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Cancão

Osíris
da Terra dos Faraós da Poesia
por Lindoaldo
Campos*
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“O cultivo da Poesia jamais deve
ser tão desejável quanto em períodos em que,
em virtude de um excesso do princípio egoístico e
calculista, a acumulação dos materiais da vida exterior
excede a capacidade de incorporá-los às leis internas
da natureza humana”
(Shelley, Uma Defesa da
Poesia) |
Essa é uma tentativa de
compilação da obra do Poeta João Batista
de Siqueira (Cancão), nascido no Sítio Queimadas,
pequena mesopotâmia de São José do Egito,
município da microrregião pernambucana do Vale do Pajeú.
Reuniu-se, neste volume, os poemas publicados em seus livros Musa
Sertaneja (1967), Flores do Pajeú (1969)
e Meu Lugarejo (1979) e aqueles (vários deles
inéditos) que constam de vetustos manuscritos e registros fonográficos,
entesourados e garimpados, durante largo tempo, nas vigiadas gavetas
de admiradores desconfiados.
Amadrinha esta empreitada, unicamente,
a grata satisfação de um anseio amanhecido já em
quadra mui recuada, mas somente há pouco amadurado, na escutação
de alguns de seus alumiosos cânticos nas lancinantes declamações
de Zeto, outro nobilíssimo bardo de saudosa memória. Foi
quando, ouvendo A Casa do Ébrio e Sonho
de Sabiá, arrebatado por seu impressionismo imagético,
arroguei-me a incumbência de não deixar perecer no limbo
do ostracismo quem se alçou às vertiginosas culminâncias
da Arte de Homero e de Arquíloco.
Entretanto, se o cumprimento desta
demanda significa uma espécie de prestação de contas
sentimental com o Poeta, é certo que exprime, também,
a superação de desmedidos obstáculos, dos quais
se destaca a inglória peleja de definição do texto
que viria a figurar no ‘corpo’ da obra. Isto porque numerosos
poemas foram republicados (de se ver, p. ex., que de Musa Sertaneja
apenas Saudades da Minha Terra e Ano Novo não
constam nos demais livros) e o que deveria constituir um aspecto facilitador
do trabalho de organização terminou, isto sim, por torná-lo
extremamente árduo, uma vez que do necessário cotejo realizado
entre as publicações – e, ademais, entre estas e
os referidos manuscritos e registros fonográficos –, verificou-se
a existência de diversas e significativas variações
textuais, indicativas da freqüente refundição
a que o Poeta expunha suas composições e, portanto, da
salutar modéstia e da nobre humildade que o notabilizaram.
O espinhoso dilema se punha, todavia:
como escolher, sem receios, entre os versos “num lago oculto e
sombrio” e “num lago vasto e sombrio”, do poema Manhã
de Chuva, como publicado nos livros Meu Lugarejo e Musa Sertaneja? Ou,
para não me alongar nos exemplos, entre os versos “belas
roseiras nevadas / diariamente abanadas / das asas do beija-flor”
e “belas roseiras nevadas / diariamente abanadas / das brisas
do sol-se-pôr”, do poema Meu Lugarejo, assim editado em
Flores do Pajeú e Meu Lugarejo?
Assim sendo, e tendo em mira que
tais reformas constituem usança consagrada na arte literária1,
para o cumprimento desta penosa tarefa recorreu-se a critérios
(não seqüenciais e não excludentes) como coerência
com o restante da composição, recentidade
da publicação e caráter estético
das versões, privilegiando-se, no entanto, quando existentes,
aquelas que constam dos aludidos registros pessoais do autor. A título
de exemplo, é o que ocorreu com o 3º verso da seguinte estrofe:
Vestal linda dos templos de
Diana
Parnasiana de sublime inspiração
Rainha amada das fontes de Castália
Dourado cisne do País do Coração
(Teus Vinte Anos e Tua Beleza)
No livro Meu Lugarejo, onde foi
publicado, consta “Rainha amada das fontes de cristal”,
sendo que a versão acima transcrita consta de manuscrito do autor.
Ora, conquanto semelhantes na grafia (e por isto explicável o
equívoco editorial), os vocábulos finais possuem significados
bastante distintos, de modo que a substituição efetuada
represtigiou a composição, alusiva, toda ela, à
arte poética e à mitologia grega: segundo esta, Castália
é a fonte da inspiração poética, nascida
no Monte Parnaso, morada das Musas e de Apolo, deus da poesia e da música,
e donde deriva o termo parnasiana, que, assim como o vocábulo
vestal (sacerdotisa de Vesta, deusa do fogo) possui, no sentido do texto,
o significado de moça pura e ingênua2.
Como é fácil inferir,
no entanto, tais precauções não se mostraram suficientes
à extirpação de todas as hesitações
na conclusão deste processo de seleção, dado que
se trata de variantes igualmente sublimes e legítimas, supostamente
submetidas à revisão do Poeta, de modo que nalgumas ocasiões
terminaram por preponderar as débeis faculdades perceptivas do
organizador, único responsável, portanto, em todo caso,
pelos inevitáveis e abundantes desacertos que certamente terão
registro neste volume.
Todavia, na sensata (e aguardada)
apreciação crítica dos leitores, valha-me, ao menos,
o propósito de difundir a obra de Cancão em sua inteireza,
e, para tanto, haver procedido à transcrição
das variantes não selecionadas em notas apostas no final do volume
(referidas aos respectivos poemas através da indicação
numérica contida em seu título). Afrontou-se, assim, o
temor de se avolumar a obra em demasia, primeiro, porque tais notas
foram dispostas numa espécie de apêndice, inserto na derradeira
parte do livro, de modo a não embaraçar a leitura dos
poemas, e, segundo, porque tal procedimento, longe de constituir um
preciosismo inócuo, denota o profundo respeito que aqui se guardou
ao Poeta e aos leitores: àquele, porque teve registrado seu laborioso
e fecundo processo de criação; a estes, porque se lhes
permite que, à luz de suas próprias reflexões,
procedam às observações e substituições
que porventura entendam oportunas para uma melhor apreensão do(s)
sentido(s) das composições.
Ademais, é oportuno assinalar
que nestas notas ousou-se entremear um rudimentar esboço de análise
de alguns dos mais relevantes aspectos estético-literários
da obra de Cancão. Em tais anotações, elaboradas
com a pretensão de trazer mais estímulos do que definições,
aventura-se a observação das figuras e dos tropos mais
utilizados pelo poeta, ante a importância que possuem como elementos
que permitem a apreensão da sua visão de mundo,
de sua fisionomia artística e da caracterização
do parentesco estésico que possui com outros
autores3.
