Considero Miró da Muribeca o melhor recitador
de Pernambuco. Sua desconcertante poética do cotidiano vem de
uma deliciosa e selvagem verve coloquial-crítica, somente encontrável
em raros poetas da herança contracultural e da marginália.
A sociologia da arte já o descobriu, mas sempre haverá
perguntas que ficarão sem respostas (insondáveis mistérios
do inconsciente coletivo).
A nossa nobre editora Cida Pedrosa passou-me a
missão de articular uma entrevista com este singularíssimo
bardo alternativo, mas tudo o que eu pude fazer foi levantar nove temas
pra ele comentar (o meu ganha-pão tem imposto sérios limites
à minha agitação cultural e literária).
Confiram então os comentários rápidos
e sintéticos do nosso Maiakovski das Periferias de Jaboatão
(quem quiser conferir outros trabalhos dele, pode garimpá-los
no Interpoética).
PUBLICAÇÃO
O
veículo não tem maior importância. Tanto faz, desde
que não haja cortes ou modificações. Todos os meus
livros foram feitos de forma independente. Fiz livros pequenos, com
o apoio carinhoso de Zizo, o grande poeta operário humanista.
Fiz também com o apoio de sindicatos, como SINTEL, SINDSEP, BANCÁRIOS.
Estou na coletânea Marginal Recife, da Fundação
de Cultura. Fui editado pela “Livros e Letras”, de Fortaleza
(a 2a edição do único livro meu que fica em pé,
o “Ilusão de ética”). Acho que poetas devem
parar de reclamar e fazer. Procurar padarias, bancas de bicho, botecos,
etc, para apoio, e jogar seus livros no mundo. Quem não quiser,
e tiver dinheiro, faz por conta própria, e priu. Quem vive parado
é poste.
MANGUE
Vou
ser curto e grosso: acho que Chico Science, Fred 04 e outros de sua
geração sacudiram Pernambuco, o Brasil e o mundo. Mas
essa história de mistureba, Raul e Alceu já faziam. E
nós, poetas marginais, também fazíamos na poesia.
O resgate dos ritmos regionais também começou ali, com
Mestre Ambrósio e companhia, mas agora virou um bando de mauricinhos
branquelos dizendo que estão resgatando a cultura popular, tocando
um maracatu “denorex” na Rua da Moeda, ou pé-de-serra
para universitários.
PSICOTRÓPICOS
Pode
ter a ver, ou não. No meu caso, não tem muita importância.
O poema, ou uma minicrônica do cotidiano em prosa poética,
nasce com ou sem. Não fumo maconha pensando nisso.
|
INSPIRAÇÃO
Sou
bem mais intuição. Mais inspiração
do que trabalho. Sou mais trabalho na hora de vender. Não
arrenego os que trabalham horas e horas, noites e noites, procurando
a precisão das palavras que se encaixam exatamente no texto.
Porém comigo, numa manhã, ou tarde, ou noite, eu
resolvo a parada, vomito o que tenho pra vomitar.
AUTODIDATISMO
Deve
ter algo de bom nas academias, mas prefiro distância. Nelas,
falta espontaneidade, espírito de alegria. Mas tudo bem.
Não |
| brigo, não escracho com
elas. Apenas sigo meu caminho. E elas seguem o delas. Cantem lá
que eu canto cá. |
ARTE E VIDA
Essas
duas sempre estiveram juntas na minha trajetória. Arte pra viver,
não arte pra morrer. Acho que mais do que nunca é preciso
saber viver. Ser feliz e saudável. Muitos já foram: Joplin,
Hendrix, Torquato, Leminski, Espinhara, Luna, etc. Tá na hora
da nossa geração ficar por aqui mais um pouco, mandando
poesia na Terra.
HIPPIES
Ficaram
algumas influências e principalmente a maneira de se expressar:
mais desprendida, alegre, direta, agressiva. O viés de contestação,
mas não exatamente o estilo de vida, a estrada, como existiu
nas décadas de 60 e 70. Quer dizer, não a maneira-de-ser
daquele contexto, mas a postura anti-Sistema, refletindo-se na escrita,
no estilo poético e literário.
ENGAJAMENTO
Foi
a minha condição de pobreza suburbana que empurrou a minha
consciência de classe, originando primeiro o sentimento de revolta
juvenil, depois o grito poético contra as injustiças e
as caretices. Sou mais um dos que sonharam mudar o mundo. Tive simpatias
pelo PT, antes da degeneração, mas os meus pendores libertários
me afastaram de qualquer ligação mais íntima com
partidos. Gosto mais de pessoas do que partidos. Minha poesia é
visceral, daí que a realidade concreta vem exposta cruamente:
isso é crítica social espontânea, e não algo
premeditadamente ideológico.
ORALIDADE &
RECITAÇÃO
Comecei
a recitar depois que vi Manuca, um poetinha lá de Juazeiro da
Bahia, recitando no Teatro Valdemar de Oliveira, no início da
década de 80. Daí pra frente, soltei a voz pelo Brasil,
e descobri que os poetas marginais já tinham essa vertente. Aqui
em Recife, a marginália tem os melhores e os mais fortes recitadores
do país. Constatei isso nas minhas andanças poéticas,
pois conheci poetas de todo o Brasil. Vida longa para os recitadores,
já que pouca gente lê poesia. Parodiando Zagalo, vou dizer:
“vocês vão ter que nos ouvir”.
* LARA
é
poeta, cronista, contista, recitador e colunista da INTERPOÉTICA
fotos: Sennor Ramos
(maio de 2007)

links relacionados ao
entrevistado:
galeria dos
mortais
cardápio
de poesia
o poeta e sua voz
Tu tás
aonde?