
por
Graça Graúna
Quando Cida Pedrosa incumbiu-me
de fazer uma entrevista com Leila Miccolis para publicar na INTERPOÉTICA,
veio a recomendação de apresentá-la em março:
mês dedicado a mulher. Confesso que tremi diante do desafio, tanto
que me sinto um ser privilegiado pela grande oportunidade que é
de trocar algumas idéias com uma das mulheres mais criativas
de que se tem notícia no panorama da atual literatura brasileira.
Tenho a honra de apresentar uma das faces da literatura que tem a marca
da teimosia e da qual faz parte uma argila pensante: Leila Miccolis
– mestre em teoria literária, escritora comprometida com
o social e não poderia ser diferente, pois esta é uma
de suas características mais acentuadas; um fazer literário
de mulher que ama a vida, que busca seu lugar no mundo e que sabe eternizar
sua inquietação na história da inteligência
deste país.
Para saber mais de Leila Miccolis,
é importante visitar um de seus habitats
na Internet, onde atualmente e já há bastante
tempo ela divide com o poeta Urhacy
Faustino a responsabilidade de manter o Portal
Blocos, que tem o selo da UNESCO e é um dos mais
visitados no mundo literário; mundo este em que ela não
para de refletir também sobre os direitos da criança,
os direitos da mulher, direitos autorais, isto é, direitos humanos...
entre outras questões que transcendem os chamados temas transversais.
Em suas andanças, teve
a oportunidade de conhecer Recife onde esteve na década de 80;
ela diz que essa terra só traz belas recordações
e acrescenta: “amo-a profundamente, minha alma é baiana,
por parte de mãe, e pernambucana, de coração”.
Nunca é demais agradecer
à Cida Pedrosa pela alegria que me proporcionou ao convidar-me
para fazer esta entrevista e à Leila, também, pelo carinho
e atenção; pois em meio a tantos fazeres, Leila ainda
arrecadou um tempinho e enviou (no dia 20 de fevereiro de 2008, à
noite) o seguinte e-mail para mim: “Querida, uma bela entrevista
- nem podia ser diferente, partindo de você. É raro, através
das perguntas, o entrevistado rever sua vida, fazer uma espécie
de reflexão sobre ela. E você, habilmente, conseguiu isto
de forma notável”.
GRAÇA GRAÚNA: comecemos pela chamada poesia social
ou engajada, mas sem deixar de lado o lirismo. Em sua poesia é
nítida a voz de mulher que está à frente de seu
tempo. Explique essa história, por favor.
LEILA MICCOLIS:
Sempre me revoltei com o jogo de aparências e com a hipocrisia
da relação familiar ou a relação a dois.
E minha poesia questiona esses papéis sociais impostos, manipuladores,
responsáveis pela internalização da submissão,
da castração, da culpa e da baixa estima feminina. Minha
poesia sempre reagiu contra inúmeras regras preconceituosas que
nos são ensinadas no comportamento diário como verdades
eternas e imutáveis, e que são tão comuns, nos
parecem tão “naturais”, que nem as questionamos.
Este é meu alvo principal: a violência inconscientemente
consentida, porque nem percebida é, muitas vezes, de tão
sutil e arraigada em nossos hábitos e costumes. A primeira parte
de minha obra é bastante agressiva; depois, passa a ter mais
humor, maior ironia... embora continue ferina. Por isto, eu discordo
quando “classificam” minha poesia de sensual: ela pode até
falar de cama, mas não enfoca propriamente o sexo libidinoso,
e sim critica os padrões convencionais que servem, principalmente,
de instrumento de controle social.
Na década de 80, você esteve no
Nordeste do Brasil e teve oportunidade de lançar a Antologia
Mulheres da Vida, mas sofreu com o preconceito literário
em torno dessa antologia. Fale do que aconteceu com você.
O
incidente ocorreu no Ceará, e o interessante é que o preconceito
partiu das próprias livrarias locais: naquela época o
título causou muita polêmica, e os livreiros acharam que
a antologia podia prejudicar-lhes, macular a seriedade da imagem
comercial. Para piorar, algum afoito jornalista que não tinha
lido o livro e nem mesmo visto o nome das autoras, publicou uma matéria
afirmando se tratar de um livro em que dez prostitutas falavam de suas
vidas. Foi a gota d’água, porque só atualmente esse
tipo de livro tem espaço e divulgação na mídia;
na década de 80, livraria “que se prezasse” queria
apenas vender obras intelectualizadas (mesmo que pseudo-intelectualizadas...
rsss...). Depois de várias recusas, desanimada, falando por telefone
com uma das participantes, a escritora natalense Socorro Trindad, ela
sugeriu que eu lançasse a obra em um bordel, já que, por
lá, nossa fama era essa... Gostei da idéia e autografei
o livro no “Cabaré Estrela do Oriente”. O lançamento
transformou-se em um dos maiores sucessos de público e de venda
de toda a minha carreira, com a presença de todas as mídias,
uma verdadeira multidão, inclusive autoridades ligadas à
Secretaria da Cultura, pois a noite de autógrafos transformou-se
em uma manifestação, um manifesto vivo. Creio, porém,
que o mais bonito de tudo foi a postura da dona do bordel e das mulheres
que trabalhavam na noite, que souberam valorizar o livro de uma forma
que, até hoje, me emociona quando lembro (fiz uma crônica
sobre esse respeito enorme, carinhoso e comovente que recebi por parte
delas: “Recuerdos do Ceará”). Foi um fantástico
aprendizado não só dentro do meu ofício, mas uma
maravilhosa lição de vida muito mais ampla.