Assim, não sendo esta uma
obra de crítica literária, mas que no entanto não
se restringe ao mero ajuntamento de poemas, a fim de evitar equívocos
e dissipar dúvidas, convém tecer algumas considerações
acerca destes elementares apontamentos.
Inicialmente, cabe salientar que
não se descura a preponderância da expressão artística
em relação a qualquer teoria: sabe-se, com Mário
Quintana, que a Poesia não se entrega a quem a define;
sabe-se também, todavia, que tal atividade, além de não
ser refratária à reflexão interpretativa, requisita-a
como condição indispensável à sua própria
caracterização, dada a necessidade de interpretação
inerente às expressões do gênio humano4.
O que acontece é que tal análise somente pode alcançar
seu desiderato quando munida do arsenal teorético que lhe é
fornecido por outra Arte: a Hermenêutica, que é irredutível
ao logos, assim como a Poética, e que por isto mesmo
impõe que, na apreensão da obra do artista, igualmente
o intérprete deva encontrar-se inspirado (enthousiasmado
– no sentido etimológico: en + thous
= com um deus dentro)5.
Deste modo, à concepção
irracionalista que propugna a esterilidade das controvérsias
sobre Estética e Arte6 sobrepôs-se o entendimento
de que, longe de constituir uma ameaça à liberdade inventiva,
a análise dos distintos aspectos da criação consiste,
em verdade, numa defesa desta sua autonomia. Isto porque a obra corporifica
a visão de mundo do autor e, ao solicitar nosso
juízo acerca do conteúdo de sua representação,
não apenas permite, mas impõe mesmo, que tornemos notórias
as múltiplas e proeminentes implicações que possui
sobre a nossa visão de mundo, cuja tenebrosa e apertada
vereda é assim iluminada e alargada pelo poder fecundante das
imagens que assimilamos, pois é com base nelas que interpretamos
a vida e nos exercitamos para viver7.
Assentadas tais premissas, compreende-se
a importância dos métodos e das técnicas da Teoria
Literária e da Estética Filosófica para o devido
aclaramento e a adequada apreensão da mundividência do
poeta, sobretudo do poeta lírico, porquanto as imagens que concebe
nada mais são que objetivações de si mesmo
e os recursos estilísticos de que faz uso não constituem
meros elementos de retórica, mas aquilo que realmente
paira diante de seus olhos, seu universo mitopoético8.
Daí porque se assevera que:
“o verdadeiro poeta lírico
vive em si mesmo, apreende as circunstâncias conformemente à
sua individualidade poética e, por mais variadas que sejam
as relações que se estabeleçam entre a sua interioridade,
por um lado, e o mundo sensível, com as suas concepções
e destinos, por outro, o tema principal (de sua obra) é o livre
movimento dos seus próprios sentimentos e meditações
(...)
O homem, ciente de sua subjetiva interioridade, vê a si próprio
e torna-se para si mesmo uma obra de arte.”
(Hegel, Curso., ob. cit., pp. 518 e 519)
Contudo, se é certo que
as imagens intuídas pelo poeta lírico efetivamente constituem
a expressão da sua vida, não menos correto
é que esta sua mundividência não se oferece plenamente
na mera literalidade do texto, vazado, este, em caracteres lingüísticos
que são meros meios de transmissão, degradados
até o nível de insignificantes sinais9. Por esta razão,
para além do aspecto vernacular, a visão de mundo do autor
subjaz, inclusive (e sobretudo), em significações
latentes que se comprimem e se difundem particularmente através
das figuras e dos tropos que emprega em sua faina criadora, pois são
os recursos de que se vale para conferir carga lírica ao texto
e criar a sua realidade artística, e que constituem, portanto,
não apenas o meio através do qual comunica
a sua decifração do mundo, mas também a forma
à qual se encontra jungido para alcançar tal desiderato,
no inesgotável paradoxo em que a arte literária se
embaraça, mas do qual se nutre10.
A repisada recorrência a
tais figuras e tropos constitui também um dos mais nítidos
aspectos do que se denomina de forças-motrizes ou filosofemas,
modalidades de redundância que compõem o núcleo
fundamental da visão de mundo do escritor, e que possuem indelével
importância no sentido de trazer à baila os elementos que
permitem apreender a sua identidade literária,
pois
“é verdade universalmente
empírica que todo escritor se repete, como se os textos segregados
por sua imaginação apenas fossem as variações
do mesmo tema ...
Faz parte das idéias assentes que entre o Eça de Queirós
das Prosas Bárbaras e A Cidade e as Serras
persiste uma unidade substancial, uma visão de mundo específica
do ficcionista, que a discrepância vocabular, mesmo a sintática
ou a estrutural, pode camuflar, mas não diluir. Idêntico
raciocínio vale para a trajetória de um Machado de Assis,
um Carlos Drummond de Andrade, um Fernando Pessoa, para apenas nos
restringirmos aos autores vernáculos.”
(Massaud Moisés, Literatura., ob. cit., pp. 36/37)
Destarte, embora não tencione
explicar a obra do autor de modo mais profundo do que ele a concebeu
(advertido estou, com Nietzsche, que isto terminaria por obscurecê-la),
o intérprete que se pretenda respeitoso não pode se satisfazer
com a mera compreensão de seus sinais exteriores, pena de não
enxergar tudo aquilo que, de algum modo, lá está. É
necessário que envide esforços para decifrar o saber
que se amoita na dobra da metáfora11, pois se
por um lado é provável que venha a atribuir ao autor propósitos
que lhe são desconhecidos, é igualmente correto, por outro
lado, que nada descobrirá em sua obra que ali já
não estivesse, e que por esta razão possui tanta
legitimidade e valorosidade quanto aquilo que efetivamente se tencionou
nela exprimir12, uma vez que
“... existindo um conhecimento
histórico e lingüístico adequado, o intérprete
encontra-se em posição de compreender melhor o autor
do que este se compreendeu a si próprio. Dilthey ... faz remontar
esta possibilidade à concepção de Fichte da alma
como possuidora de intuição consciente e inconsciente
e descobre que 'o intérprete que segue conscienciosamente o
fio do pensamento do autor terá de trazer para o nível
consciente muitos elementos que ficariam inconscientes neste último
– compreendê-lo-á, por conseguinte, melhor do que
ele se compreendeu a si próprio' (Dilthey, XIV/I, p. 707).”
(Josef Bleicher, Hermenêutica Contemporânea, Edições
70, p. 28.)
Dotados, assim, do adequado arsenal
teorético, podemos ousar descortinar relevantes aspectos da mundividência
de Cancão, como o que nos oferece, p. ex., a sua perene recorrência
aos pássaros, que milipousam13 em
toda a sua obra, e que constituem símbolo não apenas da
fragilidade das coisas terrenas, mas, também, das relações
entre o Divino e o Humano (em grego, aliás, a palavra ornis,
pássaro, significa vaticínio, de vates,
que por sua vez é sinônimo do vocábulo poeta14).
