Homero
Fonseca, pernambucano de Bezerros, é jornalista e escritor. Atualmente
é diretor editorial da revista Continente Multicultural, do Recife.
Formado em jornalismo pela Universidade Católica
de Pernambuco, foi diretor de redação da Folha de Pernambuco,
editor-chefe do Diario de Pernambuco, repórter das sucursais
de O Estado de S. Paulo e Jornal do Brasil e repórter do Jornal
do Commercio e Diário da Noite, do Recife.
Em 2005, foi coordenador de programação
da V Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, função
que repete atualmente na sexta versão da feira (2007).
Tem publicados os seguintes livros:
Pernambucânia – O Que Há
nos Nomes das Nossas Cidades – Ensaio/ Toponímia
– Recife, Cepe – Companhia Editora de Pernambuco, 2006/2007;
Pequeno Teatro da Vida – Crônicas
– Recife, Editora Comunigraf, 2002;
A Arte de Viver Teimosamente –
Perfil biográfico do jornalista Mário Melo, Recife, Edição
da Assembléia Legislativa de Pernambuco, 2001;
A Vida É Fêmea –
Contos – Recife, Editora Comunigraf, 2000;
Viagem ao Planeta dos Boatos – Reportagem – Rio, Editora
Record, 1996
Roliúde
lançamento dia 11 outubro, pela Editora Record, na VI BIenal
do Livro de Pernambuco.
(Fonte: interblogs.com.br/homerofonseca)
Delmo
Montenegro: Você
provocou uma pequena revolução na história da Bienal
Internacional do Livro de Pernambuco, quando em 2005, ousou apostar
na vinda de diversos nomes da novíssima literatura brasileira
(Frederico Barbosa, Marcelino Freire, Clarah Averbuck, Marcelo Mirisola,
Cristóvão Tezza, Luiz Rufatto, Fabrício Carpinejar,
Jussara Salazar, entre outros) em vez de seguir a fórmula tradicional
dos nomes já consagrados – dos grandes jornalistas, dos
fáceis best-sellers, dos notórios acadêmicos. Resultado:
a Bienal Internacional do Livro de Pernambuco com o melhor resultado
de público e de inserção gratuita (e positiva)
na mídia dos últimos anos (senão a melhor de todos
os tempos). Como você espera trabalhar este ano? Vejo um número
menor de participantes da nova safra – destacaria figuras como
Santiago Nazarian, Paulo César de Araújo e Cíntia
Moscovich (poucos, mas que, com certeza, irão render boas mesas
e ótimas matérias para os jornais) – como também
sinto a falta dos poetas (tanto dos novos como dos mais velhos). Onde
estão os poetas, Homero?
Homero Fonseca: Acredito
que a revolução este ano será ainda maior, pois
vai além dos nomes e envolve o próprio conceito. A temática
geral será Literatura e suas interfaces e isso abre um leque
praticamente infinito de abordagens. Tanto que, inovadoramente, teremos
oficinas gastronômicas no O Pátio Café Literário
e palestras vinculando receitas a autores. A interface com o cinema
também será grande, havendo um espaço – Cine
Letras – somente para exibição de filmes de alguma
forma relacionados à Literatura ou mais genericamente à
Cultura. Quanto a nomes, além dos que você citou, podemos
acrescentar: Ariadne Schirac, da Alemanha, que provocou uma comoção
nas hostes germânicas com seu ensaio “A Dança do
Prazer”; Maria João Cantinho e Jorge Reis-Sá, novíssimos
nomes das letras portuguesas, ambos também poetas; o poeta moçambicano
Luiz Carlos Patraquim; Márcia Denser, sempre tão provocadora;
Ferréz, falando em nome das periferias brasileiras; o pessoal
dos folhetos de cordel. Sem falar nos acadêmicos, tanto da ABL
como da APL, e as homenagens a Clarice Lispector, Hermilo Borba Filho
e Ariano Suassuna. Num evento da natureza de uma Bienal, os vários
públicos devem ser contemplados e não apenas a vanguarda,
unindo as características de feira de livros e de espaço
de reflexão sobre a vida e a Literatura.
