Two beers
or not Two beers
por
Cida Pedrosa*
A Primeira vez que vi “Tobaica”,
vi um homem por trás de um óculos e de um copo. Sua timidez
era tão funda que me deixou sem graça. Sua doçura
era tão funda que me desorganizou os olhos. Passada a primeira
visão, vi apenas um homem bom de poesia, de copo e de amizade.
Na verdade, antes de qualquer coisa, tive o prazer de conhecer um construtor
de sonhos e de boas palavras.
Sua poesia é dura e irônica,
sem deixar de ser suave e lírica; comprometida e engajada, sem
ser panfletária; inovadora e experimental, sem cair nos modismos
das vanguardas histéricas. Dual! Essa é a palavra que
talvez melhor expresse esse poeta, cheio de musas reais e imaginárias,
capaz de receber tantas alcunhas ternas e revolucionárias, como
tantas são as faces da sua obra, ainda pouco conhecida do público
em geral, infelizmente.
Ave Poesia! Ave Arnaldo! Ana Marguerite!
Tobias! Balalaica! Tenente Fúria! Tobaica! Two beers or not Two
beers! E basta.

UTOPIA
& REVOLUÇÃO
Por
Bráulio Brilhante**
Nos anos 60, havia estudantes
rebelados em Paris, nas universidades americanas e até no Brasil,
pregando a derrubada do que consideravam um mundo velho. Nos anos 70,
tínhamos hippies e comandos revolucionários dispostos
a virar pelo avesso as estruturas sociais. Agora, há verdes,
lésbicas, gays, radicais, anarquistas e outras tribos díspares.
É a eterna rebeldia da juventude - mas o que se tem em pleno
século XXI é um fenômeno de características
muito próprias. O poeta e escritor pernambucano Arnaldo José
Tobias - considerado pérola rara no universo da geração
65 - vivenciou a época como parte dessa mesma juventude contestadora,
rebelde, que explodiu ruidosamente, no Brasil, há 30 anos atrás,
quando as relações entre as nações eram
regidas pela rivalidade entre as superpotências. Nesse tempo,
Arnaldo era jovem, politizado, particpava das greves e manifestações
de rua contra a ditadura militar, e sonhava com uma sociedade livre
da opressão, da censura e da fome. Arnaldo morreu em um belo
domingo de maio, mas o sonho permanece vivo em sua obra.
Parte dessas impressões,
angústias, equívocos e alegrias, vividas pelo poeta, nesse
e em outros tempos, está na pequena, porém, seleta obra
que deixou para a posteridade..Ainda que fosse o último grande
poeta engajado do século XX, a vida e a poesia de Tobias representam
tudo aquilo que o bom mocismo ou a tradição conservadora
dos beletristas tanto repudiam. Sua poesia tem palavra forte, mistério,
fluidez, língua ferina. Caracteriza-se pela linguagem descontínua,
com acentuado desprezo pelas pontuações gramaticais. Vírgulas,
apóstrofos e travessões são elementos estruturadores
do discurso poético.
Arnaldo deixou uma obra consistente,
é bem verdade. São poesias, contos, livros infantis, ilustrações
e projetos visuais de toda sorte que dão o tom de sua enorme
capacidade criativa para as artes. Duvida? Então, é só
o leitor dar uma olhadinha nos poemas visuais, concretistas e modernos
que "Balalaica" Tobias teceu incansavelmente até a
morte. São poemas que contam um pouco dos momentos mais importantes
da vida do poeta e, coincidentemente, da história do Brasil e
do mundo. O período da ditadura militar, a luta pelo socialismo,
a liberação sexual da mulher são fatos históricos
que influenciaram o poeta e se tornaram recorrentes em sua obra. Temas
que, dentre muitos, conferem valor inestimável à produção
literária de Tobias aqui e lá fora.
Há quase meio século,
o escritor Antônio Cândido, referindo-se à vasta
correspondência entre Mário de Andrade e Manuel Bandeira,
previu que, uma vez reunida, além de arrebatar devotos fervorosos,
"permitirá uma vista completa de sua obra e de seu espírito".
O escritor estava certo. Não é outra coisa que emerge
do enorme volume de correspondência. Da mesma forma acontece com
a obra de Arnaldo Tobias, enquadra-se um pouco no que disse Antônio
Cândido sobre Bandeira e Mário. Ou seja, vai permitir ao
leitor conhecer os labirintos da intimidade e do talento de um poeta
pernambucano da geração 65, considerado um dos mais significativos
de sua época.
A classificação
no primeiro time não é à toa, mas criteriosa, resultado
da apreciação de outros intelectuais e poetas da mesma
estirpe, muitos dos quais seus contemporâneos de geração.