Sintomáticos desta sua contínua personificação
nas aves são os poemas Sonho de Sabiá e Sonho de um
Poeta, e não apenas pela semelhança entre os títulos,
mas porque em ambos decanta as agruras d’agora e canta a liberdade
doutrora:
Depois, uma tarde inteira
O pobre do passarinho
Sonhou que ia à palmeira
Onde tinha feito o ninho
Olhava, em frente, as campinas
Via por trás das colinas
A Natureza sorrindo
Ao sentir a liberdade
Pensou ser realidade
Sem saber cantou dormindo
Viu a vinda do inverno
Nos quadrantes da paisagem
Ouviu o sussurro terno
Do bulício da folhagem
Cantou todo o arrebol,
O brilho morno do sol
Morrendo nos altos cumes
Sentia, quando cantava
Que seu coração chorava
Com mais tristeza e queixumes
(Sonho de Sabiá)
Dormi, dormi na velhice
Sonhei que era pequeno
Senti o zéfiro brando
Soprar, suave e sereno
Aromatizando as plagas
Do meu sagrado terreno
Por sonho via os verdores
Daquela terra querida
A brisa soprava lenta
Dentro da veiga florida
Quebrando o grande silêncio
Da floresta adormecida
Via os verdejantes bosques
As esplanadas mais belas
Pareciam um mar de luz
Os rosais, as caravelas
As aves, as mariantes
Que viviam dentro delas
(Sonho de Um Poeta)
Daí não é
despropositado conceber uma referência à dubiedade íntima
do Poeta, porque, embora sabedor de revelações que só
mesmo Deus compreende (Fantasmas da Noite.) – ou
por isso mesmo –, é de sua índole suscetibilizar-se,
em grau superlativo, ante às vicissitudes mundanas. Endimião
revivido na ribeira do Pajeú, a cujos serões Selene sente
prazer em assistir (Palavras ao Plenilúnio), na sua ânsia
de catarse, Cancão aspira a um mundo só de gorjeios
(O Poeta), intenta alçar seu espírito aos ápices
do amor divino, mas vê frustrada sua pretensão
por se encontrar inexoravelmente preso às excrescências
terreais, por se achar pela voragem do vício deformado
(O Ébrio).
Então é aí,
neste supremo perigo de perdição, quando se encontra privado
da interação que mantinha com a essência da
vida (ficou mais martirizado / pensando no seu filhinho / implume,
sem alimento / exposto à chuva e ao vento / sem poder sair do
ninho – Sonho de Sabiá), em que tomba compelido a
se nutrir das migalhas que lhe oferece o mundo (ouvindo alguém
que cantava / na porta, pedindo esmola – idem), é
aí que se refugia na sua danação: a predestinação
poética: dele se achega, como uma feiticeira salvadora, com seus
bálsamos, a Arte15, e através dela decanta
seus Lamentos, seu Abandono, sua Solidão,
sua Noite Triste, suas Tristezas, suas Queixas
e Revoltas, mas também canta seus Dias de Outono,
seus Momentos Matutinos, sua Meninice, pois é
ela a Musa Consolatrix a que alude Machado de Assis, o último
asilo de que nos diz Castro Alves, a compensação
ponderadora a que se refere Fernando Pessoa. É que
“pela Arte, eles respondem
aos ferimentos e à insegurança que o mundo real lhes
infligem, o que fazem através de outro mundo, no qual tanto
a beleza quanto a feiúra, tanto a felicidade quanto o infortúnio,
tanto o riso quanto o sangue, aparecem domados, cicatrizados e eternizados
pela Beleza.”
(Ariano Suassuna Iniciação., ob. cit., p. 274)16
Deste modo, malgrado viva ferido
por mil anseios, sofrendo pela mágoa alheia
e pelos animais, Cancão se considera o filho mais
querido / de nossa Mãe Natureza, porque é alto o seu sentimento
/ devido ao deslumbramento / do mundo da poesia, e assim, através
de idéias mais altas, faz morada num mundo / de
coisas irreveláveis, onde vive sem egoísmo e ganância
/ entretido na fragrância / das flores que tem seu mundo
(O Poeta). É que nela, na Arte, encontra o meio mais
apropriado para exprimir a sua visão holística, o conhecimento
básico da unidade de tudo o que existe: o Uno-Primordial
a que alude Nietzsche, a unidade substancial a que se refere
Hegel, a escuta crepuscular do jacente, de que fala Virgílio.
Através dela revela-nos que o todo é uno, que
tudo se relaciona (ou interage, para usar uma expressão de nossos
tempos) e diz respeito e uma única realidade, sintetizada, em
sua poética, na Natureza.
Assim, aponta a individuação
como causa primeira do mal da separação entre o geral
e o particular e a necessidade da experiência onírica como
o pressentimento de uma unidade restabelecida17. E, para
isto, a Poesia revela-se-lhe como o instrumento mais
eficaz, uma vez que
“como arte, a poesia é
mais antiga do que a prosa. Exprime a representação
espontânea do verdadeiro, um saber que não separa
ainda o geral das suas viventes manifestações particulares,
a lei das suas aplicações, o fim e o meio, pois não
concebe nenhum destes termos senão em relação
com o outro. Por isso, não exprime um conteúdo, conhecido
somente sob o aspecto da sua generalidade, de maneira figurada, mas,
conformemente ao seu conceito, faz ressaltar, pelo contrário,
a unidade substancial que ignora ainda esta separação
e não admite a existência de simples relações
exteriores entre o geral e o particular. Ela apresenta assim tudo
o que apreende sob a forma de uma totalidade completa e independente
(...)”
(Hegel, Curso., ob. cit., p. 373)18
Através da Poesia, Cancão
ambiciona o rompimento desta individuação e a conseqüente
restauração da unidade substancial, e o faz através
do retorno à pátria de sua infância primeva, seu
reino distante, incandescente e brilhante (Visão de
Um Sonho), onde sempiternamente vive a gozar um tempo ditoso /
de amor, sorriso e meiguice, na simbiótica relação
com a Natureza, seu palacete dourado / puramente bafejado / das
brisas celestiais (Minha Meninice). É a égide
que o protege da dissipação e o mantém
umbilicalmente vinculado à Grande Mãe, pois
“um homem que, como aqui
no caso, haja por assim dizer aplicado o ouvido ao ventrículo
cardíaco da vontade universal, que sinta como o furioso desejo
da existência se derrama a partir daí em todas as veias
do mundo, como torrente atroadora ou como mansíssimo arroio
em gotas pulverizado, tal homem não se destroçará
de repente? Deveria ele suportar ouvir, no miserável invólucro
vítreo do indivíduo humano, o eco de inumeráveis
gritos de prazer e dor do ‘vasto espaço da noite do mundo’,
sem refugiar-se incontivelmente diante dessa ciranda pastoral da metafísica,
em sua pátria primigênia?”
