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Vital
Corrêa de Araújo
(1945, Vertentes/Pernambuco) é poeta, escritor, jornalista,
auditor do Tesouro, bacharel em direito, com curso de História
e Filosofia, professor do curso médio, conferencista, tradutor,
especialista em Jorge Luís Borges e Presidente da União
Brasileira de Escritores em Pernambuco (UBE-PE)
Livros publicados:
TÍTULO PROVISÓRIO – 1977; Burocracial –
1982; Poemas com endereço – 1985; Gesta Pernambucana
– 1985; As Flores da URBE – 1986; CORAÇÃO
DE AREIA – 1994; GIDE ou O Desejo – 1995; A CIMITARRA
E O LUME (Rubais) – 2004; Só às paredes confesso
– 2006. |
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O convívio com Vital Corrêa
de Araújo aconteceu a partir dos encontros literários
e depois quando me integrei à União Brasileira de Escritores,
ao fazer parte do quadro da Diretoria nessas duas últimas gestões.
A partir do convite de Cida Pedrosa
para fazer a entrevista - a quem muito agradeço - despertou-me
o entusiasmo para desvendar o universo mítico do poeta. Devido
à singularidade de seus poemas, tornou-se objeto de estudo do
professor Sébastien Joachim, que o tem levado para outras Universidades.
Vital é um poeta que possui o dom, a facilidade de transcrever
imagens que fervilham em sua mente, criando um universo paralelo com
significações sui-generis.
Poeta carismático que se
diz hermético por opção, na poesia elege o sensorial,
em detrimento da compreensão, meramente supérflua, aleatória,
do poema.
Há muito
que perguntar, há muito que refletir sobre as questões
aqui abordadas. Então, mãos à obra.
O
poema descritivo envolvendo um aspecto da natureza ou do espírito
parece não ter guarida no seu trabalho. Ou tem?
A finalidade ou o objetivo da
poesia, como representação, descrição, imitação
da natureza, do mal (aparente), do sentimento ou reprodução
da emoção, capturada na tranqüilidade ou no desespero,
pela palavra, cessou, não tem mais validade, desde o final do
século XIX.
Insisto.
Por quê uma posição tão drástica,
posicionamento que vai de encontro ao que muitos pensam da poesia?
A poesia exime-se, cada vez mais,
ao longo de sua última grande revolução (estética),
a partir de 1880, da função ou preocupação
de copiar e exprimir o que existe, e concentra-se em criar e exaltar
um mundo mais real e mais verdadeiro: o sonegado pelo poder da aparência
e do simulacro. A poesia dita moderna considera as coisas como signo,
fluxo, reflexo e síntese do que é humano e não
meramente natural. Nada do que é humano me é estranho,
disparou Terêncio. Realidade /verdade não são paralelas
(que se encontrem somente em algum longínquo infinito), mas são
comunhão (faces da mesma moeda cósmica), e o elo (ou a
interface) da poesia as liga.
Vital,
você afirma que a poesia não é o meio certo de dizer.
Se o escritor quiser dizer algo use a prosa. Por quê?
Isso de o que quis dizer o poeta,
que pressupõe que o leitor exige a melhor compreensão
possível da leitura poética e, portanto, o melhor e mais
explícito modo de dizer poeticamente do lado do autor, é
uma falsa questão. Valéry diz; o que quis dizer no meu
poema está dito nele literalmente e em todos os sentidos, reais
ou imaginários.
Não
há aí uma contradição, desde que o poeta
escreve para que o leitor entenda (ao menos em parte)?
Recorro a Valéry que arre(matou)
a questão: “a poesia intima-nos a transformarmo-nos muito
mais do que nos convida a compreender”. Traduzo: a poesia é
(ou serve) mais para nos compreendermos do que para sermos compreendidos.
Isso desarma bomba, alivia o temor ou o desgaste do poeta que escreve
o poema e se coloca na posição de leitor, buscando compreender
o que dizia, tarefa que desqualificava o poema, o produto sendo uma
quantidade de palavras arranjadas sob o a prioridade prévia e
necessária da compreensão, o que equivale ao carro na
frente dos bois.
Por
quê uma mudança tão radical no modo de compreender
a poesia?
O axioma de D’Alembert
de não reconhecer como bom um verso se não fosse excelente
em prosa, a revolução da modernidade (além da Francesa)
modificou: não será da prosa qualquer escrito que não
for melhor em verso.
Na sua
opinião, como é elaborar um poema?
