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“A história do homem é a luta para não subsumir-se à solidão. Nascemos sós, vivemos acompanhados porque este é o modo de inventarmo-nos, de darmos a nós uma existência; mas morremos só, visto que no morrer ninguém me acompanha”

Fátima Costa

 

Entrevista

Por Geórgia Alves*

Com um estudo de doutorado em Literatura, intitulado “Da solidão e da condição: por uma antropologia da solidão, uma abordagem a partir de Clarice Lispector”, a professora de filosofia Fátima Costa, e agora doutora em Teoria da Literatura, explica como, na obra de Clarice Lispector, “se apresenta o tema da solidão”. Fátima Costa parte da tese de que Clarice Lispector compreende a solidão como uma dimensão “fundante” da condição humana”, uma dimensão tão inteiramente humana como a linguagem e a finitude.

Fátima Costa, por outro lado, nos faz ver que a escrita de Clarice, por mais que seja essencialmente marcada pela temática da solidão, não implica necessariamente que a escritora tenha vivido em estado de isolamento ou coisa parecida, o que muitas vezes é deduzido a partir da leitura de sua obra. Solidão sim, a da criação, tão necessária ao artista quanto o próprio ar que respira, mas Clarice foi uma mulher permeada pelos outros, chega mesmo a afirmar: ‘meu destino é o outro’, são ‘os outros’. Clarice tinha uma larga capacidade de formar vínculos duradouros, o que é uma marca decisiva da maturação emocional de uma pessoa, mas como a escritora mesmo afirma, ‘o adulto é triste e solitário’, e que mesmo pertencendo a um núcleo significativo de relações, sente-se tocado pela gravidade da existência que é finitude e solidão. Clarice interagia com outros escritores, escrevia cartas, muitas já publicadas, e essencialmente comunicava-se como o leitor. Isso, no entanto não diminui o peso radical da existência humana, daí a conclusão fácil e rápida de que Clarice era triste, taciturna, depressiva, e outras coisas do gênero.

Para a escritura da tese, Fátima pesquisou o tema da solidão em toda a obra da escritora, mas tomou como referência principal os livros: A maçã no escuro, A Paixão Segundo G.H., Água Viva e Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres. Além disso, estabeleceu pontes com outras linhas do conhecimento como por exemplo, a filosofia mostrando as proximidades entre a compreensão que o filósofo alemão Martin Heidegger tem da finitude, da solidão, da temporalidade, da morte, da condição humana, em consonância com o olhar clariceano de homem. Por outro lado, também provocou a reflexão a partir de Françoise Dolto, Melanie Klein e especialmente Donald Winnicott, autor que se debruça incisivamente sobre a capacidade de estar só. Teceu também intersecções entre a obra da escritora e o trabalho do poeta e ensaísta mexicano Octávio Paz, que afirma em O labirinto da solidão e post scriptum, que“... todos os homens, em algum momento da vida, sentem-se sozinhos; e mais: todos os homens estão sós. Viver é nos separarmos do que fomos para nos adentrarmos no que vamos ser, futuro sempre estranho”.

Sobre o conceito de solidão de Heidegger destaca:

“... o que poderia ser mais próximo de nós do que aquilo que nos aproxima daquilo a que pertencemos, aquilo em que somos dóceis participantes? Neste sentido, o que poderia ser mais próximo de nós que o Ser e a respiração, o Tempo e a solidão?” De onde a pesquisadora conclui: “Solidão quer dizer que todo homem é só: nasce só e morre só. No intervalo entre os dois acontecimentos definitivos dá-se o homem, suspenso, desenrolando o drama de sua existência. Em Clarice Lispector tal consciência é aguda, atenta, acordada sem descanso. G.H., personagem de A Paixão Segundo G.H., no auge de sua escavação arqueológica que resulta na consciência aguda de estar viva, de sua pertença a uma origem mítica, temporal e solitária”.

Com uma delicadeza e profundidade de compreensão da obra de Clarice Lispector, a professora concedeu a entrevista em que trilha os caminhos do encontro com a autora e seus conceitos.

Geórgia Alves: Como começou a pesquisar Clarice Lispector?

