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Esta entrevista foi concedia ao poeta Mário Hélio e publicada no Suplemento Cultural do Diário Oficial do Estado de Pernambuco, em junho de 1999 (Ano XIII)  e nos foi entregue para nova publicação pelo poeta César Leal, que nos informou ser um dos momentos  reveladores da  sua trajetória de escritor e crítico literário. A entrevista, quase dez anos depois, continua válida, lúcida e atemporal. Para os que não leram é um deleite e um caminho de surpresas; para os que já leram é um momento de renovação. Avante!

Os editores

 

César Leal
poesia escrita em "alta voltagem intelectual"

                                                                      foto: Sennor Ramos

Dos poetas brasileiros contemporâneos, César Leal é um dos que mais intensamente têm marcado a história de nossa cultura neste final de século. Voltou a editorar a revista Estudos Universitários, integra o Projeto da História da Literatura da América Latina, dirigido por professores da Universidade de Toronto e dos Estados Unidos, foi relator no Conselho Federal de Cultura do Projeto que criou o “Prêmio Luís de Camões”, fundou o Programa de Pós-Graduação e Ciência da Literatura da UFPE, um dos cinco melhores do país, além de muitas outras ações em favor da cultura brasileira. Nada disso o impediu de simultaneamente criar uma obra poética e crítica de considerável valor. Sua poesia possui uma trama concisa que, no dizer de Oswaldino Marques, se caracteriza pelo rigor, pela formação de módulos, de chaves capazes de programar todas as operações da inteligência, em cujo território se repelem e se fundem os planos num supra-espaço não euclidiano, de todo insólito. Ao analisar um de seus livros – O Triunfo das Águas - recentemente traduzido para a língua alemã, Oswaldino Marques, ex-professor de teoria da literatura da Universidade de Brasília e da Universidade de Wisconsin (USA), diz que é empolgante os recursos exibidos pelo poeta. César Leal – diz Oswaldino Marques - gerou todo um universo de imagens siderais, com esportividade e audácia, com suas “colagens” multiplicadoras dos planos significativos das “estrofes paralelas”, fazendo o fluir poético desaguar em leque sobre múltiplos horizontes. Assinala que a poesia de César Leal constitui uma “engenharia” que autoriza sua inserção entre o que de mais representativo vem se operando no “fazer literário moderno”. Coloca o poeta lado a lado aos Mallarmé, aos Pound, aos Eliot, Lorca e Montale. O crítico Wilson Martins diz que sua “poesia deve ser tomada como um sistema cosmogônico, como a galáxia da vida intelectual e do mundo, com seus animais e pedras preciosas, águas e revoluções cósmicas, astros e pessoas, heróis e multidões anônimas, mas também como uma cosmogonia literária que, de Dante a T.S.Eliot, passando por Sahakespeare e Joaquim Cardozo, acrescentou ao primeiro capítulo do Gênesis as palavras e seus jogos e possibilidades espirituais, aquilo que o primeiro capítulo do Gênesis havia esquecido”... Acrescenta que “entre os brasileiros ele combina os emocionais com os cerebrais: Jorge de Lima e Manuel Bandeira, Carlos Drummond e Murilo Mendes, João Cabral de Basílio da Gama” (...) Sua dificuldade em relação ao leitor – diz – é sua poesia ser escrita em “alta voltagem intelectual”.

Assim, viam sua poesia os críticos, à medida em que ele ia lançando-a em livros, publicados nas décadas de 50 para cá. Agora, em Tempo e Vida na Terra, o crítico Eduardo Portella, presidente da Conferência Internacional da UNESCO, diz que esse novo livro revela uma obra: uma obra que se acrescentou à literatura brasileira. “Antes lia os seus poemas. Mas o que leio agora é uma obra: a obra que ele criou”. Eduardo Portella que sempre utiliza um vocabulário conciso, ao escrever sobre a poesia de César Leal, diz: “Ao registro classicizante não falta a raiz. Ao discurso culto não faltam pés na terra. Do mesmo modo a construção elaborada jamais esquece a cotidianidade. A poesia e o ensaio de César Leal sabem operar esse equilíbrio nervoso, ao qual se une a severidade do olhar crítico. Por isso, o trabalho de César Leal, o trabalho encantado da linguagem, é das construções mais convincentes da nossa literatura contemporânea”. Ronald Rassner, da Universidade de Wisconsin, afirma que César Leal remove e nega o tempo, o que corresponde ao suppremer de temps de que fala Levi-Strauss, para fazê-lo pela imagem nascer de novo em seu fluxo incessante.

