>> por Josualdo Meneses

Silenciou...
Uma espinha de garganta que a poesia acalanta.
Silenciou. Silenciou uma poesia, pois, a espinha que alfinetava, espinhava aquela outra poesia acomodada, fofa de oficialidade e até mesmo a literatura biroônica (neologismo nosso), desencarnou.
Podemos falar de espinha dorsal, da espinha dos peixes, da espinha do tempo – metáfora para a vida – e ainda da espinha de um grande prédio, as “favelas em pé”, que são muitas no Recife e que em si se equilibram com centenas de outras espinhas residindo em seu interior e vivendo, falando e sofrendo todo o “absurdo de viver” como dizia Yonhesco. Podemos falar ainda da espiral do tempo que em certa medida organiza e programa a cronologia da vida de cada vivente. Mas, uma poesia calou, pois, calou-se a sua espinha falante. Não era nenhum Cervantes, era um servo da palavra, apenas uma grandiloqüente espinha falante.
Um eco permanecerá, e através de seus intérpretes e de comedores de poesia irrequieta, a espinhosa poesia viverá. Não confundamos o filósofo Espinosa com a poesia espinhosa de identidade e espírito próprios, de Espinhara. Cada uma por seu lado calcado de sua filosofia própria.
Acredito que Augusto dos Anjos, Castro Alves, Lima Barreto, Boal, Nietzsche, Machado de Assis não se sintam tristes por ter se calado a poesia espinhosa. Estarão ao certo duvidando de tudo ao dividir lá, no Eta – lugar etéreo dos poetas – suas mesas repletas, fartas de sonetos, discursos literários e vinhos. Muito vinho. E dizendo vem pra perto espinhosa (Espinhara) divide conosco esse momento. Tuas letras vertem falas que nos agradam, não nos incomodam jamais. Eis um dos nossos... Vem! E um espaço se abre humano e ébrio de vida entre aqueles pares.
Pois é. Cantar a vida como ela é, foi tarefa espinhosa dessa poesia encabulada, feita em versos e a marretadas. Como um último gemido de dor. Daquelas dores que só se encontra nas frestas e não nas festas do social. Dor de desabafo, dor de ter vivido imperfeitamente perfeito dentro da imperfeição dos outros.
Não digo. Não digo jamais que essa poesia morreu e se enlutou. Pois, todos os poetas do povo vivem e partilham uma dor de um parto que ainda não foi terminado e o rebento ainda não nasceu. Esse filho desse parto a espinhosa poesia sonhava o homem livre de todas as amarras. Era assim que a espinhosa poesia encarava letra por letra de braços dado com a vida, vivida nos becos, nos guetos, no Capibaribe, na Rua da Roda, e da Sete de Setembro e do Recife da “marginália” poética e de todos os poetas não madrigais que viveram e dividiram a boêmia com e a espinhosa poesia.
Era assim, sim, certa poesia espinhosa e esperançosa em seu drama ou tragédia, expelida por uma poesia, uma voz chamada de Espinhara.
JOSUALDO MENESES
é poeta e professor de História da Universidade de Pernambuco
jomeness@bol.com.br