ALLAN
SALES
"Escrevo cordel
em norma culta, não folclorizo meu linguajar buscando estereótipos
construídos midiaticamente de nordestinidade"

por
Ivan Marinho
Allan
Sales, o Menestrel do Cariri, é cearense, da cidade do
Crato. Seu trabalho, de amplo espectro estilístico, ganhou notoriedade
pelo veio satírico e
bem humorado, tanto nas composições originais, quanto
nas parcerias parodiais.
Músico e poeta,
o menestrel não dá trégua à criação.
É quase impossível ter uma imagem
de Allan Sales sem a presença de seu violão. Violão
este, que passeia por clássicos e bregas, forrós e chorinhos,
frevos e maracatus, MPB...
IVAN MARINHO: Allan, fale um pouco de sua infância no
sertão e, se houver, faça a relação com
sua criação.
ALLAN SALES:
Minha infância no sertão foi até meus oito anos,
creio que sua influência em minha obra é muito pequena,
já que forjei minha forma de ser-estar no mundo no Recife, tornei-me
pernambucano recifense por osmose.
Conheci você recebendo um prêmio
por uma trilha para teatro, quais outros momentos de reconhecimento
aconteceram?
O teatro foi fundamental em minha
formação, nele aprendi as lições mais valorosas
como artista. Convivi com gente muito preparada e politizada que me
abriu caminhos para leituras livrescas e do mundo. Fui muito reconhecido
e prestigiado no meio teatral entre 1982 e 1995 nos quais tomei parte
de 27 espetáculos compondo trilhas e fazendo direção
musical. Os prêmios foram o coroamento desse esforço. Fora
o teatro, venci por três anos os concursos de músicas carnavalescas
da Prefeitura da Cidade do Recife. Além disso, fui convidado
pra compor o hino do Maracatu Várzea do Capibaribe.
E os Festivais de Música no Estado, têm evoluído?
Creio que sim, há um cuidado
maior com a produção, isenção e imparcialidade
de quem julga as obras.
Como você vê a música em Pernambuco
atualmente?
Depende muito dos segmentos. Gente
que toca a grande música sinfônica e erudita, esses sempre
manterão sua performance, embora ainda distantes do grande público
e vivendo de suas aulas nas escolas e dos empregos públicos na
orquestra e na banda sinfônica. As coisas de choro e jazz, mantém
pessoas de alto nível que têm mais respaldo fora de Pernambuco
e do país, o mesmo de quem compõe, toca e canta coisas
sofisticadas de MPB. Os que são ligados ao folclore têm
seus espaços nas mídias em função do apoio
que os programas sociais dão aos grupos de periferia de coco,
ciranda e maracatu, entre outros. O forró de pé de serra
tem grande articulação em função da mobilização
dos que o fazem, muito embora não haja muita criatividade com
muitas releituras e caminhos pelos lugares comuns pelos compositores.
Quanto aos segmentos de forró estilizado e brega, esses são
a bola da vez das mídias locais que lhes dão um espaço
hipertrofiado na razão inversa da qualidade estética do
que se produz. Como profissão a música vai bem, a maioria
dos músicos é que vai mal.
Por que a opção pelos gêneros
poéticos das cantorias ou dos cordéis?
Foi por acaso, nunca escrevi poesia,
sou compositor, pesquisava para compor uma trilha para teatro em 1991.
Aprendi as técnicas de métrica e rima e me pus a criar
coisas. Somente em 1997 escrevi meu primeiro cordel, os amigos foram
gostando, foi depois crescendo meu público extrapolando meu círculo
de amizades, de modo que, quando me dei conta passei a ser chamado de
poeta por muito mais gente que me conhecia como músico. Gosto
demais da linguagem tradicional, me identifico com sua sonoridade, acho
desafiador demais criar em cima de cânones, sobretudo os galopes
à beira mar, martelo agalopado e décimas de sete sílabas.
Pernambuco vive um momento diferenciado com relação à
importância da poesia e da literatura em geral, basta que pensemos
na Bienal, na Fliporto, no Festival de Garanhuns, no Recitata e no Festival
Recifense de Literatura. Vários grupos se movimentam em torno
destas ações, muitos escritores aparecem e vários
grupos se formam. Como você se coloca com relação
a este momento?
Fui convidado para ser atração
do Fliporto de 2006. Achei boa demais a organização do
evento, foram super dignos para comigo, ao lado de Júnior do
Bode e Patrícia Cruz fizemos um show memorável focado
em nossa poesia de raízes. O festival de Garanhuns do ano passado
fui, ao lado do ator Morse Lyra, a atração cultural da
abertura na qual encenamos o espetáculo “Três Causos
de Castro Alves” do qual sou autor da narrativa em cordel. O Festival
Recifense de Literatura foi a grande ferramenta que me lançou
no meio literário do Recife, desde o primeiro em 2003 estou escalado
para fazer animação cultural dos palcos de recital, o
fato de ser instrumentista foi crucial para que ocupasse esse espaço.