Fátima Costa: Comecei a ler a obra de Clarice Lispector ainda no segundo grau (fragmentos); em seguida, na graduação em filosofia, inicio da década de 90, me encantei com o trabalho da escritora já no primeiro período, inclusive com a monografia de conclusão do curso tratando da Quotidianidade: um saber amargo, analisando a rotina, o quotidiano e o crescente empobrecimento do homem nas relações reificantes. Fiz então mestrado em Filosofia com um trabalho sobre a linguagem em Martin Heidegger. Nesse período aprofundei ainda mais os estudos sobre Clarice porque a compreensão do filósofo sobre a linguagem tem a mesma linha do olhar clericeano, ou seja, que o homem é linguagem, não a tem como um instrumento a serviço do pensar, mas que o próprio pensar é já linguagem. Os personagens de Clarice vivem sempre no limite do inominável, o drama maior é o de não esgotar o próprio ser pela linguagem, daí a busca sempre reiterada do originário, do irredutível. Já para Heidegger, a linguagem configura o aberto a partir de onde se dão todas as aberturas, todos os sentido regionais, a partir de um sentido originário que é a possibilidade de toda e qualquer manifestação. Por isso, olhar a linguagem apenas como exteriorização da razão e do sentido, ou mesmo como expressão de sons e sentimentos, é o caminho que trilhou nosso pensar, o que fez com que este se dissipasse do seu elemento que é o próprio ser. Este ser que ao mesmo tempo é questão-questionante-questionado, e Clarice sabe tão fortemente isso que irá nos dizer: “enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas continuareis a escrever”, pois o homem se dá como pergunta sem resposta suficiente, e Clarice magistralmente ainda nos diz “pois sei que cada dia é um dia roubado da morte” enlaçando assim Ser, linguagem, finitude.

Sobre a condição humana, qual a visão de Clarice?

Clarice compreende condição humana como finitude, linguagem, solidão e amor. Ninguém melhor que a própria Clarice, em condição humana, crônica de 1969, “Minha condição é muito pequena. Sinto-me constrangida. A ponto de que seria inútil ter mais liberdade: minha condição pequena não me deixaria fazer uso da liberdade. Enquanto que a condição do universo é tão grande que não se chama de condição. O meu descompasso com o mundo chega a ser cômico de tão grande. Não consigo acertar o passo com ele. Já tentei me pôr a par do mundo, e fico apenas engraçado: uma de minhas pernas sempre curta demais. O paradoxo é que minha condição de manca é também alegre porque faz parte dessa condição. Mas se me torno séria e quero andar certo com o mundo, então me estraçalho e me espanto. Mesmo então, de repente, rio de um riso amargo que só não é mau porque é de minha condição. A condição não se cura, mas o medo à condição é curável.”

Qual é a intersecção entre as visões de Heidegger e Clarice?

Clarice no diz em Declaração de amor, crônica de 1969 que escreve “...tirando das coisas a primeira capa de superficialismo”, e também que “(...) Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida”, por isso seu trabalho é sempre busca. Nos diz ainda em Mistério, crônica do mesmo ano: “Quando comecei a escrever, que desejava eu atingir? Queria escrever alguma coisa que fosse tranqüila e sem modas, alguma coisa como a lembrança de um alto monumento que parece mais alto porque é lembrança. Mas queria, de passagem, ter realmente tocado no monumento. Sinceramente não sei o que simboliza a palavra monumento. E terminei escrevendo coisas inteiramente diferentes.” Com tal procedimento Clarice dará corpo à teoria de que o ser é não é captável pelo conceito. Isto é pois o que procura o homem em Clarice. Encontrar o homem no homem, o singular no universal como nos diz em A paixão segundo G.H.: “quero de mim mesma encontrar em mim a mulher de todas as mulheres.”. Clarice arranca uma realidade ofegante com uma imaginação atenta aos mínimos ressoar dos acontecimentos na subjetividade. Em sua ‘fenomenologia da imaginação’ ela nos diz, se aproximando cada vez mais de Heidegger que “(...) é preciso dizer que a realidade, quando se desvenda sem susto, é a coisa mais fresca e real do mundo. É sem nenhum sonho, mesmo realidade imaginária, e quase sem futuro: a cada momento é o momento de agora. E não há medo. Fato extraordinário: nessa realidade desvendada pela imaginação e sem susto a riqueza não está mais atrás de nós, como uma lembrança, ou ainda por aparecer, como um desejo de futuro. Está ali, fremindo. (A sala assombrada, cronica de 1969). O desvelamento da condição humana pelo acontecer da verdade do ser revela um mundo vivo, ofegante, erotizado, sensual, poético. Sendo esse o próprio núcleo do trabalho de Heidegger que vai defender a tese de que a linguagem como experiência fundadora do mundo humano é o lugar onde procura e encontro se dão com maior verticalidade. Para o filósofo especialmente o dizer poético tem um alcance que não cabe a nenhuma forma de produção de saber. Só o dizer poético penetra com agudez na cavidade do ser podendo assim dizê-lo desde essa proximidade.

