A correspondência da
Condessa de Barral
> por Ricardo Japiassu Simões
No seu ensaio sobre epistolografia, intitulado Correspondências: a Condessa de Barral e o Imperador Dom Pedro II, Nádia Battella Gotlib pergunta: “O que levaria uma mulher com seus 53 anos de idade a escrever a um ‘amigo’ de muitos anos, relatando-lhe o que lhe acontecia a cada dia, desde quando se levantava até quando se deitava, mantendo, assim, uma correspondência que se estendeu por quase dezesseis anos?”
A doçura deste nobre amigo para com a querida Condessa, ausente da Corte carioca, pode ter sido um dos motivos pelos quais desenvolveram, ambos, certo tipo de expressão literária. De fato, a carta, segundo Jacques Rougeot, é “ambígua, de natureza própria, pois como meio de comunicação substitui as palavras que poderiam ser trocadas pessoalmente pelos interlocutores.” No entanto, no seu estilo escrito bastante espontâneo, pouco elaborado, o autor tenta, pela palavra, expressar os sentimento de calor, fogo, paixão e bonança que o acometia, após cada conversa, por meio das missivas, marcadas pelo mesmo impulso, “projeto ou fantasia do autor”. Da espontaneidade, nasce a diferença básica deste gênero literário em relação aos demais: os que escrevem - tanto o que manda a carta quanto o que lhe responde - são pessoas bem conhecidas uma da outra.
Esta experiência epistolar, que é uma marca diferenciadora e rica no domínio da literatura, teria início quando a Condessa de Barral retornou a Paris, zarpando do Rio de Janeiro a 24 de março de 1865. Porém, o Monarca, por seus deveres hereditários e constitucionais, permaneceu no Brasil. Quase duas décadas após a separação física Barral X Bragança, a epístolas de Dom Pedro II, redigida em Petrópolis a 23 de março de 1881, demonstra doçura saudosa. A correspondência, em tom familiar, impregna este meio de comunicação:
Condessa
Apanhei a flor de manhã. À tarde choveu muito. A noite tornou-se bela e fui aos cavalinhos a pedido do diretor que é um brasileiro que infelizmente não tem ganhado aqui. Estou cansado, porém ainda hei de ler para melhor dormir. Boas noites.
Seu e sempre seu
Este debruçar sensível sobre a natureza - através de várias imagens: flor da manhã, céu em suas nuanças de tempo escuro, em cores de chuva, noite bela no alto da serra - e ainda os detalhes da intimidade: o cansaço, o hábito de ler a percorrer sensivelmente mundos imaginários por meio das letras, nas frases de livros - fazem de Dom Pedro II homem sedutor, aos olhos da Condessa de Barral.
A nobre baiana respondia às cartas do amigo e, por paquete, as enviava ao Brasil obedecendo a sigilo rigoroso, com o intuito de evitar comprovação do que a Corte conhecia: sua relação amorosa com o Imperador. Por garantia maior, o Imperador incinerou toda esta fecunda correspondência, exceto os diários da Condessa, que lia e logo a ela os devolvia. Algumas missivas escaparam da destruição, não se sabe como.
A 6 de dezembro de 1879, o Monarca confessa à baiana Luisa Margarida Portugal de Barros, Condessa de Barral: Quando terei novo prazer de ligar nossas redações à leitura de suas cartas, onde tudo pode confiar-me, pois não me demoro em queimá-las.
No dia seguinte, acrescenta: Cada vez gosto mais do modo que você me escreve, embora nem sempre diga tudo a quem é tão seu, e queima logo suas cartas.
Apesar do sabor picante - “cada vez gosto mais” - provocado pela leitura das cartas, nota-se a formalidade do Imperador em assegurar a queima das epístolas, tal esconder da inquisição dos costumes, os pecados da lascívia? Da luxúria? Do amor? De qualquer forma, eram pecados cometidos entre pessoas casadas e de posição social de elite. No entanto, as centelhas deste fogo que permaneceram conservadas pelos descendentes revelam o passado. Guardando o estilo próprio, porém, ambos tiveram a coragem de não dissimular intenções.
Confirmando esta paixão, as preciosas cartas escaparam às incinerações. E revelam a participação de Manuel Paiva - na qualidade de alcoviteiro-mor, ou Ministro das Relações Amorosas de Dom Pedro II - nos encontros dos nobres amantes. A mesma carta revela, concomitantemente ao escândalo do roubo das jóias, a preocupação da Condessa de Barral em relação ao chamuscado poder imperial brasileiro. Em Roma, ela recebeu a notícia do roubo por telégrafo e iniciou série de cartas em que aborda este assunto, especificamente.
Eis trecho de cartas enviadas pela Condessa de Barral ao Imperador, a 30 de março de 1882:
O jantar foi muito bom mas agitado pela notícias telegráfica de haverem sido roubadas as jóias de S.M. a Imperatriz do Brasil. Nem posso supor que semelhante coisa possa ser possível.