O seu trabalho com a palavra vem de longas datas.
Você escreveu mais de trinta livros, é autora de teatro
e novela. Como vê a relação entre literatura e direitos
humanos?
Os direitos humanos perpassam
minha poesia o tempo todo, inclusive aborda o direito das crianças
(um dos maiores elogios que já recebi foi de uma menina de oito
anos que identificou meu poema em meio a de vários outros autores
e respondeu à professora explicando que sabia que era meu, porque
eu era a única que defendia os direitos das crianças).
Porém, em âmbito mais restrito, há um direito que
os próprios escritores transgridem constantemente ou nem dão
valor: é necessário lembrar que os direitos humanos envolvem
também os direitos autorais, a legalização da profissão
do escritor (temos o direito de viver do prazer de escrever), o respeito
que se deve ter de, pelo menos, pedir autorização para
copiar gratuitamente algum trabalho alheio, e o firme propósito
de não se promover o tal do “autor desconhecido”,
porque, mesmo desconhecido e sem o devido crédito (desa-creditado,
portanto) esse autor existe, e está sendo lesado, simplesmente
ignorado em seus direitos humanos inalienáveis.
Dos livros que escreveu de qual ou quais você
mais gosta? Na verdade, quero saber o que você pensa da sua literatura.
Sobre meus livros, acho que gosto
de todos (embora seja um amor diferente por cada um deles) até
mesmo do primeiro (levei anos exorcisando-o), mas que, de alguma forma,
já continha o gérmen da minha poesia contestadora. Cada
um deles, ao seu modo, me foi marcante e único. Quanto ao que
eu penso sobre minha literatura, sei que ela incomoda ainda bastante
e que continua causando, muitas vezes, profundo estranhamento nas pessoas.
Porém esta desfamiliarização é inerente
à linguagem poética: ironicamente, as metáforas
têm o poder de provocar reflexões mais objetivas e ensejar
reações mais rápidas. Talvez, por isso, a poesia
seja tão temida e ameace tanto – tem sempre quem anuncie
sua morte... É que ela pode provocar transformações
drásticas com a rapidez de um raio ou de um flash, por sua concisão,
sua intensidade dramática, por sua ação fulminante.
Qual foi o primeiro livro (escrito por homem ou
mulher) que você leu acerca do universo feminino e até
que ponto essa leitura contribuiu para a sua descoberta no campo da
chamada literatura marginal?
Uma ótima pergunta, nunca
pensei nela. Deixe-me ver... sempre li muito, principalmente literatura
estrangeira, na juventude. Recordo-me da impressão que me causou
Lin Yutang falando da condição das mulheres chinesas (“Peônia
Rubra”, “O portão vermelho”, “Momento
em Pequim”). Que me lembre ele foi o primeiro autor a acender
em mim, aos treze anos, a centelha que me levaria a refletir sobre a
condição da mulher, em sua trajetória submissa
e/ou insubmissa. Também teve Proust (“A Caminho de Swan”)
– vejo Swan como um personagem que não se dobrava a convenções
e que, mesmo em um ambiente hipócrita, consegue resguardar seus
valores mais nobres; e, ainda, Madame Bovary, de Flaubert. No Brasil,
Érico Veríssimo me arrebatou com suas figuras femininas,
desde Clarissa a Ana Terra – a última marcou-me emocionalmente
bastante, pela sua força, garra e coragem. Bem depois apareceram
em minha vida Beauvoir e Sontag – amo ambas – mas, antes
de lê-las, minha poesia já tematizava padrões de
comportamento.
Quintana dizia que um poeta deve escrever como
se fosse o último ser vivente e não pensar o que pensarão
os outros. Como você traduz isso, ressaltando o papel da mulher?
Vejo assim: mesmo quando você
não pensa no que pensarão os outros, dentro do seu texto
já há um leitor implícito ao qual você se
dirige (só diário é que a gente escreve para si
mesmo...). Saber então quem é esse público me parece
bastante importante; mas concordo que não pode ser a parte principal
no processo criativo, principalmente em se tratando de literatura escrita
por mulheres, já tão atreladas a repressões e medos
de que sua vida pessoal seja confundida com sua obra ficcional. Até
hoje as pessoas ainda não entendem muito bem a primeira pessoa
poética e confunde-a com a da autora (o episódio do Mulheres
da Vida contado acima é uma mostra disso). Já houve autoras
que escreveram sob pseudônimo – Colombina, por exemplo –,
para que este limite fosse rigorosamente respeitado. Então, romper
com esta espécie de barreira me soa imprescindível, porque,
se você tiver medo do que os outros pensam ou pensarão
de você ou do que você escreve, você acaba tolhida
e restrita a visões contemplativas do mundo, muitas vezes parciais
e extremadamente subjetivas. E, a meu ver ainda mais perigoso, você
se autopolicia e se delimita restrições desde o início.
