por
Flávio Chaves*
Sem prejuízo da essência
de seu lavor literário, tampouco do conteúdo ou de sua
forma, podemos afirmar que não existe “a poesia do poeta
Audálio Alves”, mas as poesias, porque ele soube dominar,
como ninguém, não apenas um, mas vários gêneros
ao manipular as múltiplas faces de sua criação,
sem obedecer, certamente, a um período de transição
entre uma e outra fase. Porém, há um aspecto que ao atento
observador jamais poderá passar despercebido - o intimismo acompanhou
o poeta em todo o percurso graças a sua sensibilidade, uma espécie
de raio-x capaz de captar, a cada imagem que surgia, a matéria-prima
de sua composição. E foram sempre as impressões
primeiras que tatuaram seu peito. O que nos salta à vista é
que nesse poeta intimista e, ao mesmo tempo, telúrico e instigante,
não existe hiato nos vários estágios de sua composição,
seja ela impregnada de metáforas, e até mesmo de indagações,
ou social. Das sementes que ele recolhia cuidava de plantar suas idéias,
com carinho e zelo, fixando-as com firmeza sob o solo cáustico
que lhe serviu de berço. É evidente que cada verso desse
poeta pernambucano representou, para ele instante de vibração,
facilmente descoberto na leitura.
Para alguns estudiosos, ou entendidos,
de Audálio Alves, sua poesia é constituída por
versos livres e sem rima, o que não compromete o seguimento e
a cadência – podemos dizer assim – de cada um deles.
O uso da linguagem, pelo poeta, é como pinceladas sobre uma tela,
impregnada pelo colorido das palavras, vasos comunicantes que se interagem
e enriquecem a composição poética. Afinal de contas,
a suavidade das pétalas de uma rosa é tão notável
quanto o aroma que dela exala. O mesmo acontece com o poético
e o ideológico desse poeta que está, sem dúvida
alguma, entre os maiores da língua portuguesa. Sem resvalar para
o popularesco, no poeta o gosto pelas expressões magicamente
simples não se confunde, jamais, com a vulgaridade. A leveza
de seu estilo comanda, com maestria a obra poética.
A moderna poesia muito deve a
Audálio Alves, sendo ele, sem dúvida alguma, um de seus
mais sólidos patamares, elevando-a à dimensão universal
e eternizando-a em versos puros, cristalinos, elaborados por um esteta
da palavra. De um artista que soube como ninguém refletir e até
mesmo medir a grandiosidade da vida, do homem, da morte, emprestando
aos textos poéticos uma dimensão universal, tendo no seu
timão um comandante da palavra que, nas suas idas e vindas, consegue
dar o seu recado ou, para sermos mais precisos, alcança a comunicação
entre autor versus leitor em toda a sua plenitude, consciente de que
este é seu verdadeiro papel.
POETA DO COTIDIANO
A vida com todo o seu esplendor
é simples, como simples são as coisas que ela nos proporciona,
o pôr e o nascer do sol, por exemplo. Sem custo e de uma forma
intermitente. A beleza se repete em toda parte, no murmúrio das
águas que escorrem entre as pedras, nos pássaros que cantam
sobre as árvores, nos mares, na criança que empina papagaio,
enfim, sob todas as formas.
O poeta não foi imune a
essas manifestações, ao pulsar forte da vida, manifestada,
inclusive, no seu cotidiano, ao lado da mulher e dos seis filhos. Detalhes
de um cotidiano rico para quem é capaz de entendê-lo, de
sentir o seu pulsar paras transmiti-lo através de seu canto:
Abre-se a toalha,
E a mesa se compõe
De minha companheira e cinco filhos
(que o sexto ainda não fala
e apenas sabe
querer os nossos braços e pousar)
Seguem-se os pratos e costume
e a fome
com seu garfo e sua faca
a divagar
Aliás, o cotidiano em Audálio
Alves está presente em vários poemas de seu livro Canto
da Matéria Viva, editado em 1970, pela Livraria Editora Cátedra
Ltda., do Rio de Janeiro:
Virgínia,
Minha
mulher,
parte todas as manhãs e realiza
enorme viagem,
sem sair de casa.