Regressa, assim, uma vez mais
e sempre, a seu edênico mundo infantil, dando vazão ao
indefinido sentimento de nostalgia de um paraíso perdido
que acompanha todos os poetas, de Milton a Fernando Pessoa, de Rilke
a Rogaciano Leite, de Camões a João de Deus e Manoel Filó,
e que constitui a origem comum de sua atividade artística, que
é o primitivismo de que brota a própria inspiração
em que se gera19.
Asila-se nas reminiscências
e alegorias pueris da época da vida em que ainda não
se pertence ao mundo, em que a própria vida é
o abrir dos olhos para uma manhã deliciosa, quando se salta pela
primeira vez do ninho e se sente ainda o calor do ninho20.
E assim poetiza, para continuar o seu jogo infantil sem
renunciar ao prazer da brincadeira, porque não apenas não
se envergonha de suas fantasias como as comunica a todos nós,
oferecendo-nos a possibilidade de também evoluir no sentido de
não interromper nossos devaneios e com eles deleitarmo-nos sem
remorso21.
E para recuperar este seu Ninho
Roubado, requesta o beijo de Euterpe e devota seus cânticos à
Lua, o seu Sol, o sol dos mendigos (Noite
Triste, 7ª déc./1º v.), que em sua obra simboliza
a divindade da mulher e da força fecundadora da vida, fundidas
no culto à Mater Magna, porquanto:
“essa corrente eterna
e universal se prolonga no simbolismo astrológico, que associa
ao astro das noites a presença da influência materna
no indivíduo, enquanto mãe-alimento, mãe-calor,
mãe-carinho, mãe-universo afetivo ...
É a parte do primitivo que dormita em nós,
vivaz ainda no sono, nos sonhos, nas fantasias, na imaginação,
e que modela nossa sensibilidade profunda. É a sensibilidade
do ser íntimo entregue ao encantamento silencioso de seu jardim
secreto, impalpável canção da alma, refugiado
no paraíso de sua infância, voltado sobre si mesmo, encolhido
num sono da vida ...”
(Jean Chevalier, Dicionário de Símbolos, José
Olympio, 2006, pp. 564/565)
Noutro giro, não se pode
olvidar que a análise dos recursos lingüísticos utilizados
pelo poeta termina por evidenciar o apelo sensorial de que
a sua obra é portadora22. A este respeito, no âmbito
da percepção visual distingue-se, na obra de Cancão,
o processo adjetivante de que faz largo uso, suprindo,
com o adjetivo, uma relação lógica extensa, tornando
imediata pela surpresa da relação verbal uma sugestão
que morreria, se se desdobrasse logicamente23. É
o que se tem quando se refere, por exemplo, ao espaço vermelho,
à desabrida procela, à tarde outonal,
à água que vem chorosa, às noites
cravadas de vaga-lumes, à voraz ternura da mulher,
às lindas tardes toldadas, à boca triste
da fonte, às manhãs subdouradas, às
brancas nuvens franjadas, ao céu deserto ou
à sombra anilada.
Por outro lado, no âmbito
rítmico, da musicalidade, tais sugestões estéticas
podem ser sumariadas através das diversas figuras de harmonia
que utiliza na urdidura dos poemas, evocando-lhes a música
latente, primeva, como o demonstra o reiterado uso da aliteração:
viu a vinda do inverno, canta contente o carão, o vento que vem
convulso, os grilos trilam tristonhos, mostrando, ainda, muitas marcas
mortas.
Através de tais fenômenos
retóricos, oferece continuidade à tarefa de Arquíloco,
belicoso servidor das musas, que mereceu dos gregos a especial
distinção de ser colocado ao lado de Homero por haver
introduzido a canção popular na literatura e fazer, assim,
com que a linguagem envide todos os seus esforços para
imitar a música, o que consiste na própria essência
da poesia lírica. Por tal razão é que Nietzsche
se refere a esta como a fulguração imitadora da música
em imagens e conceitos, salientando que o fenômeno
mais importante de toda a lírica antiga era a identidade, em
toda parte considerada natural, do lírico com o músico
(o próprio vocábulo lirismo advém de lira, instrumento
musical de cordas, e soneto originariamente significa pequeno
som), concluindo, a respeito:
“(a obra de arte do poeta
lírico) foi com razão qualificada de repetição
ou reprodução do mundo; esta música torna-se-lhe
depois mais sensível e, por influência apolínea
do sonho, visível em imagens simbólicas (...)
A canção popular aparece-nos, antes de mais, como espelho
musical do mundo, como melodia primordial que anda à procura
da imagem de sonho que lhe seja irmã para a exprimir num poema
(...)
A poesia do poeta lírico nada pode exprimir que não
esteja já contido, com a mais extraordinária universalidade
e perfeição, na música que o obrigou a fazer
a tradução imaginal.”
(O Nascimento., ob. cit., pp. 44 e 51)
Também por isto Hegel
conclui:
“A Plástica
é o signo do Espírito. Ela exprime a vida criadora,
mas paralisada e limitada pelo tempo e pelo espaço.
A Música, ao contrário, revela-nos diretamente
o movimento íntimo da alma, com seus desejos e sentimentos
eternos e sua aspiração ao infinito.
A Poesia, finalmente, é a Música Plástica.
Ela pinta e esculpe por meio de frases dotadas de mobilidade e por
sons que se sucedem, harmoniosamente ritmados.
Ela é a Arte suprema e exprime o pensamento por imagens.”
(Curso., ob. cit., p. 345)
Nesta senda, vale ressaltar que,
no caso do poeta lírico, a evocação dos já
referidos filosofemas converge também para o fenômeno
da repetição, que, ao invés de mitigar-lhe
a faculdade criativa, notabiliza-o como artista visceralmente norteado
pelo signo da musicalidade, pois é indicativo da já assinalada
dependência que o lirismo possui quanto à música.
Valho-me, uma vez mais, da lição de Massaud Moisés:
“Essa analogia
metafórica dos predicativos decorre de a poesia lírica
caracterizar-se pela repetição, repetição
não só no sentido formal como no gnosiológico.
A estrutura sintática em que o ‘eu’ se mostra é
regular, obedece a uma disposição física, elementar:
sujeito + predicado + predicativo. Evidentemente, o paralelismo pode
lançar mão de outros verbos, gerando estribilhos de
vária natureza, mas o resultado será idêntico:
a recorrência formal produzirá o clima lírico,
como um retorno que garante a melodia e propõe as soluções
do ritmo. O consabido entrelaçamento da lírica
com a música tem no fenômeno da repetição
um de seus mais poderosos sustentáculos.”