A questão da solidão que Octávio Paz explica, está em sintonia com a visão da solidão de Clarice?

Sim, Octávio paz é ensaísta e poeta mexicano e escreve um livro maravilhoso que é O labirinto da solidão. Nesse texto, se propõe analisar o homem mexicano e sua solidão devastada e aguçada pelas sucessivas invasões culturais. É na verdade uma antropologia do homem mexicano que no tocante à solidão atinge um caráter de universalidade.

Você faz questão de distinguir: embora não tenha abordado o tema em sua obra, Clarice era movida por enorme interação com outros escritores, com cartas, como espera que obra consolide a idéia desse espírito livre de Clarice de, ao mesmo tempo, buscar explicar a condição mais primitiva do ser?

É difícil estudar Clarice e não se perguntar sobre a intimidade da escritora, visto que é uma obra perpassado por uma dor fina e uma alegra aguda que também nos enlaça, somos seduzidos pelo seu trabalho. No entanto, reduzir a obra de um escritor às suas experiências subjetivas fácticas é retirar desta exatamente o que configura seu núcleo, o imaginário, a capacidade de inventar humanos que cada homem é. A obra é independente e como tal, tem uma autonomia que dispensa a presença do escritor. Depois de publicada está livre para vôos mais altos ou mais rasos. Clarice é um espírito livre, sua obra também, mas o que efetivamente temos é sua obra, porque ela, como tudo que é fugaz no eterno já se foi.

A realidade da arte se determina pelo que opera na obra, pelo seu acontecer enquanto desdobramento da luta entre ocultação e desvelamento. O poeta, ao dizer a palavra essencial, nomeia sempre pela primeira vez a verdade do ser. O que significa dizer que a arte é infinita e inesgotável quanto à possibilidade de significações e de olhares, num jogo contínuo que é também, segundo Heidegger, empenho em mostrar-nos que os desdobramentos do questionar que a arte institui não resolve as ambigüidades e contradições de homem e mundo, mas apenas intensifica cada questão alargando-nos a percepção e a consciência face a elas.

Para Heidegger a razão de ser da existência é poética de origem, é poética em seu fundamento, visto que há na poesia uma vigorosa superioridade do espírito uma vez que o poeta procura sempre o que é o ente como se esse exprimisse e fosse interpelado pela primeira vez. É neste sentido que o pensar de Clarice Lispector é esse acontecer da verdade do ser pelo desvelamento da condição humana que é tempo e solidão, pois ser é isolar-se pelo existir já como tempo. Sou sempre meu ainda não, como nos diz em Água Viva, “E ninguém é eu. Ninguém é você. Esta é a solidão”

Que livros de Clarice você escolheu para trabalhar mais fortemente o tema da solidão e por quê?

A maçã no escuro, A Paixão Segundo G.H., Água Viva e Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres.

Quais serão os próximos temas de trabalho na obra da autora. Se há esse interesse e continuação, e por quê?

Quero aprofundar os temas amor, morte e memória, pois estou convencida de que não apenas Clarice, mas a Literatura gira em torno da tentativa de compreender o amor e a morte, o que se dá pela memória.

Em que aspecto a obra de Clarice Lispector a impressionou mais?

O senso de realidade de profundidade. O critério de entendimento do mundo humano........

Clarice é uma autora que prima pela definição da condição do humano pelo aspecto da liberdade?

