Coisas e loisas da literatura – II
Morcego cego, de Gilvan Lemos
- poemas desentranhados -
>> por Pedro Américo de Farias
O escritor argentino Ernesto Sábato, em Diálogos Borges| Sábato, org. por Orlando Baroni, declara:
Os grandes romances, embora não estejam escritos em versos, oferecem sempre grandes momentos poéticos. (...) Toda arte ou alcança a categoria poética ou não é nada mais que crônica jornalística ou naturalista.
Gilvan Lemos escolheu, como epígrafe do seu romance, dois versos de Ezra Pound, extraídos do Canto 2:
E pobre do velho Homero, cego, cego – morcego
Ouvido, ouvido para o marulho, murmúrio de vozes velhas
Tal escolha serve de base ou ratifica o título do seu livro, Morcego cego, ao mesmo tempo em que deixa transparecer um outro signo: a metáfora poética como valor em sua prosa. Prosa nada lírica, mas com seu quê de drama e epopéia. O drama se traduz no registro da miséria brutal em que vive parte dos personagens; a epopéia, na angústia existencial, que toma conta do herói, digo, anti-herói Juliano, Édipo redivivo no cais da lama recifense, nessa ópera-mangue, mergulho profundo de Gilvan Lemos, que não é escritor de opereta de bulevar, mas um sagaz leitor e transfigurador do seu tempo e lugar.
Quem toca neste livro toca num homem, teria dito Walt Whitman. Tomo a expressão para uma leitura de Morcego cego, romance profundo de denúncia do caos e da absurda desigualdade social, sob a ótica de uma consciência política bastante aguda e um excelente domínio das linguagens narrativas e da estrutura formal do enredo.
Flagrei vinte frases–versos, soltas em finais de períodos; versos que arrumei em montagem sequenciada, e que leio a seguir como se fosse um poema, sendo. Batizei-o em homenagem a Zaratustra:
O eterno retorno
O rigor fatalista do destino |
(p.8)
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Os meandros do que foi, os princípios... |
(p.10)
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Nas sobras do seu tempo... |
(p.11)
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De recordações alheias... |
(p.12)
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Das infinitas esperanças... |
(p.15)
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Envolvido nas malhas do umbroso futuro... |
(p.36)
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Aos lucros incertos da aventura projetava-se... |
(p.52)
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Perguntava-se, querente de crer, se se assentaria
num novo estado de vida... |
(p.55)
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Do acaso funesto tirava seu partido... |
(p.80)
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Dos acasos perseguidos se valia... |
(p.82)
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Vivendo da incerteza do que teria de acontecer... |
(p.85)
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As origens aos poucos a ele se delineando... |
(p.159)
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O fado dos fatos revelados... |
(p.163)
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Com pai, sem pai, aguardando os fatos novos dos fados... |
(p.165)
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A trama do infortúnio em medidos passos se compondo... |
(p.185)
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Sua dele entrega final... |
(p.189)
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Bons tempos aqueles... |
(p.199)
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Nei se afastando trôpego e começando daí então a ser velho Nei... |
(p.208)
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Nos legados de Deus Florinda confiava... |
(p.214)
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Revelação de glorioso acontecimento que nunca imaginara
lhe fosse um dia oferecido... |
(p.221)
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Descobri, perto de terminar a leitura, que estas ditas frases–versos, na verdade, são o início (a primeira frase) de cada um dos períodos, que o autor resolveu deslocar para o final. Fiz, então, uma operação deslocamento e colagem a que dei um nome :
O fim e o recomeço
O rigor fatalista do destino ... (p. 8) ... das mariposas, que fascinadas se destroçavam de encontro à lâmpada acesa ... (p. 7)
Os meandros do que foi, os princípios ... (p. 10) ... de sua origem, dos passos que o colocaram e quando naquela casa onde servia e desservia com igual indiferença ...(p. 8)
Nas sobras do seu tempo... (p. 11) ... areava o tacho em que a bêbada se desfazendo fazia os doces que a ele Juliano cabia vender nas paradas de ônibus (p.10)