O poema não se mede pela
capacidade de descrever (analítica, abstrata ou simbolicamente)
uma figura (objeto, tema, sensação, sentimento) ou ao
modo de uma explanação didática ou explicitação
de um conteúdo moral, pessoal, educativo. Ou seja, não
vale pela perfeição como representa ou explica. Atua sobre
nós (autor e leitor) como um ser real, como o mar, o sol ou o
vento. Ele é belo, não como uma demonstração,
mas como uma árvore. E Pierre Roverdy completa: o poema não
visa emocionar pela exposição, mais ou menos patética
de um eco informativo, noticioso, mas criar no poeta e no leitor uma
emoção tão ampla, tão pura como podem fazer
a tarde, o desenho do crepúsculo, um céu crepitante de
estrelas, o mar calmo ou encapelado ou o imenso drama mudo da luta entre
as nuvens e o sol, pela taça do ocidente.
A propósito, quando perguntaram
a Valéry o que ele quis dizer num poema, a resposta traduz o
dito acima: quis dizer o que está dito literalmente e em todos
os sentidos, possíveis e imagináveis.
Ao decurso da evolução
da poesia, desde o último cartel do século XIX, as palavras
(do poema em verso ou prosa) têm cada vez menos um valor expressional
e cada mais um valor criador. A linguagem poética já não
tem que imitar a natureza ou explicá-la à maioria de um
discurso prosaico ou descrição realista, mas fazer surgir
uma realidade nova. As palavras deixam de ser somente (ou são
além disso) sinais convencionais para participar nas próprias
coisas. A linguagem já não é um meio, é
um ser, disse Jacques Riviery.
O que
é a poesia para você?
A poesia é uma potência
e sua função é extrair das palavras mais do que
elas contêm aparentemente, mais do que elas portam de significados
e resíduos de sua história filológica. Cabe à
poesia retirar, arrancar das palavras mais do que eles trazem ou dizem,
tirar delas, como o sílex sob percussão (choque, roce)
possibilidades imprevisíveis ou inusitadas, significações
adormecidas ou insuspeitadas e conotações novas (ou denotações
in(ou re) inventadas, tudo o que elas continham (ou contêm) em
potencial atualizados pela modelagem, força plástica,
forma, capacidade de prospecção e expressão da
poesia.
Enfim, as coisas significam (para
o homem) mais do que são. Ou não são senão
uma parte daquilo que elas significam. Isso é vital para o trabalho
real do poeta. O real contém mais do que a ação
imediata e cotidiana (prosaica) dele se tira, mais do que em suas veias
pulsa, e infinitamente mais do que o hábito e o uso comum ou
ordinário (inercial), convencional, superficial, nele têm
depositado. O real é inesgotável (inclusive em suas facetas
surreais ou mesmo mágicas e místicas).
Qual seria,
então, digamos, a missão da poesia, se é que há
alguma?
A
poesia tem por missão captar, aumentar, dilacerar, ampliar as
significações do todo (e assim cada palavra ou sintagma,
frase ou verso que projetem ângulos ou feições desse
todo), para transmitir (ou exprimir) as revelações e assim
comunicar o invisível do conteúdo pelo visível
da forma. Isso faz parte do processo de humanização ou
mesmo de hominizaçao do homem. Holderlin confirma: o poeta funda
o mundo. Se Deus criou o mundo para se curar, o poeta recria-o para
o mudarmos.
Será
que daria para explicar melhor o que são essas revelações?
No
decurso da evolução recente da poesia, desde o último
cartel do século XIX, as palavras (do poema em verso ou prosa)
têm cada vez menos um valor expressional (ou informacional) e
cada vez mais um valor criador. A linguagem poética já
não tem que imitar a natureza ou explicá-la (perdeu esse
encargo ou peso) à maneira de um discurso prosaico ou descrição
(relato explícito, lógico, claro), mas fazer surgir uma
realidade nova (extraída a ferro e a frio) do potencial infinito
da linguagem. As palavras deixam de ser somente (ou são além
disso) sinais convencionais – com denotações normais
e baixas conotações – para participar nas próprias
coisas.
A linguagem já não
é um meio, é um ser, disse Jacques Rivière. Portanto,
a palavra (poética) tem por tarefa não copiar as coisas
e adaptar-se a elas, denotando-as, mas, pelo contrário, fazer
romper as barreiras que inibem os significados e esgotam as definições
e delineamentos aparentes, limites e sentidos usuais ou banais das coisas.
Ao que
me consta, você é avesso à velha tradição
da rima no poema. Por quê?