Sim, liberdade para ela é cumprir-se a si próprio, com toda intensidade que isso requer. Para Heidegger (...) criar é um livre formar. A liberdade só está onde está na assunção de um fardo. Sempre segundo o seu respectivo modo de ser, na criação, esse fardo jamais deixa de implicar um imperativo e uma necessidade. Junto a esse imperativo e a esta necessidade, o homem sente um peso no ânimo, de modo que recai sobre ele uma pesada exigência”. (Os conceitos fundamentais da metafísica: mundo, finitude e solidão.) Essa pesada exigência, esse assumir um fardo que é a própria existência de mim e do mundo, consiste na liberdade como Clarice nos diz em Água viva: “E quando nasço fico livre. Esta é a base de minha tragédia. Não. Não é fácil. Mas “é”.

Como estão os passos para trilhar conceitos da 'morte' e do 'amor', na obra da autora?

Esse é um projeto que estou estudando. Clarice ao mesmo tempo em que está discutindo a solidão, a linguagem, o amor, está também ininterruptamente tematizando a questão da morte. Compreende o homem como ser-para-a-morte, e que o apropriar-se da vida não passa de se aproximar cada vez mais da morte. O amor é o que sustem o homem como humano.

Na palestra que ofereceu na Livraria Cultura, houve uma “epifania”, vamos chamar assim. Quando explicava a condição da barata, usada como metáfora por Clarice no livro A paixão segundo G.H. disse que no lugar do medo, de verdade, temos tanto de inveja das baratas. Pode retomar essa idéia?

Foi uma brincadeira, mas a barata é um bicho que profundamente invejo, ela estava antes e estará depois de nós. Ela provavelmente viu todos os começos e deve estar tão calejada de ver todos os fins. Clarice trata disso em A Paixão segundo G.H., do nosso horror ancestral das baratas, talvez por isso nós as esmagamos com tanta voracidade, tentando eliminar a prova concreta de uma origem ao mesmo tempo mítica e atual.

Também advertiu sobre um pouco que temos a respeito da solidão, enquanto Estudos. Na sintonia com que encontrou em Heidegger, Octávio Paz, e outros autores como Hannah Harendt, Donald Winnicott, Ortega y Gasset, Gaston Bachelard, Merleau-Ponty, o que a impressionou mais?

Estes são autores que já os estudo há bom tempo, apenas Winnicott ‘descobri’ no doutorado. Partindo da tese de que a solidão, do modo como é dinamizada na obra da escritora, constitui-se como dimensão fundante da condição humana, tive que alçar vôo para outros capôs do saber porque não encontrava na literatura abordagens suficientes para fundamentar e desenvolver tal idéia, daí escolher estes pensadores para dialogar com clarice. O objetivo foi demonstrar a centralidade da questão da solidão no trabalho da escritora. Para a fundamentação teórica, teci um diálogo com a filosofia, especialmente a fenomenologia, o existencialismo e a hermenêutica na linha reflexiva de Martin Heidegger mas tabem dos pensadores acima citados para quem a solidão constitui o núcleo irredutível da condição humana.

Você tem como formação a filosofia. Como diria André Comte-Sponville, em suas Segundas-feiras de Filosofia, “Toda definição da filosofia já acarreta uma filosofia”, entendendo essa necessidade e concluindo apenas que há bom propósito nisso, o fato de ser filósofa ajudou na compreensão do tema? Quero dizer na abordagem, de um ambiente compreendido, às vezes, primeiro como literário? (ainda gostaria que detalhasse sua formação e lugares percorridos, um pequeno histórico).

Não é exatamente uma filósofa que me considero, sou professora de filosofia, sou uma amante da filosofia. O estudo não apenas da filosofia, mas de qualquer área do conhecimento que não se limite apenas a um objeto de estudo, sempre alarga a percepção critica sobre a realidade, e a filosofia em especial porque se há um objeto próprio à filosofia é a capacidade de perguntar. Neste sentido, sabemos que é um tipo de conhecimento que amplia nossa compreensão sobre as outras áreas e sobre os mais diversos temas, em particular, a literatura, visto que esta, pela linha literária-poética, é o homem se colocando como desejo de compreensão de si, dos outros, do mundo e sobretudo daquilo que escapa a si, aquilo que sempre ‘foge’ na banalidade do dia-a-dia. É assim que a filosofia tem me possibilitado interagir com a literatura, por outro lado, esta provoca incessantemente o nosso pensar, ou seja, os romances e novelas e poemas, são ocasiões para a beleza.

 

*GEÓRGIA ALVES é jornalista, especialista em literatura brasileira e colunista da INTERPOÉTICA

(dezembro de 2007)

 

 

 

 

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