No dia seguinte a Condessa registra:
Estou morta por saber isso o que foi. Talvez descuido no dia 14 de março, não é assim? Já lhe furtaram a sua comenda de brilhantes num dia de gala. Já furtaram oito belos brilhantes dados por V.M. ao Conde d’Eu. Enfim pesca-se bem no paço da cidade. Mas que desaforo, e que negligência na política interior de sua casa? Quem seria o ladrão?
Depois, a Condessa conheceu os fatos por meio dos periódicos cariocas, que curiosamente chegavam a Roma. As informações deixavam-na desfalecida.
Li no jornal que foi o irmão do Pedro Paiva quem roubou os brilhantes e nem sei lhe dizer quanto isso me penalizou. [...] Mas que audácia! Estou morta pelas cartas que me devem contar esse fato. A sua, de 18, só diz que as jóias foram roubados; mas nem então V. sabia por quem, nem me dava o menor detalhe, senão que tinham furado as portas; e eu fiquei na mesma até ler o jornal. Diga como V. soube, conte tudo e agora adeus [...].
Analisando as cartas acima, nota-se como os jornais e os folhetins relatavam o episódio do roubo das jóias da Imperatriz Teresa Cristina. Tesouro roubado dos aposentos do seu consorte, nem ele mesmo conhecia a autoria do crime. Então, é de se imaginar a segurança do Palácio de São Cristóvão, bem como a competência da polícia interna. E, neste episódio, a negligência pareceu proceder do próprio Imperador Pedro II.
Nádia Battella Gotlib afirma que esta correspondência tem “peculiaridades significativas na medida em que são anotações, quase que diárias, dos seus afazeres e que por não objetivarem a construção estética, mas tão só o mero registro de dados, acabam compondo um repertório substancioso referente à história da mulher. Flagrados no seu cotidiano, cercado dos seus objetos, o diário da Condessa traduz um jeito de ser que é de sua época e também particular, seu, nas suas relações afetivas, sociais, econômicas e políticas.”
O diário epistolar prossegue, com outra carta datada de 22 de abril de 1882, redigida pela Condessa:
Recebi os jornais e cartas que contam o achado das jóias. Li tudo com muita atenção e a impressão de nojo que me ficou de tudo nem a sei exprimir a V. M. Longe de mim o pensamento de que V.M. exercesse a menor influência sobre a marcha da polícia e da justiça, mas, soltarem os acusados sobre os quais pesam suspeitas tão graves, pelo mero fato de se terem achado as jóias, é uma flagrante de imoralidade, e eu digo com não sei que jornal que na lama donde se tiraram os brilhantes, se enterrou a justiça.
E acrescenta, ainda, em tom de muita transparência de espírito:
Quem me dera poder conversar disso tudo com meu amigo e Senhor para saber toda a verdade mas essa ventura nunca terei. [...] mas essa ventura nunca terei. Fez muito bem de protestar contra a acusação de ter intervindo na marcha de justiça e de ter fechado as portas do Palácio a esses homens. Compreendo quanto isso lhe havia de magoar por causa do Pedro Paiva, mas estou persuadida que ele mesmo deve compreender que V.M. não podia nem devia proceder de outra maneira. Eu nem me lembro desse Manuel de Paiva felizmente e muito contente fiquei quando vi que o pobre Rafael só tinha sido vítima de sua boa fé, ausentando-se do Paço, onde deveria talvez ter pernoitado se tal era sua obrigação. [...]
Fico ainda inquieta com tudo quanto pode sair dessa triste aventura, e indignada com certo folhetim que promete de continuar bulindo com uma doente digna de toda compaixão! Escreva-me tudo com a maior confiança, pois bem conhece minha discrição, e dela não precisa porque esse negócio é todo do domínio público. Que bobagem essa mascarada do chefe de polícia, essas barbas postiças que não iludem a ninguém, e para que iludir?
Esta foi a última carta sobre o roubo das jóias escrita pela Condessa de Barral que aí encerrou o assunto. No entanto, o leitor atento chega também a outra conclusão. A “pobre doente digna de compaixão” que estava sendo “bulida” por um folhetim é inevitavelmente Emília, personagem de As jóias da Coroa, de Raul Pompéia. Ou seria a própria Condessa, a essa altura doente, conforme atesta nas suas cartas ao amigo? Se é Emília, será que essa pobre moribunda viveu mesmo? Ou era pura personagem de ficção? Não há resposta. Mas a Condessa leu o folhetim e pronunciou-se sobre o assunto. Desta forma, assevera-se o quanto a Condessa de Barral, na Europa, lia os periódicos brasileiros.
Outro ponto relevante diz respeito ao fato de a Condessa de Barral afirmar que já não se lembrava de Manuel Paiva, autor do roubo das jóias da Imperatriz Teresa Cristina. Por fim, até mesmo sobre outros comparsas envolvidos no escândalo, como o chefe de polícia Trigo do Loureiro e o tenente Lírio, a nobre brasileira opinou. Refere-se ao ridículo do uso de fantasias em diligências por parte dos dois responsáveis pela investigação, bem como da impunidade imposta pelo Imperador ao lacaio em aventuras amorosas, diga-se: Manuel Paiva. Como ela própria reconheceu, “esse negócio é todo do domínio público”.
