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SOBRE MUROS E PONTES
Ignácio de Loyola Brandão em Berlim Ocidental

por André Telles do Rosário

 

“Um dia, depois de muito pensar numa frase de Hans Christoph Buch, me bateu forte certeza de que o muro não existe apenas em Berlim. [...] Há um muro entre o nordeste brasileiro e o sul. Um espesso e intransponível muro entre Brasília e o resto do país. Muro entre o sistema que nos governa e o povo. Muro entre favelas cariocas e os habitantes dos prédios e casas. Muro em São Paulo, a cercar pessoas fechadas em seus apartamentos, protegidas por grades, circuitos internos de tevê, alarmes, guaritas, cães. Muro, por toda a parte.”

 

Durante quinze meses, Loyola Brandão morou em Berlim, graças a uma bolsa do DAAD, o Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico. Na época, 1982, a Alemanha dividida pela Guerra Fria era o lugar mais militarizado do planeta, a fronteira tensa de duas ideologias. E West-Berlin, uma ilha capitalista dentro do mar vermelho da DDR, a República Democrática Alemã, comunista.

De sua imersão surgiram três obras. Oh-Ja-Ja-Ja, diário de sua estada na cidade dividida, traduzido para o alemão por Henry Thorau, publicado em Berlim, pelo Literarisches Colloquium Berlin, em 1983, e ainda inédito em português. O romance com que “pagou” a bolsa do DAAD se chamou O Beijo Não Vem da Boca, publicado em 1985, pela Global. E o livro-foco da coluna Escrita Viajante desta feita, com os relatos da viagem, intitulado O VERDE VIOLENTOU O MURO – visões e alucinações alemãs, publicado em 1984, pela mesma editora paulistana.

 

“Estrangeira

Certo dia eu estava em Colônia, e fui comprar passagem de volta. O funcionário da agência, evidentemente, novo, não encontrou Berlim na lista de cidades alemãs. Perguntou e obteve do gerente:

- Veja na outra lista. Berlin ist Ausland!

Berlim é estrangeiro.

Estrangeira para os próprios alemães. Baile sobre o vulcão, na definição de uma canção popular. Ilha do mar vermelho, devido a sua posição isolada dentro da Alemanha Oriental. Cidade das ilusões perdidas, para um filme que abordou a situação dos travestis que, marginalizados em seu próprio país, aqui se exilam, tranqüilos. Fênix bicéfala, centro cultural da nação (para o ex-presidente Walter Scheel), lugar privilegiado de intercâmbio entre o Leste e Oeste (para Willy Brandt), acampamento de esquerdistas e contestadores para os alemães conservadores, um peso difícil de se suportar financeiramente para a maioria dos habitantes da República Federal. Cidade ambígua, paradoxal, do desbunde, da decadência, paraíso artificial, alegre, louca, divertida, incompreensível, provinciana, agitada, tranqüila. Com o tempo eu compreenderia que Berlim é (ou se torna) aquilo que a gente quer que seja.”

Sua experiência na Alemanha é narrada em flashes, a maioria deles de alguns parágrafos, onde expõe dados sobre Berlim e seu muro, sobre o dia-a-dia entre os berlinenses cercados pelos 165 kilômetros de concreto, achando flores nas fissuras com um lirismo encantador, ao captar momentos únicos da vida na cidade:

Carta no sábado

Vagão cheio, metrô Oesler-Steglitz. A trintona de olhar profundamente azul e boca vermelha lê uma carta escrita com garranchos e sorri feliz. No colo, um buquê de flores levemente amassadas.
...

O vermelho e o punk

Meia noite, rua deserta. Farol vermelho para pedestre. Nenhum carro à esquerda, rua vazia ao infinito. Diante do farol, o punk de cabelos à la índio iroquês, tintas por toda a parte, cinturão com tachas prateadas. O punk espera o sinal verde na rua deserta.
...

Domingo

Manhã de domingo, um dia gelado, o garoto e sua namorada, atarefados e sorridentes, em mangas de camisa, lavam a moto, na Golzstrasse, em Schöneberg.”

A política e a cultura de Berlim dessa época também estão presentes: o movimento de ocupação de casas abandonadas, os squatters locais; os mercados famosos como o Ka De We; as ciclovias; a ascensão do Partido Verde...  Entre os fatos curiosos que narra, a espermulação dos brasileiros, a busca de utilidades no que a classe média local joga fora, TVs, sofás, etc, o verbo vindo do substantivo alemão sperrmüll, entulho.

Entre os excertos, alguns elementos ficam retornando, inconclusos, até serem revelados, como Stieglitz, nome que depois descobre ser familiar por ter sido a residência de Kafka em Berlim; ou a bandeira branca dos Hausbesetzer (squatters), que não compreende de início; ou um prédio que vê no Tiergarten, com arquitetura absurda e sinistra, depois descobrindo o que este guardava dentro. Tais desenvolvimentos acabam funcionando como ganchos para despertar e manter a curiosidade do leitor durante a jornada pela obra. E são, ainda, uma tradução do processo de viver fora, em movimento, avançando no tempo, aprendizado diário, sucessivo, cumulativo.

