| FARELO
O poema
tem q ser
sequinho.
MAGRO.
Se possível
nordestino:
desnutrido
e valente.
Deve ser
raquítico
definido:
coureosso
CANDÉISMO
Meu sobremone
agora nome:
candéismo.
Escola
sem vagas
sem logradouro
sem manifesto
ou estardalhaço.
Tendência falada.
Amada
ou odiada.
Desdobrada.
Afoita
feito flato.
Inflamável.
CASA DOS ARTISTAS
Nijinsky lava a louça
Voltaire as enxágua,
Leminski as enxuga
Molière as guarda.
Eça faz o molho
ao fogo leva Bilac,
Tolstoi põe a mesa
ajudado por Balzac.
Clarice está na rede
proseando com Bandeira,
dorme Drummond d'Andrade
ora o padre Vieira.
MULHER COM TALCO
O aroma de teus cachos
está nas prateleiras.
A suavidade de teus pés
está nas prateleiras.
O frescor de tua pele
também está lá!
...
Sinto tua presença
em uma loja de cosméticos.
POLVO
Os cefalópodes são uns grandes pervertidos.
Imagina na tua candura
oito tentáculos vento-buliçosos
cutucando os mais abissais covis?
Ah, esse monstrinho abusado,
não pode contrapor as perguntas,
não fala, só quando quer...
SA-FA-DI-NHO!
Eufemismo é meu forte.
Usa uma fumacinha preta e discreta
quando quer urinar no "recife".
ESQUIZOFRENIFORME
Amigos
nunca existiram.
Obra na privada.
Onde mais?
Delírio
doença
alucinações
Nenhum Jabuti
ou Nobel
pagará
essa dívida
com todos.
Epilepsia
eletro-choque
são prendas poucas
pro poeta sem-deus.
ONDE AS ÁGUIAS SE AVENTURAM...
Se só quem possui a dádiva do vôo
forem os pássaros,
As donas de casa
nefelibatas
e assalariados
deixam já de ser humanos!
Tornam-se pseudo-pássaros,
que mesmo sem plumagem
conseguem
voar
POETA NU NA ALCOVA
Não me privai
único prazer
em vida flagelada
poder dizer rouco
inseguro
que sou poeta.
Bardo mínimo,
taciturno e sem amigos!
O espelho fronte ao leito
reflete um aplauso solitário.
A grafia promulga dor
nas laudas ensaguinadas desse livro
ENGRENAGEM
Poesia
não se entorna
se transforma.
Não se copia
cria-se.
Tem dedos
nos pé
pra caminhar
na linha
sem desequilibrar.
Poesia é máquina
e pulsação. |