No ano de 1882, a Condessa de Barral é incluída na grande fuzarca do roubo das jóias, ao figurar como personagem do romance A ponte do Catete, de José do Patrocínio. No ano seguinte, 1883, quando o filho Dominique regressou ao Brasil para casar-se, o escândalo foi ainda maior. A Condessa de Barral recebeu do pasquim O Corsário terríveis boas vindas. Foi quando Apulo de Castro, dono do periódico, escreveu e publicou, os célebres versos:
Ao Rei
Onde estão tuas virtudes, ó Monarca?
Onde se acastela o teu saber?
Que títulos de bondade são os teus?
Respondei ou mostrai! Queremos ver!
Não é por certo
Boa moral
Trair a esposa
Com a Barral.
Entretanto, a poesia de Apulo de Castro provocou a fúria do Imperador, pois a honra de sua família precisava ser preservada. Assim sendo, o jornal foi empastelado, e o proprietário fuzilado no meio da rua. Desta forma, a Justiça clamada pela Barral durante a soltura dos ladrões do tesouro imperial a fizera calar-se agora diante de escândalo que, deliberadamente, a envolvia. Tudo isto enquanto o casamento de Dominique acontecia com pompas de príncipe, anunciado inclusive pelo periódico O Globo. Mas com muita pompa e polêmica a Condessa de Barral já estava acostumada.
Ao deixar Paris, por exemplo, onde foi educada e desposou, em 1837, o diplomata francês Eugênio de Barral, Luisa Margarida Portugal de Barros veio acompanhada do marido a Bahia, isto no alvorecer de 1838, onde tornou-se amiga do bispo de Salvador Dom Romualdo Maria de Seixas, Marquês de Santa Cruz, que a defendeu em querela provinciana.
Fora a Condessa de Barral à missa portando chapéu. As mulheres de Salvador presentes ao culto protestaram. Tratava-se de heresia. Em resposta, o Marquês de Santa Cruz, lacônico, opinou tratar-se apenas de um requinte da moda. Passada a querela, as atividades sociais da Condessa de Barral, na Bahia, intensificaram-se, mesmo o casal vivendo retirado, entre os engenhos São João e São Pedro, no Recôncavo Baiano.
Em 1855, durante o flagelo do cólera morbo, a Condessa de Barral escreveu ao ministro da Marinha, o Barão de Cotegipe, pedindo esmolas à Irmandade das Senhoras de Caridade. É quando acontece o primeiro contato com a Imperatriz Teresa Cristina e talvez com a Casa Imperial Brasileira. Segue trecho da carta.
[...]
O pequeno relatório que tenho a honra de enviar a V. Exª., e que lhe peço de ler, (e se for possível) mostrar mesmo a S.M., a Imperatriz, lhe dirá o que fizemos no primeiro ano de Irmandade com tão poucos recursos, e fará ajuizar a V. Exª. o que nós faríamos se tivéssemos o ajutório que tanto ambicionamos! A glória desse Estabelecimento seria toda de V. Exª. por ter tido essa feliz lembrança, e nossa recompensa o bem preencher as vistas de V. Exª. socorrendo tantos infelizes.
Sua Majestade como padroeira de nossa Irmandade deve agora dispor de parte de suas esmolas em benefício de nossas pobres meninas e V. Exª. nos fará um especial favor encarregando-se de ser nosso advogado ao pé dela. [...]. Meu marido envia a V. Exª. afetuosos cumprimentos e eu
Sou de V. Exª.
[...]
Bahia, 1º de outubro de 1855. Viscondessa de Barral
A Condessa de Barral mostrou-se ousada: receber a proteção de Dona Teresa Cristina. Por tratar-se de atitude contra a moléstia que assolava parte do Brasil, certamente o nome da pedinte tornou-se conhecido da Família Imperial.
No entanto, vale salientar que, por suas atitudes caritativas, muitos brasileiros, neste início da segunda metade do século XIX, já reconheciam em Dona Teresa Cristina o vulto incansável da boa mãe da Nação. Noutra carta enviada ao Barão de Cotegipe, esta sem datação, encontra-se a resposta da Condessa de Barral, que colhe os frutos de ousadia junto à Imperatriz.
Exmo. Snr. - Tenho a honra de acusar recepção a V. Ex. da letra de 1 conto de réis que por seu intermédio houve por bem me mandar entregar Sua Majestade a Imperatriz para auxílio às meninas órfãs por causa da epidemia que tanto assolou esta infeliz província. Queira V. Ex. em nome dessas pobres meninas agradecer a S. M. essa esmola, e dizer-lhe de minha parte quanto há de mais bonito por tão generoso e maternal ato. Vou já escolher uma menina mais para entrar na Casa da Providência, e ficar essa especialmente a protegida de S.M.
