O
sopro da ventania
Torce a calda do novilho
O pelo de um gato preto
Começa a perder o brilho
Depois de ter se coçado
Num caco de torrar milho.
Quando falta a companheira
Na vida d'um passarinho
Ele busca um pau bem alto
Para construir seu ninho
Devido ser menos triste
Para quem vive sozinho.
Da meia noite em diante
Ninguém mais sabe meu giro
Eu começo gaguejando
Porém depois que me inspiro
Tenho a grandeza do tato
De um cego jogando firo.
Manoel
Filó
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13/10/1930 - 21/08/2005
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Êita
gôta!
por JORGE FILÓ
1
Falar de Manoel Filo é
hoje um misto de alegria, pela lembrança sadia a qual ele sempre
nos remete, e do sentimento imperativo da ausência irreversível,
que as vezes chega a doer que só uma ferroada dum cavalo-do-cão,
que, segundo ele, em uma de suas magníficas comparações,
o cabra tem que sair atrás dum canto pra se lavar depois da ferroada.
No mês em que completa um
ano de sua derradeira viagem terrena – aos 21 dias do mês
de agosto de 2005, numa fatídica madrugada de um domingo cinzento
em São Jose do Egito, estando sepultado em Tuparetama, cidade
vizinha, também na região do Pajeu – as homenagens
se sucedem por todos os cantos por onde o poeta passou e edificou amizades
infindáveis.
Embora a Internet seja um campo
virtual, distante de sua realidade sertaneja, o poeta já tinha
suas passagens em menções de amigos, poetas e artistas
que sempre o admiraram. Este mês o site INTERPOÉTICA, dos
amigos Cida Pedrosa e Sennor Ramos, dá a sua, justa e bela, contribuição
para a eternização do grande mestre que foi Manoel Filomeno
de Menezes, Manoel Filó, Manoel Filósofo. De quem tenho
o maior orgulho de ser filho! Obrigado a todos!!!
Estes versos escrevi especialmente
para publicação de seu livro "As Curvas do Meu Caminho",
publicado em 2003.
GENEALOGIA
DE CORPO
PRESENTE
por ÉSIO
RAFAEL 2
Não é
possível dizer, até agora, que estamos órfãos
de Manoel Filó. Nem reclamamos de sua ausência, pois, desde
o seu sepultamento na cidade de Tuparetama, pajeú pernambucano,
há um ano, no percurso do cemitério, que nunca se viu
coisa igual.
Cada acompanhante
segurava uma lágrima rasa, oscilante, entre os olhos e a garganta.
Engolia seco, na medida em que desfiava uma história, um verso,
uma prosa ou uma "cunha" que Mané teria colocado como
complemento de uma piada que alguém lhe contara. Foi uma celebração
à maneira Filó, caso fosse ele o acompanhante (risos e
lágrimas).
Agora mesmo ri,
ao me lembrar de uma visita que ele me fez, acompanhado do poeta Jorge,
seu filho. É que o "meu vizinho de lado" tem um cachorro,
invocado, "mordido". Por isso, há uma placa de advertência
no portão: "CUIDADO COM O CÃO". Ao descer do
carro Manoel me chamou e disse:
-Grapiúna,
esse negócio ta escrito errado! Cuidado com VOCÊ, se não
o cão lhe morde...
Falar nisso, Mané,
já te deparasse com Heleno "cai cai"? Me conta, pode
ser um sonho...
Por diferentes
abrigos
Contrariado ando eu
Explorando os meus amigos
Vendendo o que Deus me deu
Num terreno
acidentado
Deus passa devagarinho
Amaciando um cajado
Nas curvas do meu caminho
Manoel
Filó
MANOEL
FILÓ
por ZELITO NUNES
3
"Cantar devia ter sido
Minha primitiva escola
Ter os dedos calejados
Dos arames da viola
Cantar como o xexéu preto
Na solidão da gaiola"
Manoel Filomeno de Menezes, Manoel
Filó, nasceu no dia 13/10/1930, na fazenda Taboado no então
município de Afogados da Ingazeira. O Taboado situa-se a uns
cinco quilômetros do povoado de Jabitacá, contemplando
a serra da Carnaíba que faz fronteira com a Paraíba e
na época era propriedade de Chico Cazuza e dona Mariquinha que
era tia do poeta.
Mariquinha era irmã de
Tereza Maria de Jesus mãe de Manoel e mãe do também
poeta Heleno Rafael, "Heleno de Tia Mariquinha" como carinhosamente
nós o chamávamos. Maria de Jesus visitava a irmã,
quando foi acudida nas dores do parto, quando veio ao mundo o poeta
Manoel que foi mais um dentre os doze que viriam. Ainda criança
foi morar com os pais o poeta José Filó e dona Tereza,
no pequeno ainda hoje, povoado de Mundo Novo, um lugar de várzeas
e riachos fecundos, perdido entre os municípios de Ouro Velho
na Paraíba e São José do Egito, em Pernambuco.