Devo a esse evento e às pessoas que o organizam, a grande visibilidade
que venho desfrutando desde 2003 em nossa cidade.
Na sociedade reprodutivista que se configura, podemos perceber que nem
a literatura fica de fora, tanto que podemos ver claramente escolas
formadas a partir da forma de Miró, Lara, Luna... Como você
vê esse cenário?
Pois é, como diria Paulinho
Jofilsen: "todo guri precisa de um guru". Acho natural até
demais, as pessoas sempre buscam o caminho das pedras, ousar, ser você
mesmo é coisa de poucas pessoas, portanto, as dollys estéticas
desses cânones da poesia alternativa, creio que não sobrevivem
muito tempo já que a fonte original desaparecendo, esses pouco
criativos tendem a repetir-se, ficam monótonos e a dinâmica
das coisas tende a por as coisas em seu devido lugar. Eu mesmo fui criticado
por não seguir caminhos de poetas de formas fixas, consagrados
em termos de linguajar e temática, diziam que carecia de legitimidade
por não “tirar meu brevê de matuto”. Escrevo
cordel em norma culta, não folclorizo meu linguajar buscando
estereótipos construídos midiaticamente de “nordestinidade”
ou coisas do gênero. Cordelista na forma, mas um provocador na
essência, sempre.
A expressão de seu trabalho demonstra um abrangente conhecimento
da realidade de seu tempo. Como se dá esse processo de criação?
Pois é, ou o homem é
um homem do seu tempo, ou é de tempo nenhum. Minha obra de música
popular também tem essa feição engajada. O cordel
segue a mesma senda, nunca fui indiferente ao que se passa em minha
volta. Meu processo de criação é uma coisa alucinada,
me pega a qualquer hora do dia, basta uma idéia, lá estou
eu escrevendo dentro de coletivos, em bancos de praça, em mesa
de bar, às vezes as pessoas provocam dando idéias boas
demais da conta e aí me ponho a escever.
Você é um dos criadores da UNICORDEL,
ela ainda atende as suas expectativas?
A Unicordel ainda é um
grupo em sua maioria diletante, muito embora tenha em seus quadros pessoas
de muito talento. Por ser eu junto com Adiel Luna os únicos que
vivem da sua arte, nem sempre estamos em sintonia com as coisas que
os colegas querem produzir. A maioria tem seus empregos na economia
formal e em órgãos públicos, não precisando
necessariamente da grana que rola na Unicordel. Um grupo valoroso com
o qual me relaciono bem demais; de vez em quando convoco alguns para
projetos que faço fora do grupo, que ainda produz coisas que
agregam valor ao meu processo de construção; enquanto
ainda houver esses pontos de confluência sigo, dentro do que for
possível, compartilhando dos espaços que a entidade abre.
É tácita a sua ligação
com o presente, mas fale um pouco de seus projetos para o futuro, mesmo
que seja próximo.
É verdade, o futuro próximo,
acredito que será em função de estruturar parcerias
e empreendimentos que não fiquem reféns dos humores dos
poderes públicos e dos arroubos de mecenas, dos que são
da classe proprietária. Charles Chaplin, juntou-se com mais vinte
pessoas de cinema e compraram uma companhia de cinema falida e passou
ele mesmo a escrever, roteirizar, encenar e dirigir seus filmes, morreu
milionário. Eu não dependo de editora pra publicar, faço
meus cordéis pela UNIVERSALES CORDELARIA, a menor editora de
cordel do mundo: tem um poeta criador, que ao mesmo tempo digita, diagrama,
ilustra e publica seu cordéis de forma que só lanço
mão de editora, no meu caso a Editora Coqueiro, quando pinta
um contratante que cobre esses custos. Agora quero fazer o mesmo com
meus trabalhos de palco; fazer meu próprio centro cultural de
onde posso irradiar os produtos culturais de música e poesia,
sem ficar refém de palcos de espaços públicos ou
espaços privados aonde nosso trabalho é uma rubrica de
uma planilha de custos. Pretendo ser dono dos meus meios de produção,
meu cordel já é assim, falta o resto das coisas de palco.
Allan, como já disse, sua poética
tem um forte apelo à realidade, mas sem se apegar a clichês
ou tendências. Poderíamos evidenciar, na verdade, uma verdadeira
ojeriza ao poder em todas as esferas. Como você trata essas escolhas?
