Visitantes
da Interpoética. Entregamos a vocês a lição
de poesia do poeta Pedro Américo de Farias.
Pernambucano de Ouricuri, Sertão do Araripe, que concedeu esta
entrevista a sua companheira e jornalista Maria Alice Amorim,
diretamente da cidade de São Paulo, onde se recolheram para estudar
literatura. (os editores)

ENTRE
A INVENÇÃO E A DILUIÇÃO
Pedro Américo de Farias,
quando ainda nem sabia o que era literatura, intuía que a poesia
pairava nos ares poeirentos do Ouricuri, sertão pernambucano
da Chapada do Araripe. Da zona rural mudou-se aos 9 anos para uma área
rurbana; da cidade árida ao Crato, na adolescência; do
Ceará, enfim, aporta no Recife disposto a viver a juventude e
se preparar para a universidade. Não foi um percurso linear,
retilíneo. Mas, suficiente à descoberta de que a poesia
se espraiava em todos os ares, porque vinha de dentro. E vieram de dentro
primeiramente os experimentalismos, a poesia concreta, a escrita automática
do surrealismo, a fragmentação dadaísta. Daí
não foi difícil desvendar a poesia de formas fixas das
oralidades poéticas do Nordeste. E não estacou, continuam
os experimentos na poesia de loa, no verso livre, na poesia que é
som é verbo é imagem. Sobretudo, nada de poesia estritamente
gabinete, poesia tem que ser imersão na vida, no beber e se divertir
com os outros, como tão bem sorveram os participantes (Raul Pompéia,
entre eles) do Clube Rabelais, sob o slogan buvant et rigolant avec
les autres.
O que
é poesia?
Poesia é o que a gente
encontra de melhor nas palavras para dizer qualquer coisa sobre a vida.
Mas, não só nas palavras.
Explique
melhor.
É porque a poesia não
é uma coisa que se possa expressar apenas no universo da fala
ou da escrita. Também nas outras formas de expressão.
Que expressões?
Expressão cênica,
ou nas artes visuais, ou na música.
E a fanopéia,
logopéia e melopéia, como é que entram nas - ou
saem das - palavras?
Vamos devagar com o andor da poesia,
a musa pode ser de barro. Minha poesia tem muito de melopéia
e de logopéia, o que mais se manifesta na minha construção
poética são esses dois aspectos. Minha poesia é
muito musical e um exercício de filosofia.
Segundo
a conceituação de Ezra Pound, você se considera
poeta inventor, mestre ou diluidor?
Estou mais entre a invenção
e a diluição. Porque diluição não
é um conceito negativo. Diluição não é
necessariamente destruir ou enfraquecer, mas, de certo modo, popularizar
a expressão poética. Ser mestre é um grau muito
avançado.
Na invenção,
como é que você se sai, ou entra?
Inventar, na poesia, não
é uma coisa tão grave, um princípio tão
absolutamente ligado à idéia de um estágio inalcançável.
A gente inventa com relativa facilidade, pelo menos no meu conceito
de invenção.
E como
é que essa invenção se manifesta na sua poesia?
Penso sempre que a poesia de invenção,
ao contrário do que pode parecer a muitas pessoas, não
está necessariamente vinculado à existência das
chamadas vanguardas estéticas. Acho que a invenção
é uma possibilidade ao alcance de todas as tendências e
em todas as épocas. De forma que não seria uma novidade
do século XIX, nem do século XX, muito menos do século
XXI. A poesia, aliás a arte em geral, sempre esteve sob o signo
da invenção. O conceito é muito amplo.
Concretamente
falando, como descrever ou detectar essa invenção no seu
processo criativo?
Tanto penso na minha poesia quanto
ao princípio da invenção, quando construo um poema
como Soma sumo, que tem uma vinculação direta com a chamada
poesia concreta, sob o aspecto verbivocovisual, como vejo invenção
quando construo um poema com base na chamada poesia popular, como é
o caso de Mãe de Pantanha, em que a forma verbal e rítmica
é toda montada na tradição, mas, sob vários
aspectos, eu busco a reinvenção. Busco a reinvenção
quando interpreto, por exemplo. Quando fujo dos padrões regionais,
regionalizantes. Quando nego a cor local e universalizo os conceitos,
os princípios filosóficos.
Interpretar
significa o quê?
A recitação do poema.
Aí eu assumo uma liberdade bastante grande na expressão
cênica, na vocalização. É aí que busco
atingir um grau de construção artística que se
aproxima muito da paródia e que foge muito da mimesis. Está
entre a paráfrase e a paródia, fugindo o máximo
possível da mímese.
Seria
isto, também, o fugir dos padrões regionalizantes de que
você falou acima?
