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Conversando com Lucila Nogueira

por Marina Nogueira Mårtensson*

Lucila Nogueira nasceu no Rio de Janeiro. Ela é poeta, ensaísta, contista, crítica literária, professora universitária e tradutora . Tem 18 livros de poesia publicados: Almenara, 1979; Peito aberto,1983; Quasar, 1987; A dama de Alicante, 1990; O Livro do Desencanto, 1991; Ainadamar, 1996; Ilaiana, 1997-2000; Zinganares, 1998; Imilce, 1999; Amaya, 2001; A Quarta Forma do Delírio, 2002; Refletores, 2002; Bastidores, 2002; Desespero Blue, 2003; Estocolmo, 2004; Mar Camoniano, 2005; Saudade de Inês de Castro, 2005; Poesia em Medellin; 2006. Com seu primeiro livro, Almenara, recebeu o prêmio de poesia Manuel Bandeira do governo do estado de Pernambuco em 1978,obtendo o mesmo prêmio pelo livro Quasar em 1986. Como ensaísta, publicou Ideologia e Forma Literária em Carlos Drummond de Andrade (terceira edição em 2002) e A lenda de Fernando Pessoa em 2003. Nesse momento tem no prelo o O Cordão Encantado, sua tese de doutorado defendida em 2002 sobre os livros O Cão sem Plumas e Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto. Professora da Pós-Graduação em Letras e Linguística na Universidade Federal de Pernambuco, tem um carinho especial pela Graduação onde dá aulas de literaturas brasileira e portuguesa, teoria da literatura e língua portuguesa; dirigiu o Departamento de Letras nos anos de 1998 e 1999.

Ela é membro da Academia Pernambucana de Letras e sócia-correspondente da Academia Brasileira de Filologia, situada no Rio de Janeiro. Participou da Comissão Julgadora do Prêmio Binacional Brasil-Argentina e tem pertencido ao corpo de jurados do Prêmio de Literatura Brasileira da Portugal Telecom desde 2003, quando atuou na Comissão Artística. Faz recitais e organiza colóquios, seminários e edições de livros quer acadêmicos, quer dos alunos da sua Oficina Literária de Poesia e Conto, revelando novos valores e fazendo intercâmbio entre autores ibero-americanos. Participa do comitê editorial da revista online Máfua, da Universidade Federal de Santa Catarina e colabora com a revista virtual Agulha, editada por Floriano Martins e Cláudio Willer.

 

Lucila, você foi a primeira mulher a representar o Brasil no Festival de Poesia de Medellin, o maior festival de poesia do mundo. Conte um pouco sobre a experiência.

De fato, me surpreendi ao ver que em dezesseis anos de festival, nenhuma poetisa brasileira havia ainda sido chamada a Medellin, nesse evento tão especial organizado pela Revista Prometeo, lei-se Fernando Rendón e uma equipe surpreendente a que pertencem Natalia Rojas Mejia e Luis Eduardo Rendón. Oficialmente fomos convidados este ano eu e o nosso Ministro da Cultura Gilberto Gil, que não pôde ir, quem sabe porque nesse período estivesse fazendo apresentações na Alemanha, em virtude da Copa do Mundo. Estavam lá, contudo, muitas autoras de outros países e esse evento é uma oportunidade inesquecível de constatar como existe na Colômbia um público com formação para ouvinte de poesia, nas praças, teatros, bibliotecas, universidades, escolas, presídios, sindicatos - uma poesia que vai ao povo e não fica enclausurada em torres de marfim. A minha sensação de estar lá foi de alegria e encantamento sobretudo ao constatar o carinho que dedicavam ao Brasil.

O que significa para você a poesia no cotidiano?

Os românticos falavam em "poetisar a vida"e essa linha vem desde finais do século XVIII até a atualidade, passando pela literatura alemã, inglesa, francesa, de língua portuguesa, percorrendo o simbolismo/decadentismo até chegar no século XX com suas transformações da vanguarda logo no começo e na metade a geração beat americana, a que se seguiria o movimentoi hippie, o orientalismo, a contracultura, o punk, o gótico contemporâneo. Estou sempre disposta a maravilhar-me diante da perplexidade do mundo e curiosíssima com relaçlão a tudo que está acontecendo . Cumpro minhas obrigações da parte banal do cotidiano no meu limite, mas deixo sempre a janela aberta para que entre o sol e a chuva, o inesperado, o absurdo, a surpresa absoluta.

Quais artistas você admira tanto do presente quanto do passado?

Admiro os artistas que se tornaram inesquecíveis, quer pelo encontro de um caminho muito especial, quer pelo exemplo que deram às gerações seguintes. Na música posso referir Beethoven, Wagner, Kitaro, Pink Floyd, Loreena MacKennit, Enya. Na pintura sobretudo Van Gogh. No teatro Ibsen, Strindberg, Shakespeare, Artaud, Becket. No cinema Bunuel, Bergman, Wim Wenders. Na ficção, Dostoievski e Virgina Woolf. Na poesia, Fernando Pessoa, Garcia Lorca, Sylvia Plath. Entre muitos outros. No Brasil sobretudo a música de Gilberto Gil/Caetano/Chico/Milton/Fagner/Egberto Gismonti, a escultura de Francisco Brennand, a pintura de Sérgio Moacir de Albuquerque, a literatura - entre os que se foram - de Clarice Lispector.

