Um branco
acontecimento
Maria
da Paz Ribeiro Dantas, poeta e pesquisadora pernambucana, fala nesta
entrevista sobre a poesia quântica, fora do tempo e do espaço,
do escritor Joaquim Cardozo e que foi publicada originariamente no Diário
Catarinense em 16 de dezembro de 2006

Num percurso rápido: há
uma esquizofrenia no que se monta como literatura brasileira. Primeiro,
um corte esquisito que despreza tudo o que é distância.
Depois, uma generalização monstruosa ao se afirmar coisas
numa cerca de períodos, de marcas de tempo, de questões
de geração etc, que também despreza toda e qualquer
noção de distância. Além do fato de serem
propostas vazias de sentido neste momento, estas marcas comuns ou estes
horizontes de geração, por exemplo. A perspectiva de "brasileira"
nesta pauta é uma doença provocada por uma preguiça
para deslocar o olho mais longe ou por uma insólita mesquinhez
do canônico. Tanto é que ao se dar voz aos autores registrados
no tal "cânone" não se ouve uma dissonância,
uma abertura ao imprevisto que seja, mas apenas a mesma repetição
enfadonha de lugares comuns, não se ouve nenhum caráter
propositivo para a construção de uma idéia de diferença
ou de inadaptação. O mais grave ainda é a tentativa
de construção de filiações, de pares, de
colunas e de protocolos.
Assim, se pensamos desde uma certa
euforia nacionalista no desmonte do Modernismo brasileiro, para além
dele mesmo, seria interessante pensar o que se aparece - se é
que aparece - apenas como ausente ou como outro rasgo de tensão,
aquilo que seria vertiginoso porque à margem. Falo de Joaquim
Cardozo, pernambucano, engenheiro calculista, poeta, "contemporâneo
do futuro", um "acontecimento branco". O silêncio
provocado por esta imagem, por sua vez, seria o de uma poesia como a
de Joaquim Cardozo, uma poesia do fora. A poesia de um impasse que vem
a ser, também, sugestão de deslocamento para um outro
sentido da experiência moderna, numa idéia do moderno à
margem, como se uma "escavação da experiência"
protocolar: reter e deixar ir, no tempo inseguro do instante.
Maria da Paz Ribeiro Dantas tem
se dedicado, desde 1970, mais ou menos, à poesia de Joaquim Cardozo.
É autora de três livros a partir dele e mais um endereço
na Internet - www.joaquimcardozo.com
- onde reuniu material mais que interessante. Nascida na cidade de nome
Esperança, na Paraíba, há muito vive em Recife
- terra de Joaquim - no charmoso bairro do Rosarinho. E é um
pouco sobre seu último livro, Joaquim Cardozo: contemporâneo
do futuro, que conversamos um pouco por e-mail para dizer alguma notícia
desta imagem do acontecimento branco que foi Joaquim Cardozo, que é
a sua poesia. (Manoel
Ricardo de Lima)
De onde
e como esta sua relação amorosa com o trabalho de Joaquim
Cardozo, motivo de três livros em sua produção crítica
e de mais um punhado de textos?
Ao ler certos poemas de Cardozo,
tenho quase a sensação de que não estou presa a
um livro; é como se a poesia me fizesse respirar a própria
liberdade de existir. Talvez o livro funcione como uma janela que nos
faz perceber o mundo como vastidão - o espaço - ou espaços
plurais - como ele o concebe. E que me esforcei por mostrar em meu trabalho.
Há uns versos, por exemplo: "Eu vi nascer as luas fictícias
/ que fazem surgir no espaço a curva das marés."
Acontece de esses versos me acompanharem em percursos em que deparo
com a visão do mar. Daí ao mar das mais antigas ficções,
desde Homero - e o que dizer da lua? - o que seria de nós se
não tivéssemos esses espaços fictícios?
- se o próprio oceano fosse uma vastidão alcançável
só pelos nossos olhos físicos. Essa imagem da curva das
marés está entre as que me remetem a esses espaços
fictícios. Mas o que não esgota o meu espanto é
mesmo a visão do último trem subindo ao céu. Não
sei de ninguém que até hoje se tenha servido da poesia
como imaginação visual, juntando física e metafísica,
como se tem nesse texto. (se alguém souber ou vier a descobrir,
peço que me mostre...). E quando eu digo imaginação
visual não me refiro aos elementos gráficos disseminados
pelo texto - todo ele concebido a partir do sentido da visão.
Bem sintomáticos são estes dois versos: "E vêem
com o sentido da vista-vida / com o sentido de ver-viver". É
isso que o poeta constrói: o poema colocado diante do leitor
como rastro, ou alguém que viajasse por dentro da palavra. A
palavra como corpo, algo palpável, não mero sentido "ausente".
Isso nos arrasta pela poesia como um ato que envolvesse o corpo na aventura
de adentrar a inteligência do existir.