De recordações alheias ... (p. 12) ... se embebia, enquanto sabiás cantavam nas mangueiras e sanhaçus frustravam-se na busca dos frutos maduros que os moleques da favela na premência de colhê-los ainda verdes aos pássaros se antecipavam ... (p. 11)
Das infinitas esperanças ... (p. 15) ... mais do que das incompreendidas limitações do ter e do não ter renascia para os variados conhecimentos, seguia no tempo sem mais indagações ou planos de antemão traçados ... (p. 12)
Envolvido nas malhas do umbroso futuro ... (p. 36) ... enquanto em derredor nada se modificava que ele Juliano percebesse ... (p. 31)
Aos lucros incertos da aventura projetava-se ... (p. 52) ... porquanto encontrava meios de recompensar-se, a experiência da maldade a que se apegara tornara-se conivente e incentivadora dos revides temerários ao que ele Juliano chamava de Pai Eterno (p. 49)
Perguntava-se, querente de crer, se se assentaria num novo estado de vida ... (p. 55) ... deixando-se um pouco levar por Negobau e por ele levado de acordo com as considerações à presença da mãe dele, a quem Negobau amava acima de tudo ...(p. 52)
Do acaso funesto tirava seu partido ... (p. 80) ... visto que ao chegar ao palacete de contos de fadas sem outra credencial que a sua presença, ignorando como abordar o chefe do clã para oferecer-lhe os préstimos dispensáveis e não requeridos ... (p. 79)
Dos acasos perseguidos se valia ... (p. 82) ... não estranhado pelos serviçais que o confundiam com os convidados ou participantes das pompas funéreas ... (p. 80)
Vivendo da incerteza do que teria de acontecer ... (p. 85) ... de mais a mais sendo encaminhado a qualquer serviço da casa, não se fixando em lugar algum ... (p. 82)
As origens aos poucos a ele se delineando ... (p. 159) ... mas ainda se mostrando dispersas junto ao que as cercava ou antecedia (p. 157)
O fado dos fatos revelados ... (p. 163) ... causando-lhe danos nunca antes imaginados, visto que se julgava imune aos amofinamentos que a outros fossem causados ... (p. 159)
Com pai, sem pai, aguardando os fatos novos dos fados ... (p. 65) ... de modo mais surpreendente perseguidos, posto que de todo não terminavam as desditas dos esclarecidos casos continuados não esclarecidos ... (p. 163)
A trama do infortúnio em medidos passos se compondo ... (p. 185) ... porquanto velho Nei não se calava, sem se dar conta de que o até ali revelado já bastava a ele Juliano ... (p. 181)
Sua dele entrega final ... (p. 189) ... refletida no olhar, já distanciado de si mesmo, do que o cercava, de tudo, velho Nei despossuindo-se ausentando-se ... (p. 187)
Bons tempos aqueles ... (p. 199) ... a ele Juliano fora dito, contudo desde quando começara a ter compreensão dos fatos, poder de analisá-los por si próprio ...(p. 197)
Nei se afastando trôpego e começando daí então a ser velho Nei ... (p. 208) ... enquanto Olímpia higienizada e adormecida jazia em ritmada respiração ... (p. 205)
Nos legados de Deus Florinda confiava ... (p. 214) ... porquanto só em Seu testemunho confiava, com Sua ajuda se a merecesse contava ... (p. 212)
Revelação de glorioso acontecimento que nunca imaginara lhe fosse um dia oferecido... (p. 221) ... visto que ações executadas de amores ele Nei só conhecia através de relatos de terceiros ou castamente narradas nos romances que Noca sua irmã lia à sombra das mangueiras ... (p. 218)
Trata-se, então de uma estrutura narrativa incrivelmente complexa, que nos leva a concluir, usando o verso de Fernando Pessoa, em paráfrase, que Gilvan Lemos, prosador/narrador, é um poeta fingidor, que se esconde sob a face de um sujeito simples, trejeitos de matuto anti-intelectual, detonando petardos de grosso calibre em sua prosa de ficção, a que não faltam um posicionamento filosófico claramente humanista (e posso supor) existencialista, nem engenho e arte na arquitetura do texto, tampouco uma percepção poética da realidade humana, longe do lirismo romântico, muito próximo de uma épica moderna que, como tal, só poderia resultar em tragédia.
Morcego cego não traz heróis nem heroínas, também não é “crônica jornalística ou naturalista”, para usar a expressão de Sábato; não usa o degradado quadro social e seus degredados como pano de fundo de uma história de amor entre Juliano e Olímpia, que apenas retome, transfiguradas dramaticamente, as figuras míticas de Édipo e Jocasta. Estes estão, sim, presentes aí, mas não como numa novela destinada a arrancar lágrimas de leitoras e leitores carentes de emoções doloridas. Sua presença se explica, parte pela trama interessante que a mitologia oferece, porém, sobretudo, pela crônica em torno das complexas estruturas socioeconômicas que engendram as mazelas em que vivemos.