O poder é afrodisíaco,
disse certa vez um político conservador cujo nome não
lembro agora. Sempre fui uma pessoa daquilo que se convencionou chamar
de esquerda. Tenho uma afinidade ideológica com o campo das idéias
socialistas, porém nunca assinei embaixo de tudo que as pessoas
desse campo andaram fazendo desde a nossa redemocratização.
Não trabalharei numa perspectiva de direita sob qualquer hipótese,
porém, não creio que estamos no éden com o advento
dos poderes que antes se opuseram ao neoliberalismo e que hoje ocupam
postos de poder, com boas intenções, enchendo o saco das
elites retrógradas. É bem verdade, porém, fazendo
coisas antes inimagináveis no passado e dando armas à
reação, já que em muitos casos se nivelaram aos
que combatiam. Minha escolha foi feita em 1982, quando comecei a fazer
teatro com um companheiro do antológico partidão (PCB),
através desse trabalho li Paulo Freire e Darcy Ribeiro, o que
era uma coisa intuitiva, passou a ser uma postura fundamentada na leitura
histórica e crítica da realidade. Tudo que fiz desse tempo
em diante, foi reflexo desse despertar.
O Americanalhando se tornou um um texto antológico
e, com certeza, será um clássico do cordel. Quais outros
cordéis têm despontado em público?
Bondade sua em por esse singelo
manifesto bastante irreverente no rol de futuro clássico do cordel.
Uma das coisas que mais me tocaram, certa vez ao declamar esse cordel,
foi um cabra que disse:
- puxa, você disse tudo
que eu pensava mas não sabia como dizer!
Ou seja, somos nós poetas
as antenas de nossa espécie. Tenho outro chamado NORDESTE
INDEPENDENTE?, o direito de resposta ao separatismo proposto por
Ivanildo Vila Nova e Bráulio Tavares, além dos cordéis
de humor que sempre causam grande impacto. Coisas como O CORNO E
O PREFEITO, NEM SANTO NEM HERÓI (indo na contramão da
apologia a Lampião e Padre Cícero), EPOPÉIA
CORDELÍSTICA DO BRASIL (a História do Brasil em cordel),
são obras que acredito ter acertado na mão. Sinceramente,
não sou a pessoa mais abalizada para por uma escala de valor
naquilo que produzo. Sou antes de tudo um provocador, muita coisa que
andei escrevendo e compondo já causou muito rebuliço e
as reações mais inusitadas que se possa imaginar. Deixo
aos que são ouvintes dos recitais e leitores o julgamento.
Quantos cordéis já foram feitos
por você e em quanto tempo? Quais cordelistas contemporâneos
você destacaria e quais suas referências do passado?
Ao todo hoje mais de 380 cordéis,
que junto com os que fiz sob encomenda e que são de caráter
muito restrito por se inscreverem num universos específico, são
mais de 400 obras em cordel. Posso falar dos cordelistas que conheci
desde 1997, quando comecei a escrever nesse estilo. Antônio Francisco,
poeta de Mossoró com o qual tive a honra de dividir um palco
em Natal no ano passado, é simplesmente genial, e do mesmo padrão
do grande Chico Pedrosa,
que também é cordelista, meu parceiro de palco algumas
vezes em 2007 e 2008. É outro que apesar de não conhecer
sua obra em cordel, apenas a de prosa matuta, acredito ser outra grande
referência. Costa Leite,
que tive a honra de homenagear com um cordel nos seus oitenta anos,
é uma usina de criatividade e um paradigma vivo pra todos nós.
Dos novos poetas, Junior
do Bode, cuja poesia nada deve a Patativa
do Assaré; Antônio
Marinho com toda certeza pelo conjunto da obra e performance
como declamador; o poeta Felipe Junior,
paraibano criado no Pajeú; Michael John (de São José
do Egito); um cabra bom demais que conheci no ORKUT e mora em Teresina,
João Rubens Rolim. Todos herdeiros e cultores da poesia de raiz
mais autêntica e de uma poética em forma fixa nordestina.
Dos mais chegados como parceiros
de trabalho, Altair Leal com seu
humor e irreverência; Paulo Moura
um bravo pesquisador e poeta do ciclo do cangaço; José
Honório com sua poesia bem cuidada nos aspectos estéticos;
fechando com Pedro Américo
de Farias, que apesar de não se considerar um cordelista,
tem coisas de muita beleza poética e conteúdo contundente.
Das mulheres, minha parceira de peleja
virtual Susana Morais, desponta
como alma poética iluminada e adocicada pela sua pungente sensibilidade
de mulher, escreve lindo demais usando a norma culta da língua
portuguesa.
