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Luzilá Gonçalves

 

por Raimundo de Moraes

Na tentativa de um perfil, descrever Luzilá Gonçalves Ferreira é recorrer à ajuda de dois imprescindíveis adjetivos: talentosa e inteligente.

Ela, de fato, tem muito o que dizer. Desde que estreou como escritora na década de 1980 – seu livro Muito Além do Corpo ganhou o prêmio Nestlé, um dos mais concorridos na época – Luzilá merecidamente saiu das fronteiras pernambucanas e tornou-se uma referência na crítica literária nacional.

Doutora pela Université de Paris VII em literatura feminina do século XIX, Luzilá abriu um espaço em sua concorrida agenda de professora, escritora e pesquisadora, concedendo à Interpoética uma interessante entrevista, que vocês conferem logo a seguir.

 

Raimundo de Moraes: Da ironia de Clarice Lispector em A Hora da Estrela: “(...) até o que escrevo um outro escreveria. Um outro escritor, sim, mas teria que ser homem porque escritora mulher pode lacrimejar piegas”. Da possível frase dita por Flaubert: Madame Bovary c’est moi! (Madame Bovary sou eu!). Luzilá: afinal existe uma “literatura feminina” ou o talento do escritor vai além dessa classificação de gênero?

Luzilá Gonçalves: Claro que a frase de Clarice é irônica e provocadora. Clarice assume como sua, uma crítica que os apressados fazem a uma parte do que se convencionou chamar literatura feminina. Muitos dos textos da própria Clarice, a gente sabe e sente, não poderiam nunca ter sido escritos por um homem. E a frase de Flaubert não deve ser tomada ao pé da letra, evidente. Madame Bovary é Flaubert na medida em que é um personagem incompreendido, sofredor, solitário, leitor de romances, sonhador. Emma Bovary não poderia nunca ter escrito Madame Bovary.

Completando a resposta: existe sim uma literatura de mulheres. Isso se vê do ponto de vista da enunciação e do ponto de vista do leitor. Quem fala aqui e com que intenção? A gente escreve para se dizer, para se conhecer, para se dar a conhecer, para repartir uma visão de mundo, para se construir enquanto sujeito, um eu que quer se construir. E esse sujeito só pode ser um sujeito mulher, não há como não ser, quando se pensa que escrever literatura é um momento de verdade. Quanto ao leitor: você não aborda do mesmo modo a leitura de um texto escrito por mulher ou um texto escrito por um homem. Há já uma predisposição por parte de quem lê, mesmo quando se trata de um texto científico.

 
Seguindo o raciocínio da sua resposta acima, poderíamos dizer então que o inverso é verdadeiro? Existe uma "literatura de homens”? Em caso positivo, quais seriam suas características?

A literatura como a arte em geral sempre foi coisa de homens. Mulheres não freqüentavam academias de arte, de música, daí a quase inexistência de pintoras, compositoras, ao longo dos séculos. Então arte era coisa de homem. Homem não se questionava, homem existia. Enquanto, como disse Simone de Beauvoir, a mulher teve que se construir, não se nasce mulher. Então tua pergunta não tem razão de ser. (Curta e grossa?).

 
Uma das mais conhecidas pesquisadoras do tema, Nelly Novaes Coelho, autora de A literatura feminina no Brasil contemporâneo e do Dicionário crítico de escritoras brasileiras, é uma das que afirmam que assim como existe literatura feminina, existe literatura masculina. Outras, como Nélida Piñon, não acreditam nem numa coisa nem em outra. Essas pluralidades de pensamentos são proveitosas para os pesquisadores ou geram polêmicas desnecessárias?

Geram polêmicas desnecessárias pelo menos no momento. Já se falou tanto disso... Nelly tem razão, a existência mesma de seu livro o justifica. Quanto a Nélida, de fato, há textos dela que poderiam ter sido escritos por um autor homem. Nem tudo que as mulheres escrevem pode ser classificado como literatura feminina. É aquela coisa de que falei: de que lugar de enunciação vem a voz enunciadora?

 
Um livro seu que eu gosto muito: No tempo frágil das horas, uma biografia romanceada da baronesa Antonia Carneiro da Cunha. Nota-se um meticuloso trabalho de pesquisa e reconstituição do período em que se passa a história. Como foi a elaboração do livro?

O livro começou por um retrato, em casa de minha amiga Alzira Guerra, como explico no começo do romance. Ela me contou parte do que romanceei. Consultei muitos documentos autênticos como as cartas da própria Baronesa (que Alzira me presenteou), seu inventário, artigos de jornal, O Monitor das Famílias onde há a descrição da viagem de Dom Pedro ao Recife em 1859. Estive várias vezes em Monjope e uma vez em Tamataúpe, para me impregnar dos lugares e imaginar como teriam vivido aqueles mulheres. Procurei até o endereço da costureira em Paris... Reli poemas de Anna Alexandrina e sua biografia. Consultei jornais da época. Recordei antigas canções francesas, como aquela Papillon tu es volage. O resto foi imaginação, já que como romancista eu não teria obrigação para com a verdade histórica, mas apenas com a invenção e a beleza.

 
Você já se disse fascinada pelo século XIX. Usando as palavras de Ana Cristina César, podemos dizer que você é "uma mulher do século XIX disfarçada em século XX?" (ou XXI... observando-se a contemporaneidade).

O século XIX é o século do fonógrafo, do cinema, da revolução industrial, das independências na América Latina, da fotografia. O século de Freud e de Marx e do surgimento dos movimentos feministas. Você quer mais? Sou uma mulher do século XX mas não esqueço o quanto sou devedora ao XIX... que admiro muito, por todas essas conquistas. E que, por elas mesmas, não canso de investigar, estudar.

 
Em 1982 você lançou pela Editora Brasiliense numa edição pocket, uma biografia sobre Lou Andréas-Salomé. Em 2000, pela Rocco, você volta ao tema com Humana, demasiado humana. Entre tantas definições sobre Lou – precursora do feminismo, musa de filósofos e poetas, personalidade fulgurante etc – qual delas lhe causou “um primeiro impacto”, Luzilá?

A Lou personagem fulgurante como você diz, mais que a estudiosa e a psicanalista. A independente, sabendo o que quer e indo em frente, vencendo obstáculos sem se importar com opiniões alheias. Aquela que não recebe presentes da vida, mas a rouba, como ela mesma escreveu.

 
Como é o seu relacionamento com as editoras que publicam seus livros e a imprensa de uma maneira em geral? Há (e sempre houve) um bom feedback?

As editoras têm sido corretas, enviando extratos, movimento de vendas, pagamentos, etc. Vez em quando a Rocco me indica para algum evento (como a Bienal do Livro em S. Paulo). A divulgação é feita no jornal deles, bem feito, com belas fotos. Eu gostaria entretanto que houvesse mais divulgação do que fazemos, por exemplo, quando fui classificada para o Portugal Telecom (finalista por duas vezes) que isso fosse assinalado nos exemplares, como fazem na França, com uma banda vermelha em torno do livro. Tenho boa relação com o pessoal da Rocco e da Companhia das letras. Vez em quando as "meninas" (é quase tudo mulher) que lêem e escolhem os livros a serem publicados pela Rocco me perguntam se não há um romance novo, etc. e até me cobraram um livro infanto-juvenil. Que aliás escrevi, está na lista das publicações para este ano. Isso é gratificante. Mas é de uma grande responsabilidade, não posso decepcionar.

 

RAIMUNDO DE MORAES é poeta, cronista, jornalista e colunista da INTERPOÉTICA

(janeiro de 2008)

 

 

 

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