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GRAVATA COLORIDA
Quando
eu tiver bastante pão
para meus filhos
para minha amada
pros meus amigos
e pros meus vizinhos
quando eu tiver
livros para ler
então eu comprarei
uma gravata colorida
larga
bonita
e darei um laço perfeito
e ficarei mostrando
a minha gravata colorida
a todos os que gostam
de gente engravatada...
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foto:
J. B. Orerillo
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UMA
VIDA EM NEGRITO
por
França*
IV
ATO
MAMEDE MATA GORETH
SOLANO SALVA TRINDADE
ALCABUZ É DESTRUÍDA
NUNGANGA FOI COROADA
OGAM TOCA PRA SUBIR
(HÁ LICOR
DE GENIPAPO
(ENVENENADO)
SERVIR E APAGAR AS LUZES)
Falar sobre Francisco Solano Trindade
(1908-74) é para mim uma atividade cotidiana. Eu, basicamente,
vivo Solano. Gosto de imaginá-lo como o “grande avô”
da negritude brasileira em todas as suas expressões culturais.
Outros negros houveram que se
dedicaram a uma atividade política ou que deram a sua vida pela
causa do negro nas Américas. Solano Trindade, no entanto, fez
da sua trajetória um alinhavado de ações que transformaram
as relações raciais do seu tempo, abrindo caminho para
esta espécie de “orgulho de ser negro” que as gerações
atuais carregam consigo hoje, e, por que não dizer, esta tendência
à eliminação dos preconceitos raciais que caracteriza
o imenso universo dos jovens de hoje.
Nascido recifense, do bairro de
S. José, começou sua luta contra a discriminação
racial junto com José Vicente de Lima como militante da Frente
Negra Pernambucana, em 1936, e também fez parte do Centro de
Cultura Afro-brasileiro, que numa de suas publicações
já exibia as primeiras falas do nosso arauto:
“Não
faremos lutas de raça. Porém ensinaremos aos nossos
irmãos negros que não há raça superior
nem inferior, e o que faz distinguir um dos outros é o desenvolvimento
cultural. São anseios legítimos a que ninguém
de boa fé poderá recusar cooperação.”
De Recife para Salvador para participar
do I Congresso Afro Brasileiro e de lá para Belo Horizonte, Minas
Gerais; Pelotas no Rio Grande do Sul (1940); Caxias , no Rio de Janeiro
(1942) onde montou a “Brasiliana”, depois Embu em São
Paulo (1954); de onde viajou para diversos países da Europa como
Polônia e Tchecolosvaquia (1955).

Deixem as crianças brincarem,
ou Solano Trindade - O Moleque do Recife
(Xilogravura de Raquel Trindade, filha de Solano)
Fez-se cidadão do mundo
através dos seus versos e ainda como teatrólogo criou
o Teatro Folclórico Brasileiro (1945), onde já organizava
apresentações de Batuques, Lundus , Jongos, Cheganças,
Bumbas meu Boi, Pastoris, Sambas Cariocas, maracatus, etc.
Em 1950, enraizando-se mais ainda
no fazer teatral e sempre bebendo na fonte da cultura negra, lutando
contra a estilização dos fazeres originais funda o Teatro
Popular Brasileiro o famoso TPB, com elenco formado por domésticas,
operários, estudantes e comerciários.
Foi poeta, ator, diretor, dramaturgo,
participou de vários vídeo-documentários, tendo
inclusive atuado no cinema. Como poeta publicou os livros Poemas de
uma vida simples, (1945), Seis tempos de Poesia (1960) e o último
Cantares ao meu Povo (1962).
Sua poesia marcou o cenário
de uma época principalmente no Rio de Janeiro, onde no bar Vermelhinho,
chegava ao entardecer com uma pasta debaixo do braço e recitava
“Tem gente com fome” (também cantada por Ney Matogrosso)
mostrando sua contemporaneidade com Ascenso e Bandeira e cantando o
itinerário da miséria na malha rodoviária do Rio
de Janeiro de meados do século passado.
