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Marcelo Pereira
...na poesia tudo é possível

No corre-corre e fazendo mil coisas, aceitei a proposta de Cida Pedrosa, da Interpoética, um site que acho de maior valia para a poesia pernambucana, de ser o entrevistador de Marcelo Pereira. Poeta que lançou um dos livros mais interessantes publicados em 2006. Uns 25 anos para Marcelo parir seu primeiro livro: Tatuagem. Dedicado ao fazer jornalístico, como editor do Caderno C, do Jornal do Commércio, a palavra ultrapassa o cotidiano do jornalista para o poeta burilador de versos sagazes.

Um pouco para lembrar e homenagear a boemia poética do Recife, quando os poetas freqüentavam, por exemplo, o Bar Savoy, discutindo conceitos estéticos e a vida cultural da cidade, marquei com Marcelo Pereira a entrevista, não por acaso, num dos botecos do centro. Em verdade, transformamos tudo num bom bate-papo, regado à cerveja e também intercalado por conversas paralelas. (Manoel Constantino*)

Duas perguntas. Como você compreende a poética que existe no Recife? Você acha que nós ficamos marcados por gerações?

Olha, o Recife tem uma grande tradição de poesia. Talvez seja um dos mais ricos, senão o mais rico Estado de produção poética. O nosso século XX foi marcado por grandes poetas, mas antes já tínhamos importantes nomes da literatura. Temos ai, Luzilá Gonçalves que vem fazendo um trabalho de resgate muito importante e nesse sentido a questão de datação geracional foi muito marcada no século passado, principalmente quando houve uma maior evolução dos estudos acadêmicos literários voltados e norteados para melhor suprir as necessidades inclusive do ensino médio. Então, essa coisa de geração ficou marcada muito mais por questão de melhor estudar a produção poética do Recife. Existem tendências, linhas evolutivas que marcam essa produção. Modernismo, pós-parnasiano, pós-modernismo, simbolista, etc, etc... Mas aqui no Recife tem autores que marcam bastante. Temos Manuel Bandeira, João Cabral como os principais poetas, os mais significativos e mais difundidos, mas também não podemos esquecer de um Mauro Mota, de Alberto Cunha Melo que é um poeta vivo e que a sua produção há muito merece uma projeção muito maior. Um Austro Costa, Carlos Pena Filho, que são realmente importantes e marcantes, ao mesmo tempo temos uma poesia contemporânea, moderna, que precisa ser mais bem conhecida. Celina de Holanda deixou uma produção altiva, super moderna. Outro exemplo, as coleções da Prefeitura do Recife, que recentemente vem publicando autores, inclusive nos trazendo vozes femininas, como Cida Pedrosa, Fátima Ferreira. Tudo isso pode ser mais amplificado por parte da gente. Por outro lado cada um tem seu estilo pessoal. Cada um de nós busca aquilo que tem mais afinidade, que mais espelha sua visão de mundo, a sua forma de escrever sob o ponto de vista técnico.

Com toda essa produção poética que o Recife possui e que remonta de muito tempo atrás, você acha que hoje há poetas demais e qualidade de menos?

Eu acho que tem poetas que escrevem demais. Ter poetas demais em número revela que a poesia é uma forma de expressão de idéias e sentimentos. O problema é que o senso crítico das pessoas é que talvez não seja tão aguçado. Há bons poetas que escrevem pouco, há bons poetas que escrevem bastante e há bons poetas que conseguem manter um nível dentro da sua produção e outros que têm preguiça de escrever. Aí eu me enquadro nessa preguiça. Acho que já tem tanta coisa escrita que meu senso critico talvez seja um empecilho para que mantenha uma produção regular. Leio desordenadamente poesia porque acho que a poesia não é uma bíblia e nem mesmo a bíblia deve ser lida, do primeiro ao ultimo versículo, como se fosse um livro de história linear. Então acho que as pessoas deviam ter mais senso crítico. Têm pessoas que escrevem baboseiras mesmo, coisas sentimentais. Não é que não seja válido, já que é uma manifestação, uma forma de expressão pessoal, o que é diferente de uma manifestação literária no sentido mais acabado do termo.

Você se acha um poeta preguiçoso, mas dentro dessa trajetória toda que temos na poesia do Recife, como você se enquadra numa perspectiva de gerações? No final desse último século pouco se tem colocado essa questão de gerações.

