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Homero Fonseca
"Sigo, guardadas as proporções, meu próprio caminho"
 

por Delmo Montenegro*

                                                                    foto: Alexandre Belém

   Homero Fonseca, pernambucano de Bezerros, é jornalista e escritor. Atualmente é diretor editorial da revista Continente Multicultural, do Recife.
   Formado em jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco, foi diretor de redação da Folha de Pernambuco, editor-chefe do Diario de Pernambuco, repórter das sucursais de O Estado de S. Paulo e Jornal do Brasil e repórter do Jornal do Commercio e Diário da Noite, do Recife.
   Em 2005, foi coordenador de programação da V Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, função que repete atualmente na sexta versão da feira (2007).
   Tem publicados os seguintes livros:
   Pernambucânia – O Que Há nos Nomes das Nossas Cidades – Ensaio/ Toponímia – Recife, Cepe – Companhia Editora de Pernambuco, 2006/2007;
   Pequeno Teatro da Vida – Crônicas – Recife, Editora Comunigraf, 2002;
   A Arte de Viver Teimosamente – Perfil biográfico do jornalista Mário Melo, Recife, Edição da Assembléia Legislativa de Pernambuco, 2001;
   A Vida É Fêmea – Contos – Recife, Editora Comunigraf, 2000;
Viagem ao Planeta dos Boatos – Reportagem – Rio, Editora Record, 1996
   Roliúde lançamento dia 11 outubro, pela Editora Record, na VI BIenal do Livro de Pernambuco.
(Fonte: interblogs.com.br/homerofonseca)

 

Delmo Montenegro: Você provocou uma pequena revolução na história da Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, quando em 2005, ousou apostar na vinda de diversos nomes da novíssima literatura brasileira (Frederico Barbosa, Marcelino Freire, Clarah Averbuck, Marcelo Mirisola, Cristóvão Tezza, Luiz Rufatto, Fabrício Carpinejar, Jussara Salazar, entre outros) em vez de seguir a fórmula tradicional dos nomes já consagrados – dos grandes jornalistas, dos fáceis best-sellers, dos notórios acadêmicos. Resultado: a Bienal Internacional do Livro de Pernambuco com o melhor resultado de público e de inserção gratuita (e positiva) na mídia dos últimos anos (senão a melhor de todos os tempos). Como você espera trabalhar este ano? Vejo um número menor de participantes da nova safra – destacaria figuras como Santiago Nazarian, Paulo César de Araújo e Cíntia Moscovich (poucos, mas que, com certeza, irão render boas mesas e ótimas matérias para os jornais) – como também sinto a falta dos poetas (tanto dos novos como dos mais velhos). Onde estão os poetas, Homero?

Homero Fonseca: Acredito que a revolução este ano será ainda maior, pois vai além dos nomes e envolve o próprio conceito. A temática geral será Literatura e suas interfaces e isso abre um leque praticamente infinito de abordagens. Tanto que, inovadoramente, teremos oficinas gastronômicas no O Pátio Café Literário e palestras vinculando receitas a autores. A interface com o cinema também será grande, havendo um espaço – Cine Letras – somente para exibição de filmes de alguma forma relacionados à Literatura ou mais genericamente à Cultura. Quanto a nomes, além dos que você citou, podemos acrescentar: Ariadne Schirac, da Alemanha, que provocou uma comoção nas hostes germânicas com seu ensaio “A Dança do Prazer”; Maria João Cantinho e Jorge Reis-Sá, novíssimos nomes das letras portuguesas, ambos também poetas; o poeta moçambicano Luiz Carlos Patraquim; Márcia Denser, sempre tão provocadora; Ferréz, falando em nome das periferias brasileiras; o pessoal dos folhetos de cordel. Sem falar nos acadêmicos, tanto da ABL como da APL, e as homenagens a Clarice Lispector, Hermilo Borba Filho e Ariano Suassuna. Num evento da natureza de uma Bienal, os vários públicos devem ser contemplados e não apenas a vanguarda, unindo as características de feira de livros e de espaço de reflexão sobre a vida e a Literatura.