Não que o padrão
regionalizante não possa ter essas características, não
possa também conter esses elementos essenciais à construção
poética, que são a paráfrase, a paródia
etc. Quando eu digo fugir dos padrões regionalizantes, eu me
refiro mais a sentimentos nativistas, patrióticos, exaltação
de uma natureza, de uma natureza regional, local, superior à
dos outros locais. E também a um caráter nostálgico,
que é comum, que se faz presente com muita freqüência
no regionalismo.
Como a
poesia entrou na sua história pessoal?
Eu é que entrei na vida
da poesia. Há uma certa simbiose, antes de a gente perceber o
que é mesmo que ela significa, há um certo comportamento
chegado para o desviante, como se já fosse um comportamento de
natureza poética na vida da gente. A gente pode não perceber,
seria a primeira hipótese. Ou perceber e sufocar, seria a segunda
hipótese. E a terceira hipótese seria perceber e desenvolver.
Você
percebeu.
Eu percebi. Eu acho que percebi
e assumi essa rebeldia, vamos dizer assim. A criação poética
tem um lado rebelde, que acho fundamental, e que você não
se rebela apenas contra a ordem vigente dos princípios éticos,
mas a dos princípios estéticos também. E aí
é que entra o trabalho propriamente dito da criação
poética. É que a palavra escrita ou simplesmente oral
passa a agregar outros valores. E estão muito além dos
valores estabelecidos para uso da língua que a convivência
e as conveniências exigem.
Que tipo
de poesia o fisgou?
Eu não sou peixe, para
me tratares assim...
Que linguagens
poéticas o atraíram, então?
Isso é muito abstrato.
A própria poesia já abrange genericamente o conceito de
linguagem. Então eu vejo que cabe melhor para mim pensar em termos
de formas poéticas e dicções. Alguém já
disse e eu não sei com que palavras: há muitas formas
de se fazer poesia e eu prefiro todas. Em todas as formas pode-se aplicar
o princípio da invenção, ou da reinvenção
- que talvez seja uma idéia melhor. Você não tem
muito campo na arte em que possa dizer que aquilo ainda não foi
descoberto. Você pode é trabalhar com tecnologias talvez
não utilizadas ainda.
Fale sobre
o seu processo de criação.
Primeiro, a gente tem as inquietações.
Tanto inquietações filosóficas, quanto inquietações
estéticas. Daí a gente tanto fica imaginando idéias,
como imaginando frases. E na maioria dos casos, esses dois elementos
- o estético e o filosófico - estão totalmente
vinculados. Na questão da escrita - falo escrita porque, para
mim, a poesia sempre vem como escrita, embora quando eu estou escrevendo
estou sempre fazendo a leitura das frases em voz alta, porque estou
sempre buscando os elementos orais dessa escrita, há um certo
automatismo na primeira manifestação do texto. Depois,
aquele texto passa por um processo de limpeza, reelaboração.
Às vezes termina na cesta do lixo, às vezes vai alimentar
um outro mais adiante, se diluir dentro de um outro. E muitos textos,
especialmente os textos mais trabalhados sob a influência da oralidade,
se enriquecem mais ainda com o recital. Um texto que muitas vezes pareceu
apenas dotado de uma carga sintática e semântica, vai ser
enriquecido por uma interpretação oral.
Por falar
em oralidade, e por ser tão cantante a sua poesia, como é
que você encara o diálogo entre música e poesia
na produção contemporânea (e em outras épocas...).
Letra de música é ou não é poesia?
Esse é um tema muito amplo,
porque implica refletir até sobre a história e sobre a
origem da poesia, e, também, comparativamente, estudar a relação
entre a poesia e outras artes. Em outras palavras, se a poesia dialoga
até com as artes plásticas e as cênicas, por que
imaginar que letra de música, que é palavra cantada, não
contém poesia? A questão que se coloca, fundamentalmente,
é quanto ao objeto que se constrói, ou seja, o poema.
Ou melhor, a letra de música pode ser um poema? A letra de música
se se realiza como um poema, se é um objeto trabalhado, sob a
perspectiva da arte poética, que exige a presença da polissemia,
e uma construção sintática, ou uma desconstrução
sintática interessante, inventiva, eu, então, posso dizer
que aquilo é um poema. Uma letra de música pode ter boas
frases musicais e não ser um poema. Nesse sentido, você
tem tantos compositores musicais que são bons poetas e nem sempre
estão fazendo poemas, mas certamente entre as letras de músicas
feitas por eles há bons poemas. Agora, esta é uma discussão
interminável. Envolve conceitos do que seja poesia e do que seja
música. Os primeiros poemas da humanidade certamente eram canções.
Literatura
é mais gabinete ou buvant et rigolant avec les autres?
Literatura é muita coisa.
É muito trabalho, e tem muito gabinete mesmo. Mas, o buvant et
rigolant são inseparáveis. Tudo o que diz respeito à
vida, ao viver livre e ao gozar a vida só faz bem à literatura.