O que é poesia e como se explica a permanente perplexidade do poeta diante das coisas?

Não se explica. A poesia ativa camadas do irracional humano desde os tempos antigos até hoje. Poesia é substância, palavra substantiva, presente no espetáculo do mundo. Já o poético é o adjetivo, a qualidade/quantidade de poesia em alguma coisa. O poema, esse é a poesia verbalizada, construída na instrumentalidade linguística de um especial modo estético de expressão. A perplexidade do poeta reside no impacto que lhe causam os cenários e acontecimentos do mundo. Muita coisa que não chama a atenção de outras pessoas, para o poeta surge com características impressionantes quando não obsessivas. Existem também os "insights" de que se constituem ainda os haicais japoneses e que os antigos chamavam de inspiração. Eu, como Pessoa, sinto-me nascida a cada instante para a eterna novidade do mundo.

Para o poeta, o que é o encontro amoroso?

Na minha juventude, era tudo. Minha índole é romântica e sonhadora; como era uma pessoa com histórico de infância solitária, a grande aspiração era concretizar verdadeiramente a vida através do encontro amoroso. Com o passar dos anos cronológicos, o conceito do amor vai se ampliando e se tornando mais intenso. Quando o poeta encontra alguém especial é como se entrasse de cabeça em um caleidoscópio. As coisas mínimas passam a ter enormes significações. Uma súbita viagem em um espaço paralelo. Na minha idade, algumas pessoas passam a ter inibições, medo de tomar a iniciativa, insegurança com relação às marcas do tempo no corpo. Mas o curioso é que isso nem sempre é importante para os outros, porque o que importa mesmo no encontro amoroso é essa química, é esse fogo, essa magia que magnetiza as pessoas uma em direção à outra, os inexplicáveis apetites míticos das cortesãs líbias no amor pré-alexandrino de que fala a canção de Franco Battiato.

Qual é a sua percepçao da vida, o seu modo de encarar o mundo?

É sempre muito intenso e apaixonado. Ninguém me é indiferente, não me julgo nunca superior a nada. Como já disse num verso, tudo me fere, marca e desespera /mas nada me encaminha para o luto/e quanto mais a noite me atravessa/mais o sonho se aclara mais seguro. Continuo sonhando hoje como quando menina e quebro sempre que posso a parte que não é boa da rotina. Porque há costumes aos quais gosto de ser fiel, no caso a leitura de fruição, a disciplina nos estudos, o imaginar das aulas, a poesia. Tenho por princípio não fazer a ninguém o que não gostaria que fizessem comigo e não mascarar nenhum sentimento em minhas relações de vida.

Dizem que uma eterna criança habita o poeta. Poderia ser essa a explicação para o contato fácil que você tem com a juventude?

A juventude é menos hipócrita e frequentemente menos corrompida. Ao mesmo tempo é mais alegre, inconsequente, desprevenida e às vezes imprevisível. Eu gosto disso. Encontro nela demonstrações de afeto e admiração, consultas sentimentais, convites para festas e saídas em dia de domingo. Mas acho que alguma facilidade do contato vem também do contato permanente nas aulas da universidade, bem como do esforço continuado em acompanhar o roteiro pessoal de cada uma de minhas filhas.

O fato de haver estudado balé, piano, violão, acordeon a influenciou no caminho à poesia?

Estudei sim tudo isso. Os meus versos não abandonam uma certa harmonia e musicalidade, que quando não se expressam em métrica/rima surgem em uma dicção marcada pelo ritmo. Só que eu não caminhei em direção à poesia. Ela estava sempre ali à minha espera, na chuva, no vento, nas flores, no rio Capibaribe, nos castelos de areia de Copacabana, na vidraça do apartamento de Botafogo, nas tardes solitárias e ensolaradas da Rua do Lima. Ela sempre este ali, a salvadora, meu perpétuo anjo da guarda, minha loucura e minha disciplina.

 

* Marina Nogueira Mårtensson (filha de Lucila) estuda Literatura, Cultura e Mídia Digital na Universidade de Tecnologia de Blekinge, em Karlskrona, Suécia. Concluiu os cursos de Drama e Comunicação e o de Comunicação Intercultural na Universidade de Linköping, também nesse país onde reside há quase cinco anos. É brasileira do Recife, onde estudou Jornalismo e participou de muitos recitais de poesia, sendo premiada várias vezes. Casada com o sueco Anders Nogueira Mårtensson, seu filho Alexander é o primeiro neto da poetisa ora entrevistada pela Interpoética, Lucila Nogueira.

(setembro de 2006)

Fotos enviadas pela entrevistada

 

 

 

 

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