Ao fundar o Programa de Pós-Graduação, o objetivo era dar ao Recife um centro de estudos avançados em “ciência da literatura”. Foram enormes as dificuldades que teve de vencer para a criação desse Programa. Lançou a Geração 65 de poetas pernambucanos e continua a descobrir novos valores. No próximo dia 10 estará lançando Tempo e Vida na terra, uma reunião de quase todos os seus poemas. Hoje ele nos fala sobre poesia, suas preocupações com outros aspectos da cultura na transição dos séculos XX-XXI e do milênio que se inicia.

Mário Hélio: Tempo e Vida na Terra é a maior antologia de sua poesia até agora. Com esse livro encerra sua fase criativa em poesia? O que é esse livro?

César Leal: O livro é o registro de um percurso: o percurso de minha vida espiritual. - Melhor diria -“parte de um registro” – dos movimentos de meu espírito nos últimos 50 anos. Um trabalho cheio de dificuldades. Daí me parecer mais estimulante. Minhas atividades não consistem apenas em escrever poesia. Sobre o fenômeno poético faço uma reflexão constante, de natureza filosófica, que me obriga a trabalhar, mesmo durante o sono.

 

O livro seria então a sua “estréia da vida inteira”?

Como tenho ainda muitos poemas inéditos e meu espírito se movimenta com energia, não posso parar de registrar tais movimentos. Por outras palavras: continuo a escrever poemas e a falar sobre poesia e poetas. Creio que enquanto o poeta está vivo ele não deve falar em “estrela da vida inteira”. Eduardo Portella, antes do livro chegar às minhas mãos, telefonou-me. Disse-me que eu havia construído uma obra. Podia continuar a escrever, mas com a tranqüilidade de quem havia realizado algo de definitivo na poesia brasileira contemporânea. Havia lido o livro e chegara a essa conclusão. Isso, para quem não é tão humilde quanto julgam os que não me conhecem bem, me causou um certo contentamento interior. Silencioso. O que ele quis dizer é que consegui construir uma obra e meu lugar na literatura já não depende de que escreva novos livros.

 

Como se sente ao ver sua obra analisada por tantos especialistas e até traduzida para alguns dos mais importantes idiomas do mundo?

Seria falsa modéstia dizer que não tenho em mim um pouco da arrogância horaciana, tão bem parodiada por Fernando Pessoa. Horácio, numa de suas Odes mais famosas, diz que construiu para si um monumento que o salvaria da “tristeza da tumba”. E acertou quando disse que o monumento poético edificado seria mais resistente do que a fábrica imortal das Pirâmides, e resistiria às tempestades e ao indômito Aquilão. Também Fernando Pessoa, escreveu: “Ponho na altiva mente o fixo esforço / da altura, e à sorte deixo / e a suas leis, o verso: que quando é alto o régio pensamento / súbita a frase o busca / e o escravo ritmo o serve”. Ou ainda: “Seguro assento na coluna firme / dos versos em que fico / não temo o influxo inúmero futuro / dos tempos e do olvido”. Também é Pessoa quem diz: “Que a mente, quando fixa, em si contempla / Os reflexos do mundo, / Deles se plasma torna, e à arte o mundo / Cria, que não a mente, / Assim na placa o eterno instante grava / Seu ser, durando nela.” Sinto-me, à semelhança desses poetas, ao verificar que venho desempenhando bem o meu papel de ator no grande “teatro do mundo”. Se digo que acredito em meus poemas, posso falar como falaram Horácio e Fernando Pessoa. Como você vê, estou em boa companhia.

 

Desde seus primeiros livros que se observa uma temática cósmica predominando. São presenças constantes as palavras estrelas, constelações, alturas, vôo. E a Terra?

Não há dissociação entre a idéia de estrelas, vôo, alturas e a Terra. A Terra é um planeta que não pode separar-se da estrela que lhe dá vida e movimento. Ela também está na altura e a teoria da relatividade demonstrou que só em nosso mundo interior e subjetivo existe essa noção de “acima e abaixo”, ou “em baixo” e “em cima”. O homem é um ser cósmico. A preocupação com o cosmo é central em todos os poetas. É a parte mais impressionante nas criações dos grandes poetas. Talvez o meu pecado seja esse: colocar-me entre eles. Ela começa com Homero, com seus deuses ocupando as alturas, os cumes do Olimpo. Os filósofos gregos ampliaram o tema. Platão julga que o mundo dos astros constituiu o primeiro “assombro” do homem. Depois vieram Virgílio, Dante, o que voou pelos nove céus ptolomaicos, abriu as asas entre as estrelas, passou pela constelação de Gemini e ao ficar frente a frente com a Virgem, pediu-lhe que lhe permitisse a visão de Deus. Ela mandou que ele olhasse em seus olhos. Ele olhou e viu “unido pelo amor em um só volume tudo o que se encontra no universo”.