Todo veículo de cultura – seja a Continente Multicultural, seja qualquer outra publicação do gênero, como o Correio das Artes, o Rascunho, o Suplemento Literário Minas Gerais ou o Pernambuco – sofre, de certa forma, com a tarefa de conciliar o local e o universal. Numa região tão escassa de experiências bem sucedidas e duradouras na divulgação da cultura, a Continente Multicultural ocupa merecidamente um papel-chave e exerce uma função estratégica crucial na inserção de dados novos na nossa corrente sangüínea. Mas como lidar com essa cobrança? Como escapar do risco de uma politização, de uma ideologização da revista – uma vez que ele subsiste basicamente a partir de recursos públicos? Como a Continente Multicultural lida com o impasse entre apostar no local ou estar em sintonia com a pauta dos grandes centros? Precisamos seguir a lista dos melhores da Bravo!, da Cult, da Entrelivros, do Caderno Mais! e do Globo ou podemos ser ousados e dar a capa da Continente para um escritor, um músico, um diretor de teatro ou um artista plástico novo – e dizer: ESTA É A NOSSA APOSTA? Afinal, Homero, quais são as suas apostas como Editor?

Como você percebeu com argúcia, a história da Continente é a busca desse equilíbrio precário entre o local e o universal e isso renderia panos para lonas de circo. Há uns dois ou três anos, Spok era conhecido numa reduzidíssima roda de músicos, embora estivesse processando a maior revolução já registrada na forma de tocar o frevo. E demos capa com ele. Agora estamos ousando mais, observe, nos números recentes, que capas e matérias de destaque foram ocupadas por gente como Hermila Guedes, Mestre Salustiano, Marcelo Gomes, José Cláudio, Mimo, Coquetel Molotov, xilogravura – tudo convivendo com Bergman e Antonioni, Gringo Cardia, Cristóvão Tezza, Keats, Machado e os Beatles. Estamos cada vez mais apostando na nossa vila sem deixar de estarmos antenados com as galáxias mil de que é feito o universo dos interesses humanos. Em resumo, aposto no local inserido no mundo e no mundo como nós percebemos de nossa esquina.

Você publicou no ano passado, pela CEPE (Companhia Editora de Pernambuco) uma obra deliciosa e instigante: Pernambucânia – O que há nos nomes das nossas cidades, o primeiro registro específico sobre a Toponímia dos municípios pernambucanos desde o tratado de Mário Melo – Toponymia Pernambucana – originalmente lançado em 1931. Porém muito mais que o registro histórico oficial que seu livro traz, o que nos impressiona e diverte é o registro das tradições “paralelas”, do canto sem-nome, polêmico e derrisor da boca do povo. Dos Malazartes que reinventam não só a língua, mas reinventam a história que lhes é sonegada. A identidade, o mito de origem, as causas primeiras do seu ser e estar no mundo. Você parte da ignorância institucionalizada que temos sobre o significado e a origem dos nomes de nossos municípios para produzir uma grande Crítica de Cultura. Você é uma espécie de Lévi-Strauss macunaímico. Do alto dos saberes de sua desantropologia, eu te pergunto: O que faz Pernambuco cavar um fosso tão grande no reconhecimento de sua própria Identidade? Até quando continuaremos a caminhar como os cegos da pintura de Brueghel?

Oscilamos entre a cegueira criativa de Homero e os cegos de Brueghel, sem saber o rumo certo. Se o brasileiro é ciclotímico, variando do “complexo de vira-latas” apontado por Nelson Rodrigues ao “com brasileiro ninguém pode” dos tempos ufânicos de Copa do Mundo, nós pernambucanos somos ainda mais. Aqui, Hamlet se perguntaria: Ser Cavalcanti ou Ser Cavalgado (parafraseando a feliz e incisiva proclamação de Jerônimo Vilela)? Penso que a escandalosa desigualdade social que constituiu nosso pathos – lavrado a suor e sangue nas extensões latifundiárias dos nossos monocanaviais – faz-nos uma gente desconfiada, violentamente crítica e acidamente autocrítica, altiva e invejosa, generosa e cruel ao mesmo tempo. Parece que nos olhamos no espelho e não gostamos da nossa identidade revelada. Vemos com justificada desconfiança qualquer coisa que cheire a tradição, sem distinguir a percepção reacionária que cristaliza e engessa a tradição, de uma visão descomplexada da tradição como matriz de nossa cultura, em cima da qual criamos, recriamos e dialogamos com novos tempos e outros espaços. Afinal, sem memória seríamos todos portadores do Mal de Alzheimer. O danado é que a linha que separa essas duas visões é bastante tênue, é mais fácil separá-las retoricamente que na prática. Outro dia, num barzinho, ouvi um jovem letrado, certamente saturado das loas acríticas a tudo que se rotule “cultura popular”, referir-se pejorativamente a qualquer manifestação do povo como “bumba-meu-ovo”! Ora, se nem tudo que o povo faz presta, definitivamente é preconceituoso e colonialista achar que tudo que o povo faz “não” presta!

