A página INTERPOÉTICA,
tem a honra de publicar uma entrevista exclusiva do jornalista, romancista,
novelista, ensaísta e contista, RAIMUNDO CARRERO,
concedida à sua companheira e poeta MARILENA DE CASTRO,
na qual fala das mulheres, sejam estas as personagens fortes e marcantes
dos seus livros, sejam elas as mulheres sertanejas que povoam ou povoaram
sua realidade. Confiram este momento terno, forte, que só um
escritor do porte de Carrero, Dostoievski do Sertão, é
capaz de propiciar. (os editores)

A INFLUÊNCIA
DAS MULHERES
NA OBRA DE CARRERO
Detentor dos mais importantes
prêmios da literatura brasileira - Jabuti, Associação
Paulista de Críticos de Arte e Machado de Assis -, o escritor
Raimundo Carrero revela, aqui, qual a importância que as mulheres
exercem em sua obra, que já alcança doze livros de ficção,
uma biografia e um ensaio. Aliás, o ensaio - "Os segredos
da ficção" -, lançada pela Editora Agir, do
Rio de Janeiro, serve de texto básicos para as suas oficinas
literárias.
As oficinas também são
analisadas nesta entrevista, realizada numa manhã de domingo,
pela sua mulher, Marilena de Castro, no intervalo de uma conversa amena
que transcorreu várias horas. Dessa forma, a entrevista procurou
enfocar a questão feminina na obra do escritor, o que acontece
pela primeira vez. Marilena de Castro é poeta, com um livro publicado
e participação em várias antologias. (Marilena
de Castro)
Qual a
importância das mulheres nos seus livros?
As mulheres sempre foram muito
fortes na minha obra. A partir do meu primeiro livro - "A História
de Bernarda Soledade - A Tigre do Sertão".
Que influência
tiveram as mulheres de sua famílias nas suas personagens?
A primeira foi minha mãe,
Maria Gomes de Sá. E depois minhas irmãs: Terezinha, Geralda,
Lenilce, Maria Anália e Margarida. Fui criado e convivi muito
com mulheres.
Em que
livro sua mãe entra como personagem?
No livro "O Senhor dos Sonhos"e
a personagem chama-se Noêmia. Significa aquela que protege. Ela
existe e é muda, mas aparece em sonhos falando e aconselhando
o filho, Domingos de Oliveira, e está sempre sentada numa cadeira
de balanço, vestida branco e com uma caixa azul no peito.
A morte
de sua mãe teve influência na sua vontade de ser escritor?
Naquele momento não tinha
consciência que queria ser escritor. Mas, posteriormente, eu descrevo
em meus livros, todos os rituais de morte que presenciei, com velas
acesas, defumadores, rezas, assim como em "As sementes do sol -
o semeador".
Você
escreve muito sobre mortes e os destinos trágicos.
A morte mais importante mais importante
foi da minha mãe. Acompanhei a doença dela, desde que
começou até o final. Ela morreu de leucemia. A morte,
como ritual de passagem, passou a ser um símbolo dos meus personagens.
Como você
escolhe os nomes dos seus personagens?
Os nomes dos personagens são
metáforas, com funções e caracteres que eles vão
desempenhar no livro. Exemplos, em "Ao redor do escorpião...uma
tarântula" aparece Alice; e Ísis, em "Somos pedras
que se consomem".
Que sentimentos
você tem quando escreve?
Muita alegria, principalmente
quando os resultados da minha escrita alcançam o que eu quero
transmitir.
De que
maneira se descreveria como personagem?
Alto, decidido e determinado,
na condição de personagem e cidadão.
Por que
se decidiu pelo conto e novela, e não pela poesia para se expressar?
O conto e novelas são obras
mais densas em poucas páginas. E a poesia é mais abstrata.
E as oficinas,
o que representam?
As oficinas são uma das
coisas mais importantes de minha vida intelectual. Tão importante
quanto escrever. E de repente descobri muitas e variadas técnicas
para me expressar. Não existem limites para as técnicas.
Cada cena exige uma técnica nova, sofisticada ou não.
E cada vez quero tornar o oficina cada vez mais profissional. E mais
reveladora de escritores.
(maio de 2006)
Foto: www.portalsalgueiro.com.br