Todo veículo
de cultura – seja a Continente Multicultural, seja qualquer
outra publicação do gênero, como o Correio das
Artes, o Rascunho, o Suplemento Literário Minas
Gerais ou o Pernambuco – sofre, de certa forma,
com a tarefa de conciliar o local e o universal. Numa região
tão escassa de experiências bem sucedidas e duradouras
na divulgação da cultura, a Continente Multicultural
ocupa merecidamente um papel-chave e exerce uma função
estratégica crucial na inserção de dados novos
na nossa corrente sangüínea. Mas como lidar com essa cobrança?
Como escapar do risco de uma politização, de uma ideologização
da revista – uma vez que ele subsiste basicamente a partir de
recursos públicos? Como a Continente Multicultural lida
com o impasse entre apostar no local ou estar em sintonia com a pauta
dos grandes centros? Precisamos seguir a lista dos melhores da Bravo!,
da Cult, da Entrelivros, do Caderno Mais!
e do Globo ou podemos ser ousados e dar a capa da Continente
para um escritor, um músico, um diretor de teatro ou um artista
plástico novo – e dizer: ESTA É A NOSSA APOSTA?
Afinal, Homero, quais são as suas apostas como Editor?
Como você percebeu com argúcia,
a história da Continente é a busca desse equilíbrio
precário entre o local e o universal e isso renderia panos para
lonas de circo. Há uns dois ou três anos, Spok era conhecido
numa reduzidíssima roda de músicos, embora estivesse processando
a maior revolução já registrada na forma de tocar
o frevo. E demos capa com ele. Agora estamos ousando mais, observe,
nos números recentes, que capas e matérias de destaque
foram ocupadas por gente como Hermila Guedes, Mestre Salustiano, Marcelo
Gomes, José Cláudio, Mimo, Coquetel Molotov, xilogravura
– tudo convivendo com Bergman e Antonioni, Gringo Cardia, Cristóvão
Tezza, Keats, Machado e os Beatles. Estamos cada vez mais apostando
na nossa vila sem deixar de estarmos antenados com as galáxias
mil de que é feito o universo dos interesses humanos. Em resumo,
aposto no local inserido no mundo e no mundo como nós percebemos
de nossa esquina.
Você
publicou no ano passado, pela CEPE (Companhia Editora de Pernambuco)
uma obra deliciosa e instigante: Pernambucânia – O que
há nos nomes das nossas cidades, o primeiro registro específico
sobre a Toponímia dos municípios pernambucanos desde o
tratado de Mário Melo – Toponymia Pernambucana
– originalmente lançado em 1931. Porém muito mais
que o registro histórico oficial que seu livro traz, o que nos
impressiona e diverte é o registro das tradições
“paralelas”, do canto sem-nome, polêmico e derrisor
da boca do povo. Dos Malazartes que reinventam não só
a língua, mas reinventam a história que lhes é
sonegada. A identidade, o mito de origem, as causas primeiras do seu
ser e estar no mundo. Você parte da ignorância institucionalizada
que temos sobre o significado e a origem dos nomes de nossos municípios
para produzir uma grande Crítica de Cultura. Você é
uma espécie de Lévi-Strauss macunaímico. Do alto
dos saberes de sua desantropologia, eu te pergunto: O que faz Pernambuco
cavar um fosso tão grande no reconhecimento de sua própria
Identidade? Até quando continuaremos a caminhar como os cegos
da pintura de Brueghel?
Oscilamos entre a cegueira criativa
de Homero e os cegos de Brueghel, sem saber o rumo certo. Se o brasileiro
é ciclotímico, variando do “complexo de vira-latas”
apontado por Nelson Rodrigues ao “com brasileiro ninguém
pode” dos tempos ufânicos de Copa do Mundo, nós pernambucanos
somos ainda mais. Aqui, Hamlet se perguntaria: Ser Cavalcanti ou Ser
Cavalgado (parafraseando a feliz e incisiva proclamação
de Jerônimo Vilela)? Penso que a escandalosa desigualdade social
que constituiu nosso pathos – lavrado a suor e sangue
nas extensões latifundiárias dos nossos monocanaviais
– faz-nos uma gente desconfiada, violentamente crítica
e acidamente autocrítica, altiva e invejosa, generosa e cruel
ao mesmo tempo. Parece que nos olhamos no espelho e não gostamos
da nossa identidade revelada. Vemos com justificada desconfiança
qualquer coisa que cheire a tradição, sem distinguir a
percepção reacionária que cristaliza e engessa
a tradição, de uma visão descomplexada da tradição
como matriz de nossa cultura, em cima da qual criamos, recriamos e dialogamos
com novos tempos e outros espaços. Afinal, sem memória
seríamos todos portadores do Mal de Alzheimer. O danado é
que a linha que separa essas duas visões é bastante tênue,
é mais fácil separá-las retoricamente que na prática.
