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Nasceu em Atalaia, estado de Alagoas em 1926
e morreu em Recife em 1996. Publicou os livros de poesia: Alvorada
(Maceió 1947); Presença da Ausência (Recife
1951); Coração (Maceió 1956); Poemas Insólitos
e Desesperados (Recife 1972); Cidade do Não (Recife 1979);
Todos os Dias, Todas as Horas (Ed. Pirata, Recife 1985); Bem Súbito
(Recife 1986); Lugar do Tempo e Pássaro de Vôo (Recife).
Autor
de uma obra ímpar. Sensível e simples como o próprio
poeta, farta de cotidianos, lirismos e da alma dos homens. Sua
obra precisa ser urgentemente resgatada para que as novas gerações
conheçam e se apropriem de sua ternura e beleza. (os editores)
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O
QUE NÃO SE CALA
...
Rir é preciso, uma risada.
Mas Deus não gostará do homem
sempre de gargalhadas gordas
que não se cala mesmo diante
do palhaço de coração ferido.
...
Geraldino
Brasil
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Geraldino
é alma, é íntimo, é humanidade
por
Beatriz Brenner*
Falar de pai e mãe deveria
ser proibido por causa das palavras. Elas são pobres, inseguras,
defeituosas. Não combinam com a integridade do amor desses dois
que nos colocaram no mundo, nos animaram, nos deram a vida, possibilitaram
a experiência no planeta. É sim, falar de mãe e
pai deveria ser proibido. Porque é falar do obvio e falar do
obvio é ser repetitivo. No entanto, falar de Geraldino Brasil
me salva desses pecados.
A minha
poesia é a vida de cada um. (Geraldino Brasil)
Do pecado de ter que comprar um
cartão dos dias dos pais com mensagem escrita pelo espírito
mercenário do fabricante interessado no lucro que fará.
Geraldino não curtia o dia dos pais.
Religião
para mim tem muito valor, mas tem aquela parte de impor: ou crer ou
morre.
Ele era poeta, ou melhor, é
poeta. E a poesia não carece de cartão. O poeta não
pode ficar preso a comemorações, a datas impostas. Ele
sabe que assim pode perder a poesia que pede liberdade e leveza da alma.
O importante
é que o poeta não se preocupe primeiramente que outro
poeta vá ler o seu livro. Infelizmente é aonde ele tem
menos leitores, é entre poetas.
Por isso sempre nos orientou,
a mim e a minha irmã Moema, a não comprarmos o que fosse
anunciado na televisão. Aquele que falava era o poeta que na
verdade falava para ele mesmo, para o seu íntimo que dispensava
a obrigação, a imposição, a robotização.
Ler meus poemas é conversar
comigo, dizia sempre ao seu leitor.
Quem lê
o poema é justamente quem está no mundo, quem é
mundo, quem é humanidade e tem o seu sonho, sua saudade e tem
a sua vontade. Quem abre um livro de poesia é a humanidade verdadeira.
Às vezes reclamava que
o lugar onde o poeta era menos lido é dentro da sua própria
casa. Eu lhe respondia que era natural. Como se pode optar entre o livro
do poeta e o próprio poeta? Estávamos em sua companhia,
o seu olhar era poesia. A sua voz também porque ela materializava
o poema.
O dia
seguinte sempre sugere a alteração de alguma coisa.
Ao chegar em casa em uma madrugada
de chuva torrencial encontrei minha mãe tomada pelo absurdo de
a água ter entrado no gabinete onde ele escrevia. O mais interessante
foi que ele não havia conseguido perceber a água em seus
pés. Estava tão absorvido na criação que
o mundo lá fora foi ignorado.
Muitos
críticos de poesia pensam que quando alguém abre um livro
de poesias, pensam que essas pessoas vão ver a qualidade técnica
do poema, a construção do poema. Isso é um puro
engano.
A sua atenção estava
no poema e isso o fez adormecer o sentido do tato que iria interferir
no momento único do criador. Ao conversar Geraldino conversava
para a humanidade.
Minha
principal preocupação é que o poema não
perca sua real expressão humana.
Suas palavras alertavam sem impor.
Atingiam a nossas almas e não as nossas mentes. Ensinava sem
ralhar.
Quando
alguém abre um livro vê ali a expressão da sua dor,
da sua saudade, a expressão da sua esperança, do seu amor,
a expressão do que está sentindo, ele percebe que o poeta
está dizendo tudo que ele queria dizer, tudo que ele está
sentindo.
E o que mais devo falar sobre
Geraldino? Acredito ser melhor parar por aqui. A mente talvez comece
a interferir e tornar as palavras pobres, inseguras, defeituosas. Não,
isso eu não quero. Geraldino é alma, é íntimo,
é humanidade. Talvez sim, seja o momento de deixar o leitor da
INTERPOÉTICA sentir seus poemas, penetrar em seu espírito.
Espírito que pediu ao Senhor através do poema Pequeno
Pedido em Noite de Natal um dia propício que
vireis buscar o Vosso filho. Neste poema ele em
súplica:
...
Peço-Vos, Senhor, que o
meu dia, para mim lindo
- aquele em que vireis buscar o Vosso filho -
dia que deve ser, pois é da Ordem do Vosso Grande Amor, peço-Vos
que não seja nos dias do Natal Vosso.
