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Raimundo de Moraes
Não tenho rituais exóticos ou “iluminações”.
E gosto de criar em silêncio
...


Entrevista concedida ao
jornalista Ramon Franco do
Jornal da Manhã - Marília/SP

 

“Já passei dos 40 anos. Meus valores são outros, e aprendi a esperar, mesmo que a espera seja longa”. Esta é um pequeno traço da alma deste pernambucano que divide suas criações literárias entre a poesia, a crônica e o conto. Raimundo de Moraes, um dos vencedores do prêmio de poesia ‘Carlos Drummond de Andrade’ 2008, promovido pelo Sesc (Serviço Social do Comércio) do Distrito Federal e primeiro lugar no OFF-Flip 2008, organizado em Paraty, Rio de Janeiro, sabe o que é esperar. A sua literatura ficou adormecida por 10 anos, algo semelhante ao que aconteceu também com Carlos Heitor Cony que nunca negou que por um bocado de tempo nem passava em frente a livrarias ou bibliotecas. Ao final da hibernação de uma década, Raimundo, que atualmente trabalha como publicitário no Recife e edita a coluna Arruar XXI, de literatura e variedades, no portal Interpoética, resgatou textos da adolescência e toda a atmosfera literária ao qual estava inserido desde a infância. Como todo autor brasileiro, sabe o quanto é difícil sobreviver de literatura e de arte neste país, que ainda não descobriu incentivos e mecanismos para privilegiar as criações literárias nacionais, como fazem outras nações (a exemplo dos Estados Unidos e Alemanha, ambos citados aqui pelo próprio Raimundo). Parafraseando Drummond, que um dia afirmou que se chamasse ‘Raimundo’ “seria uma rima, não seria uma solução”, o Raimundo de Recife traz consigo, dentro do seu vasto coração, a essência do vasto mundo da poesia, do mundo da prosa e nos apresenta, nesta entrevista ao Jornal da Manhã, algumas soluções e, como não, algumas rimas para situações tão comum no mundo da criação e no Brasil.

Ramon Franco: Recife tem um peso histórico, como um dia você afirmou. Este peso histórico favorece a poesia?

Raimundo de Moraes: Existe uma frase corrente aqui que acho oportuno citá-la: dizem que em Recife existem mais poetas que postes de luz. A frase, por si só, já é uma bela imagem poética. É como a cidade se iluminasse através dos talentos que aqui escrevem suas histórias e desta forma escrevem a própria história da capital pernambucana. Além da forte tradição dos movimentos políticos – como a Guerra dos Mascates, a Confederação do Equador, a Revolução de 1817, as Ligas Camponesas etc – Pernambuco também tem uma forte tradição cultural, principalmente na produção literária. Não só Recife é berço de escritores e poetas, as cidades do interior também contribuem fortemente para o crescimento deste celeiro de idéias e talentos, como o maravilhoso Ascenso Ferreira – um poeta de Palmares; Francisco Espinhara – nascido em Arcoverde e um dos líderes do Movimento de Escritores Independentes de Pernambuco; Edwiges de Sá Pereira, poeta e nossa primeira líder feminista, nascida em Barreiros.

Como é a vida do pólo cultural do Recife?

Intensa, apesar de estar fora do eixo onde se fomenta e se divulga maior parte da produção artística do Brasil, ou seja, fora do eixo Rio-São Paulo. Não é à toa que Recife se autodenomina capital multicultural do país. Sua pluralidade no folclore, nas artes, na literatura faz com que seja uma metrópole de várias “caras”. Recife tem um cronograma variado no teatro e na dança, sediando eventos locais e nacionais. Seus poetas estão nos recitais ao ar livre, nos happenings em bares e centros culturais, declamando, biritando e vendendo suas publicações independentes. Está surgindo também uma nova geração de cineastas pernambucanos, produzindo um material muito bom, com premiações aqui e no exterior. O Cine PE é um festival muito concorrido, sempre lançando nomes novos a cada edição. Porém a grande lacuna – e creio que isto ocorre em todas as capitais – é a ausência de críticos de arte e críticos literários realmente abalizados para registro e divulgação do que se faz no momento. Os jornais impressos foram extinguindo aos poucos o espaço destinado aos bons colunistas, como existia antigamente. E hoje, os que se dizem críticos de arte ou de literatura na verdade são meros resenhadores que nada acrescentam à produção intelectual, e além de não acrescentarem, não fazem o leitor pensar, e sim apenas engolir matérias pretensiosas cheias de lugares-comuns, insossas, repetitivas.