Extremamente atenta e engajada na luta contra os problemas que a cercavam, a Condessa de Barral chegou à Imperatriz Teresa Cristina, obtendo, em forma de caridade, a cumplicidade feminina. Na verdade, a nobre baiana já era conhecida da família Bragança brasileira, pois tinha sido aia da Princesa Francisca de Joinville, irmã de Dom Pedro II, em Paris. Portanto, sabia dos segredos do Paço de São Cristóvão desde a sua estada na Corte do Louvre. Duas amizades bem entrelaçadas e influentes tinha a Condessa: uma, no Rio de Janeiro, a Imperatriz Teresa Cristina; outra, na França, a Princesa Chica de Joinville. Justo neste momento de encontros, urgia uma preceptora para as princesas Isabel (12 anos) e Leopoldina (10 anos). Foi quando a primeira carta do mordomo Paulo Barbosa chegou ao engenho São João, na Bahia.
A escolha para o cargo de preceptora recaiu sobre a brasileira Luisa Margarida Portugal de Barros, filha do ex-embaixador e poeta Domingos Borges de Barros e de Maria do Carmo Portugal de Barros, nascida em Salvador, a 13 de abril de 1816. A moça, que viveu entre a França e a Bahia, apaixonou-se pelo jovem Eugênio de Barral aos 21 anos e encantada, escreveu que ele tinha “les plus beaux yeux du monde”.
Quanto a Dona Francisca e a Condessa de Barral, a amizade foi marcada pela gratidão e solidariedade. Tanto que, ao decidir regressar ao Recôncavo Baiano, onde o pai, viúvo, encontrava-se doente e bastante idoso, os elos com a amiga Chica mantiveram-se presentes. Em 1848 aquietara-se na Bahia a Condessa de Barral, quando nasceu filho único e temporão, Dominique. Dois anos depois, aconteceu a aproximação com o Imperador por indicação da mana Chica de Joinville, que via na Barral a única brasileira capaz de ocupar-se da formação das princesas.
Depois dos contatos com a Imperatriz em 1855, com o Imperador, e a intermediação da Princesa Chica de Joinville, a Condessa de Barral iniciou negociações com o Paço de São Cristóvão. Em princípio o diálogo com o mordomo Paulo Barbosa, etapa de longa iniciação. A carta de 4 de abril de 1856 é curiosa. Eis reproduzida na íntegra:
Ex. Snr. - Minha curiosidade tão vivamente despertada pelo empenho que V. Exª. tinha em haver uma resposta minha tanto à carta vinda pelo Snr. Aguiar, como por outra sua ao cel. Bezerra, ficou satisfeita ontem, somente, pondo-me na mais cruel perplexidade não sabendo como responder a tão bonitas expressões, a tantas cousas honrosas e lisonjeiras a meu amor próprio.
Confesso-lhe de todo meu coração que foi a cousa mais inesperada possível, e se não fosse a humilde opinião que de mim tenho, me teria tornado de repente a pessoa mais vaidosa do mundo.
Agora diga-me V. Ex. como meu amigo velho, como poderia eu aceitar semelhante cargo! Sou casada com um francês, e só morei na Bahia enquanto ele por sua bondade me permitiu de fazer companhia a meu velho pai nos seus últimos anos de vida; Deus depois de me por velha quis dar-me uma grande consolação mandando-me do céu um anjinho por filho; dele com amor de mãe e cegueira quase de avó, vivo ocupada de dia e de noite; devemos infalivelmente voltar para França, e se não fossem uns negócios atrapalhados do Alexandre Borges (que se quer fazer reconhecer filho do meu pai sem que nesse sentido falasse seu testamento) já estávamos na Europa. Nossas propriedades, nossa fortuna estão na Bahia e na França, como poderíamos de repente largar tudo para começar vida nova no Rio?
Que peso faz V. Ex. cair sobre meu coração dizendo que não aceitando eu esse cargo caber-me-ia parte da responsabilidade dos males que podem vir ao Brasil!... Essa única consideração me faz hesitar se a consciência do meu pequeno mérito não apagasse os fogachos que V. Ex. quis acender. Meu marido, hoje quase brasileiro, se capacitasse da verdade de seu dito não recuaria diante dos grandes sacrifícios, mas entretanto para não incorrer na pecha de precipitada não respondo ainda hoje oficialmente a V. Ex. e para fazê-lo devo-lhe pedir todos os esclarecimentos possíveis para não haver engano.
Qual meu lugar e posição na Corte diariamente e em dias de gala?
Ao que me engajaria eu?
Quem escolheria a Institutrice que em minha ausência deveria acompanhar as Princesas e lhes dar sempre a lição? De quem dependeria essa senhora em tudo e por tudo?
Onde moraria eu? Sendo casada não seria possível morar no Paço.
Explique-me qual é o cerimonial e etiqueta da Corte do Brasil - com quem jantaria eu, e a custa de quem? Qual o meu traitement?
Isto conversando não é nada, por carta é de uma grande dificuldade, mas fazendo-lhe estas perguntas obedeço a minha Princesa, que em carta também recebida ontem me aconselha de saber tudo bem exatamente antes de me decidir.
