Hibernações
e Ressurreições de Deolindo Tavares
“Deixemos,
portanto, este céu deserto como um deserto
boiar neles como flores em algum lago.
Ah, este céu é o olho maior que nos espia,
ah, como este céu abandonado pesa sobre os meu ombros
e sobre cada um de meus sonhos!”
Deolindo
Tavares
Há certos autores mortos
que ficam numa espécie de limbo histórico e só
emergem momentaneamente naqueles minutos de conversa, entre os poucos
vivos que ainda olham relutantemente para trás. São tais
autores feito certas cartas meio cifradas que encontramos, por acaso,
quando buscamos apressados um lápis, um clips, ou um pente, na
gaveta da cômoda. Então, alguma frase que nos parecia inocente
ou vazia, assume, entre duas tragadas, a força da revelação.
E é o bastante para procurarmos um hoje raríssimo e leal
amigo para dizer-lhe, em confidência, coisas piegas desse tipo:
Ela me amava. Eu que não sabia lê-la naqueles tempos!
É assim que vem resistindo
a poesia de Deolindo Tavares: lembrança intermitente e revelação
inesperada que transitam entre emulações e ciúmes
das gerações que lhe seguiram. Isso, nessas quase cinco
décadas de seu desaparecimento, recém-saído da
adolescência (23 anos) e em pleno esplendor da Batalha do Pacífico,
no longínquo ano de 1942.
Sua pessoa e sua obra, após
relermos os depoimentos de seus contemporâneos, em especial Gilberto
Freyre e João Cabral de Melo Neto, pareceram-nos impregnadas
daquela “sabedoria da insegurança” de que nos fala
Allan Watts, em memorável livro do mesmo título. Estranho
e, ao mesmo tempo, revelador, o fato de que a Secretaria de Turismo,
Cultura e Esportes/FUNDARPE, através do seu Conselho Editorial,
promova a terceira edição de um poeta confessional em
um tempo em que o confessionalismo se alastra na mais nova poesia brasileira,
após a rigorosa e profilática dieta verbal das vanguardas.
Estranho que, nesses tempos de insegurança e imprecisos pós-modernismos,
a voz longa mas sussurrante de Deolindo comece a ecoar em tinta e papel
novos, para o conhecimento e o espanto, principalmente, das novas gerações
.
Ele é o que vem sendo lembrado
quando todos os que estão nas listas dos mais vendidos já
o foram; quando os poetas do dia já viraram quesitos do vestibular;
quando os poetas (vivos) já foram suficientemente vilipendiados
por outros poetas vivos nas mesas de bar; quando os poetas bonitos já
foram “cantados” pelas tias e tietes de todos os lançamentos
da Capital...
Agora, que atravessou duas edições
póstumas, o fantasma de Deolindo reaparece do mesmo modo, triste
e desorientado, diante da incompreensão do mundo; como Gasparzinho,
o fantasminha dos quadrinhos infantis. Reaparece para os que o amavam
com receio de ser surpreendidos por algum teórico acadêmico,
um radical, oportuno e necessário às vanguardas, ou para
os "pobres sem visão (que) pensam que são flores".
As quase imperceptíveis
(para o grande público) hibernações e ressurreições
de Deolindo, cuja obra se apresenta limpa e desnudada para as sanhas
e manhãs deste final de Século, vêm reforçar
a minha antiga convicção de que o valor se impõe,
mas não se impõe necessariamente como gostaríamos
que se impusesse, com a valorização contemporânea
de sua existência. A morte do artista não deixa de ser
o mais garantido teste de sobrevivência de sua arte. Por falar
nisso, lembrei-me agora mesmo de Medeiros e Albuquerque. Por onde andam
os livros desse escritor pernambucano polêmico? E Benjamim Constalat,
que foi feito do sucesso estrondoso de seus romances durante a sua vida?
Será que cabe para os extremamente felizes, quando vivos, uma
paráfrase da expressão de Cristo: Eles já tiveram
a sua recompensa? Não vamos tanto ao pote d’água
como São Pedro, depois de Cristo transformá-la em vinho...
Picasso e Gilberto Freyre não foram certamente exceções.
Mas nenhuma morte, de velho ou moço, transformará seus
trabalhos em obras-primas.