Recentemente você conquistou alguns prêmios literários, como o Off Flip neste ano, e o Tragédias Cariocas no ano passado. Fale um pouco dos concursos para a vida de um poeta.

Uma das maneiras de um artista e/ou escritor tornar-se conhecido é através de concursos. Comigo a coisa é um pouco diferente. No biênio 2007/2008 recebi prêmios e menções honrosas nas cinco regiões do país, mas meu intuito não foi ficar famoso, foi ganhar dinheiro. Não tenho o menor pudor em dizer isto. Os concursos ajudam a lhe dar visibilidade, mas eu particularmente não consigo desfrutar 100% desta fama efêmera. Infelizmente para estar na mídia normalmente usa-se do expediente do beija-mão e da filosofia “jogue confete em mim que jogarei em você”. Como eu não compactuo com este tipo de coisa – tenho horror a ficar devendo favores a algum escroque da vida – pego meu premiozinho e volto pra casa.

Raimundo quais são as suas principais influências literárias?

Acredita que esta sempre foi uma questão difícil de responder? Meu avô paterno era representante, no Norte-Nordeste, da extinta Editora Vecchi. A nossa casa era repleta de livros, gibis e álbuns de figurinhas. Quando vovô morreu ficou seu legado de centenas e centenas de livros. E eu cresci assim: entre as brincadeiras de rua e os gibis, romances, enciclopédias. Era uma coisa tão forte que eu lembro nitidamente o dia que eu ganhei meu primeiro livro: foi aos seis anos de idade, minha mãe levou-me para uma grande loja que existia em Recife – chamava-se Viana Leal – e disse: escolha o seu presente. Em vez de ir para a sessão de brinquedos, fui para a sessão de livros infantis, e escolhi um livro muito triste de Andersen: A Rainha da Neve. Na adolescência eu fazia uma mistura com os clássicos franceses e ingleses, Machado de Assis, Eça de Queiroz e livros de ficção científica, gênero que gosto muito. Não sei dizer exatamente quem me marcou mais. Nunca fui fanático por determinado autor, se bem que boa parte da minha vida dediquei ao estudo da obra de Clarice Lispector. Mas depois que ela virou “moda” e começou a ser imitada por muitos escritores novos, eu dispersei minha atenção para outros autores como Alberto Moravia, Manuel Puig e Isaac Bashevis Singer. Em poesia eventualmente faço releituras. Recentemente reli umas coisas de Paul Celan, Manuel Bandeira e Roberto Piva.

Sempre que entrevisto um escritor faço esta pergunta. Com você não seria diferente, lá vai: os livros mais vendidos no mercado editorial brasileiro são de autores estrangeiros. O que você pensa sobre isso? Você acha justa esta situação?

Isto abrange tantas coisas que a pergunta poderia se desdobrar em mais outras perguntas e consequentemente em mais outras respostas. Mas resumindo: temos, na sua grande maioria, um mercado editorial voltado para o que acontece no exterior, porque isto é reflexo das próprias exigências do leitor brasileiro comum, aquele que acha que um autor estrangeiro é melhor do que um nacional. Editora é uma empresa como outra qualquer, e funciona de acordo com a demanda. Se o mercado quer best-sellers americanos, então vamos pagar os direitos autorais, traduzir e publicar no Brasil. Outra coisa: a cena literária brasileira é pobre demais no incentivo à leitura e na divulgação e valorização de autores nacionais. Não temos programas específicos de incentivo à criação literária, como as bolsas governamentais existentes em países como Alemanha e Estados Unidos, por exemplo. E há outro dado curioso: por quase não existirem agentes literários no país – intermediadores importantes entre autor, editora e mídia – o escritor brasileiro acaba virando uma espécie de sobrevivente, escrevendo, divulgando, estabelecendo contatos, publicando com seu próprio dinheiro, nadando contra a maré do lixo editorial que se renova anualmente, mas que ocupa com destaque as prateleiras das grandes livrarias.

Quais temas, ou aspectos da vida, estão mais presentes em sua obra literária? Em qual horário do dia gosta de escrever?

Em contos, o universo feminino me atrai imensamente, assim como os dramas das classes que se dizem mais “elitizadas”. Não sei o porquê, mas tenho uma enorme facilidade de escrever sobre ricos e novos-ricos, é uma coisa que até me diverte. Em poesia, confesso que é pura catarse. Não tenho hora preferida, mas sim hora de maior inspiração e menor preguiça. Não tenho rituais exóticos ou “iluminações”. E gosto de criar em silêncio. Mas como já trabalhei em redação de jornal – você sabe que é uma loucura – consigo às vezes me desprender completamente do que me cerca e escrever um texto, quando a idéia me vem.