O livro Tatuagem equivale há duas décadas e meia. Desde quando comecei a escrever. Comecei muito modestamente e muito ruim. Ainda tenho guardados os primeiros poemas, mas eu era um adolescente que vinha de um colégio aonde o estímulo à criatividade ou eu não compreendia e isso era um problema meu ou o colégio não me compreendia e aí era problema do colégio até porque a função do professor é compreender o aluno. É função dele que além de ensinar deve compreender a pessoa que ele está formando. Eu demorei em engrenar quanto à leitura de poesia, para entender qual era o processo de criação escrita, de interpretação, de crítica. Ao mesmo tempo em que você vai lendo e vai escrevendo, se deparando com grandes nomes e aí nem digo nomes da poesia universal, grandes clássicos, as obras que são ícones, aqueles que poucos alcançam. Eu digo na literatura, mas até mesmo de comunicação mais direta e tudo isso me fez ir escrevendo e refletindo e, ao mesmo tempo, achando que era um esforço muito grande. Escrever é um esforço muito grande chegar nesse nível. Não creio que a poesia que faço tenha alcançado um nível tão elevado, mas de qualquer forma é um esforço refletido, trabalhado, para atingir algo que eu não me envergonhasse depois de um certo tempo e o interessante é que, ao lançar o livro agora, as pessoas lêem poemas escritos há mais de dez anos, quinze anos e acham que são coisas recentes. Acho que é uma poesia que amadureceu, mas não envelheceu. Isso é interessante: saber que aquele esforço, aquela tentativa de encontrar uma linguagem própria, um vocabulário, uma forma, uma caligrafia poética, não foi em vão.

Desde a adolescência, desde aquela época que começamos a fazer um fanzine, o Escambau, você já fazia versos curtos e hoje em Tatuagem, temos uma produção intensa de hai-kai. Foi encantamento pelo hai-kai ou foi realmente uma busca?

O hai-kay é um processo de síntese e como todo mundo é uma poesia oriental que invoca paisagens poéticas, sentimentos, vivências e estados de contemplação. Então, eu comecei escrevendo numa época em que tentava fazer uma poesia lírica, mais discursiva e por não ter, talvez, o dom das metáforas ou imagens poéticas muito sólidas eu fui fazendo o processo inverso, de lapidação, fui desconstruindo, deixando a poesia quase que no osso, não aquele osso de concreto, mas com os mínimos elementos. Muitos anos depois tentei fazer um poema mais dilatado. Esse meu processo vem também do hai-kay que transmite muita informação em poucas palavras, nos leva aos vários patamares da ambigüidade, a um mascaramento que você tenta desvendar e que joga com o leitor.

Bem, depois de Tatuagem, com seus 25 anos de estrada para sair do forno, você continua preguiçoso ou está construindo um novo trabalho?

Eu tenho Tatuagem como uma decupagem feita com Adelmo Montenegro. Daí ele me disse que “era muita ousadia começar com um livro tão díspare e tão antológico no sentido de coleção daquilo que você fez”. A partir de então eu pensei em agrupar os hai-kay e mostrar uma outra produção, que são os poemas mais longos. Sei que muitos poemas que ficaram de fora não inferiores a esses agora publicados e por isso tenho a intenção de voltar a mexer com o que ficou guardado para talvez fazer um Tatuagem dois. Ao mesmo tempo venho, vagarosamente, escrevendo, buscando temas e situações. Para mim há um dinamismo na escrita. Você escreve, mas nunca termina porque quando publicamos já temos alguma coisa sendo mexida, já tem um referencial para evoluir.

O que é Tatuagem?

É uma tentativa de deixar impresso no leitor mais do que em mim o sopro da poesia. Em mim a poesia já deixou suas marcas e sempre digo ao leitor que espero que não seja tatuagem de hena que quando você lava desaparece. Tentei mostrar, de uma forma simples, que na poesia tudo é possível, basta você encontrar uma voz que conduza o leitor a um jogo de esconde-esconde, que por trás da aparente simplicidade há uma história de vida e acho que o leitor de Tatuagem deve buscar nesses poemas a sua própria história.

*Manoel Constantino é jornalista, poeta, ator, diretor de teatro e editor da Agenda Cultural da Prefeitura da Cidade do Recife

Confira alguns poemas de Marcelo Pereira no Cardápio de Poesia

(fevereiro de 2007)

 

 

 

 

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