Outro dia, num barzinho, ouvi um jovem letrado, certamente saturado
das loas acríticas a tudo que se rotule “cultura popular”,
referir-se pejorativamente a qualquer manifestação do
povo como “bumba-meu-ovo”! Ora, se nem tudo que o povo faz
presta, definitivamente é preconceituoso e colonialista achar
que tudo que o povo faz “não” presta!
Sua estréia
em ficção ocorreu em 2000, quando você publicou
A Vida É Fêmea – uma reunião de 15
contos e apenas um único tema: as mulheres. Nestes contos você
adota uma perspectiva, uma voz feminina, porém, muito mais do
que um exercício de estilo, o que salta aos olhos não
é a identidade feminina que traveste a narrativa, mas sim o fosso,
a fronteira aguda que perpassa a vida de suas personagens. Como andarilhos
numa comédia pequeno-burguesa que tivessem que atravessar o seu
deserto de Mojave interior, os personagens de A Vida É Fêmea
se movem, como a destroçar uma cerca eletrificada de desejos
que afinal não podem ser mais contidos. A vida arrebenta cercas,
convenções, filas de segurança, salas de escritório.
Todos os controles sociais. Todas as sexualidades pré-definidas.
Mas porque assumir a alteridade de um outro feminino para exemplificar
isso – a Zona de Fronteira? Porque este ato de travestismo? Madame
Bovary c’est Homero? O que te seduz no discurso feminino? O que
te toca na obra de garotas más, muito más, como Andrea
Del Fuego, Ivana Arruda Leite, Maria Esther Maciel, Adriana Lunardi,
Cíntia Moscovich, Cecília Gianetti, Marília Arnaud,
Clarah Averbuck, entre outras, estas terríveis sibilas agridoces
que estão mudando a cara da nova Literatura Brasileira. O que
te encanta e te apavora no canto destas sereias, Homero?
Na realidade, A Vida É
Fêmea, todo narrado na segunda pessoa (voz narrativa bastante
rara, lembro Áurea, de Fuentes, e mais uns poucos),
tem uma perspectiva mais de voyeurismo do que de travestismo.
Mesmo Madame Bovary, apesar da boutade de Flaubert,
não se realiza como travestismo pois, no fundo no fundo, a crueldade
com que o destino pune Emma Bovary é uma pista de uma posição
moralista e machista do grande escritor que, como qualquer outro, exceto
os marcianos, não é infenso ao espírito do seu
tempo, embora possa (e deva) vê-lo criticamente. Em A Vida
É Fêmea adotei exatamente a segunda pessoa narrativa
em vez da primeira, por não me considerar suficientemente competente
para interpretar “de dentro” o universo mental e comportamental
da mulher, muito mais vasto do que o masculino. Quanto ao discurso transgressor
feminino, me encanta profundamente e me assusta também, justamente
por revelar esse universo estranho e belo, feito de sonho e pragmatismo
que nós não alcançamos em sua totalidade. Por isso
acredito numa “escrita feminina” (como defende Luzilá
Gonçalves, ao contrário de Cíntia Moscovich). Afino
com o mineiro da anedota que, diante da afirmação peremptória
do gaúcho de que “lá na minha terra todo mundo é
macho”, contrapôs que, “pois na minha, uai, é
metade fêmea e metade macho e é bom danado!”. Como
Ulisses, ouso ouvir o canto das sereias, mas amarrado em meu mastro,
por precaução.
Desde seu
primeiro livro, Viagem ao Planeta dos Boatos (publicado pela
Record em 1996), um ensaio sobre casos de pânico coletivo causado
por boatos alarmantes, passando pelo Pernambucânia e
agora pelo inédito Roliúde – Um Romance
Picaresco, Aventuroso e Cinematográfico, você parece
determinado a ter como matéria-prima a Cultura Oral. De onde
vem o fascínio por este rio caudaloso de informações
e contra-informações do povo? Pelo mágico e pelo
maravilhoso? Homero, você parece predestinado a reencenar –
a partir do seu próprio nome – o encantamento pelo Mito,
o nascimento da Fábula. Que elementos você encontra na
tua história pessoal que tenham alimentado esta predestinação?
