoria, que terminou sua estrofe dizendo:
Já sinto o peso dos anos / querendo roubar-me a paz.
Louro pagou assim:
Eu já não suporto
mais
Do tempo tantas revoltas
Prazer, por que não me prendes?
Mágoa, por que não me soltas?
Presente, por que não foges?
Passado, por que não voltas?

Campina Grande/PB, 05/10/84 (foto de Djair Freyre)
...
Casado com Helena, filha de Dona
Isabel e Antonio Marinho, a Águia do Sertão. Sendo mais
bela, mais forte e mais corajosa do que a grega, por causa de quem houve
a famosa guerra de Tróia. Mas por causa da Helena escolhida por
Louro, guerra não houve, mas paz, amor e poesia, muita poesia.
Da união, à luz vieram 8 filhos, sendo 4 mulheres e 4
homens que, com o sangue de artistas correndo-lhes nas veias, não
poderia ser diferente. São extensões artístico-helênicas
de Louro, que multiplicaram-lhes e multiplicaram-se.
...
Lourival Batista Patriota encantou-se
no dia 05 de dezembro de 1992, aos setenta e sete anos. Do céu,
caía uma chuva de pétalas brancas, novamente a noite virou
dia e o dia virou noite. Sobre a cidade do Recife, Pernambuco, o arco-íris,
um coro de anjos que era regido por um outro, trajado de vaqueiro tipicamente
encourado. Chapéu, gibão, para-peito, luvas contra os
espinhos dos xiquexiques da vida (mesmo sendo vida de anjo), perneiras,
alpercatas de rabicho, no lado direito um alforje com rapadura, farinha,
sal, carne seca. Do lado oposto, enrolado um comprido laço de
couro e um cantil com água fria. Estrelas desenhadas no gibão,
brilhavam, confundindo-se com as do céu. Ladeava-lhe um lindo
cavalo alado, de crina amarela como ouro. Bem paramentado. Completo
em sela, estribos reluzentes e demais arreios. Uma manta de couro, recoberta
de estrelas de prata sobre o peito, descendo-lhe até os joelhos
dava-lhe um ar imponente.
Pequeno intervalo e sobressaiu-se
o anjo-regente improvisando, solou um aboio em septilhas:
Que não fique a terra
triste
Porque o céu está em festa
Daqui tudo que existe
Amar é o que nos resta
Lourival foi convidado
Porque é nome consagrado
É Jesus quem diz e atesta
Lourival está partindo
Mas vai deixando alegria
Vai juntar-se a mais poetas
No céu vai ter cantoria
Deixa seu nome gravado
Em cada mourão fincado
No reino da poesia
As mágicas violas tocavam.
A música era de paz. Os vaga-lumes voltaram a acender suas “lanternas”,
as pétalas brancas que caíam do céu formavam um
caminho, sobre o qual, lentamente, com um suave sorriso no rosto, o
grande Louro do Pajeú, com seus cabelos brancos como o algodão
das nuvens, lembrando os bons tempos do ouro branco do sertão,
acenava para todos, enquanto caminhava em direção a um
grande e iluminado portal, onde foi recebido ao som de trombetas angelicais.
De repente, silêncio total e um choro coletivo ecoou em uníssono:
O choro de todos os poetas do planeta terra.
Depois compreendemos. Era tempo
de retribuição. Um presente da terra para o céu,
que estava em festa pela sua chegada a fim de preparar-lhe para uma
nova missão. Daquelas que não basta ser anjo, profeta
ou poeta para cumprir com êxito. Tem que ser especial. Por isso
não morre jamais. O que justifica o adágio: “Poeta
não morre. Tem encantamento.”
*confira
o texto na íntegra
Em
de outubro de 2006, aniversário de um ano da página INTERPOÉTICA,
homenageamos, na seção FIGURA DA VEZ o poeta, rei dos
faraós, Louro do Pajeú, para tanto, publicamos texto da
sua filha Maria Helena e trechos do ensaio do poeta
e apologista Meca Moreno.
Mais poemas de Louro do Pajeú
no Cardápio de Poesia
desenho de Gregório
Vieira
gregoriosim@yahoo.com.br