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Janeiro: A menor concha do mundo

por Geórgia Alves

 

Não que procurasse por tal, mas à menina moça, naquela praia de água fina, ocorreu numa tarde encontrar uma conchinha minúscula. Se fosse para ser contada em dias, ela duraria paneas um instante. Feliz e raro.

De uma notoriedade que não ansiava, ela era! E fosse na escola ou no curso de francês ela era lembrada pelos colegas por sua solidariedade e até caçulice. Precoce, ela durava. Uma vez, um amigo mais próximo levou dez anos para livrar-se de imagem dela em seus sonhos...

Então, o que mais buscava a menina tão moça ainda? O que sei dizer de maneira simples e reta é que a menina fazia por onde realizar metas e planos. E, naturalmente, tinha seus sonhos!

Talvez, uma de suas características mais próprias fosse o êxito com pouco esforço aparente. Sem empenho árduo visível. Porque como capturava instantes em seu imediato momento ficava com aquilo e não abandonava mais. É o que se pode dizer, alguém preciso. Ela é matemática. Pura lógica. Sim, prática. E faz sempre sentido.

Ali, com ajuda diânica e materna, bem terna, foi ali, naquela tarde que parecia ser só de descanso, que à menina moça aconteceu enxergar em meio ao cascalho na areia, a menor concha do mundo. Com a imediata impressão de coisa rara passou a se ocupar de achar uma palavra que naquela minúscula criatura coubesse.

O que afinal descobriu e foi com o passar dos anos é que são duas ou três palavras que cabem naquele universo. Palavras que só se escreve em maiúscula.

Fevereiro: Na ponta do Arco-íris. Fervo.

Preto

Desejo de gueto
Eu no espeto
Caso amanhã
De preto...

Roxo

Rosto no encontro
Do carro, pálido...
Você tira sarro.
Ficou rôxo?  
Eu presa
No intervalo.

Lilás

Será que você
É mesmo capaz?
Dê-me apenas uma
Flor, que seja lilás
Assim, a mentira
se desfaz.

Azul

Senhora Azul:
Posso esconder
o meu pranto
em teu manto?
Juro, logo após
abro os olhos
Pra ver com
Encanto

Vermelho

Teu medo e o meu
Vestido vermelho
Não combinam.
Mira só no espelho
Eu te vejo inteiro
Você me estilhaça
Depois de virar
Pelo avesso.

Verde

Um dia eu vi
Alguém, decidi
Esse não houvera
Igual a ele antes
A este dediquei
Um dia inteiro
Diamantes

Amarelo

Se amar não é
O nosso elo,
O que será
Mais sincero?
Acho que vi
Um sorriso
Amarelo

Laranja

Antes do céu
Ficar laranja
Junte tudo
O que é seu
Dê adeus e
Vamos ver
Como se
Arranja...

Anil

Acho que vi
Um brilho nutri
Será que fiquei
Senil? Menti?
Meu rosto
Pintei de anil.

Violeta

Vamos brincar?
De borboleta!
Eita, eita!
Olha, como deita!
Deu pra ver?
O quê?
Sua violeta.

Branco

Vi um céu liso
De algodão
Pus a mão
E o coração
disparou.
Teu manto
Virou circo branco.

 

(janeiro de 2010)

georgialves@hotmail.com

 

 

 

 

 

 


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GEÓRGIA ALVES é jornalista e especialista em literatura brasileira

 

 

 

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