(Literatura..., ob. cit., p. 279)24
Noutro plano, igualmente com
o objetivo de permitir a compreensão da obra canconiana (e, de
resto, da poética popular) no conjunto da atividade artística
universal, é que se traz a lume o paralelismo
que possui com a obra de outros mestres, a revelar a consangüinidade
artística existente entre eles. Assim, embora se admita
o estabelecimento de graus de grandeza literária por
meio de uma valoração objetiva, aqui não
se intenta propiciar qualquer espécie de exame comparativo entre
as produções artísticas a que se faz menção.
Nesta ocasião, a indicação de tais recursos estilísticos
obedece à exclusiva finalidade de trazer à baila um dos
aspectos mais relevantes da proximidade sensória
(sinfronia) que os une, no sentido de evidenciar aquilo que
Câmara Cascudo denomina de poesia da continuidade sentimental25.
Ora, não há que
se negar a existência de aproximações entre os seguintes
excertos:
“Era por uma dessas noites
vagarosas do inverno, em que o brilho de um céu sem lua é
vivo e trêmulo; em que o gemer das selvas é profundo
e longo; em que a soledade das praias e ribas fragosas do oceano é
absoluta e tétrica.”
(Alexandre Herculano, Eurico, O Presbítero, Cap. 4º)
“Era por uma dessas tardes
em que o azul do céu oriental - é pálido e saudoso,
em que o rumor do vento nas vergas - e monótono e cadente,
e o quebro da vaga na amurada do navio e queixoso e tétrico.”
(Castro Alves, Prólogo de Espumas Flutuantes)
Ou, no que se refere especificamente
a Cancão, o paralelismo que existe entre estas estrofes:
As águas silenciosas
Vão rolando preguiçosas
Lá das colinas lodosas
Se despenham sem alarde
A aragem sertaneja
Sobre a paisagem que beija
Mansamente rumoreja
Por despedida da tarde
(A Borborema)
O sol além se deitava
A sua luz se esvasava
Pela ramagem da horta
A brisa, em leves ruídos
Levava os ternos gemidos
Da tarde já quase morta
(Depois da Chuva)
e o seguinte trecho de prosa poética:
“Um concerto de notas
graves saudava o pôr do sol e confundia-se com o rumor da cascata,
que parecia quebrar a aspereza de sua queda e ceder à doce
influência da tarde. Era a ave-maria (...)
A brisa, roçando as grimpas da floresta, traz um débil
sussurro, que parece o último eco dos rumores do dia, ou o
derradeiro suspiro da tarde que morre.”
(José de Alencar, O Guarani, Cap. VII)
De fato, é inquestionável
que uma judiciosa aproximação do tema deve necessariamente
prestigiar os pontos de interseção existentes entre a
sua obra e outras criações que possuam similar teor estésico
(desimportantes, para tanto, as geografias e os tempos), circunstância
esta que, ao contrário do que o entende o senso comum, constitui
um dos mais relevantes aspectos da valorosidade de todas elas, uma vez
que o produto final será o gênio, e será tão
final depois como antes26. Não é por outra
razão, aliás, que Maximiano Campos assevera:
“Emerson talvez tivesse
razão quando afirmava, querendo se referir a Shakespeare: ‘O
maior gênio é o homem mais endividado’. Por isso,
existe e existirá sempre um parentesco entre as grandes obras
universais. Esse parentesco que há entre o romance de Joyce
e a obra de Homero, a filosofia de Nietzsche e a música de
Wagner, entre Dostoievski e Gógol, a poesia de Baudelaire e
a de Edgar Allan Poe.”
(Posfácio ao Romance d’A Pedra do Reino, de Ariano Suassuna,
José Olympio, 2005, p. 752)
Desde logo, ressalte-se, todavia,
que a evidenciação de tais aspectos não tem por
propósito filiar o Vate Egipciense a qualquer escola literária27,
mas, apenas e tão-somente, delinear o seu estilo através
de uma fórmula concisa, em que sejam ressaltados seus aspectos
mais relevantes. Neste sentido, poder-se-ia ousar dizer que ela se ajustaria
a uma espécie de Impressionismo, tendo em mira
que é sedimentada, toda ela, na pormenorização
plástica dos elementos naturais, em que ressai a vivacidade
de cores fortes e nítidas, que glorificam a variedade e a exuberância
de minudências da Natureza.
Com efeito, seus poemas constituem
verdadeiras pinturas sonoras, em que, através das nuvens
franjadas, da luz cintilante, das réstias, valoriza-se
acima de tudo a captação imediata daquilo que de fato
se consegue aperceber da Natureza em movimento: alteração
de luz e de atmosfera, súbitos raios de sol rompendo por entre
nuvens dispersas. É a isto que alude Raul Brandão, quando,
na tentativa de retratar seus Sítios Ignorados, termina
por confessar:
“o que eu queria dar só
o podem fazer os pintores – os tons molhados, os reflexos verdes,
o galopar das nuvens fugindo sobre a imensa superfície polida,
e, por fim, ao cair da tarde, a agonia dolorosa da luz.”
(Ob. cit., p. 77)
Ora, não é precisamente
isto que Cancão logra fazer? Senão, vejamos:
A água branda descia
Pelo pequeno gramado
A relva, fresca e macia,
Era um tapete rendado
Se ouvia, lá da colina,
No coração da campina,
Soluçar uma cascata
E o sol, com seus lampejos,
Dava os derradeiros beijos
No rosto verde da mata
(Depois da Chuva)
O sol, em nesgas vermelhas
Vai atravessando o mangue
Aquelas rubras centelhas
Parecem feitas de sangue
E o celeste vulcão
Numa santa erupção
Na montanha ainda arde
Seus derradeiros lampejos
São eles restos dos beijos
Enfraquecidos da tarde
(Crepúsculo)
O sol, guerreiro que veio do Oriente
Passou o dia lutando ferozmente
Da guerra trouxe seu golpe assinalado
Agoniza agora, e através
da tela infinda
Pela grimpa da serra mostra ainda
A metade do rosto ensangüentado
(Crepúsculo – soneto)
Suas composições
acumulam “sensações isoladas, detalhes, para a captação
de um mundo de aparências efêmeras”, em que “inventa
paisagens, que parecem mais autênticas do que a realidade”28,
e sobre as quais se poderia dizer, portanto:
“Tem-se a impressão
de um pintor, que utilizasse as palavras em lugar da tinta ... E de
um pintor impressionista: a cena transcorre ao ar
livre; a descrição monta-se como uma soma de minúcias
pictóricas, à semelhança de uma seqüência
de pinceladas rápidas, superpostas, de acordo com a técnica
pontilhista.”