Raimundo você teve a experiência de viver fora do Brasil. Se não estiver enganado, você viveu um tempo em Londres. Como foi esta experiência? Fale um pouco da influência da literatura inglesa na sua vida, já que você respirou o ‘fog’ por um tempo, assim como fez tantos outros importantes autores.

Conhecer a Inglaterra e a Itália era um sonho de menino que tornou-se realidade na idade adulta. Na verdade estudei em Brighton, sul da Inglaterra, mas estive muitas vezes em Londres, uma cidade que transformou-se – assim como Nova York – numa imensa Babel. Andar pela Trafalgar Square e ver aqueles tipos esquisitos de toda a parte do mundo é algo realmente impressionante. Ir à Carnaby Street e ver que não existe mais aquela coisa avant-garde da década de 60 – agora basicamente existem indianos vendendo quinquilharias – faz ver que Londres é mais do mundo do que dos ingleses. Lá também estão milhares de asiáticos estudando e vivendo e, claro, milhares de brasileiros. Mas o ponto alto da minha viagem à Inglaterra foi conhecer onde viveu Virginia Woolf. Foi muita emoção, principalmente porque considero seus livros Orlando e Entre os Atos entre os melhores escritos no século 20.

Raimundo você é colunista de um site de cultura. Como é falar sobre literatura no universo da internet?

A internet é a antena difusora do planeta, interligada a outras antenas menores. Por ser um canal aberto, cada navegante é co-participante do seu crescimento e de suas mazelas. E tudo acontece de uma maneira muito veloz. Eu fico impressionado com o número de blogs e sites que “nascem” e “morrem”. Nesta conjuntura complexa de muita informação e muitos (e variados) leitores, optei por criar uma coluna eclética chamada Arruar XXI, que eu defino como uma coluna de utilidades e futilidades. Não tem pretensão de ser The Best e nem ser tipo blog, aquela coisa meio “meu querido diário”. Não. É uma mistura. Os editores do Interpoética – onde a coluna é divulgada mensalmente – me dão sinal verde para eu escrever o que eu bem entender. Assim, eu posso inserir notícias que não foram divulgadas no Brasil, questões de gênero e sexualidade, dicas culturais, etc. E olha que não é uma tarefa fácil: nós do Interpoética somos todos voluntários, não temos patrocinadores e mesmo assim é o site pernambucano de literatura mais acessado do Estado.

Qual vai ser o destino da poesia no mundo digital?

A poesia – e a literatura como um todo – já está atrelada às experimentações das novas mídias e novas formas de expressão. Gutemberg, ao inventar a imprensa, popularizou os manuscritos que eram repassados de geração em geração através dos trabalhos de uma minoria – religiosos e cientistas, responsáveis em compilar e reescrever os acervos então existentes. Com o mundo digital, algo parecido aconteceu: o acesso rápido, rapidíssimo, à informação. Estamos numa época de transição. Qualquer especulação sobre o assunto poderá ser precipitada. Quem sabe se daqui a 100 ou 200 anos não existirão mais escritores e poetas, e sim softwares que, combinando estilos, façam surgir best-sellers?

Fale um pouco sobre sua biografia e seus projetos para 2009.

Em 2006, depois de mais de 10 anos afastado completamente da literatura e do, digamos, “mundo cultural”, resolvi voltar a divulgar o meu trabalho como escritor e poeta. Ter sido premiado em alguns concursos me deu também a certeza que eu não estava tão enferrujado assim. A menção honrosa no Helena Kolody, [concurso patrocinado pela Secretaria de Cultura do Paraná] por exemplo, foi duplamente gratificante para mim: o poema inscrito, Outra canção para Desiderata, tem mais de 20 anos, eu era um adolescente. E na comissão julgadora estava uma pessoa a quem muito admiro: Affonso Romano de Sant’Anna. Mas minha vida profissional sempre foi cheia de mudanças e muitas delas inesperadas. Atualmente trabalho como publicitário, às vezes, dou umas aulinhas e palestras na área de literatura. Nunca tive o desejo de publicar um livro solo, mas creio que isto deve acontecer em 2009. Existem dois livros de poesias, dois de contos e um de crônicas. Não sei qual sairá primeiro. Ou talvez nem saia. Já passei dos 40 anos. Meus valores são outros, e aprendi a esperar, mesmo que a espera seja longa. Porque afinal existem os dois tempos: o exterior, que foge do nosso controle, e aquele interior, onde a importância das coisas varia de acordo com a nossa maturidade como ser humano.

 

 

 

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