Fale também um pouco sobre como se dá essa relação
entre o mundo da Voz, dos Causos e dos Boatos com o universo jornalístico.
Porque você escolheu esta profissão? Homero, com seu ouvido
de aedo, você sente que o Jornalismo e a Literatura Brasileira
falam a língua do povo? Conseguem realizar a “operação
tradutora” tão bem como seu o Bibiu, “tradutor de
filmes”, este safado e rasgado Bibiu, que um dia acorda como o
poeta Severino Ramos Soares da Silva, e num outro reaparece como o esotérico
e mágico Doutor Professor Biukowski, o científico embusteiro,
o personagem multinomes, um alegre e redivivo Odisseu, campeão
de trapaças, anedotas e artimanhas?
Camarada Delmo, cada pergunta
dessas valeria um tratado (a ser escrito, claro, por gente mais estudiosa).
Mas vamos lá: dou imenso valor à Cultura Oral (mas obviamente
não apenas a ela) porque nasci imerso nesse mundo, dos cantadores,
folheteiros e emboladores nordestinos (passei parte da infância
em Caruaru, numa rua ocupada às quartas e sábados pela
famosa feira). Na época, não valorizava muito essas manifestações,
talvez porque é mais difícil enxergar o que está
muito próximo. Eis a causa da “predestinação”.
Mas esteticamente toda essa mitologia popular para mim é apenas
“matéria-prima” para “reencenações”,
como você observou. O Jornalismo sempre foi uma atração
paralela à Literatura e virou opção profissional
pelas oportunidades surgidas. Quanto a se a Literatura e o Jornalismo
falam a língua do povo, a questão é complexa, mas
receio que, em termos amplamente majoritários, a resposta seja
Não. O Jornalismo escrito dirige-se sobretudo a uma pequena elite,
por isso fala uma linguagem própria, que não é
a do povo. E a Literatura, produzida quase toda por autores da classe
média, tende a girar em torno do umbigo de personagens desse
pequeno mundo. Exceção notável é o mineiro
Luiz Ruffato, cujos romances, sem abrir mão da inventividade
formal, vêm-se constituindo numa verdadeira saga brasileira. Claro
que há autores trilhando com competência outras veredas,
o que é bom pois em Literatura não pode existir um pensamento
único. Mas particularmente acho que o povo brasileiro ainda é
um grande personagem anônimo.
Você
vai lançar durante a Bienal Internacional do Livro de Pernambuco
deste ano o citado romance Roliúde (Editora Record).
Uma obra que perpassa na realidade vários gêneros –
do romance anedótico, de sátira de costumes, ao teatro
picaresco até chegar ao cordel de extração popular
– para contar as venturas e desventuras de um João Grilo
malandro pelo universo semiótico e midiático do século
XX. Um Malazartes dentro da Cultura de Massas. Seu livro, neste sentido,
me lembra Umberto Eco. Sua história inclusive parece fundir características
importantes de duas das novelas do mestre italiano, Baudolino
e A Misteriosa Chama da Princesa Loana. De Baudolino,
a figura do Pícaro. De A Misteriosa Chama da Princesa Loana
a memória afetiva do século XX reprocessada oniricamente
– os quadrinhos, os refrigerantes, o automóvel, o “Star
System” do Cinema Americano, a Segunda Guerra Mundial. Estas características
estão aglutinadas na figura de um personagem extraordinário,
do qual já falamos – o Bibiu – mas que na sua riqueza
não deixa de suscitar questões. Este desbaratado herói
nascido nas brenhas de Barra do São João, aluminoso decifrador
das calungas do cinematógrafo, seria de alguma forma uma resposta
ou uma crítica ao universo fechado do Armorial, no sentido em
que ele está alegremente aberto para a Modernidade, dando o salto
do malandro sobre a Alta Cultura e instaurando o Carnaval da Besta Fubana
sem medo ou ojeriza à Cultura Americana ou à Cultura Pop?