São os dias das Festas para Vós,
todos felizes na alegria
do Milagre do Nascimento Vosso.
E não é justo, Senhor,
- pobre de mim - entristecer
quem Vos festeja e está contente.
Nem nas idas da ilusão
do Ano Novo, nas festas
dos congraçamentos, pelo menos
até Reis. Não gostaria
que o Ano Novo dos companheiros
recomeçasse com mágoas, não por mim seja.
...
O poeta foi atendido. Geraldino
partiu no dia 7 de janeiro de 1996 e para que evitasse que sentíssemos
saudades dele deixou sua alma conosco. Hoje, após escrever essas
linhas, estamos mais próximos do que ontem.
*Beatriz Brenner,
poeta, cronista e uma filha feliz, muito feliz.
beatrizen@hotmail.com
Lugar
de poeta é na família dos que amam
por
Heloísa Arcoverde de Morais*
Geraldino Brasil, poeta alagoano-recifense,
nos brinda com o seu poema Classe Média, auto-reflexão
para a "profissão" de fazer versos:
CLASSE MÉDIA
Geraldino Brasil
Um médico.
Ótimo na família
Um executivo.
Ótimo
Um engenheiro.
Um arquiteto.
Um magistrado.
Ótimo
Um poeta.
Melhor na família dos outros
in Bem Súbito
A primeira leitura do poema chama
a atenção para a camada lexical com o
predomínio de substantivos num texto marcado pela ausência
total de verbos. Todos os versos se caracterizam pela elipse do verbo.
Um médico.
Ótimo
A enumeração de
substantivos ressalta que, além de pertencerem à mesma
classe gramatical, os substantivos possuem um núcleo semântico
/ profissão / isto é, pertencem ao mesmo paradigma:
Um médico, um executivo,
um engenheiro, um arquiteto, um magistrado, um poeta.
O substantivo dos versos iniciais
de cada estrofe assume por inteiro a estrutura da frase e é modificado
apenas pelo adjetivo (bom) em seu grau superlativo absoluto ótimo
- versos 2, 4 e 8 - e no comparativo de superioridade - melhor - verso
10, pela locução adverbial - na família - verso
12, e, por fim, no último verso, pelo pronome indefinido - outros
- ampliando a locução adverbial - melhor na família
dos outros.
A linguagem substantivada, econômica,
das frases vai se expandir no campo semântico. A sucessão
de enunciados indicando profissões abrange um universo conotativo:
as cinco primeiras citadas são as chamadas profissões
liberais e a última pertence a um contexto artístico,
dito intelectual.
A locução adverbial
de lugar - na família - desloca a carga emocional do
núcleo profissão para um contexto socioeconômico,
pois o ótimo, pela redundância e pelo grau superlativo
absoluto, leva a supor que a família é a minha
/ a nossa, que aprecia as profissões liberais.
A última estrofe é
a que vai se contrapor às três primeiras. A locução
na família é acrescida de mais um deslocamento espacial
pelo pronome indefinido outros = não mais na minha / nossa
família, mas na família dos outros.
Recuperando a unidade do poema,
chegamos à oposição:
· três primeiras estrofes x a última
· profissões liberais x profissão artística
· minha / nossa (proximidade) x dos outros (afastamento)
Mas para não se chegar
prematuramente à conclusão de que o texto poderia ser
uma apologia das profissões liberais, é preciso atentar
para o título Classe Média, a chave do poema.
Quem, então, avaliou estas
profissões? Uma determinada classe, a média, com seus
parâmetros preconceituosos.
Conotativamente, a linguagem cobre
o universo de uma classe social que costuma atribuir valor a pessoas
e objetos. Ao titular o poema de Classe Média, o poeta, ironicamente,
transpõe para o texto o campo associativo que cada profissão
representa para aquela classe. Conciso na sua construção
por frases elípticas, o poema se expande semanticamente por um
léxico que denuncia o pensamento de uma classe: status
(médico); poder econômico (executivo); carreiras liberais
(engenheiro, arquiteto, magistrado) - profissões que famílias
burguesas acatam (ótimo) no seu seio.
Preconceitos à parte, poeta
até que é bom, mas desde que (melhor) na família
dos outros.
No texto de Geraldino Brasil,
a função poética não obliterou a função
referencial da linguagem: os versos são construídos pelo
padrão lingüístico de uma classe (socioleto). Mas,
com a competência de um mestre na profissão de fazer versos,
o poeta subverte esta linguagem pela ironia com que denuncia, recorrendo
a imagens estereotipadas, os preconceitos de uma classe.
Poetas terão sempre o seu
lugar no coração de quem não perde a ternura jamais.
Mas para os corações empedernidos, uma sugestão:
Saborear o poema Minha desgraça
do romântico Álvares de Azevedo, deliciar-se com Marginal
Recife do nosso Miró e reavaliar "um poeta na família"
com este outro poema de Geraldino Brasil:
PROBLEMA NA FAMÍLIA
A família ia bem,
mas o filho mais novo.
A família ia bem,
quebra a casca do ovo.
A família ia bem,
vê a rua, olha o povo.
Um problema surgiu,
um poeta na família.
in Bem Súbito
*Heloísa
Arcoverde de Morais é ensaista, professora e Gerente
do Departamento de Literatura da Prefeitura do Recife
Geraldino Brasil e sua esposa, a artista
plástica Creusa Maurício
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