Se suas cartas não me estivessem causado um dos momentos mais gratos de minha vida, me teriam causado a mais pungente dor, porque creia que estou aflitíssima com a lembrança de que de mim teve S.M. o Imperador, não podendo obedecer-lhe logo como mandava meu dever e meu coração todo brasileiro e cheio de dedicação a minha Pátria e a meu Soberano.
Muitas saudades a minha amiga, e V. Ex. aceite os cumprimentos de Monsieur de Barral.
[...] Viscondessa de Barral.
Os recursos do seu estilo narrativo são comuns ao o gênero espistolográfico e também pessoais: aparentemente simples, o estilo é também profundo, pois, ao mesmo tempo em que a autora é objetiva, é intensa ao expor, sem medo, convicções e sentimentos.
Após o sucesso das negociações com o Paço de São Cristóvão, a 31 de agosto de 1856, a bordo do vapor Recife, a família Barral - Conde, Condessa e Dominique - atraca no Rio de Janeiro, mais precisamente no Cais Pharoux. Continua a relação de amizade com o mordomo Paulo Barbosa.
E começa nova relação: da Condessa com a Família Imperial. Vivendo oito anos acompanhada do marido, quando e como teria acontecido o encontro que feriu de paixão a ela e ao Imperador?
É necessário considerar estas questões. Primeiro, a Condessa de Barral, em tom franco e íntimo, escreveu ao mordomo Paulo Barbosa chamando-o de “meu amigo velho”, tom que aponta à cumplicidade, tal houvesse amizade cristalizada entre ambos. Enquanto hesita, sem ainda aceitar o convite, mas vibrante, a Condessa cita a lembrança do Imperador, a quem deve “obediência pátria.” Por fim, confessa, cheia de entusiasmo, ter “meu coração todo brasileiro e cheio de dedicação”. Reata ainda os laços com a Princesa Chica de Joinville, que a instruiu sobre a melhor forma de barganhar junto ao Paço de São Cristóvão.
Ausente de grande beleza, porém plena de charme e presença de espírito, a Condessa de Barral assume, imediatamente, seu posto e, rápido, constrói relação de amizade e admiração com o Imperador, a qual será lembrada anos depois. Por exemplo, Dom Pedro II, na sua maturidade - embora nove anos mais jovem que a Condessa (nasceu a 2 de dezembro de 1825 no Rio de Janeiro) - escreveu no seu Diário Epistolar, a 9 de janeiro de 1883:
Condessa
9 - As duchas fazem-me muito bem; mas porque não hei de ver alguém no Chalet Miranda. [...]
Os encontros amorosos ocorridos no Chalet Miranda constituíam momento de privacidade. No seu Diário epistolar, anteriormente a 21 de março de 1881, portanto estando a Condessa na França, dois anos antes do verão de 1883, data esta da carta acima citada, o Imperador refere-se outra vez mais ao chalé. A intensidade do que fora vivido ainda pulsava. Trata-se do gênero epistolar construindo história com caracteres particulares. Através das cartas, os personagens vivem, escrevem, reagem e recebem algum tipo de resposta. Neste caso, a lembrança do passado é revivida. Eis o trecho da carta do Imperador:
Conte sempre com a minha antiga discrição - eu e Você fizemos um só ente, por nossa afeição. Diga-me tudo, e tudo. Felizmente tenho boa vista e o meu antigo vigor para gozar de nossa amizade. Depois de saborear suas cartas, queimo-as bem. Ainda vou reler as de hoje e imaginar que estamos no Chalet Miranda, estudando os mapas.
Nestas poucas linhas, o Imperador revelou fogo viril, por meio da vontade de gozar o amor com a amiga amada. Como ele mesmo disse, repetindo alegrias no Chalet Miranda. Curiosamente, um viajante alemão partidário do Império, Carlos von Koseritz, no livro Imagens do Brasil, publicado em 1883, revelou detalhes sobre os encontros habituais da Barral com Dom Pedro no Hotel Orléans, em Petrópolis. E se a visita do alemão ao Brasil coincidiu com a da Condessa, pode-se concluir que os encontros no Chalet Miranda foram substituídos pelos do Hotel Orléans. Na verdade, a imagem deste relacionamento era de domínio público.
Esta intimidade desvelada envolvia a própria Imperatriz Teresa Cristina. Inteligente, posicionou-se perante a rival. O casal Imperial, que em 1859 encontrava-se em visita ao Nordeste, confiou as duas filhas aos cuidados da preceptora, que tinha ordem do Imperador para a ninguém mais prestar contas do trabalho de educadora. Suas Majestades, vale informar, buscaram por 13 anos uma preceptora de extrema confiança. Foram treze anos de preocupações e angústias, até receberem, em 1856, a nobre baiana. Desta forma, a Condessa permanece por 9 anos no Paço, respeitando e reconhecendo a posição superior da siciliana Imperatriz do Brasil.
