Viajar, sem amarras,
no mundo inteligente e inteligível do poeta e pensador Wilson
Araújo de Sousa (WAS), sob a condução
do poeta e editor Pedro Américo de Farias é
sem dúvida um exercício de prazer para as almas que buscam
fugir da mesmice. Se ligue e boa viagem.
(os editores)

DECODIFICADOR
VOLUNTÁRIO
DE SIGNOS IN-VOLUNTÁRIOS
No dia 30 de janeiro de 2006,
iniciei esta entrevista com Wilson Araújo de Souza, a pedido
de Cida Pedrosa, para o Interpoética. Concluída um mês
depois, a conversa revela um criador literário de formação
bastante eclética, decodificador voluntário de Signos
in-voluntários. WAS, como se chama abreviadamente, penetra na
floresta amazônica das palavras, armado de um moinho em que vai
triturando e recriando expressões, em condições
de receber a classificação que Caetano Veloso atribuiu
a Jorge Mautner, de que este usa clichês com a originalidade de
um marciano. Maranhense de São João dos Patos, que veio
retirando, aos poucos, primeiro dentro do seu próprio Estado,
posteriormente até o Recife, onde instalou, desde 1970, sua base
de relações para conquista do pedaço de mundo a
que tem direito, como qualquer outro ser vivente. WAS, a meu ver, uma
das esfinges da poesia pernambucana e brasileira, pode assim reagir
à perplexidade dos seus leitores: decifra-me e eu te devoro.
WAS, com
quantos cânones se faz um poeta?
Com quantas canoas se chega à
terceira margem do rio? Eh linguaviagem! Ezra reza o paradigma? Paideuma
pai de uma proeza pro... Ezra? Quem zera a reza do dogma? Diga-me! Trovar
claro: é sempre no meu tédio, aquele aceno... de Drummond.
Trovar claro... enigma: é sempre no meu tédio, aquele
Ascenso... de Oswald. Bandeira da vida inteira: senso (e non-sense)
de humor. O capítulo da paixão maranhense com suas canções
do exílio: a própria, o Inferno de Wall Street e o Poema
Sujo. Cânone? Ícone? Ipsilone (insone ipsilone de Freyre:
lonely ícone!)? Signos? Signos In-voluntários! Referenciais
preferenciais: tropicalistas no disco-manifesto Tropicália, concretistas
do plano-piloto, os Códigos de Afonso Ávila, digo Murilo
de lira burilada, Obra em Dobra, Huidobro em dobro... e João
Cabral de Melo Neto fica sendo o nome mais belo do verso.
Pode fazer
um paralelo entre a biografia do poeta WAS e as biografias de alguns
dos seus poemas?
No princípio era o verbo...
pelo verbo. Tema: linguagem - e... metalinguagem! Sob a proteção
(?) do anjo (torto) da (van)guarda. Agora, publico Signos In-voluntários
com mais de 30 anos de mim mesmo, mesmo que ensimesmado ou a esmo, mas
principalmente de mim mesmo em relação com os outros,
com os outros eus, do fundo (do eu profundo?) do coração
vagabundo de eterno flerte. Eu em que ponho poema sobre o meu aniversagitário
e exponho temas de convivência e até de conivência
com o outro - tanto que minha amiga Eliane fez um levantamento abrangente
das dedicatórias, mas incompleto, posto e exposto que tem referências
também implícitas, com gente saindo inclusive pelo ladrão
do, digamos, subtexto de cada poema. Então, signos in-voluntários
da pátria dos cânones, ícones, ídolos, amigos
e parentes perante um universo de versos diversos. São poemas
sobre poesia, música, artes plásticas, política,
economia. São poemas, digamos, de circunstância, de permanência,
experimentais, mentais, formais, conteudísticos, dísticos
e chistes povoados de aliterações, citações,
referências, colagens, bricolagens, pastiches, paródias,
apropriações, apropriações indébitas,
expropriações, arrastões e acho que até
ladroagens! Talvez faça em poesia o correspondente ao sampleado
na música. Biografia? Biografia do poema? Poema autobiográfico?
Grafia nos autos (?) dos Signos In-voluntários.
Tomando,
via Guimarães Rosa, uma expressão alemã: Mich reitet
auf einmal der Teufel (de repente o Diabo me carrega), eu te pergunto:
em que Encruzilhada o Tinhoso te passou a chave da poesia?