Complexas estruturas, complexas e sofridas relações amorosas e familiares, complexas as imbricações entre o poder, a corrupção e a miséria social. Para tudo, para o todo, volta-se o olhar do romancista, visão de conjunto, capacidade de perceber as nuances e o fio da meada, o cordão umbilical (princípio da vida) e a corda do enforcado (princípio da morte).
Permeando tudo, decompondo o todo, a teia lingüística com que o poeta vai montando o quebra-cabeças, que nos permite ler o quadro e admirar o desenho com suas cores fortes e bem definidas, e arrisco, um quadro expressionista.
Posso garantir: Morcego cego é epopéia–mangue–contemporânea; Gilvan Lemos, poeta épico, muito além das métricas e das rimas.
À parte o labirinto poético que engendra o enredo de que acabei de falar, selecionei fragmentos de poemas surpreendidos aqui e acolá na extensão do texto, e que resolvi chamar, parodiando Neruda, de :
Sete poemas de amor louco e desesperado
01 ... Lá fora a noite destarte sem mariposas / mas carregada de receios e mistérios /
apagava-se na amenidade de ser / apenas noite ...
02... Antônio, sonhador, / fixava a claridade da vidraça, / deglutia o café num gozo silencioso. / Aquele cafezinho, à tarde, / transmitia uma espécie de sonolência, / paz interior, / deixava os olhos da gente saltados, / presos a um ponto não previamente escolhido, / submissos, incapazes de libertar-se / do ponto em que se detiveram ...
03... Mas na tarde do dia seguinte / Reginaldo o procurou, / descalço, em sua bermuda rota, / a barriga rajada de imundícies, / sobraçando uma trouxa / contendo seus pertences: / um calção, uma camisa de malha, / um par de sandálias japonesas / e uma revista do Tio Patinhas ...
04... Juliano não queria mais saber dele. / Reginaldo passara em sua vida / como um cachorrinho enjeitado / que recolhera na rua, / um gato escaldado, / um passarinho da asa quebrada / (como diria velha Noca) ...
05... Manhãs enervantes, / tardes petrificadas, / as noites longas medidas / pelo violino em moto perpétuo / dos mosquitos-muriçocas, / dos que tinham bombeado / as pernas do das inchadas, / inflando-as de malefícios / e chumbo derretido. //
Deixou a noite firmar-se / em sua própria ausência, / perscrutou o silêncio. / Velho Nei dormia no chão puro, / o catre ficara / de hospitalidade ao visitante. A porta do quarto / de velha Noca trancada, / coando-lhe o ressono que seguia / por hábito o compasso da oração. //
Ganhou o labirinto formado pelos casebres, / aspirou o ar sombrio do mundo / interdito às mariposas, / saiu andando. / Raramente cruzava com ser vivente. / Andando. / Baixava a cabeça, / sentia contra o peito / um ronco enlouquecido. / Andando. / Ardiam-lhe as têmporas. / Andando. / Pesavam-lhe nas mãos / os dedos hirtos. / Andando.
06... – Em suas peregrinações, / você vagava à noite, / inevitavelmente terminando-as / diante do casarão. / As grandes árvores / que se sobrepunham ao muro, / o vigia sonolento em seu posto, / a atmosfera abafada, / calorenta... e gelada! / De dentro de você mesmo, / filtrando-se, chocando-se / com o calor externo do corpo, / era o seu frio. / Que o fazia tremer, / bater os dentes, delirar. //
O portão de ferro, / a lâmpada no alto do poste, / as casas adjacentes, / a calçada em ladrilho de pedras, / os depósitos de lixo, / toda a paisagem familiar / do seu cotidiano que, / outrora, você despercebia, / provocando sua impotência, / gozando recolhida, / impartível, / o amargor de sua vontade refreada. //
Em cego revide, / vingança de morcego cego, / você quebrava a pedradas / a lâmpada do poste, / revirava os depósitos de lixo, / batia os pés para assustar os cachorros, / que atraídos pelo barulho se aproximavam. / E a cidadela, bem protegida, / ria melhor, ria distante, / gargalhava, garantida / em sua inexpugnabilidade.
07... – Primeiro na mão, / depois dentro de mim, / este você voluntarioso, / este outro você / que eu igualmente adoro. / O cepo roliço e pétreo, / macio e quente, / de invólucro aveludado e fugidio, / a face severa, / de boca transversa, / a ressumar a seiva / que me enlouquece. //
– Frescura! / Fazer poesia com uma pica.
PEDRO AMÉRICO DE FARIAS é poeta e ensaísta
linguadepoeta@hotmail.com