Tive, recentemente,
o prazer de conhecer pessoalmente o poeta Jaci Bezerra, por circunstância
do Festival Jaci Bezerra de Poesia, promovido pelo Centro de Estudos
Superiores de Maceió, onde honradamente fui o vencedor com o
poema Barroquilhas. Concomitantemente foi lançado o livro Linha
D’água, que reúne poemas de livros anteriores do
autor.
Ficamos hospedados
no mesmo hotel, o que possibilitou o contato e a conversa mais à
vontade sob a brisa do mar, parceiro e mestre do poeta. Talvez pelos
mistérios da empatia, não me deparei com o homem introspectivo,
anti-social, ou tímido, como costumam caracterizar o comportamento
de Jaci. Tive, ao contrário, a oportunidade de ouvir mais do
que falar, com fluência, simpatia e perspicácia o senhor
do metro marítimo e da transposição sensorial e
atemporal de sua lira, José Jaci de Lima Bezerra, poeta e sociólogo,
conterrâneo das Alagoas.
Seus poemas
trazem uma carga simbólica muito forte da infância. Fale-nos
sobre a sua infância em Murici.
Nasci em Murici. E logo que nasci
fui para Maceió com a família, aninhado entre os braços
da minha irmã mais velha. Em Maceió, passei a infância
à beira mar: Pajuçara, Avenida, Ponta Verde. Gostava de
me divertir e jogar bola com os amigos. Tinha um irmão, Jaime,
que jogava no CRB e tinha uma admiração enorme por ele.
Nessa época, comecei a estudar na Escola Industrial de Maceió,
considerando que a escola era profissionalizante. Não dava muito
importância aos livros e o que mais gostava de fazer era brincar.
A praia da Pajuçara foi a minha Pasárgada.
Como você se interessou
pela leitura?
Considerando o mundo em que vivia,
era um adolescente cercado de poesia por todos os lados, antes de ser
vitimado pela tuberculose. E porque tinha de descansar, tomar os remédios
na hora certa, andar um pouco todo dia, cumprir enfim as ordens médicas,
comecei a ler tudo que me chegava às mãos, como o almanaque
do Biotônico Fontoura, um velho exemplar do Eu de Augusto dos
Anjos, fascículos da novela O Direito de Nascer. A partir daí,
li com interesse os romances de José de Alencar, Joaquim Manuel
de Macedo, Aluísio Azevedo, entre outros.
Quando nasceu o seu interesse
pela poesia? Fale-nos um pouco sobre as circunstâncias do seu
estalo de Vieira?
Até um determinado momento,
não dei atenção à poesia. Era um bom aluno
e cuidava de fazer os meus deveres. Meu interesse pela poesia começou
no Colégio Estadual de Jaboatão, na convivência
com amigos que também eram aprendizes de poetas, como Domingos
Alexandre, José Luiz de Almeida Melo e Alberto Cunha Melo. Nessa
época fomos todos orientados pelo poeta Benedito Cunha Melo,
pai do Alberto. A partir da leitura de Carlos Pena Filho aconteceu comigo
o que um dia aconteceu com o poeta Paulo Mendes Campos: Comecei a ler
um livro e nunca mais tive descanso.
Algumas declarações
feitas em prefácios de seus livros remetem ao poeta que domina
a forma, a métrica, a rima, como a de César Leal quando
diz”...hábil criador de formas...”ou Hildelberto
Barbosa: “...sua ritmia precisamente cadenciada...”ou ainda
o Paulo Gustavo:”...amplo domínio da métrica e da
rima...”Como se deu esse aprendisado?
Eu morava na Ponta da Terra e
à noite escutava, longe, o barulho das ondas. E se você
me permitir, lhe direi que o mar, principalmente à noite, soletra
o ABC das suas águas com metros alternados ou breves, com suas
pausas longas como alexandrinos ou curtos, como um poeta que conta as
sílabas com os dedos. Tanto era assim que você, com o tempo,
sabia de ouvido o intervalo em que as ondas se repetiam. Mas aprendi
métrica e outras coisas mais e decisivas lendo um tratado de
versificação organizado pelo Olavo Bilac e o alagoano
Guimarães Passos.
Considerando esse olhar
que vê em sua poesia o rigor na construção, é
possível pensar no encontro com o poema que chega como se estivesse
pronto?
Não, exatamente. Mas penso
que se você se entrega inteiro à sua arte ou coisa semelhante,
até dormindo você sonha com ela, principalmente quando
se trata de poesia. Aí você pode, como acontecia com o
poeta Manuel Bandeira, sonhar com sonetos inteiros, como por vezes ele
sonhava.
Quando você e o
Alberto Cunha Melo foram descobertos por César Leal?
A gente sempre desejou enviar
poemas para o César Leal com o propósito de serem publicados,
o Alberto Cunha Melo, o Domingos Alexandre e eu. Mas ninguém
nunca teve coragem de fazer isso. Um dia escrevi uma coroa de sonetos
e resolvi enviá-la para o César. Criei coragem, venci
a timidez e os enviei para o César através do Ascensorista
do Diário de Pernambuco. Ele recebeu os poemas, publicou dois
deles na edição do domingo com o título de Sonetos
da Procura e, no outro domingo, publicou a Coroa. Aí eu já
sabia que queria ser poeta e aquele poema publicado foi uma das grandes
alegrias da minha vida.
Você foi amigo
do Tadeu Rocha? Reconhece identidade estética ou só cronológica
no que Tadeu Rocha chamou de Geração 65?