...
ao chegar à
garagem
nos dias de inverno,
cuido do chão
para evitar insetos
Em todo esse trajeto de sua poesia,
o autor se desnuda, não por inteiro, mas para deixar à
mostra, outra vez, o seu lado intimista que se constitui, por certo,
num bom condimento à leitura de sua obra.
Mas nesse dia-a-dia nem tudo são
flores. O coração do poeta foi ferido pela lança
e seu peito várias vezes tatuado, quando viu partir, um por um,
amigos como Carlos Pena Filho, Cezário de Melo, Mauro Mota e
tantos outros. E nessas ocasiões o cantar é o que resta
da matéria morta, como aconteceu nos Quartetos da elegia quarta,
na data comemorativa da morte do poeta Carlos Pena:
Maldito quem
me lembre e quem te esqueça,
Amigo,
quando falo de amigo, quero vê-lo.
Insone tenho o polvo da memória
RAÍZES TELÚRICAS
O telúrico não poderia
faltar na alma desse poeta cujas raízes, fincadas ao chão
áspero da Região Nordestina, renascem nos seus textos
poéticos, como um registro – quase metafísico -
que se sobrepõe à matéria, liberto, porém,
de chavões Os animais que distraíram não apenas
os seus dias de menino, mas povoaram seu imaginário por todo
o tempo, ora sob a forma de borboleta, ora sob a forma de coruja, ora
sob a forma de cão, de galo, de pavão, do cavalo, passam
a conquistar espaço na tessitura de seus versos, deixando transparecer
indagações do tipo “não é uma ave...”
Do mesmo modo que castanheiros, flores, plumas, rochas saídos
da natureza.
Audálio não apenas
desvenda paisagens interioranas, mas também da cidade que o acolheu,
o Recife, com “seu quintal holandês”, quando chegou
disposto a conquistar mais espaço num horizonte que parecia tão
próximo e a lhe sorrir:
Poeta,
mais civil,
da linha solitária do universo,
eu, Recife,
venho entregar
meu rosto a tuas sombras
Há na sua poesia, em determinados
momentos, mais que o sabor da terra, que o romantismo, a sensualidade,
presente, em dose maciça de latinidade, a latejar das veias do
poeta, que soube beber tão bem na fonte da grande lírica
ibérica, talvez, de uma forma sobremaneira atávica, para
depois derramar sobre seus versos:
Beija-me,
como espinho de rosa mutilada.
Beija-me,
que não sei o que dizes...
Ainda com mais profundidade e
intimismo:
...sobre o chão
de teu corpo
perco vida
mas
das cinzas do teu ventre
ressuscito...
E é essa musicalidade natural
que nos remete a outro tempo/espaço do sonho onde o amor que
ficou pelo caminho ainda está e que leva à identificação
entre o autor e o leitor.
POESIA DE PROTESTO
O fenômeno não aconteceu
ou atingiu apenas os compositores brasileiros como Geraldo Vandré
nos tempos difíceis da ditadura, mas também a poetas do
viço de Audálio Alves, porque, nesse particular, nem toda
a intelectualidade brasileira foi coesa. Não apenas como uma
forma de protesto, mas sobretudo de falar baixinho, a cada coração,
o poeta procura mostrar, aos brasileiros principalmente, como alinhar
os primeiros fios do novelo que hoje chamamos cidadania por trazer na
sua fórmula elementos embasados na justiça social, como
o direito à vida, à liberdade, à habitação,
num interminável rosário que, para ser perfeito, precisa
ser cumprido pelas peças chave do sistema instalado em qualquer
país, pouco importando o continente
Nesse particular, os efeitos lingüísticos
usados pelo poeta alcançam à meta desejada, qual seja,
oposição, insurgência, rebeldia ao poder de força
instalado num País chamado Brasil e quiçá em outras
partes do mundo que de redondo, inteiriço, só tem a forma.
