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Arnaldo Tobias
guerrilheiro das palavras

 

Arnaldo Tobias é pernambucano, nasceu no agreste, na cidade de Bonito, em 1939 e faleceu no ano de 2002 na cidade do Recife. Foi participante ativo da Geração 65 e editou: Pomar (1979), Passaporte (1981), Nu Relato (1983) -Edições Pirata; Tenda Proibida (1987) - Edições Sagitário; O Ditador e outros Contos (1991) - Editora Nordestal; O Gavião e a Coruja (1993), o Ratinho Órfão (1994) - Editora 20-20; Quem Sou Eu?(1995) - Edições Bagaço. Participou ainda de diversas antologias poéticas.
Poeta, ficcionista, escritor para adultos e crianças, artista gráfico e editor. Marcou a vida literária do Recife inaugurando as Edições Pirata, com seu livro Pomar, e distribuindo seu fanzine PRO-TEXTO, arma eficiente e corrosiva, sempre esperado pelos artistas e simpatizantes que freqüentavam a Rua 7 e suas imediações. (os editores)

 

Two beers or not Two beers

por Cida Pedrosa*

A Primeira vez que vi “Tobaica”, vi um homem por trás de um óculos e de um copo. Sua timidez era tão funda que me deixou sem graça. Sua doçura era tão funda que me desorganizou os olhos. Passada a primeira visão, vi apenas um homem bom de poesia, de copo e de amizade. Na verdade, antes de qualquer coisa, tive o prazer de conhecer um construtor de sonhos e de boas palavras.

Sua poesia é dura e irônica, sem deixar de ser suave e lírica; comprometida e engajada, sem ser panfletária; inovadora e experimental, sem cair nos modismos das vanguardas histéricas. Dual! Essa é a palavra que talvez melhor expresse esse poeta, cheio de musas reais e imaginárias, capaz de receber tantas alcunhas ternas e revolucionárias, como tantas são as faces da sua obra, ainda pouco conhecida do público em geral, infelizmente.

Ave Poesia! Ave Arnaldo! Ana Marguerite! Tobias! Balalaica! Tenente Fúria! Tobaica! Two beers or not Two beers! E basta.

 

UTOPIA & REVOLUÇÃO

Por Bráulio Brilhante**

Nos anos 60, havia estudantes rebelados em Paris, nas universidades americanas e até no Brasil, pregando a derrubada do que consideravam um mundo velho. Nos anos 70, tínhamos hippies e comandos revolucionários dispostos a virar pelo avesso as estruturas sociais. Agora, há verdes, lésbicas, gays, radicais, anarquistas e outras tribos díspares. É a eterna rebeldia da juventude - mas o que se tem em pleno século XXI é um fenômeno de características muito próprias. O poeta e escritor pernambucano Arnaldo José Tobias - considerado pérola rara no universo da geração 65 - vivenciou a época como parte dessa mesma juventude contestadora, rebelde, que explodiu ruidosamente, no Brasil, há 30 anos atrás, quando as relações entre as nações eram regidas pela rivalidade entre as superpotências. Nesse tempo, Arnaldo era jovem, politizado, particpava das greves e manifestações de rua contra a ditadura militar, e sonhava com uma sociedade livre da opressão, da censura e da fome. Arnaldo morreu em um belo domingo de maio, mas o sonho permanece vivo em sua obra.

Parte dessas impressões, angústias, equívocos e alegrias, vividas pelo poeta, nesse e em outros tempos, está na pequena, porém, seleta obra que deixou para a posteridade..Ainda que fosse o último grande poeta engajado do século XX, a vida e a poesia de Tobias representam tudo aquilo que o bom mocismo ou a tradição conservadora dos beletristas tanto repudiam. Sua poesia tem palavra forte, mistério, fluidez, língua ferina. Caracteriza-se pela linguagem descontínua, com acentuado desprezo pelas pontuações gramaticais. Vírgulas, apóstrofos e travessões são elementos estruturadores do discurso poético.

Arnaldo deixou uma obra consistente, é bem verdade. São poesias, contos, livros infantis, ilustrações e projetos visuais de toda sorte que dão o tom de sua enorme capacidade criativa para as artes. Duvida? Então, é só o leitor dar uma olhadinha nos poemas visuais, concretistas e modernos que "Balalaica" Tobias teceu incansavelmente até a morte. São poemas que contam um pouco dos momentos mais importantes da vida do poeta e, coincidentemente, da história do Brasil e do mundo. O período da ditadura militar, a luta pelo socialismo, a liberação sexual da mulher são fatos históricos que influenciaram o poeta e se tornaram recorrentes em sua obra. Temas que, dentre muitos, conferem valor inestimável à produção literária de Tobias aqui e lá fora.

Há quase meio século, o escritor Antônio Cândido, referindo-se à vasta correspondência entre Mário de Andrade e Manuel Bandeira, previu que, uma vez reunida, além de arrebatar devotos fervorosos, "permitirá uma vista completa de sua obra e de seu espírito". O escritor estava certo. Não é outra coisa que emerge do enorme volume de correspondência. Da mesma forma acontece com a obra de Arnaldo Tobias, enquadra-se um pouco no que disse Antônio Cândido sobre Bandeira e Mário. Ou seja, vai permitir ao leitor conhecer os labirintos da intimidade e do talento de um poeta pernambucano da geração 65, considerado um dos mais significativos de sua época.