O que podemos dizer com absoluta
certeza sobre a obra de Deolindo Tavares é que ela nunca dispôs
do que hoje pedantemente chamam de lobby cultural. Diante dos gritos
da Geração de 22 ela resolveu ficar com os sussurros dos
poetas aparecidos na década de 30. Espremido como dois de seus
autores prediletos - Jorge de Lima e Murilo Mendes - entre o assalto
à Bastilha dos modernistas de 22 e a guerrilha racionalista da
Poesia Concreta, a que sua morte não permitiu participar. A força
e a permanência de Deolindo Tavares estão certamente na
sua adesão espontânea e não oportunística
às suas admirações de época, sem falar no
pequeno mas significativo mergulho na discussão étnico-regionalista
inaugurada por Gilberto Freyre na segunda metade da década de
20. Comparando sua poesia - velho vício esse do paralelismo cultural
- com a de outro poeta brasileiro de que muito me sinto devedor, Ribeiro
Couto, poderia dizer que, apesar da atração de Deolindo
pelos versos longos, versículos talares, seu tom de voz é
o dos amedrontados. Vejam como esses versos de Ribeiro Couto não
caberiam bem na descrição do universo deolindense: “Minha
poesia é toda mansa... / Não gesticulo, não me
exalto / meu tormento sem esperança / tem o pudor de falar alto”.
Falar alto, à maneira de Castro Alves, realmente não parece,
como lembrou Gilberto Freyre, ser o tom desse confessionalista introvertido,
que se vingava do mundo com discursos poéticos proferidos para
o teatro fechado de seus sonhos este lares. O que mais me chama a atenção
na obra de um poeta que diz: “Sou mais pobre do que Job, / mais
rico do que Salomão: sou poeta (...)”, é encontrar
subjacente nessa obra o tônus romântico de fatalidade e
uma gana de dissolução e desaparecimento absoluto, a ponto
de culminar com esses versos inscritos intencionalmente em caixa alta
(ele que não procura chamar a atenção):
NUNCA ESTAMOS SÓS,
NUNCA ESTAREMOS SÓS,
NEM MESMO PERFEITAMENTE MORTOS.
Não encontramos nele, no
entanto, essa morbidez estrangeira de um Schiller, que só se
inspirava abrindo a gaveta da escrivaninha para cheirar suas maçãs
apodrecidas. Ele é bem um poeta tristemente tropical, surpreendentemente
brasileiro, apesar de suas admirações óbvias por
Rimbaud, numa época em que Ariano Suassuna ainda não nos
tinha ensinado a nos comparar com nós mesmos. Daí essa
melancolia anti-londrina, muito nossa, estampada nesse, para falar numa
palavra antiga de B. Lopes, “cromo”: “Adormeço
num som / desperto numa cor / morro afogado no mar de uma inesperada
estrela”.
A poética de Deolindo, se é que podemos falar na existência
de um corpo verbal, onde textura e estrutura estão intencionalmente
a serviço de uma cosmovisão sedimentada, seja lá
na que for, parece estar claramente definida nos versas a seguir, revelando
uma incipiente repulsa ao que hoje chamamos de construtivismo em poesia
(apesar de que suas várias versões de um só poema
desvelem a artesão latente dentro dele e que não teve
tempo de se desenvolver), completamente compreensível num poeta
que possuía sua abra como única arma contra a adversidade,
tornando-a uma extensão de todo o seu ser: “Se vossas mãos
não são frias neste fim de mês / (...) / não
acredita que haja poesia nos vossos poemas”.
Escrevemos sabre uma Poesia que nos toco e não nos deixa cheios
de dedos. Mas, já é hora de lembrar aos leitores que este
livro mantém toda o texto da 2ª edição das
Poesias de Deolinda Tavares, tornada absolutamente confiável
e enriquecida graças à organização, prefácio
e notas de Fausto Cunha, (aqui incluídos), edição
de 1955 da Irmãos Pongetti - Editores - Rio de Janeiro e custeada
pela Sra. Elisa Tavares da Silva, mãe do poeta.
Ao reeditar as Poesias de Deolindo Tavares, a Secretaria de Turismo,
Cultura e Esportes/FUNDARPE vem atender ao apelo subterrâneo,
embora tímido, de gerações de leitores daquele
que partiu cedo, dizendo: “Ó adolescente que fugiste com
a Poesia e nela te ocultas de todos os massacres”.
Alberto da Cunha Melo
Recife 1988
| Poeta,
jornalista, músico e desenhista, nasceu no Recife, a 21
de dezembro de 1918, e morreu preco-cemente, aos 24 anos de idade,
no dia 06 de maio de 1942. Estudou no Ginásio Pernambucano
e chegou a cursar o primeiro ano da Faculdade de Direito do Recife.
Dedicando-se à imprensa, desempenhou a função
de redator do Diário de Pernambuco. Colaborou
com os Jornais: Diário da Manhã, Renovação
e Caderno Acadêmico. Sua obra poética foi publicada
postumamente na antologia Autores e Livros (1945) e em uma edição
crítica de Fausto Cunha, em 1955, com o título de
Poesias de Deolindo Tavares, reeditada pela FUNDARPE
em 1988.
(Fonte: PERNAMBUCO TERRA DA POESIA - Organizadores: Antônio
Campos e Cláudia Cordeiro)
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