Sua estréia em ficção ocorreu em 2000, quando você publicou A Vida É Fêmea – uma reunião de 15 contos e apenas um único tema: as mulheres. Nestes contos você adota uma perspectiva, uma voz feminina, porém, muito mais do que um exercício de estilo, o que salta aos olhos não é a identidade feminina que traveste a narrativa, mas sim o fosso, a fronteira aguda que perpassa a vida de suas personagens. Como andarilhos numa comédia pequeno-burguesa que tivessem que atravessar o seu deserto de Mojave interior, os personagens de A Vida É Fêmea se movem, como a destroçar uma cerca eletrificada de desejos que afinal não podem ser mais contidos. A vida arrebenta cercas, convenções, filas de segurança, salas de escritório. Todos os controles sociais. Todas as sexualidades pré-definidas. Mas porque assumir a alteridade de um outro feminino para exemplificar isso – a Zona de Fronteira? Porque este ato de travestismo? Madame Bovary c’est Homero? O que te seduz no discurso feminino? O que te toca na obra de garotas más, muito más, como Andrea Del Fuego, Ivana Arruda Leite, Maria Esther Maciel, Adriana Lunardi, Cíntia Moscovich, Cecília Gianetti, Marília Arnaud, Clarah Averbuck, entre outras, estas terríveis sibilas agridoces que estão mudando a cara da nova Literatura Brasileira. O que te encanta e te apavora no canto destas sereias, Homero?

Na realidade, A Vida É Fêmea, todo narrado na segunda pessoa (voz narrativa bastante rara, lembro Áurea, de Fuentes, e mais uns poucos), tem uma perspectiva mais de voyeurismo do que de travestismo. Mesmo Madame Bovary, apesar da boutade de Flaubert, não se realiza como travestismo pois, no fundo no fundo, a crueldade com que o destino pune Emma Bovary é uma pista de uma posição moralista e machista do grande escritor que, como qualquer outro, exceto os marcianos, não é infenso ao espírito do seu tempo, embora possa (e deva) vê-lo criticamente. Em A Vida É Fêmea adotei exatamente a segunda pessoa narrativa em vez da primeira, por não me considerar suficientemente competente para interpretar “de dentro” o universo mental e comportamental da mulher, muito mais vasto do que o masculino. Quanto ao discurso transgressor feminino, me encanta profundamente e me assusta também, justamente por revelar esse universo estranho e belo, feito de sonho e pragmatismo que nós não alcançamos em sua totalidade. Por isso acredito numa “escrita feminina” (como defende Luzilá Gonçalves, ao contrário de Cíntia Moscovich). Afino com o mineiro da anedota que, diante da afirmação peremptória do gaúcho de que “lá na minha terra todo mundo é macho”, contrapôs que, “pois na minha, uai, é metade fêmea e metade macho e é bom danado!”. Como Ulisses, ouso ouvir o canto das sereias, mas amarrado em meu mastro, por precaução.

