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Nesta edição a INTERPOÉTICA, publica entrevista do poeta Alberto da Cunha Melo, concedida à sua companheira e editora do Sítio Virtual www.plataforma.paraapoesia.nom.br, Claudia Cordeiro, na qual a entrevistadora faz um aporte em outros registros literários na internet através de hiperlinks. (os editores)

Alberto da Cunha Melo ou "o mundo da sintonia fina da linguagem, a tecnologia de ponta da palavra: POESIA"

PARA INÍCIO DE CONVERSA

Quando Cida Pedrosa me convocou a entrevistar Alberto da Cunha Melo para o Interpoética, me deu um frisson. Logo eu, Cida? Logo eu, que respondo à mínima restrição que se faça ao poeta com a seguinte frase: "Alberto da Cunha Melo não tem a obrigação de ser mais que um dos maiores poetas da Língua Portuguesa de todos os tempos."? Veja a fria em que você me colocou! As restrições feitas ao poeta se instalam, principalmente, no fato de ele negar-se a dar palestras, participar de mesas redondas, quadradas e coisas afins. Para isso ele tem uma frase lapidar:

"Desculpem-me, mas não me ensinaram a falar, só me ensinaram a escrever. Tudo que tenho a dizer está nos meus livros. Leiam."

Pois bem, com o convite de Cida, estonteei, demorei que só, porque a experiência ensinou-me que existem duas formas de dificultar qualquer trabalho acadêmico (Faces da Resistência na Poesia de Alberto da Cunha Melo, Bagaço, 2003) ou jornalístico (Alberto da Cunha Melo: um indisciplinador disciplinado), o excesso de informações e a falta de informações. Mas a net ajuda e lá vai esse trabalho cheio de hiperlinks, para quem sabe navegar.

Quando já fechava a entrevista, lembrei-me do Alberto da Cunha Melo jornalista, hoje, com a coluna Marco Zero, na revista Continente Multicultural. Disparei: O que representa o jornalismo na sua vida, Alberto?

"O jornalismo representa o pão, já que ele a poesia não me dá."

Depois dessa, deixei Dona Poesia entrar no comando e eis o que deu. Espero que gostem.

ALBERTO DA CUNHA MELO, HOJE:
40 ANOS DE POESIA

"Repito o que respondi, uma vez, ao poeta, José Nêumanne Pinto, poesia para mim, foi uma grande perda de tempo, um vício."

Há quarenta anos do primeiro livro, o Círculo Cósmico, ou seja, há mais de 40 anos de trabalho poético ininterruptos, foi assim que Alberto respondeu a pergunta "valeu a pena essa longa estrada literária?". Na verdade, a estrada longa é cheia de êxito, desde as primeiras incursões da crítica, como esta da década de 60, do século passado, de nada mais, nada menos, que Joaquim Cardozo:

Em ALBERTO DA CUNHA MELO: há uma dor no poema, há uma carta, uma comunicação para os outros, quaisquer outros; nele a poesia existe como um 'para sempre'. JOAQUIM CARDOZO - 1968 (in Agenda poética do Recife, Cyl Gallindo org., p. 14).

Alberto já publicou 14 livros de poesia. O mais recente, brinda seus 40 anos: O cão de olhos amarelos & outros poemas inéditos, pela A Girafa Editora, sob a batuta do editor e também poeta, José Nêumanne Pinto, que na sua coluna, Direto ao Assunto, do Jornal da Paraíba, de 29.06.2006, colocou o poeta entre os seus "Heróis Brasileiros", com a seguinte inscrição:

O poeta pernambucano, nascido em Jaboatão e morador de Olinda, autor de Dois caminhos e uma oração, acaba de lançar nova coletânea, O cão dos olhos amarelos. Neste instante, em que as livrarias vendem mais gadgets que livros e o mercado editorial se escraviza aos pedidos oficiais ou às encomendas escolares, tornando a poesia ainda mais proibitiva, o impacto da qualidade de seu texto e da integridade moral do autor os fazem personagem e obra ímpares num país desabituado à coerência e à nobreza.

E a crítica literária ratifica o parecer de seu editor:

Sem deixar-se seduzir pelos modismos artísticos, sua poesia é autêntica. É, como já disse, dotada de verdade e de beleza. E, sendo assim, gostaria de parafrasear Johannes Pfeiffer, em Introdução à poesia: devido à sua verdade, esta poesia é necessária; devido à sua beleza, é beatificante! HILDEBERTO BARBOSA FILHO

A nova poesia de Cunha Melo traz esse estímulo à inteligência: convida o leitor a deter-se no sentido de cada frase, é um plus de energia significante que “dá a pensar”, para dizê-lo com a fórmula incisiva de Paul Ricoeur. ALFREDO BOSI

Tenho vontade de sair cantando ou dançando, chorando ou mugindo, quando leio Alberto da Cunha Melo. DEONÍSIO DA SILVA

Mas Alberto tem inéditos mais 6 livros: Capoeira das Juremas, Noticiário II, Diário de Campo, Poemas Finais e, os concluídos neste ano de 2006: Ficus Benjamin do Parque Treze de Maio, que traz um belíssimo ensaio fotográfico de Assis Lima, dos troncos dos ficus do parque por onde passa diariamente em direção ao Setor de Obras Raras, da Biblioteca Pública Estadual, onde findará a sua carreira de funcionário público. As trinta fotos desse ensaio, são acompanhadas de trinta poemas. Lucinha Moreira, do Gruponove, garantiu a edição, mas estamos esperando um patrocinador.