Como o poeta Jaci Bezerra, segundo Wilson Martins, uma das vozes mais
fortes da poesia contemporânea. Jaci foi amigo de Arnaldo e parceiro
de geração, conhece muito bem a "obra" e o "espírito"
do poeta "Balalaica". Certa vez, escreveu: "Arnaldo Tobias
é essencialmente poeta... no bar, só ou entre os amigos...,
ele pensa, age, respira e vive como o poeta que sempre foi e é.
A poesia para ele é o seu elemento de sustentação
e conciliação com o mundo, condição essencial
de sua sobrevivência". É verdade. Nem a morte o afastou
do fazer poético, porque, para Arnaldo, "o poema está
na estrada/ para ser seguido/ para ser gritado/ antes que anoiteça".
A publicação da
obra de Tobias é imperativa e deve trazer à tona, para
um maior número de leitores, o nome de um poeta pernambucano
até então só conhecido e reconhecido nos raros
e diluídos grupos literários que ainda sobrevivem na cidade.
E olhe lá. Isso em função única e exclusivamente
de ações isoladas, mas voluntariosas, ornadas da mais
pura intenção, de alguns poetas, admiradores da poesia
e abnegados da causa, que ajudam, vez por outra, a divulgar espontaneamente
a produção literária que é feita aqui. Arnaldo
é dono de uma obra firme, técnica, porém intuitiva
e extremamente crítica, não merece o destino de tantos
outros bardos desafortunados, alguns de notório talento, que
se perderam e ainda se perdem no mofo dos acervos, depósitos
e bibliotecas por aí.
O poeta também não
merece a indiferença do público, ser conhecido apenas
nos círculos fechados de literatura, restrito à plêiade
de empolados intelectuais, por mais que tal comportamento, para muitos,
seja considerado "conveniente" e "politicamente correto".
Não que o fato de ser conhecido nesses círculos represente
qualquer demérito. Ao contrário, trata-se de reconhecimento
legítimo, justo, na medida exata da importância de sua
produção literária. Talvez, por isso mesmo, deva
extrapolar, ir além dos limites dos pequenos saraus de poesia,
levando sua obra para, cada vez mais, um público maior de leitores.
Quem conheceu o poeta sabe disso. Compreende que a arte não é
privilégio de indivíduos ou de grupos isolados, mas direito
inequívoco de qualquer pessoa, independentemente de sua cor,
fé ou matiz ideológico.
Tobias tinha o cheiro do povo,
gostava de suas histórias, não escrevia para deleite exclusivo
de A ou B. era um poeta sóbrio, comprometido com o mundo, com
a história, não fazia literatura pensando em fama, sucesso,
festa ou mero diletantismo. Não. Escrever, para o poeta, era
mais que isso. Era ferramenta contundente contra as injustiças
e iniqüidades sociais, existenciais, sobrevivências. Como
Máximo Gorki, Tobias queria sim, falar para o mundo, abrir o
verbo para quem quisesse ouvi-lo - pequenos burgueses, pobres, injustiçados
de uma maneira geral, não importa - escancarar a palavra, ocupar
os espaços poéticos, bradar ao lado de Luisa, a "guerrilheira",
e do companheiro Guevara, anunciando a esperada revolução.
Infelizmente, para Arnaldo Tobias e o seu companheiro Che, o sonho de
liberdade não vei ser mais possível. Fica a utopia da
revolução na obra do poeta guerrilheiro, a lembrança
do seu agradável convívio e da prazerosa leitura de seus
versos, poesia nos cimos da boa literatura. (texto encaminhado pelo
autor)
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BREVE BIOGRAFIA
(IM)PESSOAL
PARA CADASTRO NO INQUÉRITO eu
fui o perfil
de fuzis e baionetas
para cumprir campos
e trincheiras
e não cumpri
eu fui o sentinela
feito de muralha
para impedir flâmulas
e bandeiras
e não impedi
eu fui o soldado
de atalhos e travessias
para entender de rumos
e fronteiras
e não entendi
eu: estatura mediana
(um metro e sessenta e sete
de altura e solidão
peso avaliado
em balanças de agonias
identidade: 352.526
cor: pardo
como todos os gatos à noite
tipo sangüíneo: "A" Positivo
profissão: poeta e boêmio
olhos: de sol e penumbra
cabelos: de neblina e luares
sinais particulares:
um poema tatuato na língua)
que quis ser nas fileiras
o soldado inicial
para morrer por Luísa
a guerrilheira
e não morri
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Ave,
Tenente Fúria!
(imagens do livro "Arnaldo
Tobias - Singular & Plural", organizado por Glauco Guimarães
- Recife 2001/IMC)
*CIDA PEDROSA
é poeta e co-editora da INTERPOÉTICA
**BRÁULIO
BRILHANTE é contista, jornalista e crítico literário