A quebra, a ruptura desta pessoa indistinta: autor-e-personagem é
indispensável. Porém, como disse e friso, não a
ponto de ignorar-se o leitor, para também não se cair
na armadilha de rejeitar-se todo processo de recepção
da obra, e dela alijar-se o outro.
A propósito das dificuldades que a mulher,
geralmente, enfrenta na sociedade quero saber se você sentiu,
alguma vez, problemas em ser escritora-mulher.
Muitas vezes. Desde o início
ouvi comentários de que “mulher não escrevia assim”.
É que minha poesia não é do tipo que se espera
de uma mulher ou que visa agradar a todos. É uma poesia que você
sorri, mas logo depois fica séria e pergunta: estou sorrindo
de quê?... Em geral a poesia feminina – com raras exceções
que só confirmam a regra – ainda é uma poesia lírico-romântica,
em que o universo da mulher é idealizado e localiza-se distante
de sua realidade cotidiana. Diferentemente, eu falo das contradições
do sistema, do autoritarismo que herdamos de nossos pais e que transmitimos
às novas gerações, das repressões que muitas
vezes nem nos conscientizamos delas, etc. Então, é perfeitamente
compreensível que minha poesia tenha tido (e causado) problemas,
até mesmo com as próprias mulheres, criadas mais para
aceitar e perdoar sempre, do que para transformar suas próprias
realidades caseiras ou o mundo “lá fora”. A mulher-sombra
(“por trás de um grande homem há sempre uma grande
mulher”) ainda é mais valorizada em uma sociedade patriarcal
do que a mulher-revolucionária, que em geral é ridicularizada
por esta própria sociedade, através da mídia.
Você se lembra de como ou quando descobriu
que queria ser editora, sabendo que muitos(as) escritores(as) são
criticados(as) pelo fato de pagarem a edição dos primeiros
títulos?
Eu não quis nem quero ser
editora, na verdade. Assim como nunca quis fazer performances poéticas.
Porém, gosto tanto de trabalhar com literatura que acabei indo
para o palco (que atualmente me diverte muito) e criando duas editoras:
a Trote e a Blocos, a última com o Urhacy. Porém, de todas
as atividades periféricas da minha profissão, a de editora
de livros foi, infelizmente, a que mais me decepcionou. O ego, a vaidade,
a soberba, a presunção, a prepotência, a onisciência
e o complexo de superioridade da maior parte dos escritores me incomodam
muito. Daí, eu e Urha resolvemos paralisar as atividades gráfico-editoriais
da Blocos, ficando “só” com o portal (que é
um projeto ideológico bastante caro, mesmo tendo o apoio inestimável
do Bradesco). Quanto ao autofinanciamento é assunto que me interessa
muito, sempre: tudo é pago (até o simples ato de andar
a pé exige a compra de roupas e sapatos, e paga-se a pavimentação
das ruas...). Só a poesia precisa ser financiada. Ainda bem que
Bandeira, Rimbaud e tantos outros não tiveram pruridos em pagar
suas obras, pois corríamos o risco de não conhecê-los
hoje . Os poetas estrangeiros têm orgulho em financiar seus livros,
eles fazem uma avaliação exata de cada fase desse processo:
da criação à comercialização de sua
obra, e não se iludem: em uma sociedade de consumo, a própria
cultura tornou-se um bem cultural e o que não tiver valor monetário
é desvalorizado. Vive de fantasia o autor que acredita que sua
fama cairá dos céus e que alguma grande editora o descobrirá
entre milhões de outros e o transformará em best-seller
da noite para o dia, mesmo que ele tenha qualidades para isso. Como
costumo repetir sempre, porém, o escritor em nosso país
(principalmente o poeta) está mais para intrigas da corte do
que para estratégias de marketing. Preferem ser vítimas
da “sorte”, e, dentro de seu anonimato e amadorismo, continuam
sonhando com a fama inatingível... Não raro encaram a
literatura como “status” ou se servem dela apenas como prestígio
pessoal, esvaziando-a, tornando-a apenas um exercício estéril
e, pior ainda, um novo instrumento de poder.
Poesia e prosa. Em qual você se sente mais
à vontade?
Poesia é minha menina-dos-olhos;
mas é a prosa que me sustenta. Então, sem uma delas, não
sei se morreria primeiro de falta de ar ou de inanição...
rss...
Por que você escreve?
Creio que, de repente, é
por uma reação bioquímica – para a formação,
desenvolvimento e renovação das estruturas celulares...
(risos). Ou seja: tenho a impressão de que escrevo para metabolizar
a vida.
GRAÇA GRAÚNA é Escritora,
Educadora em Direitos Humanos, Professora universitária e Pesquisadora
de literaturas de língua portuguesa.
(março
de 2008)