A Condessa incutia segurança nos Monarcas. Tanto que, durante a estada destes no Nordeste, a Condessa envia-lhes de Petrópolis um bilhetinho do qual recorto apenas uma frase, informando-os que, por causa das pestes que assolavam a Corte, havia optado pelo ambiente saudável da serra e refere-se com carinho à Princesa Leopoldina:
6 de novembro de 1859.
Leopoldina: ela está mais gordinha, com linda cor,[ ...]
Anos decorridos, as Princesas encontravam-se preparadas para o casamento: Isabel escolheu o Conde d’Eu (Gaston d’Orléans), enquanto Leopoldina, Augusto de Saxe, Duque de Saxe-Coburgo. Matrimônios celebrados em 1864, o Conde de Barral retornou a França e a Condessa optou por acompanhar o esposo e conceder melhor educação ao filho Dominique, embarcando, ela e o filho, para a Europa, a 24 de março de 1865.
Na França, a Condessa de Barral guardou em cofre as correspondências trocadas com o Imperador, subdivididas em três tomos. O primeiro, “Carta de S. M. o Imperador do Brasil desde a minha partida do Brasil a 24 de março de 1865 a 23 de maio de 1868”. O segundo tomo, grafado em francês, aponta o período da correspondência: “Lettres de S. M. l’Empreur(sic) du Brésil à la Contesse(sic) de Barral du 12 janvier 1876 au 19 Avril 1877”. Por fim, o terceiro tomo aponta outro período de revelações do Imperador: “Carta de S. M. o Imperador Dom Pedro II a Condessa de Barral de 15 de julho de 1879 a 26 de março de 1881”. São 256 missivas, que foram guardadas no Castelo de Barral e posteriormente doadas ao Museu Imperial pelo Conde de Barral e Marquês de Montferrat.
Porém, nem tudo que Luisa Margarida Portugal de Barros enviou ao Brasil, foi incinerado. Uma carta sobre a Princesa Leopoldina chama atenção pelo sofrimento e angústia, quando na civilizada Corte de Viena, a Princesa Leopoldina contraiu febre tifóide e faleceu. A Condessa de Barral lembrou-se de quando a retirou do Rio de Janeiro para Petrópolis, certa de evitar a mesma tragédia. A Condessa não apontou na epístola o ano do episódio. Escreveu inconsciente de que fornecia ao futuro crônica daqueles acontecimentos historicamente relevantes.
12 de fevereiro - Acabo de receber a notícia fatal e com o coração partido da mais pungente dor me atiro nos braços da Imperatriz e aos pés de V.M.I. para chorar com ambos Nossa querida Filha pois só se eu perdesse meu filho poderia sentir maior pesar. Nem peço desculpa, tudo é pouco para experimentar o que sinto dentro do coração! Eu que lhes dei a notícia das melhoras! Verdade é que o telegrama há três dias diziam que ela tinha piorado no dia 1º mas a 2 ia melhor!
Oh! Custa muito curvar a cabeça diante de decreto que parece tão injusto. Uma menina e mãe de quatro filhinhos! É horrível - a notícia caiu sobre mim como um raio e da maneira a mais cruel. Mando o documento a V.V. M. M. que cuida terão dó de sua pobre criada que banhada em lágrimas lhes beija a mão.
Condessa de Barral
É facilmente perceptível o quanto a Condessa de Barral conduziu o fluxo de informações entre as Princesas e a Família Imperial, tanto que ela própria - e não há registros de missiva do viúvo Saxe-Coburgo - anunciou o desfecho da doença aos pais da vítima. A Condessa deseja abraçar a Imperatriz, como que cobrindo-se de negro - todos de nojo - e esquecendo as rivalidades femininas. Manifesta seu sofrimento ao casal, consciente do zelo que guardavam pelas duas únicas filhas.
Mas, afora este momento, nem tudo é dor na Casa Imperial do Brasil, na relação mãe e preceptora das Princesas: Dona Teresa Cristina soube responder com delicadeza ao que a Família exigia dela, enquanto se impunha sobre a Barral. Tanto assim que, quando a Princesa Isabel engravida de um dos três principezinhos, a Imperatriz antecipa-se, atenta à figura de avó, comandando as compras do enxoval. Trata-se de uma longa epístola, em que se nota educação e espírito, em folha alinhada, contendo na parte superior lindo brasão azul da Consorte Imperial e margem negra.
São Cristóvão, 20 de maio de 1874.
[...]
Tendo chegado em Petrópolis no dia 16 logo comecei a ocupar-me da lejette para o meu futuro neto, mas não achei nada que me agradasse e não seria bonito como feito em França, por isso devo pedir a Condessa que mande completar os objetos que faltam ao que minha filha já mandou fazer e que com prazer deverei pagar, e a Condessa me mandará dizer o que custa. Perdoe-me tanta atrapalhação e trabalho que lhe dou mas conto com a sua amizade. [...]
Aqui as saúdes vão boas o tempo fresco de modo que não tenho saudades de Petrópolis.