A classificação no primeiro time não é à toa, mas criteriosa, resultado da apreciação de outros intelectuais e poetas da mesma estirpe, muitos dos quais seus contemporâneos de geração. Como o poeta Jaci Bezerra, segundo Wilson Martins, uma das vozes mais fortes da poesia contemporânea. Jaci foi amigo de Arnaldo e parceiro de geração, conhece muito bem a "obra" e o "espírito" do poeta "Balalaica". Certa vez, escreveu: "Arnaldo Tobias é essencialmente poeta... no bar, só ou entre os amigos..., ele pensa, age, respira e vive como o poeta que sempre foi e é. A poesia para ele é o seu elemento de sustentação e conciliação com o mundo, condição essencial de sua sobrevivência". É verdade. Nem a morte o afastou do fazer poético, porque, para Arnaldo, "o poema está na estrada/ para ser seguido/ para ser gritado/ antes que anoiteça".

A publicação da obra de Tobias é imperativa e deve trazer à tona, para um maior número de leitores, o nome de um poeta pernambucano até então só conhecido e reconhecido nos raros e diluídos grupos literários que ainda sobrevivem na cidade. E olhe lá. Isso em função única e exclusivamente de ações isoladas, mas voluntariosas, ornadas da mais pura intenção, de alguns poetas, admiradores da poesia e abnegados da causa, que ajudam, vez por outra, a divulgar espontaneamente a produção literária que é feita aqui. Arnaldo é dono de uma obra firme, técnica, porém intuitiva e extremamente crítica, não merece o destino de tantos outros bardos desafortunados, alguns de notório talento, que se perderam e ainda se perdem no mofo dos acervos, depósitos e bibliotecas por aí.

O poeta também não merece a indiferença do público, ser conhecido apenas nos círculos fechados de literatura, restrito à plêiade de empolados intelectuais, por mais que tal comportamento, para muitos, seja considerado "conveniente" e "politicamente correto". Não que o fato de ser conhecido nesses círculos represente qualquer demérito. Ao contrário, trata-se de reconhecimento legítimo, justo, na medida exata da importância de sua produção literária. Talvez, por isso mesmo, deva extrapolar, ir além dos limites dos pequenos saraus de poesia, levando sua obra para, cada vez mais, um público maior de leitores. Quem conheceu o poeta sabe disso. Compreende que a arte não é privilégio de indivíduos ou de grupos isolados, mas direito inequívoco de qualquer pessoa, independentemente de sua cor, fé ou matiz ideológico.

Tobias tinha o cheiro do povo, gostava de suas histórias, não escrevia para deleite exclusivo de A ou B. era um poeta sóbrio, comprometido com o mundo, com a história, não fazia literatura pensando em fama, sucesso, festa ou mero diletantismo. Não. Escrever, para o poeta, era mais que isso. Era ferramenta contundente contra as injustiças e iniqüidades sociais, existenciais, sobrevivências. Como Máximo Gorki, Tobias queria sim, falar para o mundo, abrir o verbo para quem quisesse ouvi-lo - pequenos burgueses, pobres, injustiçados de uma maneira geral, não importa - escancarar a palavra, ocupar os espaços poéticos, bradar ao lado de Luisa, a "guerrilheira", e do companheiro Guevara, anunciando a esperada revolução. Infelizmente, para Arnaldo Tobias e o seu companheiro Che, o sonho de liberdade não vei ser mais possível. Fica a utopia da revolução na obra do poeta guerrilheiro, a lembrança do seu agradável convívio e da prazerosa leitura de seus versos, poesia nos cimos da boa literatura. (texto encaminhado pelo autor)

 

BREVE BIOGRAFIA (IM)PESSOAL
PARA CADASTRO NO INQUÉRITO

eu fui o perfil
de fuzis e baionetas
para cumprir campos
e trincheiras
e não cumpri

eu fui o sentinela
feito de muralha
para impedir flâmulas
e bandeiras
e não impedi

eu fui o soldado
de atalhos e travessias
para entender de rumos
e fronteiras
e não entendi

eu: estatura mediana
(um metro e sessenta e sete
de altura e solidão
peso avaliado
em balanças de agonias
identidade: 352.526
cor: pardo
como todos os gatos à noite
tipo sangüíneo: "A" Positivo
profissão: poeta e boêmio
olhos: de sol e penumbra
cabelos: de neblina e luares
sinais particulares:
um poema tatuato na língua)

que quis ser nas fileiras
o soldado inicial
para morrer por Luísa
a guerrilheira
e não morri


Ave, Tenente Fúria!

(imagens do livro "Arnaldo Tobias - Singular & Plural", organizado por Glauco Guimarães - Recife 2001/IMC)

*CIDA PEDROSA é poeta e co-editora da INTERPOÉTICA

**BRÁULIO BRILHANTE é contista, jornalista e crítico literário

 

Confira alguns poemas de Arnaldo Tobias e Cida Pedrosa no Cardápio de Poesia e textos de Bráulio Brilhante na seção Artigos

 

 

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