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Bruno Candéas
(1980 Campina Grande/Paraíba)

 

 


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FARELO

O poema
tem q ser
sequinho.

MAGRO.

Se possível
nordestino:
desnutrido
e valente.

Deve ser
raquítico
definido:

coureosso

 

CANDÉISMO

Meu sobremone
agora nome:
candéismo.
Escola
sem vagas
sem logradouro
sem manifesto
ou estardalhaço.
Tendência falada.
Amada
ou odiada.
Desdobrada.
Afoita
feito flato.
Inflamável.

 

CASA DOS ARTISTAS

Nijinsky lava a louça
Voltaire as enxágua,
Leminski as enxuga
Molière as guarda.

Eça faz o molho
ao fogo leva Bilac,
Tolstoi põe a mesa
ajudado por Balzac.

Clarice está na rede
proseando com Bandeira,
dorme Drummond d'Andrade
ora o padre Vieira.

 

MULHER COM TALCO

O aroma de teus cachos
está nas prateleiras.

A suavidade de teus pés
está nas prateleiras.

O frescor de tua pele
também está lá!

...

Sinto tua presença
em uma loja de cosméticos.

 

POLVO

Os cefalópodes são uns grandes pervertidos.

Imagina na tua candura
oito tentáculos vento-buliçosos
cutucando os mais abissais covis?

Ah, esse monstrinho abusado,
não pode contrapor as perguntas,
não fala, só quando quer...

SA-FA-DI-NHO!
Eufemismo é meu forte.
Usa uma fumacinha preta e discreta
quando quer urinar no "recife".

 

ESQUIZOFRENIFORME

Amigos
nunca existiram.
Obra na privada.
Onde mais?

Delírio
doença
alucinações

Nenhum Jabuti
ou Nobel
pagará
essa dívida
com todos.

Epilepsia
eletro-choque
são prendas poucas
pro poeta sem-deus.

 

ONDE AS ÁGUIAS SE AVENTURAM...

Se só quem possui a dádiva do vôo
forem os pássaros,

As donas de casa
nefelibatas
e assalariados
deixam já de ser humanos!

Tornam-se pseudo-pássaros,
que mesmo sem plumagem
conseguem

voar

 

POETA NU NA ALCOVA

Não me privai
único prazer
em vida flagelada
poder dizer rouco
inseguro
que sou poeta.

Bardo mínimo,
taciturno e sem amigos!

O espelho fronte ao leito
reflete um aplauso solitário.

A grafia promulga dor
nas laudas ensaguinadas desse livro

 

ENGRENAGEM

Poesia
não se entorna
se transforma.
Não se copia
cria-se.
Tem dedos
nos pé
pra caminhar
na linha
sem desequilibrar.
Poesia é máquina
e pulsação.

 

 

Fonte:
Marginal Recife
Coletânea Poética III
Recife 2004
Prefeitura do Recife - Secretaria de Cultura Cidade do Recife
Organizadores: Cida Pedrosa, Miró e Valmir Jordão

 

INTERPOÉTICA © 2005 Cida Pedrosa & Sennor Ramos