Desde seu primeiro livro, Viagem ao Planeta dos Boatos (publicado pela Record em 1996), um ensaio sobre casos de pânico coletivo causado por boatos alarmantes, passando pelo Pernambucânia e agora pelo inédito Roliúde – Um Romance Picaresco, Aventuroso e Cinematográfico, você parece determinado a ter como matéria-prima a Cultura Oral. De onde vem o fascínio por este rio caudaloso de informações e contra-informações do povo? Pelo mágico e pelo maravilhoso? Homero, você parece predestinado a reencenar – a partir do seu próprio nome – o encantamento pelo Mito, o nascimento da Fábula. Que elementos você encontra na tua história pessoal que tenham alimentado esta predestinação? Fale também um pouco sobre como se dá essa relação entre o mundo da Voz, dos Causos e dos Boatos com o universo jornalístico. Porque você escolheu esta profissão? Homero, com seu ouvido de aedo, você sente que o Jornalismo e a Literatura Brasileira falam a língua do povo? Conseguem realizar a “operação tradutora” tão bem como seu o Bibiu, “tradutor de filmes”, este safado e rasgado Bibiu, que um dia acorda como o poeta Severino Ramos Soares da Silva, e num outro reaparece como o esotérico e mágico Doutor Professor Biukowski, o científico embusteiro, o personagem multinomes, um alegre e redivivo Odisseu, campeão de trapaças, anedotas e artimanhas?

Camarada Delmo, cada pergunta dessas valeria um tratado (a ser escrito, claro, por gente mais estudiosa). Mas vamos lá: dou imenso valor à Cultura Oral (mas obviamente não apenas a ela) porque nasci imerso nesse mundo, dos cantadores, folheteiros e emboladores nordestinos (passei parte da infância em Caruaru, numa rua ocupada às quartas e sábados pela famosa feira). Na época, não valorizava muito essas manifestações, talvez porque é mais difícil enxergar o que está muito próximo. Eis a causa da “predestinação”. Mas esteticamente toda essa mitologia popular para mim é apenas “matéria-prima” para “reencenações”, como você observou. O Jornalismo sempre foi uma atração paralela à Literatura e virou opção profissional pelas oportunidades surgidas. Quanto a se a Literatura e o Jornalismo falam a língua do povo, a questão é complexa, mas receio que, em termos amplamente majoritários, a resposta seja Não. O Jornalismo escrito dirige-se sobretudo a uma pequena elite, por isso fala uma linguagem própria, que não é a do povo. E a Literatura, produzida quase toda por autores da classe média, tende a girar em torno do umbigo de personagens desse pequeno mundo. Exceção notável é o mineiro Luiz Ruffato, cujos romances, sem abrir mão da inventividade formal, vêm-se constituindo numa verdadeira saga brasileira. Claro que há autores trilhando com competência outras veredas, o que é bom pois em Literatura não pode existir um pensamento único. Mas particularmente acho que o povo brasileiro ainda é um grande personagem anônimo.

Você vai lançar durante a Bienal Internacional do Livro de Pernambuco deste ano o citado romance Roliúde (Editora Record). Uma obra que perpassa na realidade vários gêneros – do romance anedótico, de sátira de costumes, ao teatro picaresco até chegar ao cordel de extração popular – para contar as venturas e desventuras de um João Grilo malandro pelo universo semiótico e midiático do século XX. Um Malazartes dentro da Cultura de Massas. Seu livro, neste sentido, me lembra Umberto Eco. Sua história inclusive parece fundir características importantes de duas das novelas do mestre italiano, Baudolino e A Misteriosa Chama da Princesa Loana. De Baudolino, a figura do Pícaro. De A Misteriosa Chama da Princesa Loana a memória afetiva do século XX reprocessada oniricamente – os quadrinhos, os refrigerantes, o automóvel, o “Star System” do Cinema Americano, a Segunda Guerra Mundial. Estas características estão aglutinadas na figura de um personagem extraordinário, do qual já falamos – o Bibiu – mas que na sua riqueza não deixa de suscitar questões. Este desbaratado herói nascido nas brenhas de Barra do São João, aluminoso decifrador das calungas do cinematógrafo, seria de alguma forma uma resposta ou uma crítica ao universo fechado do Armorial, no sentido em que ele está alegremente aberto para a Modernidade, dando o salto do malandro sobre a Alta Cultura e instaurando o Carnaval da Besta Fubana sem medo ou ojeriza à Cultura Americana ou à Cultura Pop?