 

O conceito de “transcendência” é muito importante em poesia? Por que há tanta luz na poesia de Dante?

A transcendência é fundamental. Ela está ausente em Drummond, Manuel Bandeira. Mas está bem representada em Jorge de Lima, Joaquim Cardozo. Deus era e é luz do puro Amor, a força que empurra pelo infinito todas as estrelas em movimento perpétuo. A preocupação com o cósmico é tão grande que sem ela não teríamos criado a ciência moderna, à frente Galileu, Kepler e Newton, todos eles tendo como guias Pitágoras, Platão e Demócrito. Esses homens do Renascimento são filhos do “assombro” primitivo que criou as cosmogonias antigas dos egípcios, sumerianos, gregos, indus. Foram Euclides, Platão, Dante, Shakespeare, Goethe Camões, nos cantos nono e décimo de Os Lusíadas, os criadores de Einstein, Planck, Werner Heisenberg. Por sua vez, sem Einstein, aqui mesmo, no Brasil, não teria sido escrito um dos maiores livros do mundo no século: o Triviun de Joaquim Cardozo. Sem a teoria da relatividade não saberíamos nada da “Visão do último trem subindo aos céus”. Nem da retórica da Serra dos Órgãos, quando a Serra diz que viu nascer as primeiras formigas, as primeiras aves, os primeiros homens. Sem a mecânica quântica eu não teria escrito um livro que vem interessando a grandes cientistas e poetas fora do Brasil: a Ursa Maior, recentemente traduzido para a língua de Goethe.

 

Como vê a poesia no contexto da cultura pernambucana?

A poesia é muito boa. Ao contrário da ciência e da técnica, as artes não exigem um elevado estágio de desenvolvimento econômico para sua realização em alto nível. Só que a poesia não é tudo que se escreve e se dá esse nome. A genealogia da poesia brasileira está em Pernambuco. Mas, no Recife, a poesia não encontra espaço para sua divulgação. Somos uma terra onde se fala muito em cultura. Mas as ações culturais não parecem levar em conta a poesia. Os poetas sabem fazer muito bem o que os políticos fazem muito mal na administração da coisa pública. Não há mais espaços na mídia para a poesia. Não temos, como ocorre nos demais grandes centros urbanos, espaços para críticos, em particular a crítica de poesia. O pior é que esses espaços existem em abundância em Fortaleza, em João Pessoa, em Salvador, Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro. Até a Gazeta Mercantil se mostra interessada em cultivar tais espaços. Veja-se o seu excelente suplemento literário, não diria “cultural”, publicado nos fins de semana. Veja-se o Mais! da Folha de São Paulo, o Prosa & verso, de O Globo, o Idéias, no Jornal do Brasil, o Sábado, do Jornal da Tarde, em São Paulo, o Cultura,no Diário do Nordeste, em Fortaleza, o Caderno 2 do Estadão, com seus suplementos literários assinados por especialistas brasileiros e do exterior.

 

Em sua opinião, por que isso ocorre em relação ao Recife? O que há com a cultura pernambucana?

No Recife,temos apenas o Suplemento Cultural editado pela CEPE, agora sob a direção de Raimundo Carrero. A Revista Estudos Universitários, retornou quando o reitor Mozart Neves Ramos e o vice-reitor Geraldo Pereira assumiram a direção da UFPE. Todavia, na consegui torna-lo um instrumento para a transmissão do pensamento científico, artístico e tecnológico, com ação “extra-muros”de longo alcance comunitário, como fora na fase entre 1965 a 1985. A idéia de uma revista não especializada, mas inteiramente dedicada a estudos avançados, em todas as áreas do saber, não foi atingida. Antes, publicávamos trabalhos. Naquela época, publicávamos estudos como “Crítica inéstetica”, de Frederick Crwes, da Universidade de Berkeley, de cientistas espaciais alemães, de francesas, espanhóis, mexicanos, canadenses, italianos. Os trabalhos sobre filosofias das ciências demonstravam toda a força do físico Carlo Borghi, que ao lado de suas atividades como professor de mecânica quântica e diretor do Centro de Física Nuclear, trazia novos saberes que enriqueciam enormemente a vida cultural da Universidade Federal de Pernambuco. Bezerra Coutinho era um gigante, justificando que dizia dele o cientista Carlos Chagas: “O Bezerra Coutinho, que viveu aqui no Rio durante alguns anos, foi um dos intelectuais mais brilhantes que conheci em toda a minha vida. Que faz ele hoje no Recife”, indagava-me ansioso por uma resposta que explicasse a sua ausência na vida nacional.. É preciso que os dirigentes de jornais ministrem cursos de cultura pernambucana e brasileira para atualização dos jovens redatores e editores de cadernos culturais, onde a verdadeira “cultura” não encontra acolhida. Em especial, a literatura. Esses cursos são freqüentes hoje na Inglaterra. Em Londres, o encontro entre poetas e jornalistas para que eles se conheçam melhor e possam saber “quem é quem” no mundo da mídia e no mundo das artes, das ciências e das letras, é feito de seis em seis meses. As redações no Recife estão cheias de jovens inteligentíssimos e talentosos, à procura de espaços, já que tais espaços estão tomados pelos noticiários sobre política, corrupção, comissões parlamentares de inquérito, polícia federal, assassinatos, e os feitos de nossos jogadores de futebol, estrelas da TV , da Fórmula1. Precisam apenas conhecer muita coisa, inclusive o que não é fácil, o significado do conceito de “cultura”. Esse sentido nem os nossos dirigentes políticos parecem conhecer. Se conhecessem não valorizariam tanta coisa banal apresentada como “cultura”. Um dos grandes males é a proliferação de instituições ditas “culturais”. Não há lei de incentivo capaz de criar recursos para financiar tantos “grêmios” insignificantes que se apresentam com o pomposo rótulo de centros e “pontos” de “cultura”.