A
emenda salva um soneto, mas a rima não salva um poema. Geralmente,
condena. É que o recurso da rima é redimensionado de tal
modo que poesia é rima. Isso foi. Rima é um ornamento
que vira essência. A parte que sonha ser o todo. Rima e métrica
é música de trena. O conceito de métrica se torna
um obstáculo a vencer uma necessidade apodítica. E o de
rima? Proust afirmou que “a finalidade da rima é positiva
(e criadora) porque força os bons poetas a encontrar, garimpar
verdadeiras belezas”.
O problema é que escandaliza
a mim ver a montanha de rípios que se amontoam nos versos. Rípio
é pedra miúda com que se enchem os vãos deixados
pelas grandes pedras assentadas numa construção. É
cascalho, calhau. Remendo. Muitas vezes, se despreza o poema para encontrar
uma rima adequada. Quanto mais rica, mais rípio.
E o verso
livre?
O
verso livre não é uma licença – anomalia,
acidente, recurso esquerdo – capaz de abolir todas as exigências
formais da versificação, mas, ao contrário, como
um meio de expressão, uma nova forma que se buscou, quando todas
as anteriores se desgastaram e perderam a valia, fazendo-se fáceis
e rotineiras com o prolongado uso (e abuso). Sou um poeta livre. Nunca
cometi métrica. Nem sequer aprendi versificação.
Não sou, então, nunca, um versificador. César Leal
em ensaio publicado no Diário de Pernambuco, sobre um livro meu,
disse: “Vital Corrêa de Araújo, em Coração
de Areia, confirma a regularidade do ritmo que tem feito dele o poeta
pernambucano com maior domínio do verso livre”
Mas a
que escola, a que corrente, de qual estrutura literária você
lança mão enquanto poeta e escritor?
Nem
sei se já sou poeta. Sou mais uma ilha. Meu modo livre me isola.
Acho mesmo que minha poesia é errada, fora do ninho, estranha,
angular, pouco simétrica, nada arrumada. Sou anti-corrente, vou
a contracurso, vôo contra a maré, para minha “poesia”
só há contra-mão. Só escracavinhando muito
em meus sete livros publicados, desde 1979, é que se pode achar
um ou dois poemas como é a regra. Poesia formal, para mim, é
sânscrito, temática de poema, não sei o que é.
Por isso nada tenho a explicar. Nem iriam entender. Sou pária
ao extremo, ímpar (que é menos ofensivo). Minha poesia
nem anuncia nem denuncia. Sei que não sou importante como poeta.
Me coloco no fim da fila dos 1.600 poetas pernambucanos vivos. Escrevo
porque ninguém me lê. E como duvido muito da capacidade
estética dos prováveis leitores, me considero bom poeta
(para mim). Só eu penso assim. Nunca publiquei um livro por desígnio
próprio. Todos tiveram a publicação organizada
por amigos e, editadas em face de prêmios ou ofertas. Só
o último Só às Paredes Confesso, que Arnaldo e
Inês, da Bagaço, me pediram – ou melhor, lutaram-
pelos originais. Ganhou o prêmio da Academia Pernambucana de Letras,
depois (2007).
É
certo que o professor Sébastien Joachim publicou em francês
(por editoras da França e da Romênia), ensaios sobre sua
poesia?
Sim.
O literator (professor de alta poesia), professor Sébastien Joachim
publicou textos de conferências que ele fez no Canadá e
em Paris sobre minha poesia, por editoras da Bahia, de Paris e da Romênia.
Ele analisou dois livros inéditos ainda (ou sempre): Simulacro,
Escuras e Diatribe. Que, confesso, deixei misturar, perdi os disquetes
– e como não tenho computador, é complicado reuni-los
para publicar.
A propósito, o Professor
Joachim diz que a minha intenção é derrubar o significado.
E é isso que persigo. Costumo dizer que se algum leitor disser
que entendeu parte de um poema, anoto e depois mudo, altero a parte
fácil, frágil, que levou o leitor a concordar facilmente.
Vital,
quanto à vaidade literária de escritor, como você
lida com isso?
A
maior prova de desvaidade minha é que não lancei em Recife
na condição de Presidente da UBE, os dois últimos
livros de poemas. Quando foi lançado o penúltimo, no Palácio
das Princesas (lançamento coletivo), faltei. Bem como não
fiz festa de posse nos meus últimos dois mandatos da UBE. Achei
que a festa do primeiro foi suficiente, desde que tais festejos apenas
faz crescer o ego (que, no meu caso, já está super dimensionado).
* TELMA
BRILHANTE é poetisa, cronista, contista, faz parte da
União Brasileira de Escritores e da Academia de Letras e Artes
do Nordeste.
(julho de 2007)
Confira alguns
poemas de Vital Corrêa de Araújo e Telma Brilhante no Cardápio
de Poesia