Educação pelo medo:
timidez atraída/ pela nitidez/ úmida e movediça/
do medo/ na rua/ no meio do redemoinho/ de areia/ de tutóia./
Pinóia de medo, paranóia./ Pedro: com que roupa eu vou/
pro congresso internacional do medo? Medo anagrama demo? Acho que o
capeta já colaborava com os meus chistes e trocadilhos na precoci(osi)dade.
Acrilírico (olhar colírico/ lírios plásticos
do campo e do contracampo/ telástico cinemascope teu sorriso
tudo isso/ tudo ido e lido e vindo do vivido/ na minha adolescidade/
idade de pedra e paz... {e por aí vai, como diria o Martônio
ao Antônio mirando o mar}), de Caetano Veloso (do tempo de reclusão
na Bahia pós-prisão e pré-exílio), que li
antes de sair no disco, na agora famigerada Veja (e não leia),
deu um estalo que acho que deixou o capeta girando sobre a minha cabeça
que nem carrapeta... tanto é que saí dali da praça
João Lisboa, em São Luís, direto pro toc-toc na
Remington Rand do Escritório da SUDENE: saiu um troço
(puro pastiche!) de um fôlego só que foi publicado na revista
Equipe (muito boa) da SUDENE, aqui no Recife, na sede - o que me deixou
compenetrado tentando e atentando até hoje. Vereda de idéia
de Riobaldo debalde em terreno baldio pela terceira margem do rio: "...
minha idéia confirma: que o Diabo não existe... o Diabo
não há... Pois não?" E Deus e o Diabo na Terra
do Sol? E Deus e o Diabo no Inferno de Goethe? E Deus e o Diabo no inverno
de Goethe - e da gota? (Em Strasbourg, carrefour de routes)? Sol da
idéia: luz em que Deus joga dados com os ateus. Como diria Einstein
em desfrute do einsbein com chucrute (design do dasein?)
Novamente,
a partir de Guimarães Rosa: "Os livros nascem quando a pessoa
pensa; o ato de escrever já é a técnica e a alegria
do jogo com as palavras". WAS, escrever é uma sentença
imposta ao escritor, pelo destino, um ditame da consciência ou
um simples e prazeroso jogo?
Um simples e prazeroso jogo (de
palavras) jogando com a dúvida, dádiva da consciência:
Que é o destino? Destino de escolhido? Destino por descuido?
Cuido do destino? Destino por acaso? Acaso há um destino nordestino?
Consciência do destino: oficina em que tino e desatino manuseiam
instrumentos e ferramentas para entender melhor a máquina do
mundo... A palavra é anterior ao entendimento (conforme Chico
canta?)? O entendimento é anterior à palavra? A palavra
de habitar o coração do pensamento e a cabeça do
sentimento é a palavra de fazer literatura? Outro entendimento
(o da consciência clandestina?): fazer poesia é arruinar
o pensamento? Jogo o jogo prazeroso (por vezes doloroso) da palavra
(da palavra abismo), não por desencargo de consciência.
Com a consciência dançando conforme o ritmo do meu íntimo
destino... in-voluntário (Pessoa).
Que livros
você levaria para uma ilha deserta, assim como Manhattan, por
exemplo?
Se por exemplo fosse a ilha deserta
de Manhattan, eu levaria Triste Partida, Canção do Exílio,
a mais perfeita canção do exílio que é Asa
Branca (pode levar a melodia?) e o Inferno de Wall Street. Para outra
ilha deserta eu levaria os três textos citados e mais: Vidas Secas,
Os Sertões, Grande Sertão: Veredas, Nordeste, Formação
Econômica do Brasil, João Miramar, Serafim Ponte Grande
e Poesias Reunidas (antes tinha de mandar reencadernar) de Oswald, Reunião
(não mais reunindo tudo) de Drummond, Poesias Completas (agora
bastante incompletas) de João Cabral e uma Antologia feita em
casa com Bandeira, Murilo Mendes, Irmãos Campos, Afonso Ávila,
Leminski, Caetano, Gil, Chico, Jobim, Torquato, Tom Zé, Walter
Franco, Vinícius, Arnaldo Antunes... Reler, re-ler. Ler... levaria
toda a poesia que evidencia os alvoroços do admirável
espírito dos moços. Já estou optando por (cooptando-me
para) uma ilha deserta longe daqui aqui mesmo - Shopping Center? Tecla
enter? Na zoada mesmo de pedro pedreiro na construção
das cidades paratodos (sobre todas coisas?). Nada além de uma
ilusão à toa cheirando o pó do ópio da utopia
de fazer uma sondagem à base de cálculo renal do ser e
de cálculo infinitesimal do... não ser? Já estou
com a sacola da grife Wilson cheia de matafísica, Kant, física
quântica... tudo com a pretensão (poeta tem que ter ambição!)
de de-codificar o HUMANO DEMASIADO UNAMUNO... Com a humildade compenetrada
de um maranhense filho de São João dos Pat(h)os... e ethos.