Joaquim
arriscou pensar sobre arte, arquitetura, poesia e explorou outros sentidos
no texto para teatro, por exemplo. Um pensamento que se desdobra também
até as leis da ciência e repensa as condições
da história como origem e como fim. Fale um pouco sobre isso.
Eu só poderia "arriscar"
uma resposta: a nossa cultura está muito baseada na razão
ocidental, na lógica aristotélica; e Cardozo, embora amando
apaixonadamente a ciência, rompeu com esse condicionamento. Ao
dar o salto, alcançou o outro lado da ciência, a poesia.
Parece-me que aí esteja o segredo desse saber cativante que está
na base da obra de Joaquim Cardozo. E Recife, como não podia
deixar de ser, também está banhada nessa luz.
A poesia
de Joaquim é da "região de nenhures", o lugar
nenhum ou o inferno. Poesia é coisa, talvez, para lugar nenhum,
para a inadequação, para a inadaptação.
Você articula uma pista propositiva da invisibilidade para a poesia
de Joaquim como o olhar de uma outra forma. Qual senso para esta poesia
do lugar nenhum e da invisibilidade, ainda, no prisma do que se pode
chamar de história cultural brasileira?
Esta sua observação
eu associo ao que li há pouco em De amor e trevas, a autobiografia
de Amós Oz, quando ele diz pela boca de uma personagem: "a
única viagem da qual nem sempre voltamos de mãos vazias
é a viagem para dentro de nós mesmos, onde não
há fronteiras nem alfândegas e podemos chegar até
as estrelas mais distantes. Ou passear por lugares que já não
existem, visitar pessoas que já não existem. Até
entrar em lugares que nunca existiram, e talvez não tenham podido
existir." Eu não diria que toda a poesia de Joaquim seja
"da região de nenhures" (considerando-se que parte
dela toma Recife como mote e também a Várzea, pátria
de seu imaginário). Por outro lado, esse 'lugar nenhum"
(região por onde o último trem passa), embora tendo consistência
no tempo e no espaço, é paradoxalmente o termo inexistente
dessa viagem onde nunca se chega. E aonde, para todo sempre, se está
indo. Não seria assim se o poema fosse outra coisa que não
a narrativa-descrição de uma viagem. Narrativa que não
evoca o objeto e sim presentifica-o. Isso é fantástico,
se considerarmos que a coisa narrada se dá num espaço
inexistente. Daí a imagem do Acontecimento Branco, no fecho ao
poema. Depois, seria o mesmo que definir um ponto de chegada para a
viagem do último trem. Essa viagem nos enfia olhar adentro a
percepção de que nada está parado no espaço
tempo. A ruptura com a noção de história linear
aflora de dentro da narrativa. Tomando esta como metáfora do
que você identifica como "história cultural brasileira",
o que se pode pensar? Não tanto que essa poesia estaria sem lugar,
e sim que ela implode a própria noção de lugar
visto como algo estático. O que se deduz daí é
óbvio: lugar é algo ilusório por dar idéia
do que estaria fixo: já que do prisma do movimento universal,
o que existe mesmo é relação entre objetos. Esta
sim, é dinâmica. Tem tudo a ver com esse "olhar de
outra forma", como diz a sua leitura do meu texto.
A poesia
brasileira insiste nesta idéia tola de cânone, de filiação,
de novos, de antigos, e esquece que o mais interessante é propor
uma grande linha tensa contemporânea. Como pensar a poesia de
Joaquim nesta perspectiva que você mesmo aponta pra ele, a de
um "contemporâneo do futuro"?
A poesia de Joaquim (com ênfase
particularmente no Trivium) parte de uma visão quântica
da realidade. Nela não há distinção entre
tempo e espaço. Essa coisa de estratificar, de enquadrar o objeto,
própria das histórias da literatura ou mesmo do comum
das biografias, tende mais a moldar o escritor a partir de um padrão.
Desse ângulo, importa mais o que aproxima uns aos outros, menos
o que os separa ou distingue. (de repente, isso pode explicar certo
desinteresse pela produção de Joaquim Cardozo...). Quanto
à segunda parte de sua questão acredito que ao menos arrisquei
uma resposta quando há pouco me referi à quebra da lógica
aristotélica e conseqüente encontro com a poesia da ciência
(ou do conhecimento, falando de modo mais abrangente). Poesia que certamente
será acolhida pelos leitores sensíveis ao tecido da contemporaneidade:
um tecido complexo quanto ao pensar (em termos de filosofia e ciência)
e simples quanto ao fazer (em matéria de arte).
* MANOEL RICARDO
DE LIMA,
poeta e professor de Literatura Portuguesa na UFSC. Autor
de As mãos, Embrulho e Falas Inacabadas, este último com
Elida Tessler. Desenvolve pesquisa de doutorado a partir de Joaquim
Cardozo e Ruy Belo
Confira alguns poemas de Maria
da Paz Ribeiro Dantas no Cardápio de Poesia
(março
de 2007)