Hoje vamos ao baile do cassino e o primeiro deste ano.
[...]
Adeus querida amiga Condessa. Saudades a Dominique e crê na sempre
[...]
Teresa.
É como se a Imperatriz dissesse a Condessa: a filha é minha, eu cuido dos meus netos, dos meus afazeres domésticos e você, amiga, deve cumprir tarefas na condição de funcionária remunerada. As alfinetadas de Dona Teresa Cristina não param por aí. Foi ainda mais dura com a querida amiga ao ferroar a intimidade da nobre baiana com seu Consorte. Ousada, embora ferida no seu pendor feminino, já um tanto envelhecida, em bilhetinho escrito no Paço de São Cristóvão, a 19 de setembro de 1874 - também pertencente ao acervo do Dr. José Mindlin - a Imperatriz afirma:
Cara Condessa
Não tenho ainda deixado de tomar todas as manhãs os banhos de mar também o Imperador.
De outra feita, muitos anos depois, estas pitadas maliciosas por parte da Imperatriz ressurgem nas correspondências. Em 30 de setembro de 1882, oito anos após o bilhetinho anteriormente citado, a Consorte Imperial torna a insistir na sua condição de esposa, sempre ao lado do Imperador:
[...]
Agora todos vamos em saúde. O Imperador muito ocupado com o cometa que se vê todas as manhãs de 4h até 5h. Eu vi só uma vez estava magnífico a transparência e a sacada e muitos dizem que é o imenso cometa de 1812.
Por último, vale um pequeno recorte da missiva redigida a 13 de setembro de 1874, emitida do Rio de Janeiro, onde Dona Teresa Cristina teve a coragem de revelar, por completo, sem hipocrisias, seu conhecimento sobre a troca de correspondência entre o Imperador e a Condessa: “[...] Ontem foi o encerramento das Câmaras não lhe mando a folha do [Frans] porque o Imperador a mandará”.
Mas nenhum destes pronunciamentos chegou a afetar a amizade entre os amantes, amizade que se mantém amorosa. As palavras da Imperatriz não ecoaram no espírito da Condessa de Barral, pois ela manteve e ouviu as juras de amor do Imperador. Vale ressaltar que, mesmo envelhecido, mais parecia homem em fogo ardente, eternamente imerso em danação. A 2 de dezembro de 1879, em galanteios, a Condessa de Barral encontrou grafado no Diário epistolar do amigo: “Meus sentimentos são ardentes e, por isso, não por hipocrisia propriamente dita, mas por decência, sou obrigado a encobri-los muitas vezes. Quanto sofro por isso em meus gozos, em que aliás têm grande parte o espírito e o coração”.
Interessante neste material transcrito é observar a quase falta de censura dos missivistas, em se tratando de casal do final do século XIX, o que leva o leitor a participar, por meio das cartas, da intimidade, quando desnudam as aventuras que viveram no Chalet Miranda. Estava provada a liberdade do Imperador em colocar-se livremente, ou seja, em desnudar-se diante do desejo, ao qual a Condessa de Barral correspondia.
Por exemplo, em epístola datada de julho de 1881, a Condessa de Barral esbravejou de ciúmes, o que deve ter deleitado o Imperador. Cinicamente, ele enviou carta à outra amante, por meio da nobre baiana. Furiosa, a Barral deu parte ao amante: “Eu mandei sua carta a Mme. Ristori. Fiquei sabendo que ela mora 48, Boulevard Malesherbes. Se não quiser que eu saiba de sua correspondência, que d’ailleurs eu acho muito natural [...]”. Noutra carta enviada ao Brasil, depois de enfrentar face a face a rival, informou: “Eu fui visitar Mme. de Ristori; que encontrei muito gorda e muito bem disposta”.
Mas as relações amistosas permanecem. Quando o Imperador presenteou a Condessa com um retrato dele, apreciado pela Condessa em Londres quando lá estiveram juntos, ela lhe envia agradecimentos, grafados em epístola sem data.
Meu senhor,
Acabo de ter um dos maiores gostos de minha vida, recebendo o retrato de Vossa M. feito a meu pedido por Wemberhalter em Carshue e que não pode ser mais semelhante. O pobre pintor quase cego escreveu-me que será (sic) seus últimos trabalhos o que vem ainda aumentar o valor artístico ao apreço do presente que V. M. se dignou a fazer a esta sua velha criada que tantas vezes teve a ousadia de se chamar Sua Velha amiga.
Todos os que têm visto o retrato tem gostado muito da semelhança e para minha glória todos acham o presente bem cabido porque sabem quanto é grande minha gratidão e minha dedicação.
[...]
[...] Agora sei que terei mais visitas das manas e da filha, para virem olhar para o pai e o irmão e muita graça acho nos ciúmes delas que aliás me fazem a honra dizer, que aprovam o presente do Imperador.
[...]