(Massaud Moisés, análise ao capítulo VIII de
O Ateneu, de Raul Pompéia, in Literatura Brasileira Através
dos Textos, Cultrix, 2004, p. 290)
Isto se deve ao fato de que, depois
de se ter expandido interiormente, o poeta lírico projeta a sua
alma no mundo exterior, sob a forma de quadros descritivos29,
e é por isso que, assim como os pintores impressionistas, Cancão
é um artista visceralmente popular e essencialmente universal,
vez que a estrutura pictórica de seus poemas oferece expressão
visual a fatos e a sentimentos, a idéias e a sonhos que, apesar
de originados no individual, exprimem o que há de mais geral
e profundo nas crenças, representações e relações
humanas30.
A este teor, cumpre ainda assinalar
que, como “a reprodução impressionista da realidade
consiste na captação do instantâneo e do único”31,
ainda quando o Poeta focaliza o mesmo fenômeno de forma reiterada,
a cada vez que o faz apresenta-o sob uma nova óptica, surpreendendo-lhe
aspectos dantes não entrevistos. Apreende-o sob impressões
distintas, de acordo com a gama de sentimentos que, naquele momento,
são despertados em sua alma, de modo que, embora aludam às
mesmas realidades (p. ex., Manhã de Chuva, Manhã Sertaneja,
Momentos Matutinos, Horas Matutinas, Crepúsculo Praieiro, Crepúsculo,
Crepúsculo - soneto), cada uma de suas composições
possui contornos próprios, que a singulariza quanto às
demais.
Ademais, ao propósito de
evidenciar tal parentesco artístico alia-se outro intento,
que lhe segue como conseqüência inevitável: fornecer
uma contribuição para a desmistificação
da assim denominada cultura popular (entendida, aqui, como
conjunto de práticas, representações e formas de
consciência que possuem lógica própria,
e não como algo posto em antagonismo com a cultura erudita32).
Neste sentido, é emblemático o caso de Cancão,
cuja verve é comumente é atribuída a uma espécie
de sobrenaturalismo, mormente pelo opulento uso de recursos literários
e abastado vocabulário, presumidamente inacessíveis a
alguém com instrução escolar primária.
A este respeito, vale ressaltar
a absoluta desimportância da discussão acerca da intencionalidade
de utilização de tais recursos literários por Cancão33,
uma vez que tal evocação é oriunda da vida
pré-consciente do intelecto, como o professa Jacques Maritain
(do ekstasis, como o entende Aristóteles, ou, ainda,
da introvisão apolínea e do êxtase
dionisíaco, como o preconiza Nietzsche)34. Desta
forma, quando se alude à inspiração que o arrebata
com a pretensão única de enaltecer o arroubo e a profundidade
de sua embriaguez onírica, de uma tal concepção
não advém qualquer prejuízo de vulto à sua
obra – como resulta dos poéticos epítetos de poeta
intraterrestre e incógnita do verso, atribuídos a
Cancão. O perigo de uma tal concepção está,
isto sim, em considerar que sua verve derive de aspectos caracterizados
unicamente pela irrazoabilidade, e, com isso, estabelecer uma
oposição entre arte primitiva (naïf,
instintiva) e arte refletida (racional, cultivada), ou seja,
de seccionar mais uma vez pensamento e sentimento, colocando-os
nas perspectivas, que perduraram e perduram, de definir o popular como
a esfera do sentimento e o erudito como a esfera do pensamento ordenado35.
Sob este prisma, pode-se inferir,
sem custo, os pérfidos resultados que advêm da perspectiva
de entender o poeta como “malassombrado”, porquanto tal
atitude, ordinariamente entendida como valorativa, é, na verdade,
profundamente perniciosa para a sua obra, pois é precisamente
sob esta óptica que se perfaz a deletéria mutilação
do fenômeno literário por meio da disjunção
entre o popular/inspiração e erudito/reflexão36.
É através deste
viés de raízes preconceituosas, que vislumbra
a poética popular como um traço folclórico,
como um dado pitoresco de nossa cultura, que se consuma a estigmatização
da expressão artística do poeta lírico como circunscrita
a um caráter de ingenuidade, de irracionalidade,
e, pois, como elemento inservível à ponderação
lógico-científica37, quando o se tem, na verdade, é
que
“o poeta e o sonhador, entrando em contato com o seu próprio
inconsciente (tanto o pessoal como o filogenético) descortinam
uma realidade que vai além dos limites de sua própria
individualidade (incluída aí, talvez, o que Freud chama
de sonhos seculares da humanidade jovem, op. cit., p. 109).
Pois a possibilidade de estar próximo das fontes inconscientes
propicia-lhes um conhecimento que se poderia chamar de intuitivo no
sentido etimológico: de in (dentro) + tuor
(ver); um ‘ver dentro’, que geralmente denominamos, colonizadamente,
‘insigth’”
(Adélia Bezerra de Meneses, O Sonho., ob. cit., p. 25)
Neste contexto, nos mesmos moldes
em que se logrou repelir o entendimento que pugna a imprestabilidade
da atividade artística à análise científica,
cumpre igualmente rejeitar a concepção segundo a qual
tal exame, embora admitido, deva se circunscrever ao estudo de aspectos
caracterizados pela irrazoabilidade. De fato, embora a poética
lírico-popular possa ser entendida como essencialmente
espontânea, lúdica (circunstância que constitui,
aliás, a sua originalidade mais profunda38), é
insofismável que esta compreensão não refuta a
análise de seus aspectos formais, de modo que sua apreensão
deve se fundar na síntese dialética entre a embriaguez
e a forma, entre o apolíneo e o dionisíaco, num sentido
de integração ambivalente entre a reflexão racional
e o êxtase sonhoso39, que consiste, ao
fim e ao cabo, numa das mais contundentes formas de proclamação
de sua dignidade, como nobilíssima expressão do gênio
humano.
Feitas tais considerações,
convém uma palavra acerca da vultosidade das citações
apostas, aqui e nas aludidas notas: se muitos são os autores
e as obras a que se faz referência, decerto que isto não
se deve ao atendimento de qualquer arroubo de vaidade do organizador
– que repudiava o pedantismo já na remota quadra da vida
em que seria tolerável o cultivo de vanglórias –,
mesmo porque tal recurso somente evidencia a debilidade de quem, para
fazer chegar o de-comer a outros sôfregos pedintes, vê-se
coagido a esmolar com a cuia alheia. O requesto a tão numerosas
citações teve o propósito, isto sim, de fornecer
uma pálida amostragem de algumas das mais expressivas composições
literárias (com o propósito de instigar os leitores a
se embrenhar no universo criativo de seus autores) e, ainda, de oferecer
subsídios imprescindíveis (embora, à evidência,
insuficientes) a um oportuno e adequado estudo da poética de
Cancão, tendo em vista a sua polifórmica fisionomia literária,
vazada numa exuberante diversidade estilística, que vai da quadra
(em sua maior parte com as belas e dificílimas rimas encadeadas)
ao soneto, passando pela quintilha,
pela sextilha, pela oitava (com versos
de cinco e de sete sílabas, em formatos diversos) e pela décima
(de sete e de dez sílabas, monostrófica e em formatos
diversos, desde o mais comum – ABBAACCDDC – ao ABABCCDEED,
especialidade canconiana).
