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No mês de novembro de 2006 a INTERPOÉTICA publicou a entrevista da Professora, Ensaísta e Editora, Heloisa Arcoverde, que também exerce o cargo de Diretoria da Gerência de Literatura da Prefeitura do Recife e que foi entrevistada por Mário Hélio, Poeta, Crítico de Arte, Editor, atualmente na Direção da Editora Massangano da Fundação Joaquim Nabuco. Leiam e aproveitem as lições deste dois que ousam persistir na dura tarefa de pensar, escrever e editar literatura. (os editores)

de editor a editor
Mário Hélio a Heloísa Arcoverde

Mário Hélio: nosso querido umberto eco fala num dos seus livros dos "direitos" do autor e do leitor. estes, como sabemos, nem sempre coincidem, ou seja, o escrito e o interpretado às vezes vão por caminhos os mais diversos. no caso do editor e do autor, os pontos de tensão podem ser ainda mais evidentes. você que é editora, mas também, autora, como concilia esses dois "seres" em si? quem é o médico? quem é o monstro?


Heloísa Arcoverde: Na era de sites ,blogs, Internet, cada vez mais acredito menos na propriedade privada. Parido, o texto é do mundo, de quem o lê. O leitor, o texto e suas múltiplas possibilidades de leitura. O autor fica à deriva - criador que vira criatura. Vou pelos caminhos de Iauss e sua estética da recepção: “o que eu (leitor) digo ao texto, e o que o texto me diz”. Face ao seu objeto de desejo, o leitor/intérprete não está só. Traz a experiência de suas leituras anteriores, de um lado, e a história do texto, de outro. Não existe marco zero para a leitura de D. Casmurro, de Machado, por exemplo, o texto vem carregado de significâncias. Aí, sim, um galo sozinho não tece uma manhã, a leitura precisará de outras leituras. Um texto gerando outro.

De médico e de monstro têm um pouco o editor e o autor. Aliás, a tensão editor/autor vem de uma disputa mais pragmática, menos literária em que o direito de comercialização quase sempre é confundido com direitos autorais. De uma maneira geral, o bônus tende ao editor e o ônus ao autor. As leis do mercado imperam. Otimista, ainda acredito na superação da diferença. Um bom autor faz o mercado. Bons editores encontram alternativas para lançar os novos. Cooperativas, livro rápido, pequenas tiragens, favorecem a criatividade e todos saem ganhando pois até a qualidade literária é possível. E tem mais! Abaixo o editor! A fama rápida, a circulação sem limites, as autorias muito, pouco ou nada conhecidas, apropriadas de ou imputadas a, chegaram pra valer. Quem navegar na rede verá.

você como editora adotou o corajoso desafio de priorizar a literatura - e de modo especial a poesia - no seu catálogo. como enfrenta e resolve a demanda? numa terra de tantos poetas como consegue dizer "não"?

Começando pelo “sim”! Primeiro, estabelecendo um programa editorial criterioso, levando em consideração os recursos disponíveis. Segundo, entregando ao público edições corretas, bem cuidadas,competitivas. A opção por obras coletivas e concursos literários torna-se mais abrangente e atende, em parte, à demanda. As coletâneas de poesia vêm mapeando as várias dicções poéticas da cidade, com uma centena de poetas editados e o concurso Osman Lins de Contos renova o gênero, com as inscrições abertas a autores brasileiros contemporâneos. Evita-se com isto o chauvinismo regional e ganha-se em qualidade e novidade. Das versões 2005/2006 – com mais de 1100 inscrições, saíram duas primorosas coletâneas com 10 excelentes contos cada, vindos de todo o Brasil. Com transparência, fica mais fácil dizer não.

poetas malditos, marginais e vários outros rótulos similares: de que modo o poeta é e não é maldito, é e não é marginal na sociedade atual?

Segundo Jomard, seria eu a “musa” dos marginais. Aliás, adoro eles. Entre eles, muitos são bons poetas. È preciso, no entanto, estabelecer uma diferença conceitual. Os soi-disant marginais são sempre confundidos com os poetas que chegam da periferia para o centro, com uma postura mais solta, mais performática. São excelentes declamadores e curtem o lado boêmio. Encontramos nesta poesia um forte teor urbano, de quem conhece a cidade em suas mil facetas, com textos críticos, e outros que apelam para a irreverência . Mas não podemos reduzir a isto. Ao lado desta poesia circunstancial, reflexo do quotidiano dos “poetas mendigando passe e sua poesia, aliás nem passa” (vide Miró), há muita coisa bem construída, portadora de valores eternos que eternizam a poesia. Quanto aos poetas maudits – a essência de uma marginalidade que vem de dentro, do âmago do ser, versos de doer na alma e arrepiar o corpo, ainda fico com Lautréamont.

joao alexandre barbosa, jorge wanderley e sebastiao uchoa leite: três dos melhores críticos (e no caso destes últimos também poetas) morreram há pouco tempo, mas mesmo antes, eram pouco lembrados e festejados em pernambuco, terra de onde surgiram para a literatura e de onde saíram e ganharam o reconhecimento nacional. qual o dito mais certo: ninguém é profeta em sua terra ou casa de ferreiro espeto de pau?

Acho que por ser paraibana, não gosto da teoria dos “caranguejos”, em relação aos pernambucanos. O exílio destes e de muitos intelectuais do Recife teve o cruel lado político da época da ditadura. Constavam de listas negras e, por sobrevivência, migraram para o Sul, como foi o caso de João Alexandre e Sebastião Uchoa Leite. Como eram muito bons, ocuparam ali o merecido espaço na literatura nacional. Outros, por opção pessoal, se auto-exilaram e mudaram de lugar mas levaram com eles as raízes pernambucanas.

Acredito que é mais uma questão metonímica, o todo pela parte, o poeta municipal de Drummond passa a ser o poeta nacional. É a tal história, o que é bom é universal. A obra valendo mais que a certidão de nascimento. Uma provocação. Honrarias e medalhas não são mais propícias aos medíocres?

que futuro vê para a poesia na sociedade cada vez mais informatizada e mediatizada?

O melhor possível. Sou otimista, e contemporânea de mim mesma . A poesia é essencial à vida. Dores de amores, por exemplo, vamos sempre chorar com Camões, Shakespeare, Vinícius e seus herdeiros. O que muda é o suporte. Pra melhor. Informatizada, o céu é o limite para a poesia. Quanto à qualidade do texto literário, seja no papel ou virtual, o leitor é que irá estabelecer as suas afinidades eletivas; quanto aos críticos,ocuparão sempre o seu papel, aliás, seu computador.

(novembro de 2006)

 

 

 

 

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