Embora o escritor também possa alimentar-se de tudo o que é
ruim, o sofrimento, a miséria. Se você fala de matéria-prima
para a literatura, tudo vale. Quando a gente trata da liberdade de criação,
do ambiente para a criação, óbvio que o curtir
a vida, o buvant et rigolant são muito estimulantes.
Quais
as leituras que "movem" o escritor?
Primeiro começo pelo fato
de que leio mais ensaio e ficção do que mesmo a poesia.
Mais história geral e menos história literária.
Isso já é um bom princípio. E em todo esse universo
de leitura eu não busco apenas a informação, eu
busco a poesia, a expressão poética.
Autores?
A questão de autor enquanto
influência pra mim não funciona. Por quê? Porque
minha frase poética tem muito do cotidiano. O que mais procuro
é tirar efeito literário da fala cotidiana. Sem descuidar
de toda a carga filosófica que essa fala implica. É claro
que tudo o que a gente lê pode contar como grande contribuição
para o pensamento estético e para a elaboração.
Mas, nunca como adoção de modelo. Em todo o caso, há
os autores que a gente lê e gosta muito. Poderia citar poetas
como Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral
de Melo Neto, Cesar Vallejo, Octavio Paz, Walt Whitman, Haroldo de Campos,
Nicanor Parra. E os ficcionistas Machado de Assis, Guimarães
Rosa, Graciliano Ramos, Aquilino Ribeiro, Jack London.
Falando
agora de poetas vivos, quem é quem na poesia brasileira contemporânea,
sob sua ótica?
Affonso Ávila, em Minas
Gerais, pela carga de pesquisa formal e por ter uma base temática
muito interessante. É uma poesia de vanguarda que se faz a partir
de uma tradição histórica de Minas, que, no meu
entender, tem tudo a ver com as pesquisas dele sobre o Barroco. Poderia
citar duas obras de Afonso: Código de Minas e Código Nacional
de Trânsito. É uma coisa que retoma muito a herança
oswaldiana da poesia Pau Brasil e de um outro mineiro, Murilo Mendes,
com História do Brasil. O princípio da paródia
está claramente implícito nesses livros. Manoel de Barros,
Tom Zé são poetas que também me interessam muito,
nessa linha de uma poesia de invenção, do conceito moderno
da vanguarda.
E no Recife,
convivendo diariamente com poetas de dicções e movimentos
diversos, desde início dos anos 70, o que e quem destacaria?
Não levaria em consideração
nada relacionado com grupo, geração ou qualquer conceito
organizacional desse tipo. Há uma produção muito
rica que acompanho e que se manifesta na poesia de um César Leal,
Alberto da Cunha Melo, Almir Castro Barros, Esman Dias, Débora
Brennand, Everardo Norões, Maria de Lourdes Hortas, Lenilde Freitas,
Domingos Alexandre, Mário Hélio, Marco Polo, Majela Colares,
Wilson Araújo de Sousa. Enfim, é sempre precário
citar quem a gente gosta, porque muita gente fica de fora, inclusive
aqueles que têm produção muito boa.
Fale de
sua experiência com o movimento da poesia marginal no Recife?
Diria que é muito mais
um movimento sociocultural do que um movimento especificamente literário.
Há pessoas com diferentes formações intelectuais,
mas que se identificam em função de determinada contingência
social. Aí a gente encontra bons poetas. Eu citaria alguns exemplos:
Chico Espinhara, Cida Pedrosa, Lara.
A partir
dessa sua vivência no Recife, que outras geografias poéticas
do Nordeste você destacaria?
A partir do Recife, trabalhando
no setor editorial, é que passei a conviver com a poesia que
se produz, por exemplo, na paraíba, no Ceará, no Rio Grande
do Norte, em Alagoas. Mas, para não me estender muito, destacaria
a poesia dos paraibanos Sérgio de Castro Pinto e Lúcio
Lins. Tem também os "exilados", aqueles nordestinos
que vivem no Rio, em São Paulo, que têm uma poesia muito
boa, que se destaca pela qualidade literária. É o caso
de Micheliny Verunschky, que vive em São Paulo, e de Braulio
Tavares, um paraibano no Rio.
Se você
decidisse fazer um passeio pelas poéticas mundo afora, em quais
estações/paisagens você gostaria de mergulhar?
Eu mergulharia no dicionário
das várias línguas. "Lá estão os poemas
que esperam ser escritos", como diria Drummond. Mas, eu acrescentaria
que, antes e além dos dicionários, estão as expressões
vivas das línguas que se manifestam nos seus milhões de
falantes. O desafio do poeta é construir a sua poética
viajando no mapa-mundi das muitas línguas e linguagens.
Poesia
é sonho?
Poesia é sonho e é
pesadelo. Poesia é como a vida, sonho e realidade.

(novembro
de 2005)