Minha maior referência,
com toda certeza é Zé Limeira, pirei simplesmente ao ler
o livro de Orlando Tejo acerca do Poeta do Absurdo que era também
um absurdo de poeta. Tenho por hábito, nos cordéis mais
jocosos fazer duas ou três estrofes no estilo limeiriano.
Manda uma produção poética
nova para os leitores do INTERPOÉTICA.
Seja feita a vossa vontade, essa
está no meu blog: allancordelista.blogspot.com
Os safados de sempre nesse lado
Vão levar eleitores pro buraco
O povão qual guiné diz que “tô fraco”
Tanta fome tem nome meu prezado
Eleitor pra votar é num safado
Dá seu voto depois não vale à pena
O sujeito ladrão que rouba a cena
Como Judas terá muitos dinheiros
Os leões disfarçados de cordeiros
Estão soltos de novo na arena
E assim pedir voto do eleitor
Vão chegar pra mostrar cara de pau
Um calhorda na esfera federal
Vai levar seu quinhão de sedutor
Enganar o povão trabalhador
Mentirão levarão seu circo encena
Gente porca demais mais de centena
Urubus tapurus mais carniceiros
Os leões disfarçados de cordeiros
Estão soltos de novo na arena
Nos dirão que farão coisas demais
Criarão com justiça nova vida
A mundiça daqui vai iludida
Votará e depois secar seu gás
O poltrão falastrão a grana a mais
Gastará pra chegar nada o condena
No final só dirá só coisa amena
Todos nós a sorrir nos picadeiros
Os leões disfarçados de cordeiros
Estão soltos de novo na arena
Vote mesmo não terás mais ilusão
Pois votar é assim só necessário
Se nos traz por aqui só salafrário
Se votar sem pensar não tem razão
Mas verás como faz tal armação
Eu me ligo demais abro a antena
Pra sacar e evitar a tal gangrena
Desses tais os chacais mais sorrateiros
Os leões disfarçados de cordeiros
Estão soltos de novo na arena
Os leões que famintos querem tudo
Querem mais sempre mais desse povão
Vão querer se fartar nesta eleição
Vão mostrar como faz o seu entrudo
O povão que carente sem estudo
Vai ter nada no fim gota serena
No poder vão comer mais de vintena
De bufunfas do povo os forasteiros
Os leões disfarçados de cordeiros
Estão soltos de novo na arena
Nova ARENA que tem é democrata
Com tucanos demais na revoada
Com ladrão se dizendo camarada
A História recente nos relata
Nosso povo que vão meter a pata
Pra levar enganar seu sangue drena
Vão querer bons carrões e não Siena
E comer nos repastos estrangeiros
Os leões disfarçados de cordeiros
Estão soltos de novo na arena
Mil sujeitos que vão dizer lorotas
Muitos vão tal lorota nos botar
Pra depois ter um voto sem pensar
Nos impor sob os pés as suas botas
Não mudar e manter as mesmas rotas
Para ouvir sempre mesma cantilena
Repetida como as rezas da novena
Enganando com discursos mais fuleiros
Os leões disfarçados de cordeiros
Estão soltos de novo na arena
Os chacais o venais no mesmo rumo
Vão querer se fazer de salvadores
Pra no fim se portar qual predadores
Cidadão vão pegar todo esse insumo
O poder pra manter no mesmo prumo
E deixar a exclusão de quarentena
Se fartar e dançar tal macarena
No festim terminal dos embusteiros
Os leões disfarçados de cordeiros
Estão soltos de novo na arena
Eleitor cidadão domesticado
É seu dono feitor e enganador
Que domina pra levar tal condutor
Pra votar no poder podre e safado
Mas quem quer não será mais enganado
O passado ruim só lhes condena
Esse cabra se modos nunca frena
Seus butins que farão qual farofeiros
Os leões disfarçados de cordeiros
Estão soltos de novo na arena
Eleger mas pensar na conseqüência
Só votar em quem tem um compromisso
O safado poltrão que dá sumiço
Quando tem o que quer sem indulgência
Sepultar o poltrão exige urgência
Sem botar um botão de açucena
Enterrar esquecer de forma plena
Escolher os que têm modos ordeiros
Os leões disfarçados de cordeiros
Estão soltos de novo na arena
Cidadão cidadãs deste país
Avançar pra mudar nosso presente
Destronar quem quiser ferrar a gente
E quem faz do poder só meretriz
Extirpar todo mal pela raiz
Sem perdão que se deu pra Madalena
Essa corja que mente tão pequena
Não merece mandar nos brasileiros
Os leões disfarçados de cordeiros
Estão soltos de novo na arena.
IVAN MARINHO
é professor, poeta, artista
plástico, conselheiro de cultura no Cabo de Santo Agostinho/PE,
colunista e mortal
do INTERPOÉTICA.
(abril
de 2008)