E que questões você
levanta, Delmo! Digo de saída que prefiro o Umberto Eco ensaísta
ao romancista, cuja mão, no ato da escrita, não consegue
esconder seus anéis de doutor. Na realidade, ao escrever Roliúde,
durante seis anos, em nenhum momento pensei numa “oposição
ao universo fechado do Armorial”, como você questiona (e
quem sou eu para isso?). Mas sempre tive consciência de que se
tratava de uma proposta diferente, miscigenada, trabalhando a cultural
oral, popular, em fusão/tensão com a cultura de massa
do século XX, cuja mais nítida expressão é
o cinema. Aliás, o romanceiro popular nordestino sempre se valeu
de elementos de outras culturas, épocas e lugares. As citações
a Homero e à Grécia Antiga estão lá, assim
como as famosas raízes ibéricas, a entonação
árabe, a trova francesa, Branca de Neve, Getúlio Vargas.
As reproduções de fotos de artistas de Hollywood ocuparam
inicialmente as capas dos folhetos, sendo substituídas, depois,
pelas xilogravuras por motivos econômicos (mas o povo parece que
preferia os clichês fotográficos). Não sou antiarmorial
como não sou seguidor dos ditames do movimento. Sigo, guardadas
as proporções, meu próprio caminho, como outros
pernambucanos, a exemplo de Ronaldo Correia de Brito, Fernando Monteiro,
Gilvan Lemos e mesmo Raimundo Carrero (cujos romances eram inicialmente
de clara extração armorial e hoje, creio, não têm
correspondência direta e mecânica com o movimento –
taí um assunto para críticos e exegetas). Ariano Suassuna
projetou, em parte deliberadamente em parte involuntariamente, uma tremenda
sombra sobre a Literatura produzida no Nordeste e no Brasil, por sua
grandeza. Para muita gente que busca criar seu próprio caminho,
essa presença tremenda é sufocante. Como Ariano, além
de escritor é ensaísta e pensador da Estética e,
mais ainda, um “militante” de suas idéias (daí
haver criado um “movimento”), sua postura em defesa do “purismo”,
assumidamente radical, gera igualmente reações radicais.
Claro que não se pode nem pensar em que toda produção
literária e artística nordestina seja “armorial”
(e creio que Ariano não defende uma aberração dessas),
mas compreendo perfeitamente sua defesa extremada das nossas “raízes”
diante do poder avassalador de uma globalização onde,
se não tivermos cuidado, continuaremos apenas no papel de ouvintes
(pensem na nossa História) do que “eles” têm
a falar. Acho que nessa correlação desigual de forças
seu papel é importantíssimo, sem querer com isso que a
nossa Mitologia seja a única fonte de criação.
Creio que a relação deve ser dialética. Mas lembremo-nos:
todas as grandes culturas se consolidaram em cima de suas Mitologias.
Que o digam Homero, Dante, Shakespeare, Cervantes, Ibsen, Joyce, Whitman,
Faulkner, García-Márquez ou, na música, Beethoven,
Tchaikovski e Bela Bartok, entre tantos e tantos outros.
Por último,
você acha que Roliúde poderá ainda nos
reservar uma última surpresa: reinserir-se no mundo maravilhoso
do Cinema? Dar a rasteira final, invertendo os signos desta “atividade
tradutória”? Como Bibiu se veria “traduzido”
da Cultura Oral para a Maquinaria Fílmica? Como ele faria o roteiro
de suas aventuras? Que liberdades o Cinema teria de se dar para instaurar
na tela o Carnaval da Língua do Povo? Quem você sonharia
ver realizando este projeto?
Mais de uma pessoa dos que leram
os originais de Roliúde perceberam essa possibilidade.
Não escrevi pensando num roteiro de cinema, mas o tema se presta
muito bem ao que teóricos mais pernósticos chamariam de
“mis-en-abysme”, ou seja, a um jogo de espelhos em que o
cinema, traduzido para a Literatura oral, que se apropriou de seus códigos
convertendo-os à linguagem do povo, se reapropriaria de sua própria
linguagem, vertendo a palavra de Bibiu em imagens em movimento. Confesso
que me estimula pensar nessa reconversão. Levar, como você
diz, o Carnaval da Língua do Povo para a telona. Quanto a nomes,
para dirigi-lo, creio que muitos diretores poderiam dar conta do recado.
A questão é não perder o espírito picaresco
do personagem.
*Delmo Montenegro
é poeta e crítico literário.
(outubro de
2007)