Amigo próximo, não.
Mas o conheci e conversamos várias vezes quando dirigi a Editora
Massangana da Fundação Joaquim Nabuco. Era um homem formidável,
culto e bem humorado. Foi amigo de Mauro Mota como tinha, igualmente,
sido amigo de Jorge de Lima e conhecia de perto os movimentos literários
do Nordeste como, por exemplo, o Movimento Regionalista. Ao constatar
a existência de uma possível Geração 65,
portanto, ele tinha plena consciência do que estava fazendo. Reconheço
essa identidade com traços estéticos bem nítidos.
Creio, pela data do prefácio
de César Leal, ter o Quíntuplo sido editado em 1973. Como
se deu o processo de feitura do livro, desde a escolha dos participantes
(cito-os: Alberto Cunha Melo, Jaci Bezerra, José Carlos Targino
e João Landelino Câmara)?
No bar Calabouço, onde
escritores e artistas se sentavam no final da tarde para conversar,
o Quíntuplo foi concebido pelo pintor João Câmara.
Reunia, ao lado dos poemas de João Landelino Câmara, seu
pai, poemas de José Carlos Targino, Alberto Cunha Melo, Jaci
Bezerra e Severino Filgueira. O livro, ilustrado por João Câmara,
teve projeto gráfico do pintor Roberto Lúcio e tiragem
de 500 exemplares, salvo engano. Foi impresso por Mousinho Editor e
o seu lançamento, na Galeria Nega Fulô, teve uma enorme
repercussão.
Como
surgiu o movimento das Edições Pirata?
A Pirata nasceu no âmbito do então Instituto Joaquim Nabuco
de Pesquisas Sociais com a cumplicidade dos gráficos da instituição.
Tivemos a idéia de publicar o livro comemorando o aniversário
do Almir Castro Barros, intitulado Estações da Viagem,
de sua autoria, e o lançamos no Restaurante do Gregório,
no Pátio de São Pedro. Desse livro, livro que deu certo,
nasceu a idéia de criação do movimento, que se
propagou e acabou sendo um acontecimento nacional, a partir de uma nota
escrita pelo Rubem Braga divulgada pela rede Globo de Televisão.
E do jeito que começou, também acabou, com a dispersão
dos seus participantes.
Você se recorda
de alguma confusão em algum lançamento da Pirata, considerando
a repressão que pairava em todo o Brasil?
Recordo que houve uma certa confusão
quando lançamos o livro do Padre Reginaldo Velozo, chamado Presepança
Nordestina, na ponte da Imperatriz. Mas talvez valha a pena recordar
que os poetas Arnaldo Tobias, Paulo Bruscky e, creio, também
o pintor Daniel Santiago, viveram momentos difíceis na época
da repressão por ocasião de uma exposição
que realizaram no meretrício do Recife.
Como a Edições
Pirata encarou a, então, ditadura militar?
Exatamente criando os meios necessários
e possíveis para editar poetas do Recife e movimentar a cena
cultural da cidade, a partir da edição do Pomar, do Arnaldo
Tobias, um dos principais poetas na resistência contra a ditadura.
Sob esse aspecto, ele criou o jornal alternativo Pró-Texto, com
personagens que tinham um discurso crítico extremamente contundente.
Dada a sua reconhecida
polivalência (Vale lembrar o prêmio no XII concurso Nacional
de Dramaturgia do MinC, 1986) existe escala de afinidade em relação
aos gêneros literários?
Todos os gêneros e as artes,
de maneira geral, se cruzam e se confundem no momento da criação.
Embora transitando por alguns gêneros, o meu caminho é
o caminho da poesia.
Ao conversarmos com você,
de imediato percebemos o leitor profícuo. Qual sua leitura preferida
e seus autores de cabeceira?
Leio sistematicamente livros
sobre artes plásticas e a poesia de Manuel Bandeira, Manuel de
Barros, Jorge de Lima, Cabral, Hilda Hist, Dante Milano, Paulo Mendes
Campos, Carlos Moreira, Edmir Domingues, Audálio Alves, César
Leal, Marcus Accioly, Ângelo Monteiro, José Mário
Rodrigues, Débora Brennand, Alberto Cunha Melo e os pernambucanos,
de maneira geral.
Você continua a
andar pelo Recife, como antigamente?
Menos, agora. Não porque
não tenha interesse, mais porque cada vez mais gosto de ficar
em casa.
Que tal presentear o
Interpoética com um poema inédito?
TEMPO SEM RELÓGIO E PÊNDULO
Entende entre o que vive e o que
mascara
que a vida inteira se resume a um dia,
enquanto o tempo lhe rasura a cara
e a morte, entre o que vive e sonha, espia.
Por isso no silêncio em
que se ampara
também entende, diante do que cria,
que ao criar tenta apenas tornar clara
a vida que se extingue e se esvazia.
E pelas frinchas do tempo distraído
colhe restos de mar, versos em brasa,
azuis da infância, amores sem sentido:
as coisas com as quais compõe
a face
E inventa os objetos de palavras
onde Deus dorme e diariamente nasce.
*IVAN
MARINHO é professor, poeta, artista plástico
e conselheiro de cultura no Cabo de Santo Agostinho/PE
(agosto de 2007)

Jaci Bezerra
e Ivan Marinho
Confira alguns
poemas de Jaci Bezerra e Ivan Marinho no Cardápio
de Poesia