Além dele, Alberto está concluindo Crônicas de Além Bar & Outras Prosas. Implorei ao poeta para liberar unzinha só, mas ele foi taxativo:

Não! Esse inédito eu vou mandar para A Girafa e ainda não fiz o trabalho final.

E aí, gente, eu fico aqui com a beleza espetacular dessa obra inédita nas minhas mãos, doidinha para que o poeta libere suas asas, e o privilégio de 27 anos de convivência com um dos maiores poetas da Língua Portuguesa de todos os tempos. A Girafa deu sinal verde para aprontar o POESIA REUNIDA do poeta, sugestão de Izacyl Guimarães Ferreira, da UBE/SP, acatada por Nêumanne. Eu e a Isabel Moliterno estamos a todo vapor compilando o exemplar. Quem sabe o sonho logo logo se realize e a beleza e a poesia de Alberto, completa, inteira, chegue aos leitores de sua obra?

NOTÍCIA DO AGORA

O CORDEL DO FOGO ENCANTADO SE ENCANTA COM O "CANTO DOS EMIGRANTES"

O Cordel do Fogo Encantado assinou contrato de cessão de direitos autorais com Alberto. No próximo CD, que será lançado no final deste mês, será inserido o poema "Canto dos Emigrantes", que está editado no Plataforma para a Poesia, lido por José Nêumanne Pinto que o havia incluído na antologia, Os cem melhores poetas brasileiros do século XX. São Paulo: Geração Editorial, 2001a, p. 195-196. O Cordel do Fogo Encantado fará uma tournée pela Europa, antes de lançar o novo CD no Brasil. Sobre esse fato, o poeta declara:

Já havia assistido a dois espetáculos desse grupo excepcional e, como me orgulha esse fruto incandescente de minha terra, orgulha-me ter um texto no seu repertório.

SOCIOLOGIA E POESIA

A sociologia e a metafísica percorrem todo o corpo da minha poesia.

Essa declaração de Alberto, poucos sabem, vem de sua experiência aplicada nas Ciências Sociais. 11 anos de pesquisa na Fundação Joaquim Nabuco e mais um na Comissão Estadual de Planejamento Agrícola - CEPA, no Acre. Nos anos idos da década de 60 e 70, o poeta embrenhou-se nos sertões e na mata fechada. Essa aventura percorre toda a sua poesia, mas se encontra mais explícita no seu livro inédito Diário de Campo. Estivemos juntos no Acre, que acre! e eu tinha pavor dos insetos que proliferavam na capital Rio Branco, em face do desmatamento e do conseqüente desequilíbrio ecológico. Perguntei ao poeta: "Como é que você suporta tanto inseto, dentro da mata?" ao que ele respondeu:

"Eu só sinto mordida de cachorro pra lá"

É só uma brincadeirinha para introduzir vocês numa das mais belas definições sociológicas de poesia, feita por esse cientista e poeta. Ele costuma repetir que a Poesia é uma Instituição Social e aqui esclarece:

Se definirmos a instituição social como uma prática humana permanente, visando a satisfazer alguma necessidade coletiva, considero a Poesia que, como Arte, preenche a necessidade de beleza do ser humano, onipresente há milênios no mundo, tanto em povos arcaicos, antigos ou modernos, como uma instituição social básica, assim como o são: a família, a religião, a agricultura etc.

Se você quiser ler o poema Cancioneiro para o Terceiro Mundo, fundado na mais autêntica ciência social, clique aqui!

Sobre esse poema, editado e levado para o mailing Plataforma para a Poesia (19.03.2006), Artur da Távola aferiu:

Poema de alto teor social, literário e expressivo. Impressionou-me profundamente pela precisão das metáforas e conceitos. E sou franco no dizer que considero como prosa literária os poemas discursivos, o que em nada lhes diminui a qualidade. Para mim, poesia é música. Pois este a possui em grandes doses. É sinfônico.Grato pelo envio. Fraternalmente. Artur da Távola.

ALBERTO DA CUNHA MELO
E OS POETAS INDEPENDENTES

Com essa visão social da poesia, Alberto sempre esteve aberto aos que surgiam, basta lembrar suas páginas, do Jornal do Commércio, do qual foi editor, de 1971 a 1975, juntamente com Audálio Alves, de dezembro de 1982 até 1985, com o Commercio Cultural. O depoimento de Mário Hélio, "Equipe de colaboradores de fazer inveja", para o "Especial 80 anos", do próprio JC, é esclarecedor. Vale a pena conferir. Clique aqui!