E que questões você levanta, Delmo! Digo de saída que prefiro o Umberto Eco ensaísta ao romancista, cuja mão, no ato da escrita, não consegue esconder seus anéis de doutor. Na realidade, ao escrever Roliúde, durante seis anos, em nenhum momento pensei numa “oposição ao universo fechado do Armorial”, como você questiona (e quem sou eu para isso?). Mas sempre tive consciência de que se tratava de uma proposta diferente, miscigenada, trabalhando a cultural oral, popular, em fusão/tensão com a cultura de massa do século XX, cuja mais nítida expressão é o cinema. Aliás, o romanceiro popular nordestino sempre se valeu de elementos de outras culturas, épocas e lugares. As citações a Homero e à Grécia Antiga estão lá, assim como as famosas raízes ibéricas, a entonação árabe, a trova francesa, Branca de Neve, Getúlio Vargas. As reproduções de fotos de artistas de Hollywood ocuparam inicialmente as capas dos folhetos, sendo substituídas, depois, pelas xilogravuras por motivos econômicos (mas o povo parece que preferia os clichês fotográficos). Não sou antiarmorial como não sou seguidor dos ditames do movimento. Sigo, guardadas as proporções, meu próprio caminho, como outros pernambucanos, a exemplo de Ronaldo Correia de Brito, Fernando Monteiro, Gilvan Lemos e mesmo Raimundo Carrero (cujos romances eram inicialmente de clara extração armorial e hoje, creio, não têm correspondência direta e mecânica com o movimento – taí um assunto para críticos e exegetas). Ariano Suassuna projetou, em parte deliberadamente em parte involuntariamente, uma tremenda sombra sobre a Literatura produzida no Nordeste e no Brasil, por sua grandeza. Para muita gente que busca criar seu próprio caminho, essa presença tremenda é sufocante. Como Ariano, além de escritor é ensaísta e pensador da Estética e, mais ainda, um “militante” de suas idéias (daí haver criado um “movimento”), sua postura em defesa do “purismo”, assumidamente radical, gera igualmente reações radicais. Claro que não se pode nem pensar em que toda produção literária e artística nordestina seja “armorial” (e creio que Ariano não defende uma aberração dessas), mas compreendo perfeitamente sua defesa extremada das nossas “raízes” diante do poder avassalador de uma globalização onde, se não tivermos cuidado, continuaremos apenas no papel de ouvintes (pensem na nossa História) do que “eles” têm a falar. Acho que nessa correlação desigual de forças seu papel é importantíssimo, sem querer com isso que a nossa Mitologia seja a única fonte de criação. Creio que a relação deve ser dialética. Mas lembremo-nos: todas as grandes culturas se consolidaram em cima de suas Mitologias. Que o digam Homero, Dante, Shakespeare, Cervantes, Ibsen, Joyce, Whitman, Faulkner, García-Márquez ou, na música, Beethoven, Tchaikovski e Bela Bartok, entre tantos e tantos outros.

Por último, você acha que Roliúde poderá ainda nos reservar uma última surpresa: reinserir-se no mundo maravilhoso do Cinema? Dar a rasteira final, invertendo os signos desta “atividade tradutória”? Como Bibiu se veria “traduzido” da Cultura Oral para a Maquinaria Fílmica? Como ele faria o roteiro de suas aventuras? Que liberdades o Cinema teria de se dar para instaurar na tela o Carnaval da Língua do Povo? Quem você sonharia ver realizando este projeto?

Mais de uma pessoa dos que leram os originais de Roliúde perceberam essa possibilidade. Não escrevi pensando num roteiro de cinema, mas o tema se presta muito bem ao que teóricos mais pernósticos chamariam de “mis-en-abysme”, ou seja, a um jogo de espelhos em que o cinema, traduzido para a Literatura oral, que se apropriou de seus códigos convertendo-os à linguagem do povo, se reapropriaria de sua própria linguagem, vertendo a palavra de Bibiu em imagens em movimento. Confesso que me estimula pensar nessa reconversão. Levar, como você diz, o Carnaval da Língua do Povo para a telona. Quanto a nomes, para dirigi-lo, creio que muitos diretores poderiam dar conta do recado. A questão é não perder o espírito picaresco do personagem.

*Delmo Montenegro é poeta e crítico literário.

(outubro de 2007)

 

 

 

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