Alguns dos seus poemas foram musicados
e são muitíssimo conhecidos como por exemplo, Mulher Barriguda
musicado por João Ricardo e cantado por Ney Matogrosso, o qual
consta no disco do grupo Secos e Molhados de 1976. Muitos outros foram
musicados por seu neto Victor Trindade e podem ser baixados na internet.
A poética de Solano Trindade
não passou despercebida. Vários depoimentos de intelectuais
da época comprovam sua tenacidade, como Corsino de Brito, Roger
Bastides, Abdias Nascimento, Arthur Ramos, Nestor de Holanda, Carlos
Drummond de Andrade, Otto Maria Carpeaux, Jean Francesco Guarnieri etc.
A palavra Solano significa vento
forte na África e Trindade se transformou em um ícone
dentro da propagação da cultura negra pernambucana, pois
elevou tradições e costumes da cultura popular pernambucana
aos palcos do Brasil e do mundo numa época em que em outros países
muito ainda se teria que lutar por igualdade racial. Não quero
dizer com isso que não temos muito ainda que lutar, mas ninguém
pode negar que ele abriu a frente de lutas e facilitou o nosso caminho.
Francisco Solano Trindade, em
minha opinião, é o maior poeta negro pernambucano do século
passado. Se vivo fosse, faria 99 anos no dia 08 de julho e eu desde
já me pergunto o que esta cidade vai fazer para preservar sua
memória no centenário do seu nascimento, no ano que vem,
já que é tão ciosa e prestativa em homenagear os
outros seus poetas brancos.
Recife, Julho de 2007.
*FRANÇA
é poeta, ator, intérprete de Solano e assenta o 5º
tamborete na Galeria dos Mortais.
foto:
Sennor Ramos

o poeta França junto
à escultura de Solano,
do escultor Demétrio Albuquerque, no Pátio
de São Pedro - Recife/PE
Solo
para Solano Trindade
por
Pedro Américo de Farias*
para Inaldete e Júnior,
que me obrigaram a escrever
ler um poema de Solano
metáfora à flor da ternura
ouvir cantar uns blues
dançar cavalo marinho
ao ritmo e sob a energia
da voz de Memphis Minnie
sondar parentescos
entre blueseiros e poetas
negros de todo o mundo
abrir uma ponte para entender
a poesia andarilha dos cantadores
não apenas nordestinos ou brasileiros
mas de bardos semelhantes perdidos
e achados pelos cinco continentes
sensação que me põe em
sintonia
com o mundo que se move
ao calor da luta pela expressão
conceito para mim mais próximo
do sentido da liberdade
Solano Trindade sempre buscou
imprimir à vida dicção humanista
perpetuada em sua obra e na memória
dos que com ele viveram e trabalharam
descobri Solano lá pelos anos setenta
reuni em 78 ou 79, num Festival de Inverno
(produzido por Paulo Bruscky, na Unicap)
uma boa pá de gente negra, visões diversas
da velha, da média e da jovem guarda
figurando tendências até dissonantes
todavia unidas ao pé de uma idéia
estudar a obra e a vida do poeta negro
operário, ator, dramaturgo e ideólogo
nascido no bairro de São José
vivencio os poemas de Solano
em muitas e diferentes situações
ora recitando, ora vendo recitar
dramatizada ou simplesmente lida
a sua boa e despojada poesia
curto a riqueza temática manifesta
no conjunto de sua criação literária
que inclui o texto e a encenação
no teatro experimental do negro
de Solano me falava muito o amigo
José Vicente Lima, que tive o prazer
de conhecer por meio do filho Gustavo
quem de fato primeiro me lembrou o poeta
por Solano percebi o entusiasmo
que havia na pessoa de um Ferreira
saudoso da militância naquele teatro
para Solano posso muitas vezes ver
voltado o olhar da gente nova
que na periferia do grande Recife
esquenta o batuque e ferve no verso
dito e cantado da própria poesia
batuque e verso apoiados na liberdade
que o poeta negro, recifense e universal
Solano Trindade, defendia e praticava
na política, na poesia, no teatro, na vida.
*PEDRO AMÉRICO DE FARIAS
é poeta.