A que atribui esse declínio tão grande dos valores culturais em Pernambuco, sobretudo da poesia?

Culpa-se a “globalização”, com seu desprezo pelo o humano e a busca irracional da “eficiência” e do “lucro”. A questão não é só essa. A verdade é que os políticos marginalizaram a cultura. Nos outros países não é assim. Agora mesmo o maior poeta da França, Yves Bonnefoy, foi editado em São Paulo, em belo livro publicado pela Illuminuras com patrocínio do Ministério do Exterior da França, sua Embaixada no Brasil e o Consulado francês em São Paulo. No Brasil, livros lançados por autores nordestinos, hoje discriminados pelo eixo Rio-São Paulo, deviam ser lançados nessas cidades com patrocínio do Governo. A alta cultura só pode ser promovida e difundida pelo governo. Os artistas, ao produzir, cumprem seu papel. Ao difundir o que fazem os legítimos artistas - não os carreiristas e filisteus - o governo está cumprindo papel idêntico. Isso não é favor. Isso não é oficialismo Grandes escritores que visitavam o Brasil, no passado, começavam pelo Recife. Hoje, não são mais convidados. O intercâmbio é necessário, mas hoje não existe. Recife foi eliminado de seus roteiros, pois não convida ninguém. Não queremos tais visitantes. O itinerário desses “bárbaros” é sempre o mesmo: Rio, São Paulo, Brasília, Salvador. Da Bahia, retornam.

 

Os recifenses conhecem seus próprios valores no mundo da cultura? E a Antologia do Assis Brasil sobre a poesia pernambucana?

Não. Poucos sabem quem são os verdadeiros valores da cultura pernambucana. Muitos julgam que conhecem esses valores. Não sabem sequer quem é Joaquim Cardozo. A cultura em Pernambuco é conhecida apenas como sendo feita por meia dúzia de pessoas que, ocupando altos cargos na administração pública, se tornam vistos por uma mídia pobre em conhecimentos culturais. Com exceção dessa meia dúzia de “estrelas”, ninguém sabe “quem é quem”. Lourival Vila Nova, Jaci Bezerra, Alberto Cunha Melo, Sébastien Joachim, Luís Antonio Marcuschi, Fernando Monteiro, Cláudio Aguiar, Jarbas Maciel, Geraldo Falcão, Zeferino Rocha, Michel Zaidan Filho, Nelson Saldanha, Fernando da Cruz Gouveia, Esman Dias, Gladstone Vieira Belo, Roland Walter e tantos outros são mais conhecidos no Rio e em São Paulo do que no Recife. É dentro desse quadro que sobrevive a poesia em Pernambuco. Uma antologia da poesia pernambucana, com mais de 80 poetas, organizada por Assis Brasil, que já divulgou a de todos os principais Estados, dorme nas gavetas das instituições culturais do Governo de Pernambuco há mais de cinco anos. Há três fatores extremamente negativos para o desenvolvimento da cultura no Recife: a inveja, o amor ao oficialismo e a fofoca. Não sabemos até quando tal situação perdurará. Acredito que o governador Jarbas Vasconcelos, em breve, autorizará a publicação da antologia, há anos sobre o birô de Eduardo Salomão, diretor da Imago Editora do Rio de Janeiro. O que sei é que a força da poesia é como a da Fênix. Poderão até matá-la, mas tenho certeza de que ela ressurgirá das cinzas.

(1999)

 

 

 

 

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