Daí ter surgido o poema “Incêndio Civil”, em
versos dirigidos ao estudante checo Jan Palach que usou o suicídio
como instrumento de protesto, à época da invasão
de seu país pelas forças soviéticas
...
Morrias em Praça,
e em chamas:
muitos puderam ver
a pressa com que Deus se deslocava
nos extremos da carne iluminada...
Da mesma maneira o poeta lavrou
seu protesto em versos com a morte do estudante pernambucano Demócrito
de Souza Filho, no livro Canto Agrário, editado pela Fundarpe:
Quem, no Recife,
chegar
à Praça da Independência,
ao ver o solo sem manchas
e o ar sem cicatriz,
não pergunte onde é que foi
o sacrifício do Homem
Atento a todos os acontecimentos,
à arguta percepção do poeta Audálio Alves
também não escapou a luta racial dos Estados Unidos que
provocou o homicídio do líder pacifista Luther King:
...Amigo, em teu
país
Há lençóis de uma argila condenada...
Tendo a terra por seu pedestal
e comprometido com a verdade, o poeta não perdeu a oportunidade
de denunciar a estrutura feudal da propriedade agrária brasileira,
atuando sua poesia, neste caso, não apenas como uma forma de
exteriorização de um protesto, tampouco um simples registro,
mas como testemunho, como memória, de um tempo conturbado da
vida nacional.
Embora o silêncio muitas
vezes seja mais forte do que mil palavras, a linguagem metafórica
do poeta, nos anos 1963/1986, nos idos conturbados que o Brasil atravessou,
por mais de duas décadas, teve, sem dúvida alguma, a dimensão
da eternidade:
Mantenho a punhos
fechados
o
quanto posso
de
espaço
recolher com as mãos abertas
Mais adiante:
...Talvez saltando
de aceiro,
dedo
e dente
assim
trincados
leve o futuro na mão...
É nessa terra “grávida
dos ventos” que ele, o poeta, descobre que o dia está no
chão,onde os flagelados da seca – uma página que
turva a rica história do Nordeste – constituem, na visão
de Auddálio Alves, uma rude aparição:
... Flagelados
dizem-se
e,ao dizer, se vão da vista
nossa
como rude aparição
Confundidos ficaremos,
se, após passarem eles,
não passar o burro e o cão...
Enfim, para o poeta, se mudanças
acontecerem estão teriam de ser radicais:
...Faze de bronze
o homem de
amanhã
de ouro, as foices
e de aço essa visão do tempo
inicial
Só assim terei meus mortos sossegados...
Só assim estaria restabelecida
a paisagem onde nas curvas se escondem as covas das crianças
mortas pela fome no canavial. E aí temos novamente a presença
poética de Audálio Alves comprometido com o social, sem
perder de vista o seu intimismo ou a riqueza de suas metáforas.
*FLÁVIO
CHAVES é jornalista, poeta e crítico literário
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Audálio
Alves, poeta, advogado, jornalista, professor e bacharel em
Letra Neolatinas, membro da Academia Pernambucana de Letras
nasceu em Pesqueira/Pernambuco, a 02/06/1930 e morreu no Recife
a 08/04/1999. Foi Diretor de Assuntos Culturais da Fundação
de Arte de Pernambuco (Fundarpe), Ex-presidente da União
Brasileira de Escritores (Seção Pernambuco), Diretor
do Espaço Pasárgada (Casa de Manoel Bandeira),
Diretor do
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Suplemento
Literário do Jornal do Commercio (Recife) e criador do
movimento poético “Espectralismo”.
Bibliografia:
Caminhos do Silêncio (1954); Alicerces da Solidão
(1959); Olhar dá sede (1961); Canto Agrário (1962);
Romanceiro do Canto Soberano (1966); Canto da Matéria Viva
(1971); Canto por Enquanto (1982); Espaço Migrante (1982);
O dia amanhece em minhas mãos (1987).
