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Joaquim
Cardozo
terras e águas para as raízes
por
Maria da Paz Ribeiro Dantas*

Não é possível,
em poucas linhas, dizer tudo o que o Nordeste representa na obra de
Joaquim Cardozo... nem o que ele representa para o Nordeste.
Para dizer da presença
do Recife na poesia de Joaquim Cardozo, só invocando a sua voz
poética.Ela se faz ouvir ora em textos de prosa ora em versos.
Na prosa, temos um exemplo neste texto A cidade do Recife, do qual escolhi
os parágrafos iniciais:
"A Cidade do Recife nasceu
sobre terras por três rios trazidos de muito longe: o Beberibe,
o Capibaribe e o Ibura. Construiu este solo de argila cinzenta, untuosa
e macia, constitui toda uma longa várzea – uma veiga
– como diria Garcia Lorca, falando da sua “veiga grandina”;
uma várzea e vastos céus abertos à luz meridiana
e tropical, onde, pelo verão, grandes nuvens, como montanhas
de neve, brilham ao sol; onde os “ferreiros”, com gravetos,
compõem a arquitetura dos seus ninhos nos ramos das cajazeiras,
e, entre velhas cercas, ou em touceiras, na mesma época, florescem
os espinheiros brancos e amarelos.
Dos três rios o mais amigo
da cidade é o Capibaribe, pois traça, por todo o chão
do Recife, um grande signo, um grande S em linhas sinuosas e caprichosas;
as suas águas penetram na cidade pelas terras do antigo Engenho
da Torre, cujo telhado, dizem, ainda hoje cobre uma olaria; dirigem-se,
depois, para o Sul, percorrendo todo o bairro da Madalena, onde, em
tempos já muito antigos, ricos proprietários edificaram
as suas residências, com as fachadas sobre elas.
O viajante que chega ao Recife
por mar não sabe que está sobre as águas desses
três rios, não sabe que o seu navio flutua sobre três
águas longínquas; o viajante que chega ao Recife pelo
ar desce no Aeroporto dos Guararapes, construído em terras
do Engenho Ibura, em terras que em épocas talvez muito remotas
foram sedimentadas pelo rio do mesmo nome."
Em versos, este Tarde no Recife
passeia a vista sobre a cidade. É uma mirada sobre a urbe de
1925, recortada em cenas de uma tarde qualquer para a montagem de um
filme em três tempo, três momentos:
Tarde no Recife.
Da ponte Maurício o céu e a cidade.
Fachada verde do Café Maxime, Cais do [Abacaxi.
Gameleiras.
Tanta gente apressada, tanta mulher
bonita;
Um camelô gritando: - alerta!
Algazarra. Seis horas. Os sinos.
Recife romântico dos crepúsculos
das pontes,
Dos longos crepúsculos que assistiram à [passagem
dos fidalgos holandeses,
Que assistem agora ao movimento das ruas [tumultuosas,
Que assistirão mais tarde à passagem dos [aviões
para as costas do Pacífico;
Recife romântico dos crepúsculos das pontes
E da beleza católica do rio.

Escultura do poeta na ponte Maurício
de Nassau em Recife**
E ao entrar pela memória, noite adentro,
funde realidade e fantasia não perdendo de vista a pobreza que
estigmatiza a cidade. Recife, o “cão sem plumas”,
essa cria de outro visionário - o poeta e amigo João Cabral
de Melo Neto. De Joaquim Cardozo é o “Recife de outubro”,
cujo “luar transviado” contamina o olhar de beleza estagnada,
redimindo a urbe pelo sonho:
Recife de outubro
Ó cidade noturna!
Velha, triste, fantástica cidade!
Desta humilde trapeira sem flores, sem poesia,
Alongo a vista sobre as águas,
Sobre os telhados.
Luzes das pontes e dos cais
Refletindo em colunas sobre o rio
Dão a impressão de uma catedral imersa,
Imensa, deslumbrante, encantada,
Onde, ao esplendor das noites velhas, quando [a
noite está dormindo,
Quando as ruas estão desertas,
Quando, lento, um luar transviado envolve o [casario,
As almas dos heróis antigos vão rezar.
Quando disse, numa entrevista,
que nunca deixou o Recife - embora, por necessidade, se tenha transferido
para o Rio -, Joaquim Cardozo demonstrou isso ao longo de toda a sua
obra.
Suas raízes, por se terem
plantado fundo na terra nordestina, nunca dali foram de fato arrancadas.
* Maria
da Paz Ribeiro Dantas
é poeta, ensaista e pesquisadora da obra de Joaquim Cardozo.
** Fotografia:
Sennor Ramos, Escultura: Demétrio Albuquerque

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engenharia
da dor
para
joaquim cardozo
este olhar assimétrico
e o aroma de jasmim
não moram em meu poema
moram em meu poema:
a dor meridiana
o cheiro geométrico
placas de engenharia
números exatidão
conexão tangencial da morte
solidão inseparável
das espécies
Cida
Pedrosa
(poema
publicado no livro gume)
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Joaquim Maria Moreira Cardozo
nasceu em Recife no ano de 1897 e terminou seus dias na cidade Olinda,
onde veio a falecer em 1978. Cardozo, poeta e engenheiro civil sempre
fez da engenharia e da literatura o seu universo de vida.
Como engenheiro, trabalhou junto
com o arquiteto Oscar Niemeyer, e participou da construção
de várias obras referências da arquitetura moderna brasileira,
a exemplo dos palácios do Planalto e Alvorada e do prédio
do Congresso Nacional.
Como poeta nos deixou um legado
de poesia incomparável e uma vasta obra de teatro, importate
e ainda pouco conhecida.
Obras:
1947 - POEMAS
Rio de Janeiro: Agir.
1948 - PEQUEÑA ANTOLOGIA PERNAMBUCANA
(Barcelona, Espanha): O livro inconsútil
1952 - PRELÚDIO E ELEGIA DE UMA DESPEDIDA
Niterói: Hipocampo.
1960 - SIGNO ESTRELADO
Rio de Janeiro: Livros de Portugal.
1963 - O CORONEL DE MACAMBIRA
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
1971 - DE UMA NOITE DE FESTA
Rio de Janeiro: Agir.
1971 - POESIAS COMPLETAS
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
1973 - OS ANJOS E OS DEMÔNIOS DE DEUS
Rio de Janeiro: Diagraphis.
1975 - O CAPATAZ DE SELEMA, ANTONIO CONSELHEIRO,
MARECHAL BOI DE CARRO
Rio de Janeiro: Agir. Coleção Teatro Moderno, 26.
1976 - O INTERIOR DA MATÉRIA
Rio de Janeiro: Fontana.
1981 - UM LIVRO ACESSO E NOVE CANÇÕES
SOMBRIAS
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
1997 - POEMAS SELECIONADOS (organizado por César
Leal)
No ano de 2001 a Fundação
de Cultura Cidade do Recife, durante o Festival de TEATRO DA CIDADE,
EDITOU AS OBRAS:
OS ANJOS E OS DEMÔNIOS DE DEUS
O CORONEL DE MACAMBIRA
MARECHAL BOI DE CARRO
DE UMA NOITE DE FESTA
O CAPATAZ DE SELEMA
ANTONIO CONSELHEIRO

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