Eu, heim, Rosa?
Vida literária,
academias, "o me cita que eu te cito"... isso existe para
a criação literária?
"Cita-se para ser grato,
cita-se para obter o reconhecimento" - epígrafe do mestre
Milton Santos para este meu, digamos, poema: me cita que te cito/ me
cita que te cito/ me cita que te cito.../ tumulto no trottoir do elogio
mútuo (FM)/ digo tumulto no périplo pelas tramas verbais/
de citações múltiplas. E este outro poema (piada?):
FLAVIOCA (circulando urbe et ube): lá vai a flavioca.../ fazendo
ponto de parada/ na fundação e na academia/ no conselho
e na mídia/ lá vem a flavioca/ cantando frevo de bloco/
tocando antigos carnavais/ citando e recitando o mestre de apipucos/
e assinalando as armas/ e os brasões armoriais. Difícil
não fazer o périplo urbe et ube. Uns não fazem
por reclusão? Quem não faz por exclusão? Estação
Recife, Invenção Recife, Marginal Recife... todos fazem!
De um modo ou de outro... incômodo. É inevitável
esse universo de encontro, debate, lançamento, livraria, confraria,
recital, bar, bate-papo, papo-cabeça inclusive com as cabeças
objetivas dos estrategistas e operadores de interesses culturais. De
vez em quando uma dosagem maior de bebida alcoólica para tornar
as (próprias e as outras) pessoas mais interessantes... De quando
em vez um ou outro poeta (geralmente os poetas) faz aquela declaração
pública com o seu comprometimento visceral com uma identidade
poética não negociável. Aparece (e desaparece)
aquele sujeito desajeitado, temperamental e inseguro - o perfeito poeta
experimental? Desaparece e reaparece aquele tipo pop e franzino, bailarino
de hip hop e circulador de fanzine. Ninguém escapa - só
escapa pela porta principal. A criação literária
mesmo corre por fora do que ficou combinado no esquema-esquemão-sistema-sistemático.
Será? O que será que será o vir a ser depois de
você ir e vir naquele périplo amplo e múltiplo?
Acho que aquele meio-mundo-ambiente de gente convergente e divergente
influencia sim a criação literária - se não
em todos os sentidos, pelo menos no sexto... e no bissexto.
Was, não
é fácil entrevistar um inimigo, já um amigo, impossível.
Tenho elaborado as questões como quem supõe as respostas
que vai receber. Pensei, então, que em vez de perguntas, melhor
seria te dar uns motes... vamos tentar? Então, lá vai:
cinema,
e dentro dele, o farwest e o cinema novo e a nouvelle vague...
Faroeste, western, cowboy: colt
movie, a primeira (ob)sessão de cinema. Cinema! O cinema como
a grande diversão (mesmo com todo o futebol do país de
Pelé). Meus olhos brilham ao ouvir o nome de Elisha Cook Jr.
Ou de Walter Brennan. Ou de Andy Devine. Ou de Slim Pickens. Ou de John
Carradine. Ou de John MacIntine. Ou de Wilson Grey. Ah, esses coadjuvantes
aí! O cinema como a maior diversão... cultural. Filme
cult e colt movie. Film noir e Renoir. Bogart e Godard. Deus e o diabo
na terra do sol que nos protege. Quem a gente elege esses onze aí?