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De Audálio
e de saudade
por
José Mário Rodrigues*
A melhor coisa para quem escreve
é encontrar um leitor que não tenha nenhuma pretensão
de ser poeta. Leitor mesmo, puro, está em extinção.
Quase toda pessoa ligada em literatura escreve, comete poemas e, é
claro, quer mostrar seus escritos e publicá-los.
Tive sorte de encontrar alguns
leitores, só leitores apenas. Um deles faço questão
de revelar: Eduardo Fernando. São dois nomes numa só pessoa
interessada pela poesia pernambucana dos novos e antigos.
Lendo, pesquisando pela internet
obras raras dos nossos poetas, chega a memorizar textos inteiros.
Em sua biblioteca encontrei recentemente
um livro de Audálio Alves, que está fazendo vinte anos
de publicado e foi editado pela Tempo Brasileiro. Apesar de ter sido
amigo do poeta, não conhecia a coletânea O dia amanhece
em minhas mãos. Talvez porque fiquei rodopiando entre Canto
agrário, Canto da matéria viva, Canto por enquanto,
não me dei conta desse livro de título tão
bonito. Aliás, não conheço nenhuma publicação
de Audálio com título ruim.
Homenageando seus amigos Mauro
Mota, Jorge Amado, Cícero Dias, logo no primeiro poema os versos:
“Quando o mar do Recife assim se banha / o dia amanhece em minhas
mãos”.
Tive saudade de um Recife que
não existe mais e que é decantado em versos, em música,
recriado nas artes plásticas e que está virando território
livre de assassinos, ladrões e estupradores. O medo ronda as
calçadas e num genocídio cotidiano uma tragédia
substitui a outra, que é logo esquecida. Audálio prenunciou
quando escreveu: “Para mim dormir é uma conquista / Acordar
diariamente uma vitória”.
Sei que estou sendo pessimista
pinçando esses versos. Que fazer? Não me posiciono na
vida mascarando a realidade. Gostaria de escrever somente o que sonho
ou busco na delicadeza poética, como nesta quase fotografia:
“Um espelho ficou na casa antiga / sob escombros / a refletir
sempre nossas sombras”.
Bom seria que versos dizendo coisas
assim não fossem verdade, mas divagações: “Apenas
por nascer aqui / receber certidão de exílio em seu País”.
É como estamos vivendo hoje. O jornalista José Adalberto
Ribeiro, em um encontro de amigos, recentemente, no apartamento de Leda
Rivas, dizia algo que resumo desta forma: não merecíamos
ver as escolas públicas dos bairros invadidas por marginais e
os professores, além do salário indigno, ameaçados
pelos estudantes, filhos de pais desempregados, muito deles encontrando
saída na venda de drogas para realizar suas aspirações
de consumo.
“A revolução
contemporânea é a da incerteza”. É a sentença
de Jean Baudrillard em A transparência do mal. Sabendo
do meu desencanto, mas sem nenhuma aparência mórbida, o
pintor José Cláudio me chamou atenção para
essa obra do sociólogo francês. Certeza mesmo, acredito,
é que apoiados no passado vamos continuar levando na bagagem
do tempo o nascimento e a morte. Dependendo do astral de cada um, descemos
ou subimos o caminho do futuro. Mas é a oração
de Audálio Alves que me diz tudo neste momento - “Senhor,
hoje estou aflito / até aqui doei ao caos e ao transitório
todo o meu ser / e só agora eu sei: vivi de morrer a cada instante”.
*JOSÉ
MARIO RODRIGUES é poeta, professor e membro da UBE-PE.
Leia também OS VERSOS NA MEMÓRIA.
Confira alguns poemas de Audálio
Alves, Flávio Chaves e José
Mário Rodrigues no Cardápio
de Poesia