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Celina de Holanda

 

Celina de Holanda Cavalcanti de Albuquerque, ou simplesmente Cecé como gostava de ser chamada, nasceu no município do Cabo de Santo Agostinho em 19 de junho de 1915 e morreu no Recife em 04 de julho de 1999. Jornalista e poeta, passou a residir e a atuar em Recife onde publicou seus primeiros poemas nos cadernos de cultura do Jornal do Commercio e Diario de Pernambuco.

Publicou vários livros: o primeiro livro, O Espelho da Rosa, em 1970, quando tinha 55 anos de idade; A Mão extrema (1976); Sobre Esta Cidade de Rios (1979); Roda D'água (1981); As Viagens (1984); Pantorra, o engenho (1990) e Viagens Gerais de 1985, coletânea dos livros anteriores e mais os inéditos: A Fogo e Faca e Tarefas de Ninguém. (os editores)

 

CELINA DE HOLANDA:
UMA RECEITA DE PERFUME

por Luis Manoel Siqueira

No final dos anos 70, os ventos que anunciavam uma nova primavera política, a da redemocratização brasileira, também espalhavam pelo Recife, assim como as acácias floridas, livros de poesia impressos pelas Edições Pirata.

Nascida como uma cooperativa de artistas, teve em Jaci Bezerra, Alberto da Cunha Melo e Celina de Holanda, seus principais idealizadores.

Rua Betânia 10 / 102, no Derby. Era esse o endereço impresso nas contracapas, e foi lá que eu fui bater, junto com os meus 19 anos de idade e uns poemas de qualidade duvidosa debaixo do braço.

Conhecer Celina de Holanda foi um dos maiores presentes que a vida me deu. Não apenas pelas pessoas que conheci depois, e de cuja amizade passei a partilhar, mas pelo que acrescentou ao homem em que hoje me tornei.

A casa de Celina não era apenas o centro de convergência natural da Pirata. Ela representava também uma referência de princípios e valores éticos e humanos, que tinha em pensadores como Padre Romano Zufferey, Leon Bloy, Theillard de Chardin e Dom Hélder Câmara, os pontos cardeais de um socialismo moldado nos valores daquele cristianismo primitivo e submerso. Essa presença cristã diferenciada permeava toda a poesia de Celina e também de outros poetas daquele tempo. O amálgama surgido com os perfumes da redemocratização e os ideais da Teologia da Libertação de Puebla, resultavam numa fraternidade real, que "rodava a mesa" montando as páginas de centenas de livros de poetas pobres e marginalizados.

Recife, que sempre foi um barril de pólvora ideológico, com radicalismos sectários explosivos, assistia encantado a festas com músicos e palhaços e idosos e crianças nos lançamentos públicos da Pirata.

As diferenças de idéias e posturas, tão naturais em todo movimento deste porte, eram costuradas uma nas outras, pelo carisma de Celina, cujo lema era pôr a mesa aos amigos sem distinção alguma.

A amizade com uma senhora que tinha a idade cronológica (apenas) de ser minha avó tomou proporções de rara intensidade. Viramos amigos e confidentes. Embora eu fosse de um copo de chope, e ela, de uma dose de cachaça, diante dos garçons admirados.

"Lembro de meu pai, Luisinho. Sentava-se à mesa e, com uma faca bem afiada, ia cortando uma laranja em tiras bem finas e contínuas. Depois enfiava aquela fita cuidadosamente dentro de uma garrafa de cachaça de cabeça e guardava. A bebida, com o tempo, parecia um licor perfumado."

Celina de afago e faca. De gestos largos na defesa dos indefensáveis, como ao cão querido do engenho Pantorra, que fora descoberto sangrando as ovelhas, e que ela postara-se ainda criança entre ele e o chicote do feitor.

Celina, que Drummond dizia ser rara. Celina que no final da vida, recusou o sinistro convite da academia para ser imortal. Celina que me ensinou que, antes de tudo, um escritor precisa coincidir com aquilo que ele escreve, para não virar um mero malabarista de palavras - figueira sem frutos.

Eu não posso escrever sobre Celina com a imparcialidade analítica necessária de um crítico literário - coisa que não sou. Além do mais, sua dimensão humana ultrapassa em muito a da grande poetisa que ela foi.

Estava muito longe quando soube que Celina havia morrido. Compreendi então que um capítulo importante de minha vida se encerrava. Ela representou, não somente para mim, o sal e a luz da parábola cristã, temperando os dias daqueles que a conheceram. Mas, sobretudo, o perfume da laranja que transforma o licor. Chuva de acácias ao vento na história da poesia do Recife.

 

MERIDIANO

Vivemos a grande noite.
Cada amor em seu amor
se oculta.

Quem nos roubou a ternura
escondida? O corpo claro
e diurno?

Como os animais e as crianças
um dia a vida será só vida.

 

 

A PEDRA

Nesta mesa
o povo está sentado.
Não divaga.

Tudo o de que necessita
é perto e urgente.

Frio e direto, toma
a pedra que sou e quebra.
Vai construir o mundo.

 

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