Poeta por vocação e cigano por instinto, Manoel passou
a vida se mudando, tendo morado dentre outras cidades, em São
Paulo, Recife, Paulo Afonso, Monteiro e Arcoverde, (havia se mudado
há três meses, para a cidade-mãe da poesia, o seu
porto mais seguro, São José do Egito). Foi empresário
bem sucedido no ramo de autopeças, mas a sua natureza de poeta,
não lhe permitia conviver com o espírito do lucro, vivia
distribuindo o que juntava, com os mais necessitados ou não,
por isso a sua vida foi toda de altos e baixos até o fim quando
partiu levando somente uma alma de cara limpa, as mãos vazias
e um coração pleno de bondade e poesia. Não foi
um grande cantador por que não quis, (seguramente por uma questão
de generosidade, para não ofuscar o brilho dos companheiros).
São da sua lavra, dentre muitos outros:
Respondendo a uma "deixa"
de Job Patriota:
Job:
"inseto tem feito coisas
que a gente às vezes estranha"
Filó:
"No sertão tem uma
aranha
De uma qualidade escassa
Que tapa a sua morada
Com lã da cor de fumaça
O tecido é tão perfeito
Que a chuva bate e não passa".
Com Manoel Chudu:
Chudu:
"Essa morena é bonita
Como a flor da açucena"
Filó:
"O corpo dessa morena
É macio igual a fuba
Tem a beleza tocante
Do leque da carnaúba
Cheirosa igualmente à pinha
Que o papa-sebo derruba"
O padre Assis, um italiano radicado
há muitos anos no Pajeú, grande admirador dos poetas populares
e hoje vigário de Tabira, segundo o poeta e seu velho companheiro,
Zé de Cazuza, costumava chamá-lo sabiamente de "Manoel
Filósofo". Quem contestaria?
"Não me vem pelo
desejo
Tudo aquilo que espero
Não quero as coisas que vejo
Não tenho as coisas que quero"
O poeta na sua bondade e grandeza,
soube como poucos, transitar no meio dos jovens e generosamente passar
para eles os seus ensinamentos. A sua convivência com os mais
novos, produziu bons frutos e deixa herdeiros que não fariam
vergonha ao mestre, dentre outros, estão: Jorge Filó,
seu filho, poeta e cordelista, autor do excelente livro/cordel, A IGREJA
DO DIABO. José Paes de Lira Filho - Lirinha do CORDEL DO FOGO
ENCANTADO. Felizardo Moura - POETA E APRESENTADOR de festivais de cantoria
e seu companheiro mais constante. Antônio Marinho do Nascimento
- poeta declamador e autor do livro de poesias, NASCIMENTO.
Dom Manoel
- O Venturoso
por MAURÍCIO
TADEU DE MENEZES TORRES 4
O dia amanhece serenamente, sobre
as brisas afáveis da fresca manhã, Dom Manoel se prepara
para mais uma jornada. Seus fiéis súditos, embevecidos
de honra pelo soberano exemplar, auxiliam-no solenemente, num misto
de melancolia e felicidade de espírito.
Não há como mudar
este ciclo. Dom Manoel parte e retorna com a naturalidade das estações
do ano. Nos períodos em que nos felicita com sua generosidade
presença, a benevolência altiva de sua aura dissemina-se,
envolvendo a todos com a complacência que lhe é infinitamente
peculiar. Nos seus caminhos infindáveis, por vezes tranqüilos
e por muitas outras coroados de percalços, ele segue estóico,
irredutível na missão de semear o bem.
Em muitas paragens o sábio
viandante confunde-se involuntariamente com os entes comuns, ocultando
a grandeza de sua alma superior. Mas o rei-poeta detem inspiração
admirável, nos presenteando com versejos de trovador; com estrofes
de bardo único.
Abnegado a pomposos palácios,
Dom Manoel atua no reino da simplicidade, edificando somente um potentoso
castelo de admiração. E mesmo quando um dos seus requer
uma intervenção por errônea conduta, ele o orienta
com sábias admoestações, condenando espontaneamente
a arrogância dos colossos de pés de barro.
Hoje chega sereno à maturidade
rodeado de escudeiros irradiando alegrias por sua bela história.
Muitos caminhos ainda hão de vir, e por esses caminhos seguirá
Dom Manoel - o venturoso - cavaleiro da placidez, Dom Quixote da clarividência...

Orlando Tejo, Jorge Filó e Manoel
Filó
1 JORGE
FILÓ é poeta e filho de Manoel Filó
2 ÉSIO
RAFAEL é poeta e estudioso da cultura popular
3 ZELITO
NUNES é poeta e estudioso da cultura popular
4 MAURÍCIO
TADEU DE MENEZES TORRES é poeta e sobrinho de Manoel
Filó
A página
INTERPOÉTICA, no mês de agosto de 2006, quando fez um ano
da morte do mestre Manoel Filó, dedicou sua seção
de homenagem, FIGURA DA VEZ, ao poeta sertanejo, que cantou suas origens
e que merece ser reconhecido como um dos grandes poetas da nossa terra.
Manoel Filó: Presente!
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no Cardápio de Poesia