Há ainda a apresentação de Allen Ginsberg, que Brandão pôde assistir e relatar numa carta, inserida como um dos excertos, para o amigo Cláudio Willer, tradutor brasileiro do poeta americano:

“Começo de fevereiro, na Academie Der Künste, em Berlim, leitura de Allen Ginsberg. Disputo um lugar a seis marcos. Platéia cheia, gente misturada: homens de terno e gravata, tipos à vontade em jeans e tênis, punks, e etc. Fiquei imaginando que talvez estes homens de terno e gravata, entre quarentões e ciquentões, fossem jovens em fins da década de cinqüenta, começos dos sessenta, quando os beatniks se promoveram no mundo. Eu queria ver Ginsberg. Ver. Como é este homem a quem e sobre quem leio há mais de vinte anos? Poeta que atravessa a história literária dos EUA, homem-guia, homem-estrela. Não estrela no sentido do star Hollywood, mas sim a estrela que apontou aos magos a direção da mangedoura. [...] Uma coisa entendi, ao olhar aquele homem alto, de calças brancas compridas demais, camisa vermelha e gravata com laivos dourados: ele não é como nós. Sujeito de ótima aparência, para quem submeteu o corpo a toda sorte de experiências com drogas e bebidas e estimulantes. [...] Confesso que em Ginsberg há uma aura. Claro que há. Não é mitificação minha, existe todo um astral que o envolve e me faz gostar dele. Não me fez gostar enquanto cantava, num tom que misturava o monocórdio oriental com a monotonia melódica do country. Porém, quando leu seus textos, com um do Nuclear Octopus (O polvo nuclear), Ginsberg cresceu, tomou o palco, se transformou. Que melhor lugar para se falar do polvo nuclear que Berlim?”

As diferenças culturais, como não podia deixar de ser, servem de motivo para comentários sobre o Brasil, nossos péssimos costumes políticos, a Abertura, a inflação galopante da época... E também sobre os hábitos dos brasileiros no estrangeiro, como quando se fazem intercâmbios políticos, numa afirmação que apesar da distância de décadas, não perdeu nada de sua verdade:

“Existe em Berlim uma organização internacional de administração de municípios, onde técnicos trocam experiências e fornecem know-how. Brasileiros têm comparecido com regularidade. Desde prefeitos e secretários de pequenas vilas, até as metrópoles. Dinheiro inútil, turismo apenas. Conheço uma universitária que costumava trabalhar para essa organização, acompanhando brasileiros, pois ela fala português. Era um problema. Primeiro com as cantadas. Segundo com os pedidos para que ela trouxesse amigas para saírem à noite. Terceiro com a programação. Tudo o que os prefeitos queriam era ir aos  peep-shows, onde há mulheres nuas, filmes pornôs e revistas eróticas. Sobre os encontros comentavam que eram monótonos. “Europeus nada têm a ensinar aos brasileiros”. Concordo que há desenvolvimento e subdesenvolvimento e que certas normas e comportamentos são impossíveis de serem adaptados e implantados na América Latina, em geral; no entanto, ficamos no meio termo. Nem readaptamos pareceres e realidades, nem aplicamos técnicas universais, que levam em consideração o homem dentro do meio urbano. Falamos todos, técnicos e não técnicos, intelectuais e administradores, esquerda, direita e centro, no homem, porém nem um passo é dado em direção a este homem, utópico e desconhecido. Distante e ignorado.”

A edição que me serviu para fazer este texto foi a segunda, de antes da queda do muro. Ignácio ainda voltou a Berlim depois da reunificação, e escreveu mais informações e comentários sobre a cidade que encontrou no retorno. Nesse momento de comemoração dos vinte anos do “milagroso” dia 9 de novembro de 1989, vale citar um trecho quase profético, não fosse deduzido de um aprendizado histórico, em que Loyola Brandão, ao descrever o muro, comenta a persistente criatividade humana em ultrapassar limites e fronteiras que são, no final das contas, todas arbitrárias. É o excerto com que encerramos esta edição de Escrita Viajante:

“Uns o chamam de ‘o muro da vergonha’. Muito utilizado para a propaganda do sistema capitalista. Tenho a sensação de que se os russos não erguessem o muro, os norte-americanos dariam um jeito de fazê-lo. Convém. Basta dar uma espiada no Museu do Muro, à saída do Checkpoint Charlie. Está tudo lá, conservado: os balões, os mini-submarinos, os carros adaptados, as ferramentas com que abriram túneis, enfim as centenas de expedientes usados pelos que atravessaram o muro, por cima, ou por baixo. Para mim o museu é apenas mostra da criatividade humana em qualquer circunstância. O homem inventa, se arranja, escapa. Quem não está contente e atingiu limites insuportáveis, sempre dá um jeito. Daí a surpresa, às vezes, dos sistemas totalitários quando vão além da tensão suportável.”

P.S. A partir de agora, como pôde perceber o leitor, a coluna tem mais inserções de trechos da obra em questão, e uma condução dos temas mais solta, instintiva, itinerante. Resultado das reflexões sobre o tema e dos incômodos e desejos que nos movem no estudo. A periodicidade também será mais espaçada – decisão tomada devido ao tempo escasso e tão necessário para outras ocupações, prioritárias nesse momento da jornada. Aos acompanhantes e visitantes, minhas desculpas pelo acerto de rota e meu muito obrigado, antecipado, pela compreensão. Sucesso!

(novembro de 2009)

andretellesdorosario@hotmail.com

 

 

 

 

 

 


Escrita Viajante

ANDRÉ TELLES DO ROSÁRIO é poeta e pesquisador

outros textos:

VIAGEM, LITERATURA E POLÍTICA

ANTONIO BIVAR NA CORTE DA CONTRACULTURA

QUANDO CHEGARÁ LA PAZ?

 

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