De qualquer modo, de tudo penso
que resulta uma vantagem que se estende a todos: ao Poeta, de quem se
evidencia a magnificência de sua criação artística
através da indicação da aproximação
estésica que possui com diversos outros luminares da arte literária
de todos os tempos e lugares; aos leitores, a quem se proporciona uma
incipiente aproximação com a essência de significativas
produções artísticas de diversos matizes; aos próprios
autores citados, a quem se faz justiça por se dar a conhecer
pelo nome quem dadivosamente compartilha as mais primorosas criações
de sua extraordinária faculdade inventiva, verdadeiros transportes
que apontam para a alegre necessidade da experiência onírica,
na contundente expressão de Nietzsche40.
Ainda a este respeito, registre-se
que se teve o cuidado de evitar o sobrecarregamento do volume com notas
em demasia e, para isto, convencionou-se utilizá-las somente
quando verificadas distinções significativas entre as
versões apresentadas, relevando-se meras incorreções
tipográficas ou de pouca monta. Para isto ajustou-se, também,
o uso das seguintes abreviaturas: v(s). = verso(s); terc(s). = terceto(s);
quad(s). = quadra(s); quint(s). = quintilha(s); sext(s). = sextilha(s);
oit(s). = oitava(s) e déc(s). = décima(s) e inseriu-se,
ao final, um pequeno vocabulário.
Por fim, um preito de gratidão:
nas pessoas de Joana D’arc, Juberlita, Teófanes Leandro,
Ida de Coraci, Antônio de Catarina, Reginaldo, Joselito Nunes,
Edvaldo da Bodega, Pedro Torres Tunu, Dedé Monteiro, Didi Patriota
e Nenem de Santa agradeço a todos os sonhosos companheiros d’armas
dessa quixotesca demanda, cujo termo nos honra a todos, ante o oferecimento
de uma escassa contribuição à irredenta cultura
do Povo do Sertão, através desta modesta homenagem a Cancão,
Osíris da Terra dos Faraós da Poesia.
*Texto de apresentação
do livro Palavras ao Plenilúnio organizado por Lindoaldo
Campos (junior@prpb.mpf.gov.br)
 |
Este livro
é um projeto elaborado por Lindoaldo Vieira Campos Júnior
e consiste na compilação e análise crítica
da obra de João Batista de Siqueira (Cancão), Poeta
nascido nos contrafortes da Serra da Borborema, na confluência
entre o Sertão Paraibano e o Pajeú Pernambucano.
Editora Universitária
UFPB
2007 |
NOTAS:
1 A exemplo de
Ariosto, que concebeu nada menos que 56 versões apenas do primeiro
verso de seu poema Orlando Furioso, bem como de Fagundes Varela, que
modificou e republicou pelo menos 8 poemas de seus Cantos Meridionais,
e de Castro Alves, que refundiu toda a composição Horas
de Martírio e a republicou sob o título Longe de Ti, conforme
noticia Frederico Ramos, in Grandes Poetas Românticos do Brasil,
Editora LEP, 1953, p. 733.
A este respeito, diz Hegel:
“Um preconceito muito comum é aquele que diz ter a arte
começado em simplicidade e em naturalidade ... A arte concebe,
porém, o natural, o vivente e o simples de um modo muito diferente
(...) A beleza, quando relacionada com a obra de arte, exige, logo de
começo, sucessivas tentativas e demorado exercício para
chegar ao domínio de uma técnica perfeita. A simplicidade,
na sua relação com o belo ... resulta de esforço
despendido após numerosas mediações que tiveram
por fim eliminar a variedade, os exageros, as confusões ...”
(Curso de Estética – O Sistema das Artes, Martins Fontes,
1997, p. 5)
2 Cfr. Mário
da Gama Kury, Dicionário de Mitologia Grega e Romana, Jorge Zahar,
2003. Assim canta o coro da tragédia grega As Fenícias,
de Eurípides (versos 304/319):
“Iguais às oferendas feitas de ouro,
seremos dedicadas a Apolo;
as águas sempre puras da Castália
esperam-nos, pois nelas banharemos
a serviço do deus a opulência
de nossa cabeleira virginal.
Penhascos do Parnaso, cujos cumes
parecem gêmeos e resplandecem
luzentes como o fogo, nas alturas
onde Dioniso vai celebrar
suas orgias báquicas, e vinhas
de cujos bagos saem todos os dias
o suco inspirador, e antro divino
do célebre dragão, mirante ótimo
freqüentado somente pelos deuses,
e monte sacro coberto de neve!”
3 A obra Teoria
Literária, de Hênio Tavares (Ed. Itatiaia), foi de fundamental
importância para a elaboração destas considerações.
4 “Onde
quer que um homem sonhe, profetize ou poetize, outro se ergue para interpretar”,
como o professa Paul Ricoeur (Da Interpretação), citado
no pórtico do livro Sonho e Literatura: mundo grego (USP, 2000),
de Adélia Bezerra de Menezes.
5 É a ‘teoria
do imã’ de Platão, apresentada no diálogo
Íon. A fundamental importância da intuição
e da imaginação tanto na criação como na
percepção da obra de arte é acentuada nas idéias
estéticas de Kant e de Bergson, como o noticia Ariano Suassuna
em sua obra Iniciação à Estética, José
Olympio, 2004, pp. 102 e 202.
6 Por todos, Arthur
Schopenhauer, O Mundo Como Vontade e Representação, Livro
Primeiro, § 12, Contraponto, 2001.
7 A. Schopenhauer,
ob. cit., p. 23, referido por Friedrich Nietzsche, in O Nascimento da
Tragédia, Companhia das Letras, 1992, pp. 28/29.
8 Nietzsche, O
Nascimento., ob. cit., p. 45. A Estética Filosófica fundamenta-se
no que Ariano Suassuna denomina de primeiros princípios, que
possuem caráter eminentemente axiológico, e que por isto
mesmo reivindicam, apenas, o direito de “julgar o valor das escolas
artísticas, assim como a verdade ou a falsidade, a influência
boa ou má de seus princípios” (Jacques Maritain,
Arte e Escolástica, p. 185), in Iniciação., ob.
cit., p. 355.