Neste momento, a relação entre os amantes encontrava-se mais que amadurecida. A Princesa Isabel viu o retrato em casa da Condessa, e pareceu, segundo o relato de sua ex-preceptora, aceitar inteiramente o presente. O silêncio anteriormente imposto pelas convenções foi vencido, restavam o respeito e as cumplicidades. Quanta mudança, desde o tempo das primeiras aulas da nobre baiana concedidas às princesazinhas com discrição, escondendo-se depois no Chalet Miranda.
A troca das cartas e dos diários permite o aprofundamento espiritual e intelectual da relação. Do ponto de vista do amor, haverá amadurecimento durante os encontros, nas viagens dele à Europa, dela ao Brasil. Assim, esta chama se mantém viva até a morte da Condessa, a 13 de janeiro de 1891. O Imperador encontrava-se exilado na França.
Antes do exílio do Imperador, a Condessa provou sua influência sobre a política brasileira. Durante a Guerra do Paraguai, Dom Pedro revelou-lhe situações de confronto. De Caçapava, a 24 de agosto de 1865, antes de atingir o front de batalha, sem esquecer a amiga e mesmo preocupado, escreveu:
[..]
4.000 mil paraguaios do outro lado do Uruguai foram batidos a 17 por Flores que tinha batalhões brasileiros, e conto breve com a notícia de que os 7.000 paraguaios que entraram em Uruguaiana aí serão batidos; porque o Flores tratava de passar o Uruguai e reunir à tropa brasileira.
A Guerra do Paraguai fez emergir, em meio à carnificina, à matança e à peste devastadora, o carinho, a saudade e a memória viva que Dom Pedro carregava da Condessa de Barral. Desta vez, autoridade suprema da única Monarquia latino-americana, colocou-se carinhoso e preocupado com os domínios da amizade, bem como do seu vasto Império. A Condessa de Barral foi ouvinte, sabia o que assolava o Brasil.
Anos depois, tornou-se coadjuvante nas decisões políticas. Seguem dois exemplos. O primeiro, encontra-se sem data. Porém, o conteúdo é bastante rico do ponto de vista de revelar a influência política da Condessa junto ao Conselheiro Junqueira.
Meu Exmº Compadre e Amigo,
Nem V. Exa. pode imaginar o prazer que eu senti sabendo que seu protegido tinha sido o escolhido por meu outro Compadre o Conselheiro Paranaguá e que assim tinha sido feita a sua vontade embora o lugar fosse repartido. Mas são tantos os pretendentes que só assim o governo poderá dar migalhas a cada um.
Eu só tenho realmente um pretendente no Brasil, e esse é meu primo Pedro Portugal. Se algum dia V. Ex. ainda o puder ajudar, me fará um grande obséquio.
E esta audácia política, segundo o historiador Wanderley Pinho, no último ano do Império tornou-se ainda mais evidente. Segundo o autor de Salões e damas do Segundo Reinado,foi a Condessa de Barral, astuta, quem escolheu Carneiro da Rocha para ocupar a vaga do Barão de Cotegipe, no Senado em lugar de Ferreira de Moura. Numa carta depositada no Instituto Histórico e Geográfico da Bahia, ainda segundo Wanderley Pinho, o Conselheiro José Antônio Saraiva comenta o fato com o Conselheiro João Ferreira de Moura.
Não conserve o menor rancor contra o Imperador, e nem mesmo contra a nossa infeliz Princesa, tão explorada pelos criados do Paço. Os empenhos da senhora Condessa de Barral se fossem reais de nada serviriam se a Coroa e o Partido Liberal fossem servidos por ministros dignos de representarem a Nobreza e o Partido Liberal.
Desta forma, percebe-se o quanto a Condessa de Barral, de uma simples preceptora, tornou-se mulher influente e ativa, inclusive nos últimos anos do Império. Ela manifestou-se contra a posição tomada pelo Imperador durante o escândalo do roubo das jóias, recebeu informações sobre a Guerra do Paraguai, compartilhou com a Imperatriz os preparativos para o nascimento dos herdeiros da Coroa e influenciou políticos.
Morreu na França, na casa de campo, na Grande Garenne, após o destronamento da Monarquia brasileira, fato que muito a abalou. Contava 75 anos de idade ao falecer.
No exílio, no final de 1889, impaciente, o Imperador escreveu no volume 40 (página 92) do seu Diário epistolar: “A falta de resposta de amigos de quase 50 anos desespera-me (sic.), também não há duas Barral, etc. Todas mortas e enterradas”. A dor maior viria dois anos depois, quando o Imperador, convalescente, não poderia sequer acompanhar as exéquias da amiga cujas fronteiras do tempo ele próprio delimitou na página 92 do mesmo volume 40: “Quando viajava com a Barral andava tudo muito direito. Nunca conheci inteligência assim, e sempre a mesma durante quase 50 anos. Estou deveras no vácuo. Paciência que é uma grande virtude”.
RICARDO JAPIASSU SIMÕES é jornalista, doutor em Literatura pela USP e, atualmente, desenvolve pesquisa de Pós-Doutorado, na área de Teoria da Literatura, na Universidade Federal de Pernambuco.
ricardo.japiassu@bol.com.br