É bom lembrar a linha editorial das Edições Pirata (1979/1981), da qual foi co-fundador, cuja práxis de publicações provavam a coerência entre a teoria e a prática do parecer do poeta.

Pedi a ele que falasse um pouco do relacionamento que teve desde o surgimento dos Poetas Independentes. Respondeu-me:

Tive, não, tenho um relacionamento gratificante com uma boa parte dos Poetas Independentes de Pernambuco. Escrevem como São Francisco de Assis e não como o chato São Tomaz de Aquino.

UM ROTEIRO PARA OS QUE COMEÇAM

Há pouco o Hildeberto Barbosa Filho publicou um artigo que circulou bonito na WEB: "Odeio poesia!". Polêmico, esclarecedor, parece bater de frente com a visão social da poesia que tem Alberto. Será? Bem, perguntei ao poeta se ele concordava ou não com os fundamentos que apresentava o grande crítico paraibano. Lá vai a resposta:

O excelente poeta e grande crítico Hildeberto Barbosa Filho pertence a uma dinastia cujos últimos descendentes é difícil encontrar. A dinastia aristotélica que deu um Agripino Grieco, por exemplo. Para esta privilegiada elite, a natureza da obra de arte é autotélica, não está além de si mesma, como queria Platão. Para o artista - e o poeta é o artista da palavra - sua matéria-prima é o verbo e o conteúdo é uma massa amorfa que se submete aos objetivos estéticos do poema. O crítico é aquele que separa aquilo que é do que não é poema. Hildeberto, à medida que separa o joio do trigo, mostra, ao mesmo tempo, o caminho para se chegar lá, onde geralmente só chega quem já é. Seu texto é um dos mais lúcidos e corajosos que já li, nestes tempos de brasileiros frouxos.

Quanto à mim, prevalece uma visão sociológica para compreender essa " penca de poetas" (expressão do meu pai, Benedito Cunha Melo) que nos aterroriza. É através dessa vontade coletiva de ser poeta que o valor da Poesia se impõe, poesia, enquanto aspiração para aqueles que nunca chegarão lá, é o mundo, como costumo afirmar, da sintonia fina da linguagem, a tecnologia de ponta da palavra.

O POETA E A WEB

Quem chegar ao setor de Obras Raras da Biblioteca Pública Estadual, verá sobre a mesa de Alberto uma máquina Remington com vários selos com o neologismo: "INTERNETA". Vamos esclarecer esse "fenômeno" com a resposta do poeta sobre a importância da WEB para a poesia.

Eu ainda estou tecnologicamente inserido no século XIX. . Meus poemas são manuscritos e depois transfiro-os para minha máquina de escrever que é manual ("pé duro"), nem elétrica é. Cláudia é que cuida de toda a minha correspondência. Eu não sei digitar um "o", e acredito que a internet é uma maravilha do outro mundo. Algo mal-assombrado. Mas não deixo de reconhecer que, para a difusão do texto poético, ela é insubstituível, a menos que, daqui a quinhentos milhões de anos, venha tudo a ser realizado pelo pensamento.

Quando eu quero aferir a correspondência de Alberto, geralmente "escaneio" o texto manuscrito dele e envio para o destinatário. Quem não se lembrar, acesse o convite de lançamento que ele pediu fazer especialmente para os Escritores Independentes. Clique aqui!

UM PING-PONG

Alberto quais as suas referência literárias:

Na poesia?

João Cabral de Melo Neto

Na prosa?

Franz Kafka

Na filosofia?

Aristóteles

Na sociologia?

Ralf Dahrendorf

No jornalismo?

David Nasser

Missão cumprida, gente. Muito obrigada pela oportunidade, Cida!

Vida longa para o INTERPOÉTICA!

Deixo aqui o convite para visitarem as novas páginas do poeta:

www.albertocmelo.com

A seguir transcrevo um poema, de Alberto da Cunha Melo, claro, embrulhado com um carinho imenso por todos vocês. Selecionei-o à pertinência desta entrevista. Abraço imenso.

Cláudia Cordeiro

www.plataforma.paraapoesia.nom.br

 

UM CARTÃO DE VISITA

Moro tão longe, que as serpentes
morrem no meio do caminho.
Moro bem longe: quem me alcança
para sempre me alcançará.

Não há estradas coletivas
com seus vetores, suas setas
indicando o lugar perdido
onde meu sonho se instalou.

Há tão somente o mesmo túnel
de brasas que antes percorri,
e que à medida que avançava
foi-se fechando atrás de mim.

É preciso ser companheiro
do Tempo e mergulhar na Terra,
e segurar a minha mão
e não ter medo de perder.

Nada será fácil: as escadas
não serão o fim da viagem:
mas darão o duro direito
de, subindo-as, permanecermos.

(agosto de 2006)

Foto: Cláudia Cordeiro

 

 

 

 

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