9 Hegel, Curso.,
ob. cit., p. 193.
10 Massaud Moisés,
Literatura: Mundo e Forma, Cultrix, 1982, p. 189.
11 Massaud Moisés,
Literatura., ob. cit., p. 33.
12 Freud, Delírios
e Sonhos na Gradiva de Jensen, Imago, 1976, p. 93.
13 O termo é
de Zila Mamede, in O Arado, Ed. UFRN, 2005.
14 Cfr. Eurípides,
Ifigênia em Áulis, v. 8; Ésquilo, Agamêmnon,
vs. 129/167.
15 A expressão
é de Nietzsche, O Nascimento., ob. cit., p. 23.
16 Nesta mesma
obra, Ariano alude à teoria do jogo, formulada por Schiller (apontando,
no entanto, suas imprecisões), segundo a qual a Arte seria uma
“espécie de conciliação e apaziguamento da
alma humana com o mundo, do espírito humano dilacerado entre
o seu campo natural, a liberdade, e a necessidade cega do mundo”,
in Iniciação., ob. cit., p. 270.
17 Nietzsche,
O Nascimento., ob. cit., pp. 56 e 70.
18 “A embriaguez
da Arte é mais apropriada que qualquer outra para velar os terrores
do abismo”, como o diz Baudelaire (Morte Heróica, in Pequenos
Poemas Em Prosa, Poesia e Prosa, Nova Aguilar, 1995, p. 311).
19 João
Gaspar Simões, Fernando Pessoa, breve história da sua
vida e da sua obra, Difel, 1983, p. 56. Esta é a razão
pela qual Baudelaire diz que
“nada se parece tanto com o que chamamos inspiração
quanto a alegria com que a criança absorve a forma e a cor (...)
O gênio é somente a infância redescoberta sem limites;
a infância agora dotada, para expressar-se, de órgãos
viris e do espírito analítico que lhe permitem ordenar
a soma de materiais involuntariamente acumulada.”
(O Artista, Homem do Mundo, Homem das Multidões e Criança,
in Poesia., ob. cit., p. 856)
20 Raul Brandão,
Os Pescadores, Estudios Cor, s/d, pp. 18/19.
21 É esta
a verdadeira ars poetica a que se refere Freud, como a “técnica
de superar esse nosso sentimento de repulsa, sem dúvida ligado
às barreiras que separam cada ego dos demais” (Delírios.,
ob. cit., p. 110).
22 Dadas as limitações
inerentes a um texto desta natureza, circunscrevemo-nos à análise
dos aspectos imagéticos e rítmicos, que são aqueles
cuja predominância verdadeiramente caracterizam a Poesia.
23 Esta concepção
é dada por Martinho Nobre Melo, na Apresentação
de Cesário Verde, in Livro de Cesário Verde, Ed. Agir,
1984, p. 26.
24 Como ensina
Manoel de Barros (O Livro das Ignorãças – uma didática
da invenção, Record, 1998, p. 11):
“Repetir, repetir – até ficar diferente.
Repetir é um dom do estilo”
25 Flor de Romances
Trágicos, Fundação José Augusto, 1982, p.
VII.
26 Fernando Pessoa,
Antologias de Estética, Teoria e Crítica Literária,
Ediouro, 1988, p. 34.
27 Mesmo porque
sua obra não se deixa aprisionar pelos arquétipos de nenhuma
delas em particular, pois se do Classicismo adotou a forma, não
se deixou subjugar pelo estilo linear de descrições objetivas
que o caracterizam; se do Romantismo acolheu a tendência à
apreensão da instantes fugazes de vibração psicossomática,
dele não agasalhou a liberdade poética (versos brancos
e livres); se do Simbolismo acolheu as variegadas e fecundas experiências
melódicas, dele se distanciou porque rejeitou o seu estilo elíptico
e hermético, permanecendo jungido às formas rímicas
e métricas da usança parnasiana.
28 Afrânio
Coutinho, Introdução à Literatura no Brasil, Bertrand
Brasil, 1995, p. 226. Isto porque “formar e dizer, segundo a fantasia,
sem descrever as coisas na respectiva existência prática,
tal é, com efeito, a finalidade e a missão da poesia”
(Hegel, Curso., ob. cit., p. 374).
São comumente apontados como autores brasileiros impressionistas
Adelino Magalhães, Raul Pompéia e Cornélio Pena.
29 Hegel, Curso.,
ob. cit., p. 515.
30 Keith Roberts,
Obras-Primas do Impressionismo, Verbo, 1975, p. VIII.
31 Afrânio
Coutinho, Introdução., ob. cit., p. 225.
32 Cfr. Marilena
Chauí, Cultura Popular, in Cultura e Democracia, Cortez, 2006,
p. 34.
33 A “astúcia
artística” a que se refere Hegel, in Curso., ob. cit.,
p. 409.
34 A isto alude
Freud, quando assevera:
“Os poetas são aliados muito valiosos, cujo testemunho
deve ser levado em alta conta, pois costumam conhecer toda uma vasta
gama de coisas entre o céu e a terra com as quais o nosso saber
escolar ainda não nos deixou sonhar. Estão bem adiante
de nós, gente comum, no conhecimento da psique, já que
se nutrem de fontes que ainda não tornamos acessíveis
à ciência.” (Delírios., ob. cit., p. 45)
35 Maria Didier,
Emblemas da Sagração Armorial, UFPE, 2004, p. 33.
36 É o
que faz Platão nos diálogos Íon e Fedro, em que
atribui a faculdade criadora do poeta, não ao discernimento [Einsicht]
consciente, mas a uma espécie de êxtase divino, como o
denuncia Nietzsche, in O Nascimento., ob. cit., p. 83.
37 Cfr. Alberto
da Cunha Melo, O Repentista Nordestino e a Poética do Desafio,
in Um Certo Jó, Uzyna Cultural, 2004, p. 56.
38 Cfr. Maria
Didier, Emblemas..., op. cit., p. 65.
39 Nietzsche,
O Nascimento., ob. cit., p. 77. Noutro texto, o filósofo explicita:
“A embriaguez apolínea excita sobretudo o órgão
visual, de maneira a produzir-lhe a acuidade da visão ... Ao
contrário, no estado dionisíaco, é todo o sistema
emotivo que é ativado e dilatado, de modo que descarrega de uma
só vez a totalidade dos seus meios de expressão e põe
em jogo a sua força de representação, imitação,
transfiguração e metamorfose, toda espécie de mímica
e ficção simultaneamente” (Crepúsculo dos
Ídolos, Companhia das Letras, 2006, p. 34).
40 O Nascimento.,
ob. cit., p. 34.
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