Aos pariceiros dos anos 80
por Valmir Jordão
Eu vi os expoentes da minha geração consumindo muito álcool, na Hospício em busca da loucura, chapando insistentemente no Beco da Fome para recitar na Sete de Setembro contra o auto otarismo e o autoritarismo em voga,
andando pelas ruas da Boa Vista feito zumbis bêbados, ansiando fumar um nos miseráveis apartamentos sem água e sem luz, flutuando sobre os tetos da cidade contemplando junkies que desnudaram seus cérebros ao céu e, viram o CCC com as mãos sujas do sangue do Pe. Henrique,
cansados dos acadêmicos sem brilho, dissecando as almas dos poetas malditos, com toda a mediocridade e arrogância dos que tentam apropriar-se do alheio,
enquanto Gregório de Matos, William Blake e Patativa do Assaré reluzem em outras dimensões, éramos detidos e baculejados pela polícia suspeitos de vagabundagem e subversão,
e vi a juventude mergulhada nas drogas alopáticas, uns dependentes do Algafan, outros no éter e no Pambenyl e mais alguns usando Cocaína ou Fiorinal para encontrar o seu próprio paraíso artificial,
presenciei o bardo Alberto da Cunha Melo a combater o regime de exceção na estrada do excesso, pois todo gênio que se preza, busca a sua garrafa, enquanto boa parte da sua geração camuflava-se na aura da vaidade literária,
Erickson Luna com sua auto-flagelação nas drogas, no alcool e na anorexia das noites insones no Cais de Santa Rita ou em Santo Amaro das Salinas, armado de copo na mão com aparência a esganar o mundo e todo mundo, a dizer que a felicidade é apenas um golpe publicitário,
Espinhara espinhando as relações com o seu jeito espinhoso de ser, Lautreamont, Augusto dos Anjos, Jean Genet e Chico Buarque foi o seu quarteto mais que fantástico, fora de si, tentou afogar-se na lama mas a Buarque de Macedo rejeitou esta atitude, semeava o Lítero e colhia pessimismo com o seu mau humor e machismo digno de um Bukowski e, foi o poeta da flor e do espinho,
o comportamental França nos seus recitais notívagos e sedutores, a atrair burguesas branquelas com a sua fala e o seu falo de ébano, a repetir quem quer querelas?
o deseducador cultural Jomard Muniz de Brito evocando Glauber e o Tropicalismo nordestinado contra a caretice nos meios e nas mansardas recifenses, a quebrar tabus sendo eternamente Pagú e Papangu nos canaviais e carnavais da Mauricéia travada pela burrice, mil vivas ao mau velhinho!
Fred Caminha nas pensões e manicômios, nos Coelhos e no Bairro do Recife ou na Palma em busca de uma puta, uma carreira ou uma bola para rolar na Conde da Boa Vista, Príncipe ou Manoel Borba,
Jorge Lopes tatuando na própia alma seus desejos de sexo, drogas & rock and roll, da Caxangá a Riachuelo na sua batalha diária contra a fome de viver, para não torna-se uma garatuja de si própio,
vi Cida Pedrosa, Lara, Samuca, Miró e os Cavaleiros da Epifania a calvagar na Ilusão de Ética e na resenha Interpoética sempre Amarginal,
Hector Pellizzi, Juhareiz Correya, Fátima Ferreira, Wilson Vieira, Joca de Oliveira e Humberto Felipe ecoando poemas no Savoy, no Calabouço,e na Livro 7 mostrando o quanto a América estava indignada,
e todos se reergueram no passo libertário do Frevo e na síncope do Maracatu e na batida literalmente do Côco, provaram o vinho avinagrado dos tempos difíceis, mas mesmo assim deixando o que houve para ser dito no tempo após a morte...
VALMIR JORDÃO é poeta.