Glauber, Welles, Ford, Fellini, Hawks, Kubrick, Kurosawa, Bergmann,
Mann, Lang... Hitchcock comme il (Truf)faut. Filme cult, colt movie...
move-me principalmente um grande filme doente - um belo roteiro infilmável,
um elenco inadequado, uma filmagem envenenada pelo ódio ou ofuscada
pelo amor, uma defasagem grande demais entre intuição
e execução, um projeto que vai se afundando sorrateiramente
ou sofrendo uma exaltação ilusória: eis o grande
filme doente, segundo Truffaut. Mas nada como a maniantonioni em sua
monotonia densa condensada no luminoso prisma opaco que capta e coopta
o assombroso vigor do tédio flanando no vazio do tempo passado
em Marienbad. Cult musa: condessa descalça e bonjour tristesse
na tessitura noir de belle de jour em ziguezague no boulevard da nouvelle
vague de Godard. O tom exato da memória da nouvelle vague vaga,
divaga naquele rosto, o rosto de Léaud, que está a cara
de Antonin Artaud. Não se pode viver sem Rosselini (personagem
de Bertolucci em Antes da Revolução).
a filosofia,
e dentro dela, o existencialismo de Nietzsche, Sartre e a popfilosofia
jomardiana...
Conforme os pré-socráticos
(Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe!), todas as
coisas estão cheias de deuses. Aurora e crepúsculo dos
deuses. Se todas as coisas estão cheias de deuses e se a alma
é de certo modo todas as coisas, as coisas, então, estão
no mundo para que saibamos (sentir-nos) ir em fluxo incessante de ser
(apropriações em débito com os pré-socráticos,
Aristóteles, Roberto Motta e Jomard Muniz de Britto). CavalKant:
a razão cativa de Immanuel Kant com a idéia de juízo
ativa em Emmanuel Cavalcanti. Humano, demasiado humano: Nietzsche contém
Che. Sartre contém arte - contra a morte. Turista incidental:
arco do triunfo de um flâneur/ sensibilizado de bricoleur/ com
olhos de voyeur/ bem abertos para o sacré coeur/ em montmartre
da place du tertre/ e enternecido no tête-à-tête/
com Juliette Greco/ na cave do existencialismo de Sartre. Pop filosofia:
o que é isto? Isto é Jagger e Heidegger: design de Jagger
para zeigen o dasein de Heidegger, dasein de Heidegger para sagen o
design de Jagger. Deixa estar o estar-aí? Deixa sangrar!
a música,
e dentro dela, a clássica européia, o jazz e blues, a
bossa nova e as outras bossas, o tropicalismo (já mencionado
nas outras respostas), por fim, os repentes tradicionais e o hip hop...
Eu só ponho hip hop no
meu coco, com o tal do pop batendo umbigada com palma de mão.
Gordurinha da antropofagia. Coisas nossas e outras bossas. Bossa nova
e eterno jazz. Samba e mambo. Cuba-caribe e capiba-ribe. Baião
e blues. Forró e rock. Repente e rap. Pé dentro e pé
fora. Num pé e noutro. Um pé, digamos, no nacional-popular
e o outro no internacional-pop. João Gilberto Gil. JoãoGilBeatles
(Lô Borges)... Clássico europeu e eu: quando Chopin reverbera
em Jobim(?). Ou Debussy em... (De)Cussy? Música é sempre
a celebração "do princípio que habita tudo
o que vive para sempre" (J.G.Wisnik). "Qualquer canção,
quase nada/ vai fazer o sol levantar/ vai fazer o dia nascer" (Avarandado,
Caetano).
literatura
aqui agora no Brasil e em Pernambuco, academias universitárias
e avenidas e praças e becos, inclusive o da fome...
Parodiando Alcindo (âncora
e antena), há vários bons escritores circulando no bicho
papel e nos espaços e praças e becos e ecos acadêmicos
e universitários. Eu, hein? Para ficar com os poetas da terra
(Terra da Poesia?), cito "Um Painel da Poesia Pernambucana dos
Séculos XVI ao XXI", pesquisa e publicação
do IMC - trabalho de (prender o) fôlego. E situo as belíssimas
coletâneas (como tem sido possível?) da Prefeitura desta
Cidade: Invenção (invenção) Recife, Estação
(convenção?) Recife e Marginal (contravenção?)
Recife. No mais, eu digo sim ao NÃO de Augusto de Campos, inventor
dos inventores.
e pra
começo de fim de conversa, pegando carona naquele estilo de repente
de viola "o que é que me falta fazer mais", me responda:
o que te falta dizer mais?
Nada existe neste planeta terra
que não se fale na conversa de botequim. Conversa em que você
entra péssimo e sai seda, com verso para a poesia da educação
dos cinco (e do sexto e do bissexto) sentidos. Todos os sentidos, o
sentido denso das palavras da tribo em línguaviagem pela terceira
margem do riocorrente.
(fevereiro de
2006)
Foto enviada pelo
entrevistado